Idanha-a-Velha

Idanha-a-Velha, concelho de Idanha-a-Nova, é parceira de Monsanto na união de freguesias. E o Castelo de Monsanto e seus penedos altaneiros guardam-na gentilmente.
Idanha-a-Velha fica já cá em baixo, na planície a que também não faltam rochedos. Esta pequena aldeia é dona de ruínas milenares. Em tempos foi próspera, uma vez que se situava junto a uma das principais estradas romanas. Ainda hoje podemos observar a ponte de origem romana sobre o Rio Ponsul, com os seus pequenos arcos. 


Dois elementos se destacam no imediato na paisagem: a Catedral Visigótica e a Casa da Família Marrocos. 


A Catedral apresenta uma mistura de estilos, uma vez que foi reconstruída por diversas vezes ao longo dos tempos. Sucesso é, nos dias de hoje, o ninho de cegonhas no topo da sua torre. 


A Casa da Família Marrocos é uma construção do século XX. Inacabada. Ao estilo Português Suave. 
Diria, era para ser mas não foi. 
Como a aldeia. Foi mas já não é.

Castelo Mendo

Ainda pensei saltar Castelo Mendo e seguir logo para Almeida, concelho de que faz parte, e Castelo Rodrigo, mas felizmente saí da Guarda bem cedo e acompanhada pelas cabras, e só por elas, atravessei a sua porta principal, virada a norte, e pude visitá-la e deixar-me por ela encantar. 
 
 
 
 
Avistava já uma aldeia muralhada de longe, desde a estrada, esta povoação que deve o nome Mendo a um antigo fidalgo alcaide da praça. Hoje quase na fronteira de Vilar Formoso, ali a um passinho de Espanha, Castelo Mendo fica no cimo de um afloramento granítico onde o rio Côa passa perto. 
 
 
D. Sancho I encontrou esta terra despovoada e arrasada em consequência das lutas entre mouros e cristãos e mandou reedificar o castelo. Hoje serão menos de 50 as pessoas que habitam a aldeia intra muralhas.
 
Diz-se que Castelo Mendo foi o lugar da realização da primeira feira franca do reino, em 1229, e só por aí já se pode medir a sua importância histórica. De mesma data o foral concedido por D. Sancho II. No mais, é uma povoação com características como outras da Idade Média: cercada por muralha, entrada principal ladeada por duas torres (com a piada de ter aqui dois “beirões” de cada lado, isto é, duas estátuas da Idade do Ferro com a cabeça cortada porque diz-se que assim assustavam o gado que passava pela arcada), núcleo central composto por igreja, Pelourinho, tribunal e câmara. 
 
 
 
 
 
Algumas das casas possuem pormenores interessantes e mantém-se também aqui em algumas delas a ideia de primeiro piso para loja e segundo piso para habitação com acesso por escada exterior.
 
 
Mais interessante, porém, é apreciar parte da muralha com construções que lhe estão adossadas, logo a muralha desempenha aqui ao mesmo tempo também funções de residência.
 
 
Mas o lugar mais fantástico de Castelo Mendo e que torna definitivamente a aldeia inesquecível e surpreendente é o seu Castelo, designadamente a ruína da Igreja de Santa Maria do Castelo. 
 
 
 
 
 
Implantada num local na rocha mais elevado relativo à povoação e rodeada por uma paisagem fabulosa, esta igreja românica possui um ambiente misterioso. Já perdeu a sua cobertura praticamente toda daí que uma vez lá dentro a percorramos a céu aberto. A sequência de arcos é incrível, assim como os detalhes que ainda subsistem, como pias, púlpitos, mesas de altar, colunas e pedra de armas.
Uma constante na visita a estas “aldeias históricas” despovoadas, algo remotas, em rocha e com ruínas aqui e ali é utilizar-se termos como “viagem no tempo”. Em nenhum outro lugar de nenhuma outra destas aldeias históricas essa viagem foi tão marcante e longínqua como nesta visita à Igreja de Santa Maria do Castelo Mendo.

