Castelo Rodrigo

No dia da minha visita a Castelo Rodrigo iria realizar-se pela noite o concurso das 7 aldeias maravilha de Portugal e Castelo Rodrigo estava entre as finalistas na categoria “aldeias autênticas”. Orgulhosos, os locais exibiam as suas t-shirts apelando ao voto na sua aldeia. Demos todos sorte: Castelo Rodrigo ganhou (desculpa lá, Podence, fui visitar-te com uns dias de atraso).
E só podem estar orgulhosos pelo trabalho de restauro e preservação que tem vindo a trazer uma nova vida à vila nos últimos tempos, muito por obra da dinâmica do turismo rural.



Instalada no topo de um cabeço, a vila de Castelo Rodrigo possui muralha desde o tempo de D. Dinis, que conquistou a terra e a mandou reforçar (com trabalhos posteriores no tempo de D Manuel I, que nos deu a configuração actual). Castelo Rodrigo veio a ser integrada no reino de Portugal em 1297 pelo Tratado de Alcanizes, como todas as terras de Riba-Côa e, mais tarde, foi cenário de um dos acontecimentos chave das guerras da Restauração. Pergaminhos na história de Portugal não lhe faltam. Mas, curiosamente, o seu topónimo é o mesmo da vizinha cidade espanhola (Ciudad Rodrigo) e evoca a memória do campeador Rodrigo Diaz de Bivar, “El Cid”, herói lendário da Reconquista.




Povoado pequeno, a visita ao seu castelo em ruínas oferece-nos um ambiente místico, num claro contraste com a alegria da decoração das ruas e casas em pedra de ar barroco.








Marialva


Marialva situa-se no topo de um cabeço. A meia encosta fica Devesa, a povoação onde está hoje a esmagadora maioria dos seus habitantes. 
Lá em cima, na cidadela medieval restam as ruínas e uma viagem no tempo onde podemos dar largas à nossa imaginação no esforço de recriarmos aquele que nos séculos XII e XIII foi um próspero burgo. 





Dentro desta cidadela muralhada encontramos a Torre de Menagem, o largo onde ficava o Pelourinho e a sua cisterna e o edifício da câmara, tribunal e cadeia com campanário. Tudo em ruínas. Conservadas apenas permanecem a Igreja de Sao Tiago e a Capela do Senhor dos Passos. 


D. Afonso Henriques concedeu-lhe foral em 1179 e até ao século XVIII foi vila importante e recebia feira até que entrou em decadência. O que não decairá nunca (espera-se) é a vista altaneira e desafogada desde a sua cidadela.


Sobre o nome de Marialva, conta a lenda que Maria Alva era uma linda donzela que a todos intrigava por usar sempre saias de arrastar. Tinha muitos pretendentes mas dizia só casar com aquele que lhe fizesse uns sapatos à medida. Baltazar, sapateiro, combinou com a criada de Maria Alva colocar farinha no chão para conseguir as marcas dos seus pés e assim viu que a rapariga possuía pés de cabra, o que logo anunciou a toda a vila. Maria Alva atirou-se da torre do castelo, morrendo, e a povoação ganhou o seu nome.

Trancoso e Almeida

Estas são as duas maiores povoações destas 12 “Aldeias Históricas”, sendo Trancoso a única cidade deste conjunto.



Trancoso é uma povoação com uma muralha medieval e com um centro histórico interessante, mescla de edifícios civis e religiosos. Antiga cidade de fronteira, foi decisiva para a consolidação do nosso reino. Marcante igualmente pela sua antiga judiaria. 



Já Almeida, notícia nos últimos tempos pelo fecho do seu balcão da Caixa Geral de Depósitos (mais um sinal do descaso pelo interior), é um lugar que vale a visita nem que seja apenas pela sua gigantesca fortaleza hexagonal. 




Esta muralha em forma de estrela, com seis baluartes, é um exemplo extraordinário de arquitectura militar que cativará mesmo quem não se costuma agradar com o género. Só mesmo a história nos ajuda a explicar o porquê da necessidade de construir um colosso daqueles no meio daquela paisagem infinita de nada, onde hoje apenas restam cabras e rebanhos a pastar e os únicos inimigos parecem ser os latidos estridentes dos cães que as guardam. 



