Alhambra – Alcazaba e Palácios Nasridas


Se começarmos a visita à Alhambra pelo Generalife percorreremos, depois, um trajecto agradável que nos levará até à Alcazaba e aos Palácios Nasridas, o topo da cultura islâmica na Europa. Antes, porém, passamos por partes das muralhas ainda de pé e, em especial, pelo Convento de São Francisco (agora transformado em Parador, o equivalente espanhol das Pousadas de Portugal), pela igreja de Santa María de la Alhambra e pelo Palácio de Carlos V. O convento e a igreja estão hoje no espaço que antes da reconquista ocupava a antiga mesquita da Alhambra e não deixarão grande memória para o futuro do visitante.



Já o Palácio Carlos V é impactante. A sua construção teve início em 1527 e este é um poderoso palácio renascentista. Ou seria um poderoso palácio renascentista não se desse o caso de estar lado a lado com os palácios nasridas (existe mesmo uma ligação interior entre eles) e qualquer pessoa esperar visitar outra arquitectura que não esta. Sim. Não há que recear as palavras – este edifício pode ser belo mas está aqui completamente deslocado. Ainda assim, vale a visita se não ao seu Museu Nacional de Arte Hispano-Muçulmana (o qual reúne objectos achados nas imediações) pelo menos ao seu claustro surpreendentemente circular.


Depois de seguirmos pela Puerta del Vino, junto ao Palácio de Carlos V, teremos acesso à Alcazaba e aos Palácios Nasridas.


Alcazaba é a parte mais antiga do complexo da Alhambra, uma estrutura defensiva cuja construção teve início logo com a instalação da dinastia nasrida na região. Esta viria mais tarde a incluir a mesquita e palácios.


A entrada nos Palácios Nasridas é efectuada pelo Palácio Mexuar, depois de passarmos pelo pátio Machuca. O Mexuar é uma espécie de antecâmara do que virá depois. Esta era a sala do conselho dos muçulmanos e cenário de festas. A sala que é hoje a entrada para a antiga residência dos sultões seduz pelas suas quatro colunas em mármore que sustentam a abóbada revestida em estuque e o tecto forrado a madeira. 


Os pormenores murais com mosaicos com decoração geométrica têm desde logo aqui o início da sua presença que se revelará constante ao longo da visita pelos demais espaços dos palácios. Tal como o uso da caligrafia como decoração.




Segue-se o Cuarto Dorado – espaço mínimo, intimista, feito de um pátio com uma fonte, três degraus que preparam a chegada a uma parede imensamente bela, toda coberta por filigranas de estuque dourado, cinco deliciosas janelas que se abrem altaneiras, duas portas cujos caixilhos são envolvidos por azulejos e mosaicos na banda inferior. Não poderia haver lugar mais intenso, pleno de encantamento, para preparar a entrada no complexo dos palácios.




Ainda não refeitas de tanta delicadeza – na Alhambra nunca o estaremos – entramos no Patio de los Arrayanes (parte daquele que é conhecido como Palácio de Comares, residência oficial do sultão). O nome deve-se aos arbustos de murta podados que acompanham as laterais da piscina rectangular. É impossível não nos deliciarmos com os reflexos dos pavilhões que brincam na água da piscina. Aliás, a água aqui desempenha uma outra função para além das já focadas, igualmente elevada, a de reflexo, o qual significa a impermanência das coisas materiais – por isso há quem diga que a Alhambra foi feita por e para intelectuais dados a preocupações místicas.

Neste pátio as fachadas laterais possuem janelas e arcos simples e os pavilhões de cada um dos topos colunas de mármore branco que suportam uns arcos elegantes. Há que estar atenta a todos os pormenores, à decoração mourisca em estuque, ao trabalho em filigrana que contorna as portas e janelas, aos mosaicos e às inscrições em cima dos mosaicos. 

O uso do mosaico é uma arte decorativa com origem na arte islâmica vinda do Próximo Oriente e do norte de África e da corte Nasrida acabou por se espalhar para toda a Península Ibérica. O colorido é evidente, luminoso e radiante, sempre com padrões geométricos.

Já a caligrafia árabe, parte da arquitectura e arte islâmica, manifesta-se em inscrições de três tipos: versículos do Corão, ditos tradicionais religiosos e poemas louvando Deus e os construtores da Alhambra. Juntamente com os arabescos florais e os ornamentos geométricos, a caligrafia é graciosa e dá ao conjunto uma extravagante fantasia. Ao mesmo tempo, porém, o movimento rítmico da caligrafia confere-lhe uma harmonia absoluta. 

