Breves Apontamentos sobre Literatura Chinesa

Apesar de não ser a civilização mais antiga do mundo, os chineses possuem a mais longa história cultural em termos de continuidade. Na visão tradicional chinesa, a cultura é como um rio contínuo. Nesta ideia de cultura inclui-se a arte, a arquitectura e a literatura. É quanto a esta última que me debruçarei de modo breve.

Foi o sistema de escrita (primeiro em pedra, bronze, seda, bambu e, depois, em papel) e sobretudo a sua continuidade e unidade ao longo de grande parte do continente que permitiu e permite a comunicação entre os indivíduos, mesmo se a linguagem falada é diferente de região para região. Faz, pois, todo o sentido a afirmação de que ao longo dos milénios de história da China a sua permanência se deve mais às suas tradições literárias do que à sua história política. 

O poder da escrita é tal que existe a convicção de que muitos dos problemas existentes podem ser ultrapassados através da literatura e de que esta tem a força para abrir os olhos, mentes e corações das pessoas. Em resumo, moldar valores e influenciar comportamentos.

Encontramos, assim, primeiramente uma função moralista nos princípios da escrita na China.
São conhecidos e possuem influência até hoje os textos ligados ao budismo, confucionismo e taoismo. Nomes como Confúcio (551-479 a.C.), Mêncio (372-289 a.C.) e Laozi (data de vida desconhecida, talvez entre o século VI e IV a.C.) despertam curiosidade com as suas parábolas e os seus ensinamentos ainda definem e guiam o modelo de homem virtuoso. Entre as maiores virtudes do homem culto está, claro, a concordância entre a sua palavra e a sua acção. 

Mesmo tendo em conta estes textos filosóficos, a poesia é o género literário mais reverenciado na China. A classe escolarizada tinha como requisito de virtude a devoção à escrita de poesia. As emoções da escrita da poesia eram-nos passadas através da inspiração por temas como a transcendência, o decoro e a elegância, a melancolia e o arrependimento, a separação e a natureza. 
Como poetas maiores da China temos Du Fu (712-770) e Li Bai (701-762), ambos do tempo da Dinastia Tang, apelidada como a era dourada da cultura chinesa, em que um poema era tanto um acto social como uma obra de arte.

Quanto à ficção, talvez as primeiras narrativas tenham aparecido no século V a.C. As histórias não baseadas na história (género muito apreciado na China, com o nome do historiador Sima Qian, 145-87 a.C., à cabeça) eram contos descrevendo situações estranhas associadas a deuses, fantasmas, espíritos, seres fantásticos, monges budistas.

De 804 data A História de Yingying, provavelmente a mais conhecida história de amor chinesa.
O mais celebrado romance é, quase sem discussão, o Hung Lou Meng (O Sonho da Casa Vermelha), publicado em 1792, durante a dinastia Qing. Narra um triângulo amoroso num clã em decadência que atravessa parte dos anos Qing, caracterizando-os socialmente. Antes, porém, a época da dinastia Ming viu surgirem quatro obras-primas: O Romance dos Três Reinos (publicado em 1522, mas revisto por gerações até ser publicado em 1679, é um romance histórico que narra os anos finais da dinastia Han e dos Três Reinos até à reunificação da China), Borda de Água (publicado em 1550, narra as aventuras de um grupo de foras-da-lei), Viagem para Ocidente (publicado em 1592, inspirado na peregrinação do monge Xuanzang à Índia, contando a lenda de Sun Wukong, o rei macaco) e o Jin Ping Mei (qualquer coisa como A Flor da Ameixeira do Vaso Dourado, publicado em 1610, com conteúdo sexual explícito, pela libertinagem sexual dos seus personagens).

A maior parte destas obras devem muito à oralidade e foram sendo publicadas em capítulos, até serem reunidas numa só publicação.

Quanto à literatura moderna, focarei os autores traduzidos em Portugal.


Desde logo, Lu Xun, o maior escritor chinês do último século. O seu conto “Diário de Um Louco”, de 1918, possui um sentido crítico da sociedade de então. Pleno de metáforas, apresenta-nos uma personagem louca, mas seria esta loucura efectivamente uma doença ou antes uma consciência crítica de uma pessoa bem lúcida? Uma metáfora para dizer algo, numa China que estava a nascer. 