Sortelha

A aldeia da Sortelha, concelho de Sabugal, no distrito da Guarda, é um lugar absolutamente surpreendente. À semelhança de Monsanto, situa-se numa colina e a paisagem ampla ao seu redor é marcada por pedras e penedos de formas irreais. 
 
 
Alguém já se lhes referiu mesmo como “magníficos monumentos”. 
 
 
Subimos a dita colina plantada a cerca de 760 metros de altitude e após deixarmos o actual núcleo povoado da aldeia adentramos a Porta da Vila e todo um outro mundo se nos oferece. Digo actual núcleo povoado porque este que queremos visitar, o antigo núcleo urbano muralhado, já não tem lá nenhum habitante. É uma aldeia deserta mas com as casas praticamente todas conservadas. Como se os seus habitantes tivessem saído à pressa e não nos esperassem. 
 
 
 
 
 
 
Deambulei pelo seu mundo de pedra sozinha. O único local com quem me cruzei ainda me perguntou, depois do meu bom dia, se andava a visitar as pedras, mas logo corrigiu sorrindo, “são bonitas”. E são mesmo. 
Este mundo encantado é feito de ruas de pedra, casas de pedra, igrejas de pedra, castelo de pedra e uma muralha de pedra que tudo rodeia. As ruas são estreitas e inclinadas. Quem aqui construiu as casas teve também imaginação para vencer o terreno declivoso.
 
 
De características medievais, a fortificação e posterior cidadela da Sortelha remonta ao século XII. Em 1181 D. Sancho I começou por povoar o lugar e em 1228 D. Sancho II concedeu-lhe foral e construiu o castelo.
 
Não se conhece com certeza a origem do topónimo “sortelha”. Várias hipóteses têm sido aventadas, a maior parte delas remetendo para a ideia do traçado oval – forma de anel – do seu aglomerado urbano. Diz-se que as palavras Sortija, Sortília ou Sorteia eram palavras que designavam um jogo medieval em que os cavaleiros usavam um anel onde tentavam colocar a sua lança. Outros dizem que a palavra Sortel significava anel de pedra com poderes especiais que era usado por magos e feiticeiras. Há quem defenda ainda que Sortelha deriva da palavra Sortícula, que significa pequena parcela agrícola. Há muito por onde se escolher, já se vê. 
 
 
O que é certo é que a Sortelha é efectivamente um lugar propício para deixar a nossa imaginação fluir. Quando nos aborrecermos de caminhar entre os edifícios de granito cá em baixo, podemos sempre optar por subir à muralha e caminhar pelas suas ameias e outras vistas se nos abrirão. O vasto horizonte da Serra da Malcata e Cova da Beira não nos distraí, porém, do casario simples mas encantador da Sortelha que temos ali aos nossos pés.
 
 
 
O Castelo foi erigido no cimo de num penhasco e é, mais uma vez, uma criação do Homem a expensas da Natureza. O melhor enquadramento visual do formoso Castelo obtém-se do cimo da muralha. As vistas são imbatíveis para onde quer que dirijamos o nosso olhar. Lá de cima do Castelo, então, perdemo-nos em jogos tentando enquadrar de forma mais singular o granito, a telha e as ameias.
 
 
 
 
 
A entrada para o Castelo faz-se do Largo do Pelourinho, onde encontramos também a Casa da Câmara e a Cadeia. 
 
 
 
Aqui perto (aqui tudo é perto) fica a Igreja Matriz e a Torre Sineira ou Campanário.
Os edifícios não são muito distintos, mas bem conservados valem a pena ser apreciados. Destaque para a Casa n. 1 (logo à entrada), a casa com janela manuelina e a Casa Árabe. E, claro, para as belas rochas. E os gatinhos, habitantes em maioria na aldeia. Ah, e pudessem as fotos transmitir o cheirinho das figueiras da Sortelha…
 
 
 

Monsanto

 
À aproximação de Monsanto vamos vendo ao longe um cabeço com pontinhos vermelhos. Não fossem as telhas e não diríamos que aí pudesse estar uma povoação.
 
