Mekong, o Rio Humano

A minha mãe dizia-me às vezes que nunca, em toda a minha vida, voltarei a ver rios tão belos como aqueles, tão grandes, tão selvagens, o Mekong e os seus braços que descem para os oceanos, estes territórios de água que vão desaparecer nas cavidades dos oceanos. Na planura a perder de vista, estes rios vão depressa, vertem como se a terra se inclinasse.
“O Amante”, de Marguerite Duras

Não terá sido o mais bonito rio que já vi ou por onde naveguei. Mas que foi certamente o mais humano, vivido, interessante e, enfim, completo rio, disso não tenho dúvidas.
O Mekong é o 11.º maior rio do mundo em termos de comprimento (e o maior do Sudeste Asiático) e nasce nas montanhas do Tibete antes de atravessar 6 países: China, Birmânia, Tailândia, Laos, Cambodja e, por fim, Vietname, onde desagua no Mar do Sul da China.
Em cada um destes países toma um nome diferente e, por vezes, em cada um destes países é reconhecido por vários nomes. Por exemplo, no Vietname é também referido como o “Rio dos Nove Dragões” – isto porque em Phnom Penh, capital do Cambodja, o Mekong divide-se em 2 braços que por sua vez se dividem em mais uns quantos mais abaixo, em Vinh Long, já no Vietname.
Aqui estamos já no Delta do Mekong, outrora pertença dos khmers (antepassados dos cambojanos), hoje território vietnamita. Por aqui abundam as plantações de arroz, entendendo-se bem o porquê desta região ser designada como o “cesto de arroz do Vietname”. Ao contrário do norte do país, que tem apenas duas épocas de colheita anuais, a região sul, onde o Delta do Mekong reina, consegue ter três épocas dessas colheitas. Mas não é só arroz que as suas terras (e águas) oferecem. Coco, frutas, cana-de-açúcar e peixe ajudam os seus cidadãos a sobreviver e, mais do que isso, a exportar estes bens para todo o mundo.
Há que ter em conta que cerca de 50 milhões de pessoas vivem perto das margens do Rio Mekong e dele dependem directa ou indirectamente, sendo a região do Delta uma das zonas mais densamente povoadas. Para além desta sua importância no sul do Vietname, há que registar que cerca de 85% do território do Laos e do Cambodja fazem parte da bacia do Rio Mekong e as suas capitais, Vientiane e Phnom Penh, respectivamente, são por ele atravessadas.
Vista a importância e preponderância do Mekong em cada um destes países do Sudeste Asiático, e não obstante ser um dos maiores rios do mundo, será que Portugal tem alguma coisa que ver com o assunto?
Pelo menos a título de curiosidade histórica terá, sim. O primeiro europeu a chegar perto do Mekong foi um português, António de Faria, em 1540.
Mas, mais curioso ainda, pelo menos no que toca a uma figura do nosso imaginário comum, foi Camões ter andado por aqui. Aliás, não só andou por aqui como se viu aflito por aqui. Diz a história que a caminho de Goa, vindo de Macau, o seu barco naufragou perto do Mekong, na costa cambojana, obrigando o nosso escritor a salvar épica e aventureiramente o manuscrito dos Lusíadas, equilibrando-o na cabeça que esforçadamente tentava (e conseguia) manter à tona da água.

Saindo de Saigão (oficialmente Ho Chi Minh) fomos rumo a Phnom Penh, Cambodja, numa viagem de 3 dias pelo Delta do Mekong.
Primeiro de camioneta até My Tho, onde ficámos a saber pelo nosso guia do momento que o pessoal do Mekong, no qual ele fez questão de frisar que se inclui, tem a sua terra, a qual vai gerindo à sua velocidade, trabalhando quando quer, imperando a pacatez apenas incomodada pelo ritmo frenético das bicicletas (1 por pessoa?). Preguiçosos, em resumo, por que podem. “Têm terra”.
E para além da terra, água é também o que não falta por aqui.
Desde My Tho fomos de barco até Ben Tre, numa curta viagem, onde nos vimos rodeadas da vegetação imensa que vai cercando o Mekong. O ritmo aqui é mesmo lento, apenas quebrado pelas hordas de turistas que invadem estas terras. Enquanto vamos avançando pelos caminhos estreitos de terra batida, utilizados pelas pessoas, bicicletas e motas, somos guiados até supostas cenas turísticas interessantes, como ver as enormes cobras e poder ser fotografadas com elas ao nosso pescoço (socorro!), tomar conhecimento da transformação do coco em “n” outras utilidades, em especial rebuçados (que cheirete!), ouvir um pouco da música das suas gentes (zzz!) ou provar as coloridas frutas da região (enfim, que delícia!).

