Vilar Formoso, Fronteira da Paz

Vilar Formoso Fronteira da Paz – Memorial aos Refugiados e ao Cônsul Aristides de Sousa Mendes é certamente um dos museus portugueses mais emocionantes de se visitar.

Instalado num antigo armazém da estação de caminhos de ferro, hoje reconvertido, este é um projecto levado a cabo pela Câmara Municipal de Almeida na mais importante e famosa entrada terrestre no nosso país. Aqui se pretende prestar homenagem ao gesto de um homem que acabou por tornar esta vila o primeiro contacto com Portugal por parte de muitos estrangeiros europeus fugidos da II Grande Guerra Mundial. Em Junho de 1940, Aristides de Sousa Mendes, cônsul português em Bordéus, decidiu emitir milhares de vistos às vítimas do nazismo, contrariando ordens recebidas do Governo de Salazar. Mas não foi o único, como ficamos a saber na visita a este Museu.

Este espaço museológico está dividido em seis núcleos temáticos, que nos permitem traçar a história dos refugiados da Guerra na sua viagem até à liberdade.

No primeiro, “Gente como Nós”, é-nos mostrado como, apesar de algum anti-semitismo, até 1933 os judeus viviam na Alemanha como quaisquer outros cidadãos. Situação essa que foi totalmente alterada pela subida de Hitler ao poder, tornando a vida desses indivíduos um pesadelo. Não só dos judeus alemães, mas também dos judeus de toda a Europa que as tropas nazis acabaram por tomar. O segundo núcleo, “O Início do Pesadelo”, contextualiza a chegada de Hitler ao poder, com o correspondente aniquilamento da oposição política e a promoção através do ensino e da propaganda da formatação do pensamento do povo alemão. Face à perseguição – não apenas dos judeus, mas também dos ciganos, jeovás, homossexuais e doentes físicos e mentais – e à anexação dos países vizinhos, a única solução era fugir. “A Viagem”, terceiro núcleo, retrata a fuga. A perseguição havia começado ainda antes da Guerra, mas a esmagadora maioria só fugiu após a invasão do resto da Europa. Uma fuga duríssima, com muitas filas à porta dos consulados para obtenção de vistos, falta de alojamento, comida e transportes.

De referir que estes três primeiros blocos do Museu estão muito bem recriados, mesmo para quem já teve oportunidade de visitar museus de mesma temática na Polónia e em Berlim.

“Vilar Formoso – Fronteira da Paz”, “Por Terras de Portugal” e “A Partida”, são os núcleos seguintes e onde passam a estar retratados não apenas os refugiados, mas também os portugueses e o país que os recebeu. É aqui que, sem qualquer espécie de nacionalismos, nos emocionamos profundamente. Sobretudo quando percebemos, pelos vídeos em exposição, que até hoje há descendentes destes refugiados, alguns nem sequer nascidos ao tempo da Guerra e que viveram toda a sua vida longe da Europa, que estão gratos pelo acolhimento que Portugal deu aos seus avós e pais. Não esqueceram e fizeram até questão de vir a Portugal mostrar essa gratidão. A neutralidade de Portugal determinada pelo Estado Novo não foi capaz de tolher os sentimentos de muitos portugueses e estrangeiros aqui recebidos como pessoas, género humano.

Vilar Formoso, a desde então designada “Fronteira da Paz”, era a principal fronteira terrestre para quem vinha de França. Sobretudo nas últimas semanas de Junho de 1940, milhares de refugiados chegaram aqui, vindos de carro ou de comboio, inundando o Largo da Estação, sendo recebidos pelas imagens das várias regiões do país mostradas pelos azulejos que decoram ainda hoje a estação ferroviária. Talvez não os tivessem notado, mas foi impossível não sentir a hospitalidade dos beirãos. Ofereceram malgas de sopa, pão e fruta a quem chegava desesperado após longos dias de fuga.

Após a chegada a Vilar Formoso, os refugiados eram encaminhados para diversos pontos do país. “Por Terras de Portugal” dá-nos a conhecer o papel decisivo que muitas localidades tiveram no seu acolhimento. Lisboa, Porto e Coimbra, sim, mas também estâncias balneares, como a Figueira da Foz, ou termais, como a Cúria, Luso e Caldas da Rainha, onde a capacidade hoteleira era maior. Ou até Lousa de Cima, perto de Loures. O escritor romeno Mircea Eliade, por exemplo, esteve com a sua mulher na Casa de Saúde e Repouso da Lousa, e no The Portugal Journal deixou escrito que da janela viam a aldeia de casas brancas com telhados vermelhos e a silhueta da serra, um vista soberba que acomodava ainda o estuário do Tejo e a serra de Sintra, uma tranquilidade extraordinária depois do inferno vivido nos últimos meses.

O acolhimento por parte dos portugueses não terá sido todo ele um mar de rosas – deixemos a ingenuidade e o cinismo de lado -, mas terão sido geralmente bem recebidos e alguns decidiram mesmo permanecer por Portugal e prosseguir cá a sua vida, sendo hoje algumas dessas famílias bem sucedidas e centrais na nossa sociedade. Assim como outros que partiram para diferentes pontos do globo, incluindo alguns que viriam a tornar-se mundialmente famosos. Inúmeros videos expostos dão disso conta, sendo este um Museu para se descobrir demoradamente.

Por fim, “A Partida”. Não lhes sendo permitido permanecer em Portugal, os refugiados tiveram de arranjar vistos definitivos para outros países. Talvez aliviados, mas sem muita alegria, disseram adeus à Europa e às memórias do que tinham perdido e deixaram para trás, incluindo familiares. Um excelente testemunho de um episódio trágico da nossa história comum.

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  1. Boa e importante partilha!

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