Um dos livros de autores chineses mais lidos no ocidente é provavelmente o “Cisnes Selvagens: 3 Filhas da China”, escrito em 1991 por Jung Chang. Esta autora, que escreveu também biografias de Mao e da Imperatriz Cixi, percorre a história da China do século passado através da descrição da vida afortunada e desafortunada de três gerações. Estas três gerações são da sua família, sendo a última a sua própria vida. Nesta obra encontramos várias ideias e situações que facilmente identificamos com a China, como os pés enfaixados, as concubinas, o grande salto em frente e a revolução cultural. A própria autora chegou a pertencer ao Exército Vermelho enquanto adolescente, em tempos de encantamento por Mao. Mas o desencanto venceu e os tempos difíceis da vida da China comunista estão aqui duramente retratados. Este livro está proibido na China.


Os dois prémios Nobel da Literatura chineses, Gao Xingjian e Mo Yan, estão ambos traduzidos em Portugal. Deste último temos disponível o aclamado “Peito Grande, Ancas Largas”, publicado em 1996. Ao longo de 600 páginas, o prémio Nobel de 2012 conta-nos a história da família Shangguan, em especial da mãe que deu à luz 8 filhas mais 1 filho, todos eles de outro que não do seu marido estéril. A estes 9 há que a acrescentar ainda os netos que foram dando àquela mãe e mais uma série de crianças. E essa história desenrola-se ao longo da própria história da China do último século: a invasão japonesa no século XX, a grande fome dos tempos de Mao – o grande salto em frente e a revolução cultural – e a ascensão de uns quantos oportunistas durante o regime comunista que sobreviveu a Mao. Muito drama, provação e ironia à mistura. É uma espécie de realismo mágico, tão ao jeito dos latino-americanos, com cenas estrambólicas no caminho, como os sonhos do único filho varão, Jintong, obcecado por seios e viciado no seu leite até tarde na sua adolescência. Estas e outras marcas de erotismo que se pensa não esperar encontrar em livros de um chinês ainda assim bem visto pelo governo.


Quem não é assim tão bem visto pelo governo chinês e tem mesmo os seus livros proibidos na China é Yu Hua. Na sua “Crónica de Um Vendedor de Sangue”, escrito em 1995, encontramos também muita imaginação ao estilo realismo mágico e muita ironia para caracterizar a sociedade chinesa da última metade do século passado, em especial as décadas de cinquenta a oitenta. Xu Sanguan, apelidado de “bandido suicida”, é o protagonista que vende sangue como forma de sobrevivência. Argumentava que “o sangue do corpo é como a água de um poço, não desaparece por se ir tirando”, ao passo que a sua mulher estranhava este comportamento pois “desde pequena que o meu pai me diz que o sangue que temos no corpo foi-nos dado pelos nossos antepassados. Uma pessoa pode vender farturas, pode vender a casa ou a terra… Vender sangue é que não. Mesmo que se venda o corpo, não podemos vender sangue. O corpo é de cada um, mas o sangue pertence aos antepassados. Vendeste os teus antepassados”.
Este livro, cuja escrita de frases curtas deve muito à oralidade, perpassa a vida deste casal com três filhos na China comunista sob as ordens Mao. Para ganhar a mulher Xu Sanguan foi vender sangue, para ultrapassar a fome durante o grande salto em frente idem, para trazer os filhos de volta do trabalho nos campos durante a revolução cultural ibidem e para salvar o filho da morte repetidas vezes idem e ibidem. Pelo meio, ainda viu a mulher, e com isso toda a família, sujeita a humilhações públicas pela acusação (sem sentido) de prostituição durante o movimento de autocrítica. “Já começo a perceber o que é isso da revolução cultural. No fundo, é um momento para vinganças pessoais. Se no passado alguém te ofendeu ou prejudicou, agora podes escrever um dazibao para colar na rua. Podes dizer que essa pessoa é um antigo dono de terras ouvidores e acusá-lo de ser contra-revolucionário, qualquer coisa serve.”.
Com muita ironia à mistura e sem precisar de grandes explicações ou tratados políticos, filosóficos ou morais, Yu Hua e a sua metáfora do sangue mostram-nos a resiliência deste personagem chinês que cai e se levanta, mesmo se para isso tenha de vender a alma num mundo em que a seriedade e honestidade não vencem a corrupção e o amiguismo.

Para esta viagem à China escolhi acompanhar-me da leitura de “A Minha Vida Enquanto Imperador”, de Su Tong (1992).

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