Ao redor desta Praça Forte foi-se desenvolvendo Almeida de uma forma coerente e compacta, fazendo da visita à vila um passeio prazeroso.

Idanha-a-Velha

Idanha-a-Velha, concelho de Idanha-a-Nova, é parceira de Monsanto na união de freguesias. E o Castelo de Monsanto e seus penedos altaneiros guardam-na gentilmente.
Idanha-a-Velha fica já cá em baixo, na planície a que também não faltam rochedos. Esta pequena aldeia é dona de ruínas milenares. Em tempos foi próspera, uma vez que se situava junto a uma das principais estradas romanas. Ainda hoje podemos observar a ponte de origem romana sobre o Rio Ponsul, com os seus pequenos arcos. 


Dois elementos se destacam no imediato na paisagem: a Catedral Visigótica e a Casa da Família Marrocos. 


A Catedral apresenta uma mistura de estilos, uma vez que foi reconstruída por diversas vezes ao longo dos tempos. Sucesso é, nos dias de hoje, o ninho de cegonhas no topo da sua torre. 


A Casa da Família Marrocos é uma construção do século XX. Inacabada. Ao estilo Português Suave. 
Diria, era para ser mas não foi. 
Como a aldeia. Foi mas já não é.

Castelo Mendo

Ainda pensei saltar Castelo Mendo e seguir logo para Almeida, concelho de que faz parte, e Castelo Rodrigo, mas felizmente saí da Guarda bem cedo e acompanhada pelas cabras, e só por elas, atravessei a sua porta principal, virada a norte, e pude visitá-la e deixar-me por ela encantar. 




Avistava já uma aldeia muralhada de longe, desde a estrada, esta povoação que deve o nome Mendo a um antigo fidalgo alcaide da praça. Hoje quase na fronteira de Vilar Formoso, ali a um passinho de Espanha, Castelo Mendo fica no cimo de um afloramento granítico onde o rio Côa passa perto. 


D. Sancho I encontrou esta terra despovoada e arrasada em consequência das lutas entre mouros e cristãos e mandou reedificar o castelo. Hoje serão menos de 50 as pessoas que habitam a aldeia intra muralhas.

Diz-se que Castelo Mendo foi o lugar da realização da primeira feira franca do reino, em 1229, e só por aí já se pode medir a sua importância histórica. De mesma data o foral concedido por D. Sancho II. No mais, é uma povoação com características como outras da Idade Média: cercada por muralha, entrada principal ladeada por duas torres (com a piada de ter aqui dois “beirões” de cada lado, isto é, duas estátuas da Idade do Ferro com a cabeça cortada porque diz-se que assim assustavam o gado que passava pela arcada), núcleo central composto por igreja, Pelourinho, tribunal e câmara. 





Algumas das casas possuem pormenores interessantes e mantém-se também aqui em algumas delas a ideia de primeiro piso para loja e segundo piso para habitação com acesso por escada exterior.


Mais interessante, porém, é apreciar parte da muralha com construções que lhe estão adossadas, logo a muralha desempenha aqui ao mesmo tempo também funções de residência.


Mas o lugar mais fantástico de Castelo Mendo e que torna definitivamente a aldeia inesquecível e surpreendente é o seu Castelo, designadamente a ruína da Igreja de Santa Maria do Castelo. 





Implantada num local na rocha mais elevado relativo à povoação e rodeada por uma paisagem fabulosa, esta igreja românica possui um ambiente misterioso. Já perdeu a sua cobertura praticamente toda daí que uma vez lá dentro a percorramos a céu aberto. A sequência de arcos é incrível, assim como os detalhes que ainda subsistem, como pias, púlpitos, mesas de altar, colunas e pedra de armas.
Uma constante na visita a estas “aldeias históricas” despovoadas, algo remotas, em rocha e com ruínas aqui e ali é utilizar-se termos como “viagem no tempo”. Em nenhum outro lugar de nenhuma outra destas aldeias históricas essa viagem foi tão marcante e longínqua como nesta visita à Igreja de Santa Maria do Castelo Mendo.

Sortelha

A aldeia da Sortelha, concelho de Sabugal, no distrito da Guarda, é um lugar absolutamente surpreendente. À semelhança de Monsanto, situa-se numa colina e a paisagem ampla ao seu redor é marcada por pedras e penedos de formas irreais. 