Este parece ser um lugar improvável para um assentamento habitacional, dada a sua geografia. Mas em tempos que já lá vão, esta encosta de granito altaneira serviu de protecção aos ataques inimigos mouros. As ruínas do Castelo, a quase 800 metros de altitude, lá estão para o provar, planície ampla toda aberta à nossa vista.
 
 
 
No sopé deste Castelo, que até chegou a ser mouro e depois foi dos templários, ergue-se a aldeia de Monsanto com as enormes e formosas rochas como vigia.
 
Ainda hoje é difícil não recordarmos o título que lhe foi atribuído em 1938 pelo então Secretariado da Propaganda Nacional do Estado Novo, o de “aldeia mais portuguesa de Portugal”.
 
A verdade é que Monsanto é bonita. É o pela sua localização fabulosa, pelos elementos naturais que lhe fazem companhia, pelo casario bem preservado e pela atmosfera que soube manter e até recriar.
 
 
 
 
 
 
 
As suas casas de pedra aproveitam os penedos ali presentes na paisagem. Umas casas estão encostadas à rocha, outras fazem uso do interior destas grutas para delas fazerem divisões, alguns pedaços das rochas são mesmo os degraus das casas. Em resumo, as rochas podem ser o chão, a parede ou o telhado das casas de Monsanto. E as rochas deixam caminhos tão estreitos tão estreitos que por vezes parece difícil conseguirmos por lá passar.
 
 
 
 
 
A Torre do Relógio, ou Torre de Lucano, é elegante e o seu sino vai-nos informando das horas. O galo de prata que a encima é a réplica do galardão conquistado em 1938.
 
Não são muitos os habitantes da aldeia de Monsanto, cerca de 80. Mas existem diversos povoados à sua volta que fazem este número subir. De qualquer das formas, para além de poucos junta-se um outro problema, o envelhecimento da população – entre 2014 e 2016 Monsanto esteve sem a escola de ensino básico. Aliás, Idanha-a-Nova, concelho a que pertence Monsanto, tem hoje quase quatro vezes menos habitantes do que tinha em 1950 e é o terceiro concelho do país com menos gente em comparação com a sua dimensão territorial. A desertificação é uma realidade nesta zona do interior de Portugal. 
 
Ainda assim, há quem contrarie a norma e quem volte. Como um casal jovem dos arredores de Lisboa que ali se estabeleceu para abrir uma pizzaria ou um casal de reformados que retornou à sua terra e se dedica ao artesanato local. Ele faz as cruzes, ela a marafona que as irá revestir. Mas não são os únicos a dedicarem-se à arte da confecção das típicas bonecas de trapo sem olhos e boca, recordação típica da região. Se não há crianças suficientes em Monsanto para uma uma disputa de bola, as rivalidades entre velhinhas que vendem marafonas estão ao rubro, a tal ponto que o desabafo de uma delas surge agreste: “quando ela está para ali mais ninguém vende”.
 
 
As tradições locais marcam presença com a Festa das Cruzes, celebrada a 3 Maio (dia de Santa Cruz) ou no domingo seguinte a este. As mulheres sobem até ao Castelo e vão cantando e tocando adufes, um instrumento musical tradicional da Beira Alta revestido de pele de cabra, com pequenas peças de tecidos coloridos nos cantos e com sementes no interior que lhe dão uma sonoridade característica. Das muralhas deitam um pote com flores, recriando um gesto de há séculos quando num dos muitos cercos a que os habitantes de Monsanto estiveram sujeitos nesse mesmo local um dos sitiados deitou um pote com um bezerro para mostrar que estavam bem alimentados, ajudando a que o então cerco fosse levantado.
 
