Parque Nacional Taroko

O Taroko é onde a Formosa é mais formosa.

É possível fazer uma (longa) viagem de um dia – ida e volta – desde Taipé de comboio até Xinsheng, às portas do Parque, ou até Hualien, um pouco mais distante. O comboio segue desde Taipé para norte para depois curvar junto com a ilha e acompanhar a sua costa tomando a direcção do sul. São cerca de três horas de comboio (depende da sua velocidade) até quase ao centro da ilha. A viagem é belíssima, de um lado o mar pacífico, do outro a montanha intrépida.

Quando chegamos ao Taroko as expectativas são elevadas e os níveis de ansiedade quase tão altos como as suas montanhas. Não houve desilusões, as expectativas cumpriram-se. Mas vejo agora que as fotos não revelam um ínfima parte da beleza do lugar.

O que é então este Taroko?

Uma criação da natureza, é um acidente geológico ocorrido desde tempos que a memória já perdeu e que levou a que a erosão cortasse este pedaço de terra e fosse deixando sedimentos. Como resultado temos montanhas cortadas por vales e desfiladeiros. Penhascos e ravinas aparecem logo ali. Os ditos sedimentos são as incontáveis pedras e pedregulhos que se atravessam no caminho do rio, forçando-o até a mudar o seu curso em algumas partes. Ganhamos nós com estas curvas. Fossem todos os acidentes assim.

Lugar habitado há milénios, apenas há cerca de 150 anos foi construída uma estrada para o local, rompendo o isolamento das populações aborígenes, os habitantes originais da ilha. Hoje o Parque é um lugar hiper-popular para caminhadas, de tal forma que apesar de os comboios para aqui serem frequentes andarem sempre cheios. É conveniente marcar com antecedência, mas existem inúmeras alternativas para além do comboio directo de Taipé até Xinsheng ou Hualien, como o comboio local – incluindo lugares em pé (??? 3 horas em pé???) e o bilhete combinado autocarro-comboio. 

No sistema montanhoso de Taroko existem 27 picos com mais de 3000 metros de altitude. O rio Liwu é uma das estrelas da companhia e vem descendo da sua nascente para lá dos 3000 metros até desaguar no Pacífico. A outra estrela é o Taroko Gorge, o tal desfiladeiro que a natureza criou. São 18 quilómetros de um vale estreito de paredes de mármore. 


A Swallow Grotto, uma caminhada de cerca de vinte minutos por entre uma espécie de túnel, é talvez o melhor lugar para se perceber os contornos – literalmente – do cenário do Taroko. Aqui observamos em detalhe as paredes de mármore de linhas rugosas deste desfiladeiro. É tão estreito que quase que podemos chegar com os nossos braços de um lado ao outro. Fossemos albatrozes e certamente o conseguiríamos, mas ali é território de andorinhas que, infelizmente, não vi. O rio corre estreito lá em baixo enquanto as enormes pedras se tentam acomodar no seu leito.


Mas não é só de paredes de mármore de que é feito o Taroko. O Taroko é sobretudo celebrado pela sua vegetação luxuriante. A paisagem é fabulosa. 


Uma boa ideia é seguir no autocarro do Parque até à Ponte Cimu (a maior ambição que um visitante de um dia pode ter) e desde aí voltar para trás até à entrada do Parque ou à estação de comboios.


A Ponte Cimu é um dos lugares mais fotografados do Parque, o lugar da ponte vermelha com o leão branco e o Pavilhão Orquídea a coroar a paisagem. Aqui começamos por dar largas à nossa imaginação quando nos sugerem que as rochas parecem uma rã agachada. Seja. A verdade é que aquela água do rio, tão azul, tão rebelde, procurando evitar as rochas, já seria suficiente para dar largas à nossa imaginação. 


Alguns trilhos que partem daqui perto estavam encerrados, como o “Túnel das Nove Voltas”, e outros necessitam de uma permissão prévia especial, como o trilho de Zhuilu, o qual percorre parte da antiga estrada de montanha construída pelos japoneses durante o período colonial com o propósito de controlar os povos aborígenes que por ali habitavam – e habitam. Este vai ter à pitoresca ponte suspensa de Zhuilu, instalada junto à Swallow Grotto.


Até aqui fiz o caminho de autocarro. 
A parvoíce veio depois. Como faltava uma hora e meia para passar o próximo autocarro decidi ir caminhando até à entrada do Parque, onde tem início o trilho Shakadang. Nada a apontar à paisagem, o cenário continuava dramático, a montanha continuava a deslumbrar, o verde continua a minha cor favorita, o rio continuava a dar vontade de mergulhar. O problema estava precisamente aqui, continuava tudo na mesma e eu cheia de calor. Senão maior, a parte final do trajecto tinha mais trânsito – caminhava pela estrada – e estava em obras, quer de barragem quer de novas vias. Quase a bater as duas horas de caminhada e a uns três quilómetros do fim da jornada passou um carro familiar que me ofereceu uma boleia – aceitei sem pestanejar e cheguei praticamente ao mesmo tempo do que chegaria se tivesse vindo de autocarro. Senti que compensou. 


O trilho Shakadang começa com vista para o rio Liwu. Shakadang é o nome do rio que desagua no Liwu e o nome de um dos trilhos mais fáceis e agradáveis no Taroko. Sempre plano, com excepção da elegante escadaria do início, o caminho é feito junto do rio de água de cristal que vai serpenteando pela montanha alta. As pedras no caminho da água a correr parecem um jardim zen, mas apesar de aqui não haver sugestão tudo é tão perfeito que facilmente cremos encontrar aqui a iluminação. Até o coaxar das rãs ajuda e nunca o dito “fecha os olhos e escuta” fez tanto sentido. As paredes de mármore características do Taroko continuam a marcar presença neste trilho, mas encanta igualmente ver como a natureza e o tempo foram moldando a montanha fazendo dela abrigos naturais.


Um dia no Taroko é um dia cansativo e intenso, com muito caminho para palmilhar, mas inteiramente recompensador.

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