Alguém já se lhes referiu mesmo como “magníficos monumentos”. 


Subimos a dita colina plantada a cerca de 760 metros de altitude e após deixarmos o actual núcleo povoado da aldeia adentramos a Porta da Vila e todo um outro mundo se nos oferece. Digo actual núcleo povoado porque este que queremos visitar, o antigo núcleo urbano muralhado, já não tem lá nenhum habitante. É uma aldeia deserta mas com as casas praticamente todas conservadas. Como se os seus habitantes tivessem saído à pressa e não nos esperassem. 






Deambulei pelo seu mundo de pedra sozinha. O único local com quem me cruzei ainda me perguntou, depois do meu bom dia, se andava a visitar as pedras, mas logo corrigiu sorrindo, “são bonitas”. E são mesmo. 
Este mundo encantado é feito de ruas de pedra, casas de pedra, igrejas de pedra, castelo de pedra e uma muralha de pedra que tudo rodeia. As ruas são estreitas e inclinadas. Quem aqui construiu as casas teve também imaginação para vencer o terreno declivoso.


De características medievais, a fortificação e posterior cidadela da Sortelha remonta ao século XII. Em 1181 D. Sancho I começou por povoar o lugar e em 1228 D. Sancho II concedeu-lhe foral e construiu o castelo.

Não se conhece com certeza a origem do topónimo “sortelha”. Várias hipóteses têm sido aventadas, a maior parte delas remetendo para a ideia do traçado oval – forma de anel – do seu aglomerado urbano. Diz-se que as palavras Sortija, Sortília ou Sorteia eram palavras que designavam um jogo medieval em que os cavaleiros usavam um anel onde tentavam colocar a sua lança. Outros dizem que a palavra Sortel significava anel de pedra com poderes especiais que era usado por magos e feiticeiras. Há quem defenda ainda que Sortelha deriva da palavra Sortícula, que significa pequena parcela agrícola. Há muito por onde se escolher, já se vê. 


O que é certo é que a Sortelha é efectivamente um lugar propício para deixar a nossa imaginação fluir. Quando nos aborrecermos de caminhar entre os edifícios de granito cá em baixo, podemos sempre optar por subir à muralha e caminhar pelas suas ameias e outras vistas se nos abrirão. O vasto horizonte da Serra da Malcata e Cova da Beira não nos distraí, porém, do casario simples mas encantador da Sortelha que temos ali aos nossos pés.



O Castelo foi erigido no cimo de num penhasco e é, mais uma vez, uma criação do Homem a expensas da Natureza. O melhor enquadramento visual do formoso Castelo obtém-se do cimo da muralha. As vistas são imbatíveis para onde quer que dirijamos o nosso olhar. Lá de cima do Castelo, então, perdemo-nos em jogos tentando enquadrar de forma mais singular o granito, a telha e as ameias.





A entrada para o Castelo faz-se do Largo do Pelourinho, onde encontramos também a Casa da Câmara e a Cadeia. 



Aqui perto (aqui tudo é perto) fica a Igreja Matriz e a Torre Sineira ou Campanário.
Os edifícios não são muito distintos, mas bem conservados valem a pena ser apreciados. Destaque para a Casa n. 1 (logo à entrada), a casa com janela manuelina e a Casa Árabe. E, claro, para as belas rochas. E os gatinhos, habitantes em maioria na aldeia. Ah, e pudessem as fotos transmitir o cheirinho das figueiras da Sortelha…



Monsanto


À aproximação de Monsanto vamos vendo ao longe um cabeço com pontinhos vermelhos. Não fossem as telhas e não diríamos que aí pudesse estar uma povoação.

Este parece ser um lugar improvável para um assentamento habitacional, dada a sua geografia. Mas em tempos que já lá vão, esta encosta de granito altaneira serviu de protecção aos ataques inimigos mouros. As ruínas do Castelo, a quase 800 metros de altitude, lá estão para o provar, planície ampla toda aberta à nossa vista.



No sopé deste Castelo, que até chegou a ser mouro e depois foi dos templários, ergue-se a aldeia de Monsanto com as enormes e formosas rochas como vigia.