 
E Monsanto retém uma aura de mistério. Aqueles penedos estão cheios de lendas. Diz-se que são o lugar de esconderijo de monstros e mouras encantadas.
 
 
 
 
Num dos penedos para os lados do castelo e para lá da Capela de São Miguel e da Necrópole, por exemplo, fica a Laje das Treze Tigelas ou das Tigelinhas da Fidalga. Aqui encontramos umas covas redondas na rocha que ora são associadas a um ancestral santuário, ora uma lenda nos explica a sua origem atribuindo-a à caridade de uma senhora nobre que aqui vinha servir sopa aos pobres. Mas para nos trazer de volta à realidade, parece que tal se deve na verdade a uma questão natural, qualquer coisa relacionada com a génese magmática da rocha que formou estas irregularidades na rocha granítica. Nada, porém, que nos faça perder o encanto por Monsanto.
 
E Monsanto será para sempre também o lugar onde Fernando Namora viveu o seu início de carreira como médico. Placas informam-nos a casa onde habitou e a casa onde deu consultas. Os seus livros mostram-nos a marca de outros tempos onde o território marcava indelevelmente não só a paisagem mas também a (dura) vida das pessoas. Uma excelente leitura como complemento desta viagem.

Castelo Novo

Castelo Novo, no concelho do Fundão, está instalada na encosta da Serra da Gardunha, por esta altura negra por obra dos fogos.
A 650 metros de altitude, é uma das aldeias históricas do nosso país, bem conservada e com uma praça monumental singular. E possui o castelo que lhe dá nome, claro. 
Começando por aqui.
 
 
 
Do alto do Castelo a vista para a Serra é hoje triste, mas fantasticamente linda e limpa ontem e será novamente em breve. A ironia, esta é terra de águas: Gardunha, Alardo…
No núcleo do Castelo encontramos a Igreja Matriz e a Torre de Menagem que se avista ao longe, mesmo antes de entrarmos na aldeia.
 
 
Castelo Novo tem pergaminhos na história de Portugal. Pertenceu à Ordem dos Templários na sequência da doação que lhe foi efectuada pelos reis portugueses para que a Ordem promovesse e assegurasse estes territórios da Beira conquistados aos mouros no século XIII. D. Manuel I concedeu-lhe foral e Castelo Novo tomou um traçado tipicamente medieval. 
 
 
De configuração circular, dada a topografia o terreno é irregular e as vielas desenvolvem-se num constante sobe e desce, labirínticas, todas elas indo desembocar na Praça dos Paços do Concelho.
 
 
 
Este é um conjunto arquitectónico surpreendente e invulgar, com três elementos em destaque. A Casa da Câmara e o Pelourinho manuelinos e o Chafariz barroco. Em relação à Casa da Câmara desconhece-se a sua função inicial, mas crê-se que date do século XIII e que tenha sofrido alterações no século XV com D. Manuel I. É visível a Cruz de Cristo na sua fachada. Este edifício foi utilizado como Paços do Concelho e como Cadeia. Já o Chafariz de três bicas possui as armas de D. João V.
 
 
Mas a maioria dos edifícios de Castelo Novo são de habitação popular. Edifícios de dois pisos em granito, os mais típicos com piso térreo para loja e superior para habitação. Uma curiosidade, o acesso faz-se não pela rua, mas antes por umas escadas exteriores. 
 
 
 
 
Encontram-se, porém, umas casas remodeladas e muito alindadas, cada uma com o seu colorido, que embora de dois pisos contrariam o anteriormente exposto no que respeita à consideração loja e escada exterior.
 
Lado a lado com estes edifícios de habitação popular, um ou outro solar a atestar a nobreza da aldeia. E a arquitectura religiosa também não podia faltar. 
 

