Viana do Castelo

Viana do Castelo é uma cidade que surpreende.
Senhora de um conjunto de edifícios medievais de qualidade superior.
Não é uma das maiores cidades portuguesas, mas tem um centro histórico de tamanho superior a umas quantas capitais europeias.
Uma ponte obra de Eiffel liga as duas margens do Rio Lima.
Duas obras de dois prémios Pritzker convivem lado a lado junto à foz do Lima.
Dizer isto já não é pouco. 
E se lhe acrescentarmos que Viana foi cantada por umas quantas vozes (com Amália à cabeça), muitas das vezes em palavras escolhidas pelo poeta Pedro Homem de Mello?
Um exemplo, na sua “Canção de Viana”:

“A minha terra é Viana! 
Sou do monte e sou do mar. 
Só dou o nome de terra 
Onde o da minha chegar! 

Ó minha terra vestida 
Da cor da folha da rosa! 
Ó brancos saios de Perre 
Vermelhinhos da Areosa! 

Virei costas à Galiza; 
Voltei-me antes para o mar… 
Santa Marta! Saias negras 
Têm vidrilhos de luar! 

Dancei a Gota em Carreço, 
O Verde Gaio em Afife 
Dancei-o devagarinho 
Como a lei manda bailar! 

Virei costas à Galiza; 
Voltei-me então para o Sul… 
Santa Marta! Saias Verdes… 
Deram-lhe o nome de azul… 

A minha terra é Viana 
São estas ruas estreitas 
São os navios que partem 
São as pedras que ficam. 
É este sol que me abrasa, 
Este amor que não me engana, 
Estas sombras que me assustam… 
A minha terra é Viana.”

Amália cantou “Havemos de Ir a Viana”, com letra do mesmo Pedro Homem de Mello, e assim nos pusemos a caminho.


É do alto do Monte de Santa Luzia que se percebe todas as potencialidades de Viana. Numa localização destas, só pode ser uma cidade bonita.
Santa Luzia, omnipresente em quase cada canto de Viana, foi um antigo castro de povos célticos. Habitado ainda antes destes, o vale fértil, a caça disponível nos seus bosques e o peixe em abundância no seu estuário era atracção bastante para as gentes.
Bem mais tarde, em 1258, o Rei D. Afonso III tomou a decisão de fundar Viana, escolhendo ele próprio o nome da localidade. Ficou Viana da Foz do Lima ou Viana do Minho, hoje Viana do Castelo, mas sempre Viana.
Uma distinção Viana possui: D. Afonso III devia o seu trono ao apoio do povo e a sua vontade era a de fundar no Alto Minho uma vila para ele, povo, tendo de início sido vedada aí a instalação da nobreza. O nascimento e desenvolvimento da pesca, da indústria marítima, com o abastecimento de toda a região, bem como as posteriores expedições à Terra Nova, o comércio com os portos brasileiros e a pujança dos estaleiros da construção naval, levou a que Viana ficasse conhecida como terra de gente trabalhadora, a Viana do Povo, como lhe chamou José Hermano Saraiva. 
Em 1848 D. Maria II elevou Viana a cidade, em louvor à sua participação nas guerras do liberalismo, e tomou a decisão de lhe mudar o nome: Viana do Castelo. Ainda segundo as palavras de José Hermano Saraiva, esta mudança de nome é uma pilhéria face à história de uma cidade não apenas sem castelo (eventualmente confundível com o Forte de Santiago da Barra), mas fundada contra os castelos e os militares.


Começámos o passeio por Viana junto ao Lima, observando a ponte metálica verde projecto da Casa Eiffel de 1878. A construção desta ponte rodo-ferroviária levou a um desenvolvimento da cidade para sul. Permanecemos, no entanto, no lado de cá. A frente ribeirinha está bem cuidada e compete em atracção com as águas do rio pelo exercício físico.



Por aqui, com o monte de Santa Luzia e o centro de Viana nas costas e a outra margem de vigia, a cidade ganhou recentemente dois equipamentos projectados por dois dos mais reconhecidos arquitectos do mundo. O plano de reabilitação da frente ribeirinha de Viana vem já desde os anos 90, da responsabilidade de Fernando Távora, autor dos dois edifícios da nova Praça da Liberdade que estão no meio da Biblioteca de Álvaro Siza Vieira e do Centro Cultural de Eduardo Souto Moura.



A Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, inaugurada em 2008, é característica de Siza, um edifício branco de linhas rectas, soluções simples mas engenhosas como a criação de um pátio recolhido que aproveita uma nesga da paisagem natural, no caso o rio Lima mesmo ali à beira, tudo isto apoiado por estreitos pilares.



O Centro Cultural de Souto Moura é um pavilhão multiusos e foi inaugurado em 2013. Para que pudesse ser versátil o suficiente para acolher eventos culturais e desportivos, o arquitecto adoptou a solução de enterrar parte do edifício. A estética exterior é de ruptura para com o existente e é surpreendente. Diz-se que que a intenção era a de evocar a arquitectura naval (o navio Gil Eanes é seu vizinho) e, de facto, aquela espécie de tubagens ao longo de todo o edifício pode encontrar aí um arrojo explicável.