Ainda hoje é difícil não recordarmos o título que lhe foi atribuído em 1938 pelo então Secretariado da Propaganda Nacional do Estado Novo, o de “aldeia mais portuguesa de Portugal”.

A verdade é que Monsanto é bonita. É o pela sua localização fabulosa, pelos elementos naturais que lhe fazem companhia, pelo casario bem preservado e pela atmosfera que soube manter e até recriar.







As suas casas de pedra aproveitam os penedos ali presentes na paisagem. Umas casas estão encostadas à rocha, outras fazem uso do interior destas grutas para delas fazerem divisões, alguns pedaços das rochas são mesmo os degraus das casas. Em resumo, as rochas podem ser o chão, a parede ou o telhado das casas de Monsanto. E as rochas deixam caminhos tão estreitos tão estreitos que por vezes parece difícil conseguirmos por lá passar.





A Torre do Relógio, ou Torre de Lucano, é elegante e o seu sino vai-nos informando das horas. O galo de prata que a encima é a réplica do galardão conquistado em 1938.

Não são muitos os habitantes da aldeia de Monsanto, cerca de 80. Mas existem diversos povoados à sua volta que fazem este número subir. De qualquer das formas, para além de poucos junta-se um outro problema, o envelhecimento da população – entre 2014 e 2016 Monsanto esteve sem a escola de ensino básico. Aliás, Idanha-a-Nova, concelho a que pertence Monsanto, tem hoje quase quatro vezes menos habitantes do que tinha em 1950 e é o terceiro concelho do país com menos gente em comparação com a sua dimensão territorial. A desertificação é uma realidade nesta zona do interior de Portugal. 

Ainda assim, há quem contrarie a norma e quem volte. Como um casal jovem dos arredores de Lisboa que ali se estabeleceu para abrir uma pizzaria ou um casal de reformados que retornou à sua terra e se dedica ao artesanato local. Ele faz as cruzes, ela a marafona que as irá revestir. Mas não são os únicos a dedicarem-se à arte da confecção das típicas bonecas de trapo sem olhos e boca, recordação típica da região. Se não há crianças suficientes em Monsanto para uma uma disputa de bola, as rivalidades entre velhinhas que vendem marafonas estão ao rubro, a tal ponto que o desabafo de uma delas surge agreste: “quando ela está para ali mais ninguém vende”.


As tradições locais marcam presença com a Festa das Cruzes, celebrada a 3 Maio (dia de Santa Cruz) ou no domingo seguinte a este. As mulheres sobem até ao Castelo e vão cantando e tocando adufes, um instrumento musical tradicional da Beira Alta revestido de pele de cabra, com pequenas peças de tecidos coloridos nos cantos e com sementes no interior que lhe dão uma sonoridade característica. Das muralhas deitam um pote com flores, recriando um gesto de há séculos quando num dos muitos cercos a que os habitantes de Monsanto estiveram sujeitos nesse mesmo local um dos sitiados deitou um pote com um bezerro para mostrar que estavam bem alimentados, ajudando a que o então cerco fosse levantado.


E Monsanto retém uma aura de mistério. Aqueles penedos estão cheios de lendas. Diz-se que são o lugar de esconderijo de monstros e mouras encantadas.




Num dos penedos para os lados do castelo e para lá da Capela de São Miguel e da Necrópole, por exemplo, fica a Laje das Treze Tigelas ou das Tigelinhas da Fidalga. Aqui encontramos umas covas redondas na rocha que ora são associadas a um ancestral santuário, ora uma lenda nos explica a sua origem atribuindo-a à caridade de uma senhora nobre que aqui vinha servir sopa aos pobres. Mas para nos trazer de volta à realidade, parece que tal se deve na verdade a uma questão natural, qualquer coisa relacionada com a génese magmática da rocha que formou estas irregularidades na rocha granítica. Nada, porém, que nos faça perder o encanto por Monsanto.

E Monsanto será para sempre também o lugar onde Fernando Namora viveu o seu início de carreira como médico. Placas informam-nos a casa onde habitou e a casa onde deu consultas. Os seus livros mostram-nos a marca de outros tempos onde o território marcava indelevelmente não só a paisagem mas também a (dura) vida das pessoas. Uma excelente leitura como complemento desta viagem.