Aldeias Históricas

Adeus, ó terra
Adeus, ó terra
Adeus, linda serra, 
De neve a brilhar, 
Adeus, aldeia, 
Que eu levo na ideia
De não mais cá voltar.

Esta a letra do filme Maria Papoila, de Leitão de Barros, do ano de 1937. Oitenta anos depois, promessa cumprida, não mais se voltou à aldeia e o padrão comum na Beira Interior é o despovoamento.

12 “aldeias” juntaram-se no Programa Aldeias Históricas de Portugal e se não têm conseguido reverter aquele rumo, têm pelo menos vindo a conseguir reabilitar o património edificado e trazer visibilidade às suas terras, muitas delas outrora territórios estratégicos na raia de fronteira.

São elas Trancoso (cidade), Almeida, Belmonte, Castelo Novo, Castelo Rodrigo e Monsanto (vilas), Castelo Mendo, Idanha-a-Velha, Linhares da Beira, Marialva, Piodão e Sortelha (aldeias).

Destas, apenas não conheço Linhares da Beira e neste périplo apenas não passeei por Belmonte e Piodão.


O Piodão é, porém, aquela que melhor conheço e à que mais volto (aquiaqui aqui) e tem, forçosamente, de estar em qualquer top 5 destas aldeias, pelo que lhe junto agora as outras 4 neste meu top particular: Castelo Novo, Monsanto, Sortelha e Castelo Mendo.

Piodão – Foz de Égua – Piodão

Este percurso circular tem cerca de 7 km. 
 

 

Bem sinalizado no Piodão através de placas, subimos até ao cemitério para iniciar o percurso que nos levará a Foz de Égua. O caminho é fácil fisicamente e gratificante visualmente. Rapidamente nos sentimos esmagadas pela paisagem da Serra do Açor, montes com vegetação a envolverem-nos no vale. 
 

 

 

 
Do lado contrário onde seguimos caminho – e aquele por onde retornaremos – vamos vendo desfilar pela encosta uma série de casas em xisto abandonadas. Perguntamo-nos se alguém alguma vez terá vivido naquele isolamento ainda maior, ou se apenas foram em tempos casas de arrumos de material ou de animais. 
 

 

 

 
Os socalcos marcam presença e observando bem conseguimos destrinçar neles casas em fila. 
Lá bem em baixo segue o rio.
 

 

 
 

 

 

 

 
 
Apesar da alegre caminhada, saudamos a chegada ao lugar de Foz de Égua. Uma vez mais, casas em xisto debruçadas na paisagem. E uma praia fluvial para refrescar. Sobre as ribeiras do Piodão e de Chãs de Égua temos uma ponte de madeira em U que balança sem parar e parece poder ceder a qualquer momento. Não me aventuro a atravessá-la e faz-me impressão só de ver tremelicar nos ares quem o faz. 
O momento kitsch do passeio acontece num plano mais elevado na paisagem, onde foram construídas umas indescritíveis capelas.
 

 

 

 

 

 

 
Adiante que é hora de regressar.
 

 

 

Seguindo pela outra margem do rio, o percurso é menos frequentado e menos fácil. Mas só o seu início, pois há que subir a bom subir por terreno pedregoso e algo instável. Depois de seguir um pouco pelo asfalto voltamos ao caminho e ficamos com os socalcos mesmo à mão de semear. Ainda se vêem pessoas a trabalhar a terra. Grande parte do caminho é percorrido junto a uma levada e em todo o percurso o som da água é uma companhia constante e amiga, embora mais profunda nesta parte. 
 

 

 

Passamos mais uma pequena ponte com um fiozinho de água a correr nas paredes que lhe protegem as costas e logo começamos a sentir o anfiteatro do Piodão mesmo à nossa frente. Deve haver poucos lugares melhores do que este para se ficar face a face com o maior conjunto de casas de xisto e telhado de lousa. Ainda para mais, pronto a ser contemplado em plena solitude, como manda a tradição.
 

