Taiwan


Navegadores portugueses foram os primeiros europeus a avistar a ilha de Taiwan e de tal forma ficaram seduzidos que logo lhe deram o nome de Formosa. A ilha (mais o arquipélago dos Pescadores) é coberta de montanhas, rios e planícies, natureza em estado bruto onde cabe ainda uma das cidades mais vibrantes da Ásia: Taipé.


Mas a vida em Taiwan começou bem antes dos portugueses lhe porém a vista. Vestígios encontrados indicam que existirá vida humana na ilha desde há 50 000 anos e apesar dos ancestrais dos autóctones taiwaneses terem vindo do sul da China por mar há cerca de 6000 anos, a ilha permaneceu aborígene até ao século XVII. Foi o comércio, promovido por portugueses, espanhóis e holandeses, ao redor desta estratégica geografia então no caminho das mais apetecidas rota do oriente, entre China, Japão, Filipinas e Macau, que trouxe novos indivíduos à ilha. De duas formas: como consequência da colonização, primeiro por parte dos espanhóis (com marcas da sua presença ainda hoje, como é exemplo o Forte de San Domingo, em Tamsui, Taipei), depois pelos holandeses (com presença praticamente de norte a sul da ilha); e como consequência da emigração, em especial de chineses vindos da província do Fujian. A costa chinesa está a meros 165 km de Taiwan. 
A mudança de dinastias na China, dos Ming para os Qing, em 1644, levou a uma vaga de migração para a ilha, com muitos temendo a instabilidade. 

É aqui que entra na história um personagem curioso, Koxinga para a posteridade. Almirante leal aos Ming, invadiu Taiwan com o objetivo de terminar com a colonização holandesa na ilha (o que conseguiu) e reconquistar a China continental (o que não conseguiu). Após a morte de Coxinga a ilha acabou por cair para o domínio dos Qing e passou a ser parte da província de Fujian, com capital, em Tainan. Desenvolveu-se rapidamente sob os Qing, ao lado da cana de açúcar dos holandeses, plantações de arroz surgiram, e as emigrações intensificaram-se ainda mais e a população Han foi crescendo e tornou-se maioria. Estes Han estavam subdivididos em duas origens, os Hoklo do Fujian e os Hakka do Guangdong, de quem descende a maioria dos taiwanese de hoje. 

O final da dinastia Qing foi turbulento com a rebelião Taiping e, sobretudo, as Guerras do Ópio. A II Guerra do Ópio, em 1860, foi decisiva com a forcada abertura de Taiwan ao comércio com o ocidente, levando muita gente à ilha, desde mercadores, soldados, missionários, diplomatas e estudantes, todos eles na rota do comércio global.

Em 1895, às humilhações impostas pelos ocidentais à China junta-se aquela que o Japão impôs à China na sequência da vitória na guerra que travaram entre si. O Tratado de Shimonoseki obriga a China a ceder Taiwan e a Ilha dos Pescadores aos japoneses (mais Okinawa). Apesar da resistência dos locais, a situação manteve-se até 1945, momento da capitulação do Japão na II Grande Guerra Mundial. 

No entanto, o Japão enquanto colonizador tentou tornar Taiwan num modelo de modernidade. Os japoneses construíram estradas e trilhos de comboio, abriram escolas e colégios, implementaram novas técnicas de agricultura e, em consequência, a população aumentou de 2,6 milhões para 6,6 milhões de 1896 a 1944. A ilha passou de rural para urbana e moderna e auto-suficiente em termos financeiros, bem como economicamente e industrialmente robusta. 

Com os japoneses começou a falar-se de uma identidade taiwanesa, por contraposição à identidade chinesa (hoje são cada vez mais aqueles que se afirmam como sendo em primeiro lugar taiwaneses – e os taiwaneses são 98% Han, que inclui os Hoklo e os Hakka, e 2% aborígenes, com 14 tribos aborígenes reconhecidas oficialmente). Com a capitulação japonesa, Taiwan retornou para as mãos chinesas e voltou a integrar o seu território. 

Acontece que a guerra civil entre os nacionalistas do KMT e os comunistas do PCC resultou na vitória destes últimos e na fundação da República Popular da China em 1949. Os nacionalistas, com o seu líder Chiang Kai-shek na dianteira, recuaram para Taiwan, com o objectivo de conquistar a China continental, e aqui fundaram a República da China – entidade que havia sido criada na China em 1911, após a queda da dinastia Qing, tendo Sun Yat Sen sido um dos seus mentores e, por isso, ainda hoje é admirado em Taiwan. 

A princípio reconhecida pelos EUA e diversos outros países como a verdadeira China, na década de 70 as coisas começaram a mudar com a visita de Nixon à República Popular da China e o reatar de relações entre os EUA e a RPC, acabando Carter em 1979 por reconhecer a RPC como a verdadeira China.

Apesar da pujança económica – que levou ao reconhecimento internacional do “made in taiwan” e à pertença do clube dos “tigres asiáticos” – o governo do KMT em Taiwan foi sinónimo de uma era de autoritarismo e o fim da lei marcial apenas foi declarado em 1987. A partir daí o caminho para a democracia foi trilhando os seus passos, até 1996 trazer as primeiras eleições presidenciais directas, podendo hoje considerar-se Taiwan como um sucesso democrático, na verdade, o único território de língua chinesa onde a democracia marca presença. Nas eleições de 2000 o KMT perdeu, finalmente, para o DPP.

Actualmente o panorama em Taiwan segue marcado pelas relações com a China e o seu estatuto político é dúbio, sendo o cenário mais ou menos o de um “tu não chateias e eu não chateio”. Ou seja, tu não nos anexas e nós não declaramos a independência.


Mesmo numa breve visita a Taiwan podemos concluir a influência chinesa um pouco por todo o lado. Os migrantes do Fujian e do Guangdong trouxeram a sua cultura e ela está presente – na comida e nos templos, por exemplo. Nas ruas de Taipé, no entanto, Ximending e a sua cultura jovem está mais próxima de Tóquio do que de Pequim. Na sua globalidade, talvez possamos concluir que a Taiwan de hoje mescla a China e o Japão para dai fazer emergir um país com uma identidade própria, a taiwanesa.

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