Mais turístico do que isto só mesmo a navegação pelos estreitos canais, onde por vezes mal se cruzam 2 barquitos. Digo turístico por naquele momento o canal estar ocupado exclusivamente por nós. Mas, na verdade, os canais são de extrema importância para as populações do Mekong pois as insistentes subidas do rio fazem com que as inundações sejam uma constante, pelo que, para além da necessidade de construir as casas em bambu no próprio rio, tenham que utilizar os canais como estradas, deslocando-se neles de barco em muitas situações.
Possibilidade ainda para um passeio (obrigatório) de bicicleta, a mostrar que, sim somos capazes, também podemos andar no meio do trânsito e da confusão. Só nos faltou o chapéu de cone, peça de vestuário obrigatória para 10 entre 10 senhoras.

Pela tardinha seguimos de Vinh Long para a ilha de An Binh, em pleno Delta do Mekong, onde pernoitámos. Um “homestay”, experiência sugerida para se fazer no Vietname, seja no norte nas montanhas de Sapa, seja no sul, como forma de maior proximidade e convívio com os locais. Éramos 2 portuguesas, dois franceses, dois italianos e dois austríacos. Ou seja, os europeus em ameno convívio e a família vietnamita em ameno acolhimento com os seus filhos dedicados à televisão e aos joguinhos da playstation. Tudo muito ocidental. Não quero com isto dizer que a experiência não tenha sido positiva. De todo. A hospitalidade foi enorme, delicadeza no trato, e tivemos direito a uma aula de culinária da qual resultou o nosso jantar.
O pior foi quando chegou a altura de ir dormir. Mas esse pior foi só para mim. Tenho um problema, ainda difícil de ser ultrapassado, com os bichos. Não há repelente, spray, mosquiteiro ou qualquer outro engenho que me afaste do pensamento a possibilidade – para mim bem real – de me entrar um bicharoco qualquer pelos lençóis adentro que se aventure a pousar algures na minha pele. Resultado: a segunda noite da viagem sem dormir foi passada num “homestay” no Delta do Mekong (a primeira havia sido no avião, por motivos diferentes, e a terceira e quarta haveriam de ser num barco e num quarto de hotel, pelos mesmos motivos de bicharada). Que se há-de fazer? Eu tenho toda a boa vontade de ultrapassar esta fobia idiota quando escolho os destinos, mas, depois…

Pela manhã saímos a navegar lenta e placidamente até Cai Be e ao seu mercado flutuante, com a igreja à beira rio dando uma imagem ainda mais pitoresca a toda a cena.
No outro dia, mas já em Chau Doc, onde amanhecemos no barco depois de termos saído de Sa Dec (terra onde a mãe de Margueirte Duras leccionava e onde a família habitava), pudemos também assistir ao mesmo cenário de azáfama das intensas trocas de bens que são feitas de barco para barco, nas águas do Mekong, logo desde o nascer do sol.


O esquema é o seguinte: um barco coloca numa espécie de mastro o bem que se propõe vender, seja fruta, legume, qualquer coisa, e outros barcos dele se aproximam no sentido de fazer negócio. Depois, os compradores voltam para a sua terra abastecidos com os bens para o seu consumo próprio ou para os revenderem.

O cativante no Mekong é a sua vida. Ou melhor, a vida das gentes que habitam nas suas margens. Sem exageros, tudo gira à volta do rio. As casas estão construídas sobre (e sob) o rio, os que não têm casa vivem num barco que vai flutuando no rio, as roupas são lavadas no rio, é também no rio que as pessoas se lavam e fazem as suas necessidades fisiológicas, o comércio é, como o acima descrito, realizado no rio, é do rio que as suas gentes tiram o seu sustento, o rio serve de transporte das pessoas e das mercadorias, e, até, imagine-se, as suas inundações têm algo de positivo uma vez que essa água será utilizada nas colheitas.
Ou seja, e em resumo, o Mekong é vivido em toda a sua plenitude e a economia de uns quantos países que por ele são atravessados depende dele. É, pois, um rio humano
E a paisagem, onde fica a paisagem no meio disto tudo? Talvez algures por aqui:

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