Por estes e mais uns quantos exemplos espalhados pela cidade, Viana vem sendo definida como “Meca da Arquitectura”, quase deixando de lado o capítulo “Prédio Coutinho”. Este edifício de 13 andares na primeira linha de rio quase que passa despercebido escondido no meio do arvoredo do bem cuidado Jardim da Marginal. Mas, e voltamos ao Monte de Santa Luzia, este elemento é disruptivo mesmo a quilómetros de distância.



Continuamos a caminhada ao longo do Rio Lima até ao Forte de Santiago da Barra, passando pela zona da doca pesca e avistando os Estaleiros Navais. 


O enorme Campo da Agonia, com a igreja da Senhora da Agonia lá bem ao fundo, fica aqui junto ao Forte. Esta é a padroeira dos pescadores e é em sua honra e pela devoção que as gentes do mar lhe prestam que é celebrada a maior romaria do Minho (em Agosto).

A partir daqui entramos no coração da cidade e admiramos as suas bonitas praças-jardins e os seus edifícios imponentes mas de arquitectura sóbria. 


A Igreja de São Domingos é bonita por fora, com a sua fachada retábulo, e rica por dentro. Desde o seu Largo entramos na Rua Manuel Espargueira, via pedonal de comércio e edifícios históricos.  





A rua é estreita e temos de erguer bem o pescoço para que a nossa vista possa apreciar todos os detalhes desses edifícios: azulejos, varandas em ferro, brasões, figuras no topo e muitas mais surpresas.


Uma das características do centro histórico de Viana é a combinação de ruas estreitas – quase todas elas – com outras mais largas abertas ao rio. A Avenida dos Combatentes da Grande Guerra é uma delas. Vindos da Espargueira, cruzamo-la e de um lado, para baixo, o rio, e do outro, para cima, a Estação de Comboios com Santa Luzia a dar-lhe um olho amigo. 



Poderíamos ter continuado na rua Manuel Espargueira para espreitar a Confeitaria Natário e sua concorrida fila para a compra das famosas bolas de berlim ou sidónios (bolo em homenagem a Sidónio País, natural de Caminha), mas preferimos deixar para mais tarde (e tivemos de esperar a bem esperar pela recompensa deliciosa) e subimos para uma olhada aos preciosos edifícios do Convento de Sant’Ana, de um lado, e do Palácio dos Viscondes de Carreira ou dos Abreu Távora, do outro. Este último é hoje o lugar da Câmara Municipal e é bem distinto, com as suas janelas e portas manuelinas, fazendo dele uma das mais belas casas senhoriais do país. 


Descendo esta rua de nome incrível, “Passeio das Mordomas da Romaria”, estamos finalmente na Praça da República, o centro de Viana, um conjunto monumental de qualidade inquestionável.
Com o chafariz no meio, destacam-se aqui os antigos Paços do Concelho e a Igreja da Misericórdia, todos eles elementos do século XVI.


Os antigos Paços do Concelho possuem uma fachada gótica de dois pisos, onde se distingue a Cruz de Cristo e o Escudo português. No piso térreo, rasgado por arcos, era o lugar onde se vendia o pão, enquanto que no piso superior funcionavam os serviços da câmara e do tribunal.


A Igreja da Misericórdia é riquíssima nos detalhes dos elementos escultóricos da sua fachada com varandas, um exemplo superior de arquitectura renascentista e maneirista. É única no nosso país. Infelizmente, por estar encerrada no dia da minha visita, não pude confirmar a riqueza decorativa do seu interior, profusamente preenchida a azulejos e com abundante talha dourada, uma obra-prima do barroco do século XVIII.


Da malha urbana para lá da Praça da República em direcção ao rio a melhor solução é deixarmo-nos vaguear pelas ruas estreitas e perdermo-nos a apreciar os prédios reabilitados e os inúmeros pormenores. 
Alguns exemplos, 

Uns azulejos em art deco.

A Casa de João o Velho (ou dos Arcos) – de influência galega, este é um dos poucos exemplos de casa de habitação urbana, em cantaria, de finais do século XV, que resta no nosso país. Realce para o seu peculiar brasão.

A janela manuelina da Casa dos Costa Barros – casa nobre manuelina, com janela hiper decorada.

A Capela das Malheiras – pertencente à Casa da Praça, ou Casa Reimão Malheiros, uma exuberância em estilo rococó.

A pedonal Rua da Bandeira, comércio com passadeira estendida.

O Palácio dos Cunhas – possui dez janelas e onze sacadas; com a aquisição do edifício pelo Estado as armas da família originalmente proprietária foram substituídas pela caravela vianense, a qual simboliza Viana e sua vocação marítima.


Terminando este périplo por Viana, resta a despedida desde o Monte Santa Luzia. A sua Basílica, da autoria de Ventura Terra, foi construída entre 1903 e 1925. Inspirada na Sacré Cour de Paris, esta basílica altaneira apresenta uma mescla de estilos, como o neoclássico, neo-romântico, neogótico e bizantino. No entanto, é a vista que daqui se alcança que nos faz voltar, repetir e admirar Santa Luzia. Sem mais palavras.

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