Castelo Bom

Situada num cabeço sobranceiro ao rio Côa, a 725 metros de altitude, Castelo Bom já foi praça-forte, vila e sede de concelho e é hoje uma airosa aldeia raiana da Beira Interior, pertencente ao concelho de Almeida. Em tempos havíamos visitado deslumbradas a vizinha Castelo Mendo, integrante da rede de Aldeias Históricas de Portugal. Desta vez, com este passeio por Castelo Bom ficámos com a certeza de que há que ir além dos itinerários “oficiais” e buscar directamente no mapa e no território recantos esquecidos.

Por entre oliveiras e amendoeiras, a aproximação a Castelo Bom é um regalo; atravessado o Côa logo a encaramos altaneira num palco onde os blocos rochosos abundam e, como perceberemos ao deambular pela aldeia, fazem igualmente parte do seu charme. A ocupação humana na região é pré-histórica, talvez não do Paleolítico como a não muito distante Foz Côa, mas certamente da Idade do Bronze, a ver pelos vestígios arqueológicos de um castro encontrados no lugar do antigo castelo. Celtas, romanos, alanos, visigodos e mouros andaram pela região antes de Castelo Bom ter sido conquistada por Fernando Magno para o Reino de Leão, no século XI. Estava, então, situada na fronteira com o Condado Portucalense, o antecessor do Reino de Portugal, e mais tarde D. Afonso Henriques e D. Sancho II fizeram tentativas para conquistar a vila. No entanto, só com D. Dinis, após a assinatura do Tratado de Alcanizes, em 1297, é que Castelo Bom passa definitivamente a integrar o território português. Com foral dado por D. Dinis, em 1296, e renovado por D. Manuel I, em 1510, este ponto estratégico na defesa da região de Ribacôa serviu de alojamento para os Governadores da Beira durante a Guerra da Restauração, entre 1640 e 1668, foi conquistada na Guerra dos Sete Anos, em 1762, e invadida, saqueada e destruída na Terceira Invasão Francesa, em 1810. Saiu desta em muito mau estado e foi abandonada por muita da sua população, entrando a partir daí num declínio acentuado. De acordo com os resultados do Censos de 2021, a freguesia de Castelo Bom, que inclui ainda a Aldeia de São Sebastião, possui agora meros 172 habitantes.

Castelo Bom pode ter hoje poucos habitantes, mas respira história e encanto por todos os cantos.

Deixamos a Capela de São Martinho e as sepulturas antropomórficas que lhe servem de adro e seguimos de imediato para a Porta da Vila, a principal entrada na vila medieval. Em arco quebrado, teria uma torre de menagem ao seu lado, enquanto uma muralha rodeava a povoação a toda a volta. Hoje, porém, esta Porta é o elemento mais perceptível do conjunto do castelo e muralha. Já no interior, este arco quebrado é seguido de um outro a toda a volta e entre eles esconde-se uma pequena imagem de uma santa onde os locais gostam de ir rezar e pedir preces.

O brasão da antiga vila ainda se faz notar, um revelim que serviu de paiol ainda se confunde com a muralha e com a rocha, mas do castelo pouco mais resta do que uma bandeira de Portugal ao alto a assinalá-lo.

Neste ponto mais elevado mantém-se o miradouro natural para o tranquilo Vale do Côa, aqui mais parecido com um planalto.

A grande graça da aldeia está no seu casario de granito local, com habitações quase todas bem conservadas e restauradas. Na praça principal fica a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção, originalmente construída no século XIII, com torre sineira com gárgulas em forma de canhão. Ao seu redor, o Pelourinho muito adulterado e sem piada, os antigos paços do concelho agora transformados em sede da junta de freguesia e um solar do século XVII. Repare-se nos alpendres destes dois últimos edifícios: estamos na Beira e Castelo Bom não se faz rogada em apresentar uma série de casas alpendradas, abastadas ou não, destes exemplares da arquitectura tradicional da Beira Interior.

A Casa do Fidalgo, por exemplo, é uma casa senhorial do século XVI que consegue reunir quase todos os elementos atrás citados: o granito, o brasão, o alpendre, a história e a graça.

Igualmente uma maravilha é tentar perceber como aqueles blocos de pedra imensos se conseguem equilibrar tão formosamente sobre as casas da aldeia. São, na verdade, parte integrante delas.

O interesse pelos detalhes de Castelo Bom não termina. A local quase nonagenária insistia em que não perdêssemos os poços. Dêmos mais uma volta, espreitámos e concluímos que aqueles dois paralelepípedos de granito assentes no que parecia uma eira são na verdade o Poço d’ El Rei, um depósito de água que assegurava o seu fornecimento à então vila em caso de cerco. Os tempos são hoje outros e não é já a água que se teme que possa faltar, antes as pessoas para a beber. Cumpre-nos, viajantes, teimar em desviar na estrada para conhecer e passar testemunho destas aldeias que não podem perder-se.

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