 

Piodão

O Piodão costuma carregar consigo todos os clichês que se podem imaginar. Desde o “aldeia mais típica de Portugal” ao “aldeia presépio”, tudo serve para a adjectivar. Até o Huffington Post se lhe referiu o ano passado como a “adorável aldeia portuguesa que parece saída dos Flinstones”.
Não estamos na idade da pedra, mas é uma pedra / rocha que faz a fama da aldeia do Piodão.
O xisto é o rei por estas terras e o Piodão é apenas o lugar onde ele está mais concentrado como material utilizado para os edifícios – casas, sim, mas também pontes, degraus e caminhos.



Pese embora os clichês, é uma realidade a delícia que é confundirmos desde longe o casario instalado numa parede do vale, como se de socalcos se tratasse, mais parecendo casinhas de brincar, e irmo-nos aproximando e distinguindo cada vez melhor esse casario da terra onde está instalado. 




As portas e janelas carregadas de tinta azul viva ajudam a quebrar a monotonia monocromática deste pedaço da Serra do Açor. Com efeito, desde a integração do Piodão no projecto das Aldeias Históricas de Portugal, todas as casas em cimento e telhados de telha têm vindo progressivamente a ser convertidas em casas de paredes de xisto e telhados de lousa, no sentido de recuperarem os materiais tradicionalmente utilizados na região.
Resultado? As casas agora bem restauradas e conservadas são um mimo. 


Apenas a igreja alvíssima destoa da paisagem, ainda que no bom sentido, adornando-a ainda mais. 
Diz-se que foi mandada construir por um padre vindo do Alentejo, tendo aqui replicado as cores brancas da sua terra.

(no mau sentido, ou pelo menos num sentido estranho, as antenas brancas da Meo e da Nós marcam também hoje a paisagem de uma forma intensa)



As pequenas ruas da aldeia não são fáceis de percorrer, quer pelo seu piso sinuoso quer pelo seu declive acentuado. Todavia, tal só lhe confere ainda mais carácter e valoriza a experiência de se percorrer um povoado característico.


O Piodão foi desde sempre uma região muito isolada. Diz-se que os criminosos fugiam para lá e que sentiam estar no “pior do mundo” – o “piodam” entretanto transformado com o tempo em Piodão. Historicamente não se sabe com certeza quando começou a sua habitação. Como havia já referido a propósito de um post sobre Aldeia das Dez (a cuja freguesia o Piodão chegou a pertencer), um recenseamento joanino de 1527 informava ter o Piodão nessa época dois habitantes. Talvez pastores de rebanhos. Ou certamente dedicados à agricultura. Estas duas actividades são ainda nos nossos dias as predominantes entre os habitantes da aldeia, sendo visível o cultivo de algumas (poucas) terras na sua envolvente.



Hoje parte do concelho de Arganil, o Piodão é a zona mais turística da região. Pequena como é, não é fácil dividir o espaço com os outros enquanto caminhamos pelas suas ruas estreitas e num dia de calor deve mesmo ser impossível compartilhar a sua praia fluvial com os magotes de visitantes. Impossível, igualmente, evitar as muitas bancas com artesanato e produtos gastronómicos locais. 
O isolamento acabou.

Avô


Avô, tal como Aldeia das Dez, é uma freguesia do concelho de Oliveira do Hospital. E como Aldeia das Dez, também, tem um topónimo curioso. A palavra “avô” derivou aqui da palavra “vau”, cujo significado é baixio, lugar do rio onde se pode passar a pé. E era precisamente isso que se conseguia fazer em tempos remotos nesta que costuma ser considerada “uma das aldeias mais bonitas de Portugal”. A Ribeira de Pomares (rio Moura) possuía um caudal fraco e era por ela que se entrava na povoação. Esta ribeira junta-se ao rio Alva e os dois formam uma deliciosa praia fluvial que mais parece um lago. Melhor. A sua união deixou que se formasse uma ilha no meio, a ilha do Picoto.


