Bilbao – Apresentando

Bilbao é carinhosamente conhecida pelos seus habitantes por “El botxo”, ou seja, “o buraco”, dado que a sua situação geográfica a mantém rodeada de montanhas.


Quando disser que vai até Bilbao, a passeio, não será muito provável que oiça vozes a dizer “o que vais fazer para aquele buraco?”. Mas é certamente muito provável que oiça vozes a estranhar a escolha do destino argumentando que nada há que fazer / ver nessa cidade industrial. Aí, desconfie: ou o seu interlocutor não está a par da actualidade ou não aprecia a evolução urbanística.
Porque é disso que se trata – a reconversão de uma cidade no sentido de a guiar à modernidade e às exigências que se pedem a uma cidade do século XXI.

Efectivamente, Bilbao, situada no País Basco, norte de Espanha, virada para o Golfo da Biscaia, ganhou fama por ser uma cidade altamente industrial. Antes disso, porém, em 1300 foi-lhe concedido o título de cidade por Don Diego Lopez de Haro, que hoje dá o nome à Gran Via, a avenida das compras por excelência. Foi só no século XIX que Bilbao se desenvolveu e transformou de uma forma intensa, baseada na exploração das zonas mineiras ali perto que levaram a que o comércio marítimo e a actividade portuária crescessem de uma forma exponencial. A acompanhar essa situação, também a indústria siderúrgica e a construção de barcos contribuíram para o seu crescimento económico. Com a chegada dos caminhos-de-ferro no fim daquele século, estava montado o cenário ideal para que Bilbao ganhasse a tal fama de cidade industrial, com maquinaria e edifícios pesados, bem como bairros residenciais de operários.

Acontece que chegou a década de 70 do século XX e com ela o fim da industrialização. Chegou ao fim, igualmente, o Franquismo e com isso veio a democracia e o estatuto de autonomia do País Basco. Mas tal não obstou à inevitabilidade da decadência da cidade, em termos económicos, a qual era mais do que iminente – já tinha chegado. Para agravar ainda mais a situação, em 1983 a cidade sofreu grandes inundações. No entanto, como diz o ditado “há males que vêm por bem” e, face a dois caminhos para se seguir, o de deixar o tempo correr pela cidade ou, pelo contrário, criar a cidade o seu próprio tempo, os poderes públicos que governam Bilbao optaram por este último. Ou seja, realizaram que a necessidade de dar uma nova cara à cidade, criando novas infra-estruturas e serviços, era imperiosa.
Vai daí, pararam para pensar a cidade e em 1992 foi criada a Bilbao Ria 2000, constituída por capitais públicos, com o objectivo de actuar no âmbito do urbanismo, transportes e meio ambiente – o tridente da moda –, recuperando zonas degradadas ou áreas industriais em declínio na área metropolitana de Bilbao.
De notar que esta área metropolitana é composta por quase 1 milhão de habitantes, ainda que a cidade de Bilbao tenha apenas cerca de 300 mil.

O que se observa hoje é uma cidade pujante, cheia de vida nas ruas (o que é comum a muitas cidades espanholas), as quais estão ocupadas com as lojas das melhores marcas mundiais, com restaurantes e uma gastronomia altamente elogiada, oferta cultural ao nível de uma capital, uma rede de transportes eficiente e variada e, talvez o mais visível, um atelier a céu aberto no qual os grandes nomes da arquitectura mundial fazem questão de marcar presença.
Concluo esta introdução à cidade realçando brevemente estes dois últimos aspectos: os transportes e os arquitectos.


Quanto aos transportes, para além do comum autocarro (Bilbobus), existe ainda a possibilidade de nos movermos através do agradável, moderno e rápido Euskotran (um eléctrico verde, em todos os sentidos, do século XXI) e do Metro .


O Metro foi desenhado por Norman Foster (escolhido para recuperar o bairro da Boavista, em Lisboa, cujo projecto se viu envolvido em polémica por contemplar um torre de 100 metros de altura, contrariando o PDM local). Graças à originalidade das suas entradas em Bilbao, logo designadas pelos locais por “fosteritos”, a sua imagem é hoje reconhecida em qualquer canto do mundo. Em 1998 o Metro de Bilbao ganhou o Premio Brunel de Arquitectura ferroviária. Dispõe de duas linhas que não se limitam à área da cidade, antes nos levam até Portugalete, uma, e Plentzia, junto às praias, a outra.
A cidade está ainda provida de comboios e aviões. O seu aeroporto é também um dos focos de atenção do mundo – o novo terminal, concluído em 2000, é obra de Santiago Calatrava, o espanhol nosso conhecido por ser autor da Gare do Oriente em Lisboa. Encontram-se algumas semelhanças em vários detalhes das duas obras, graças ao estilo inconfundível das criações de Calatrava.

Aproveitando a deixa da referência a Calatrava, entremos então no tema arquitectura e comecemos por referir que este arquitecto espanhol deixou também a sua marca no traço da ponte Zubizuri, a mais original e facilmente confundível com a nova imagem da cidade. Este símbolo é apenas superado pelo edifício do Museu Guggenheim, desenhado pelo arquitecto americano Frank O. Gehry, o mesmo que o nosso ex-presidente da Câmara Municipal de Lisboa escolheu para recuperar os terrenos do Parque Mayer (aí vão três as comparações com arquitectos que também projectaram para Lisboa; a diferença é que em Bilbao foram em frente sem medo da mudança e do “abalo” urbanístico e em Lisboa se hesita e se esbarra nas burocracias instaladas). Voltando ao Guggenheim, esta obra confunde-se com a cidade e foi, definitivamente, o foco catalizador para toda esta força e vitalidade que Bilbao demonstra. Mas há mais: o novo Palácio Euskalduna de Congressos e de Música, de 1999, a ampliação do Parque de Doña Casilda, junto ao Euskaduna, Guggenheim e Nervión; toda a frente ribeirinha do Abando e Campo de Volantin, consagrada exclusivamente ao ócio, lazer ou prática de desportos ao ar livre – corrida, patins e bicicleta.


E as transformações não param. Para breve prevê-se o andamento da reconversão de uma outra zona da cidade, uma península no meio da ria junto ao bairro de Deusto, cujo projecto foi designado “Zorrotzaurre Skyline” e é de autoria de outro nome consagrado da arquitectura: desta vez uma senhora, a iraquiana Zaha Hadid.

Como se vê, Bilbao tem tudo o que se quer / espera de uma cidade, incluindo uma vila mártir a poucos quilómetros – Guernica – e praias a igual distância, com direito ao bónus de uma das melhores ondas para o surf da Europa (se não a melhor) – Mundaka.
Como diriam os brasileiros, “Bilbao está podendo”.

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