Pelo Yunnan e Guangxi


Desejávamos uma China rural, afastada da confusão, longe das grandes cidades. 
O Yunnan, cujo significado literal é “a sul das nuvens”, situado no sudoeste da China, parecia o lugar ideal. 

De Shenzhen a Lijiang, a nossa primeira paragem, são 6 horas de viagem de avião com escala incluída em Kunming, capital da província do Yunnan. Viríamos a descobrir entretanto que esta característica distante e remota do Yunnan não afasta os (muitos) turistas, pelo que os apodos “distante” e “remoto” serão coisa do passado. São cerca de 8 milhões aqueles que todos os anos visitam a pequena Lijiang. Mais, ruralidade é algo que, ficámos também a saber, já não está bem a qualquer esquina da China. Mais ainda, uma cidade média para os padrões chineses como Kunming possui qualquer coisa como 6 milhões de habitantes. 

Historicamente, o Yunnan foi sempre considerado um território para lá da China, quase que escondido pela barreira natural das montanhas. Na Rota da Seda do sul, a caminho da Birmânia e da Índia, e na Rota do Chá e do Cavalo, a caminho do Tibete, esta foi sempre uma região de comércio. E uma região de fronteira, vista pelos imperadores chineses como bárbara e pestilenta, com tribos pouco civilizadas e rebeldes, e habitantes de um terreno hostil e montanhoso. Por isso esta região foi permanecendo independente. Os muçulmanos vieram para cá com as rotas de comércio e os han vieram fugidos dos mongóis. Apenas em 1658, com os Qing, foi o Yunnan integrado no império chinês. Mais tarde, nos finais do século XIX e princípios do século XIX, os franceses viriam a ter alguma influência na província, nomeadamente na construção de caminhos de ferro ligando Hanói a Kunming, eles que eram vizinhos na Indochina, deixando uma marca curiosa numa igreja cristã na cidade velha de Dali.

Durante os tempos de Mao dois tipos de chineses foram enviados para o distante Yunnan: aqueles que vinham como castigo para ser reformados no trabalho de campo porque estas eram terras afastadas e inóspitas; outros como forma de aumentar o povoamento han na região. De qualquer forma, é curioso verificar como aquela taxista ainda teima em conduzir guiada pelo retrato de Mao e como as vestes das mulheres da minoria Naxi são tão semelhantes ao casaco e chapéu de Mao. 

O Yunnan é uma das províncias mais diversas da China quer em termos geográficos, com montanhas, florestas e lagos, quer em termos étnicos. Das 54 etnias reconhecidas na China, 28 marcam aqui presença. Cada uma delas tem a sua língua, a sua forma de vestir, a sua cozinha, o seu sistema de crenças, os seus festivais. 

O Yunnan não é uma província rica em termos agrários, já que pouca da sua terra é arável, mas é rica em recursos minerais e, nos últimos tempos, em turismo.

Deslocarmo-nos província do Yunnan adentro não é para gente com pressa, cortesia das distâncias. De Lijiang para a velha Dali são três horas e meia de autocarro. Da velha Dali para Xiaguan (Nova Dali) mais uma hora. Daqui para Kunming mais sete horas de comboio. Fora todos os outros muitos passeios que merecerão a pena fazer, como até Yuanyang e Xishuangbanna a sul e Shangri-La e Tiger Leap Gorge a norte (este último estava nos nossos planos, mas a estrada em reparação impediu o nosso acesso).

De Kunming seguimos de comboio para Guilin, na província de Guanxi, a 18 horas de comboio. Poderiam ter sido “apenas” 10 horas de jornada durante o dia, mas optámos por viajar de noite. As viagens de comboio são óptimas para confraternizar com os locais. Mas como, se até os gestos para indicar os números são diferentes dos utilizados por nós? Depois de ter dormido a noite toda – o sofá / cama do comboio é confortável – arranjei um amiguinho, Fu Tcha Tsui de seu nome, cinco ou seis aninhos, que estava deveras impressionado com o tamanho do meu nariz. Senti-me como os nossos antepassados a desembarcarem no oriente. O pequeno Fu não parava de dizer para a sua mãe e seu avó, espantado, “tā de dà bízi”, “que grande nariz ela tem”, e eu feliz da vida, não pelo meu nariz grande, não por me sentir na pele de um navegador, mas por sentir que afinal consigo entender alguma coisa de mandarim. E assim passei uma manhã, a brincar e a conversar com o meu novo amiguinho. 

Guanxi é mais acessível do que o Yunnan, quanto mais não seja porque a sua rainha indisputável em termos turísticos, Guilin, fica a menos de 3 horas de comboio de Guangzhou ou de Shenzhen e, logo, à porta de Hong Kong.


Guanxi é uma das províncias menos desenvolvidas da China. Devido à sua topografia acidentada é uma das que possui menos terra arável e sempre teve dificuldades na comunicação por transporte. Esta é, tal como o Yunnan, uma região de inúmeras minorias étnicas. Para a história, registo de ter sido no Guanxi que emergiu a rebelião Taiping que no século XIX mergulhou a China numa imensa guerra civil. 

Guilin possui uma das mais famosas paisagens da China, as suas montanhas feitas de pináculos verdes. O seu rio Li anda no bolso de todo o chinês, estampado na paisagem que na está na face contrária àquela onde está o rosto de Mao na nota de 20 yuan. Guilin e a vizinha Yangshuo, para onde corre o rio Li para sul, bem como os terraços de arroz de Longji para norte, são pura paisagem, um cenário de alto nível que apesar de trazer muitos turistas ocidentais a esta parte da China ainda faz as criancinhas chinesas pararem para exclamar com admiração: “oh! wàiguórén” – a tradução tanto dá para estrangeiro como para alien.  Valha a verdade, todavia, que se é certo o espanto que ainda causa ver estrangeiros, leia-se ocidentais, por estas regiões da China, são cada vez mais os jovens que arranham o inglês e cujas famílias os incentivam a vir falar connosco para treinar a idioma que no futuro dominarão sem problemas. Mas, sobretudo, é completamente errónea aquela ideia feita de que os chineses evitam e fogem à primeira dificuldade de comunicação. Pelo contrário, eles é que estão em casa e insistem em fazer-se compreendidos. Mais, mostram gosto em fazer-se compreendidos. E nós também. 
谢谢中国 

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