Hanói e Saigão

A história recente do Vietname, já se sabe, tem muitas histórias, com umas quantas a terem passado no cinema para que a nossa e as próximas gerações não se esqueça delas.
Assim, sabíamos já que Saigão havia sido dos franceses, dos americanos e de Graham Greene e Marguerite Duras, e que Hanói havia sido dos chineses e dos Vietcongs.
Hoje, de sul a norte, tudo é Vietname, unidos.

Apesar dos curtos 2 dias e meio dedicados a cada uma das grandes cidades vietnamitas, deu para sentir algumas diferenças. Saigão mais cosmopolita e em voraz construção de novos edifícios rumo aos céus. Hanói mais conservadora e, arrisco, pura e, arrisco novamente, mais próxima da ideia que temos de Ásia.

No Bairro Antigo de Hanói encontramos todo o movimento louco da capital de um dos países do sudeste asiático que mais cresce e mais pujante a nível económico se vem mostrando. São edifícios estreitos, também conhecidos como “casas tubo” (cortesia de uma lei que taxa as construções pelo tamanho da sua fachada principal, daí que esta seja extremamente estreita, deixando as laterais com um comprimento desmesurado), com cerca de 2 ou 3 andares, alguns com ar colonial, com portadas de madeira, quase todos cheios de puxadinhos,


No rés-do-chão de cada um destes edifícios não se encontra outra coisa se não lojas. Nas ruas estreitas à sua porta, mais comércio.

Ou então, banquinhos com os locais lá sentados a conversar, jogar ou comer. Vida de rua. Intensa.


As ruas aqui neste bairro ganham o nome do ofício ou da actividade comercial que aí é explorada. Tudo bem dividido, alguma organização no meio do caos. Aqui fica o mercado Dong Xuan onde caminhamos por entre os vendedores de frutas e legumes variados e coloridos, especiarias, carnes, peixes, rãs e outros “alimentos” que nem suspeitamos o que sejam.
E porquê a caracterização de Hanói como pura? Porque ali tudo é autêntico, vivido, sendo para nós fácil imaginarmo-nos transportados para um outro tempo.


Nas ruas da capital vêem-se as mulheres com os chapéus em cone (desta vez a imagem não é exclusiva dos prospectos turísticos) carregando a sua mercadoria em dois “pratos” de cada lado de um pedaço de madeira. Inesquecível o corrupio delas, inundando as ruas logo às 6:00, provavelmente tentando ganhar posição na corrida pelo negócio.
É inevitável pensarmos no que todos já notaram: no contra-senso que é um regime comunista imposto a cidadãos que são comerciantes natos.

Quanto a Saigão, o seu centro não tem esta vida que a nós ocidentais tanto nos cativa. Tem, ao invés, a elegância da Rua Dong Khoi, a antiga Rua Catinat, com as suas lojas de marcas e hotéis de luxo.


A vista do 23.º andar do Hotel Sheraton é esmagadora, com a nossa vista a alcançar uma imensidão de espaço todo ocupado por construção e mais construção, sendo mais fácil aí entender o porquê de Saigão ter cerca de 6,5 milhões de habitantes.
Já o bar / esplanada do Hotel Rex, ao nível de um 5º andar, com a praça verdejante e as ruas largas ali em baixo bem pertinho ocupadas com o movimento das motas, faz-nos nos viajar e imaginar-nos parte de um filme dos anos 40-60, provavelmente conspirando sobre algum tema.


Em Saigão, o mais parecido com o Bairro Antigo de Hanói é Cholon. O bairro do Amante de Marguerite Duras, que dele disse ser “a capital chinesa da Indochina francesa”. É isso mesmo, o bairro dos chineses no Vietname. Mais uma vez, muita agitação nas ruas, comércio levado ao extremo e, facto não despiciendo, poucos turistas. Ou seja, autenticidade para (poucos) turistas verem. No mercado local, o Binh Tay, uma bem intencionada vendedora de fruta ofereceu-nos uma barata com manga. Isso mesmo, estendeu-nos uma delicada faquinha com um pedaço de manga com uma baratinha acoplada. Num caso destes, como negar a simpática oferta sem passar por estrangeiras mal-agradecidas? Eis algumas das dificuldades da vida de turista.
Outra delas é querer ver o canal de Cholon e penar para o encontrar. Primeiro, porque o canal afinal é estreitíssimo e está praticamente ocupado pelas casas construídas em cima das suas escassas (nesta altura, enquanto não cai chuvada) águas. Depois, porque quando damos de caras com ele é impossível não lhe virar as costas, tal é o cheiro nauseabundo.

Mesmo com toda esta diferença (entre elas e entre as nossas), ou talvez por sua causa, cada uma das duas maiores cidades vietnamitas encanta à sua maneira.
A semelhança entre as duas é a incontornável (e até hoje obsessivamente marcante) barulheira por demais caótica do trânsito nas ruas.

À pergunta da praxe, gostaste mais de Hanói ou de Saigão, a resposta da ordem seria das duas.
Mas talvez não. Neste caso, talvez consiga dizer que gostei mais da primeira, Hanói, a actual capital.
A presença dos lagos em Hanói faz toda a diferença, já que o rio Saigão, em Saigão, não está muito presente na vida da cidade (só para se ter uma ideia, é necessário um ferry boat para se atravessar as suas não tão largas margens). Dito isto, gosto de água numa cidade. É essencial para o seu enquadramento estético e para que a vida popular se desenvolva ao seu redor.