O recurso a estes elementos abstratos – motivos florais e geométricos – deve-se ao facto de no mundo islâmico ser proibida a representação figurativa. As flores, folhas e trepadeiras e os quadrados, losangos e estrelas, combinados ou entrelaçados, resultam num rendilhado requintado e encantador capaz de nos transportar para uma outra dimensão e despertar em nós uma imaginação que desconhecíamos ser possuidores. Na descrição do Patio de los Arrayanes, por exemplo, Washington Irving deixou discorrer a pena sobre histórias de sultões, vizires, princesas, todos eles seres apaixonados e contemplativos.

Para lá deste Patio, o chamado Palácio dos Comares possui a Sala de los Embajadores. Os arcos esmagam-nos com tanta decoração e perfeição e há ainda que perscrutar o tecto em madeira com embutidos. Já ao nível dos nossos olhos voltamos a observar os detalhes em cima dos mosaicos com inscrições que nos revelam que “Apenas Alá é vencedor”, para além de inscrições poéticas. Esta Sala de los Embajadores funciona ainda como miradouro, com vistas fantásticas do rio Darro e do bairro Albaicin através de janelinhas rendilhadas.

Se o tema da água jogou no pátio, agora aqui jogam os temas da luz e das sombras. Exterior / interior; pátios / miradouros. A interligação entre eles é total, demostrando um uso flexível dos espaços (e não só nesta sala). A decoração intensa nesta sala de paredes altas faz todo o sentido, uma vez que era aqui que se desenrolavam as recepções de estado, havendo que recordar que era a diplomacia e não a guerra o substracto da dinastia Nasrida.

Já aqui usamos quase todos os adjectivos superlativos possíveis e ainda não chegámos ao Patio de los Leones, cujo cartão de visita anuncia ser o topo do topo da arquitectura Nasrida. Poderá ele surpreender-nos ainda mais? 

Sim, surpreende. O seu brilhantismo é ainda maior. A sua perfeição, graça e beleza conjugam-se para nos oferecer o espaço mais harmonioso de toda a Alhambra. A geometria, simetria e sentido de proporção são absolutas. O pátio de forma rectangular é rodeado de colunas e arcos, com duas espécies de pequenos “tronos” de cada lado que mais parecem casinhas de bonecas rendilhadas, enquanto que ao centro fica a fonte sustentada pelos doze leões, cartão postal primeiro da Alhambra. Os leões simbolizam o sol e a vida. Das suas bocas corre a água em direcção aos quatro pontos cardeais. A água a correr, sempre o elemento água presente. Aqui procura-se representar os quatro rios do paraíso através de quatro finos cursos de água, cada um deles correndo para cada um dos lados do pátio. A intenção é a de que este seja um jardim divino. Mais uma vez, a influência dos jardins persas é evidente, nomeadamente pela característica do chahar bagh (o jardim de quatro partes). Houve quem dissesse que o Patio de los Leones seria a versão moura de uma vila rural no meio da cidade; outros há que preferiram compará-lo ao jardim zen. O certo é que este delicado pátio despertará em nós um estado de bucolismo e contemplação que só pode resultar num sentimento intimista absoluto.

Ao redor do Patio de los Leones ficam salas de um luxo imparável. 
Já dissemos que os jardins e os pátios são extensões exteriores dos edifícios e tanta beleza exterior não pode deixar de ser acompanhada por uma igual beleza interior. Assim é, em especial a Sala de los Abencerrajes com a sua imponente cúpula em forma de estrela com pequenas janelas e muqarnas embutidas. A perfeição não tem fim, seja através da solução para que a luz penetre num quarto interior escuro, seja através da estupenda e original decoração.

A Sala de las Dos Hermanas (após contorno da Sala de los Reyes, fechada para restauro na altura da nossa visita) possui igualmente uma cúpula fantástica, mas o fulgurante trabalho artístico parece atingir aqui o pleno na decoração das paredes e na sucessão de janelas e arcos debruçados para o jardim de Lindaraja.

A continuação do percurso faz-nos passar pelo Miradouro de Daraxa, com mais uma vista privilegiada para o Albaicin. As habitações privadas ficavam por aqui e foi por aqui também que Washington Irving se deixou estar a escrever o seu Tales of Alhambra em 1829. Não admira a sua inspiração tal a exaltação dos sentidos que se vive na Alhambra.

A visita aos Palácios Nasridas terminaria com o Palácio do Partal, o mais antigo, mas não passámos por ele. Este é mais um dos postais da cidadela, com a sua majestosa Torre de las Damas à beira da piscina e as montanhas atrás a completar o cenário.
À saída dos Palácios Nasridas os espaços aprazíveis continuam, jardins, fontes, sempre a água a correr solta. 
E, por fim, não é que haja quem queira deixar a Alhambra, mas podemos tomar a Puerta de la Justicia para retornar ao centro de Granada, numa agradável e curta caminhada pelo Bosque de la Alhambra até chegarmos à Plaza Nueva.
A continuación…

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