Era para aqui que vínhamos dar um mergulho no rio quando éramos pequeninas e os pais estavam connosco na Beira. A mãe até hoje não se cansa de lembrar que foi ali, naquele género de areia à beira do rio, que tirou a fotografia em que estamos enroladinhas na toalha. A água era fria, mas isso nunca fez diferença. Como é mais distante do que a Ponte das Três Entradas desde Aldeia das Dez, para Avô vínhamos também sobretudo aos fins-de-semana com os primos. Olhando hoje o minúsculo ringue que fica na ilha até custa a acreditar que algum adulto lá pudesse jogar à bola, mas é disso que me lembro. Disso e de se comer os meus detestados peixes do rio. Nisso continua tudo igual.


Avô é, pois, o rio e, claro, a sua ponte. A ponte é muito alta mas pouco comprida. Ainda recordo os rapazes a saltar lá de cima, o que parece impossível hoje, tão juntas estão as pedras lá no fundo da água claríssima.



A entrada em Avô para quem vem das Vendas de Galizes tem início uns quilómetros antes de se chegar efectivamente à povoação. Antes de começarmos a descer, há que parar nas Varandas e perceber Avô e toda a sua envolvente. Aqui deparamo-nos com os primeiros dos muitos versos que iremos ler em toda a vizinhança. Avô é terra de poetas e um dos seus maiores, Doutor Vasco Campos, partilha connosco:

“D’estas varandas se alcança 
A Serra montes a fio…
E lá no fundo Avô, 
Velhinha sempre criança 
A espelhar o seu brio
Nas águas mansas de um rio 
Onde o meu sonho ficou.”

Avô é a sua ponte, o seu castelo e a sua igreja. 
Já tínhamos pensado nisso, mas outro poeta, já não nosso contemporâneo, Brás Garcia Mascarenhas, confirma-nos:

“Os bosques, em que está, vê deleitosos
A ceres loura, e a flora jardineira;
Vê nascer entre os rios caudalosos
Nobre vila em península guerreira,
Que com três edifícios sumptuosos,
Ponte, castelo, igreja. Honrando a beira
Enobrece Diniz, segundo brigo, 
Novo restaurador do reino antigo.”

A história de Avô é remota e teve início antes mesmo dos romanos aí se estabelecerem e aí fazerem passar a Via Imperial. Os romanos, esses, terão sido atraídos pelo ouro e chumbo que existiam nas margens do rio Alva. No século VIII vieram os muçulmanos e no século XI os cristãos. Avô foi couto de D. Afonso Henriques antes mesmo da criação do Reino de Portugal e sobre umas ruínas romanas o nosso primeiro rei aqui mandou edificar o castelo de que hoje sobram ruínas e uma muito bem perceptível muralha. Altaneiro, daqui se obtém uma vista bem bonita para o verde da paisagem e os telhados ocres do casario. 




O caminho até ao castelo faz-se subindo por ruas estreitas e cheias de cotovelos que não escondem o traçado medieval da povoação. O edificado está não só bem conservado como bem cuidado. Esta também é uma aldeia das flores.




De volta à parte baixa de Avô, deparamo-nos com os antigos Paços do Concelho. Praça bonita, uma vez mais bem cuidada, lembra-nos que Avô foi sede de concelho até ao século XIX, quando passou a estar integrada no concelho de Oliveira do Hospital.


Restam algumas capelas antigas pitorescas por Avô. Para além da Capela de São Miguel, à entrada do Castelo, destaque para a Capela de Santa Quitéria, um pouco escondida à entrada da ponte sobre o Alva. Do outro lado da estrada fica a igreja matriz de Avô datada do século XVI, embora tenha sido posteriormente reedificada, e à qual foi construída no lugar em que D. Afonso Henriques havia fundado uma igreja.


História, beleza e lazer, é o que Avô nos tem para oferecer.