Em Hanói tivemos a sorte de ver parte do pôr do sol no Lago Ho Tay, com o fotogénico pagode Tran Quoc numa das suas margens.


Mais encantador é o Lago Hoan Kiem. Aqui o dia começa sempre cedo, logo ao raiar do sol, por volta das 5:30, com uma multidão a exercitar-se à beira da sua água, caminhando, fazendo tai-chi, meditando, fazendo musculação, jogando badminton ou foot-badminton ou tão somente conversando sentada num banquinho.


A adornar o lago Hoan Kien temos a Torre da Tartaruga e a ponte vermelha que liga ao templo Ngoc Son. Para uma bela e calma vista deste cenário, o café Pho Co é uma boa aposta com a sua esplanada no último andar. Para se lá chegar temos que entrar por uma galeria e seguir casa e pátio adentro, como se estivéssemos a invadir a privacidade de alguém que não nos é conhecido. Tudo normal por estas bandas.
Para além de se caminhar pelas ruas procurando sentir todo este ambiente oriental, em Hanói não se pode deixar de visitar outros locais bem interessantes.


O Mausoléu de Ho Chi Minh e o seu museu mesmo ao lado vêm logo à cabeça – a brutalidade dos edifícios estalinistas em todo o seu esplendor.


Mesmo ao lado do Museu, o encantador Pagode de Um Só Pilar.


Para algo mais delicado, fugindo à barulheira e à confusão, a escolha é o Templo da Literatura, criado em cerca de 1070 e dedicado a Confúcio, logo transformado na primeira universidade do Vietname
Para se entender um pouco da cultura vietnamita, o Museu Etnográfico é uma boa aposta, com uma mostra e caracterização das 54 diferentes etnias que habitam o país, sendo os Viets a maior delas (Aqui tivemos “azar”: manhã de domingo quente, nada melhor do que visitar um museu, certo? Errado, se for o dia da criança e todas elas correrem para o museu e seu jardim para num estado de quase histeria aderirem às várias actividades para elas programadas; Ou, aqui tivemos “sorte”: nada melhor do que nos integrarmos plenamente numa cidade do que viver o seu dia a dia e, neste caso, as suas festas).

No que diz respeito ao património de “influência europeia”, dois bons exemplos são o edifício da estação de comboios (influência russa) e, principalmente, o edifício dos correios (influência francesa) – interessante por fora e por dentro, com um mapa mundo imenso numa das paredes onde nos apercebemos que a Europa pode não ser o centro do mundo quando vemos antes a Ásia colocada nesse lugar.


Também em Saigão o edifício dos correios não pode deixar de ser visto, com as peças delicadas do seu mobiliário a brilharem – bancos e cabines telefónicas. O local onde está implantada, em frente à Catedral de Notre Dame, reflecte uma boa imagem da Saigão antiga e actual – perto da sempre elegante e mítica Rua Dong Khoi e agora junto ao recente e moderno centro comercial Diamond Plaza.

Não muito longe daqui encontramos o Palácio da Reunificação. Edifício muitíssimo interessante de arquitectura moderna da autoria de um arquitecto vietnamita, e com mobiliário cativante, já foi o símbolo do Vietname do Sul, tendo sido por aqui que os tanques dos comunistas do norte começaram por invadir Saigão. Provavelmente foi o que mais me surpreendeu e que gostei de conhecer em Saigão.

Outro ponto imperdível da cidade é o War Remnants Museum. Tem fotografias que chocam pela brutalidade das atrocidades da guerra do Vietname (aqui conhecida como a guerra da América) e suas consequências, tem bombas, armas, tanques. Dizem que é o mais popular entre os turistas. Dificilmente os vietnamitas suportarão recordar estes negros anos, ainda que, diz-nos a história, quase sempre tenham estado em guerra – com os chineses, com os franceses, com os americanos, com os cambojanos do Khmer Rouge.

O mais curioso é que a afabilidade das pessoas não o faz lembrar. O mais normal seria os vietnamitas serem pessoas desconfiadas e relutantes a darem-se perante estranhos. Mas não é isso que acontece. Pelo contrário. Toda a gente nos sorri e os pais incentivam os filhos a dizerem adeus aos fulanos de “olhos esquisitos”. Neste relacionamento, ainda que superficial, não encontramos aqui qualquer ressentimento perante toda a imoralidade por que passaram.

Outro aspecto digno de registo é o facto de a população jovem destas cidades ser bastante ocidentalizada. Talvez seja presunção escrevê-lo assim, pelo que passo a explicar melhor: todos adoram o karaoke, modalidade muito mais oriental, é certo, mas ouvem as mesmas músicas do que nós; não perdem um jogo do campeonato de futebol inglês, seja a que hora for e as mais das vezes é a desoras. Apenas dois exemplos de uma proximidade citadina. Sim, porque quando se sai para o Delta do Mekong tudo é diferente. Uma outra realidade que nos encanta de uma outra maneira e que será relata em post seguinte.

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