Aldeia das Dez – Ponte das Três Entradas – São Sebastião da Feira

Este é um percurso pedestre que se faz em cerca de 3 horas.
Saímos de Aldeia pelo caminho que tantas décadas antes percorremos, seguindo por baixo do Soito Marinho, lado a lado com a casa do vale dos primos (o percurso sugerido pela Câmara Municipal de Oliveira do Hospital é no sentido contrário, com início por cima do Soito Marinho, pelas casas novas dos holandeses, mas fazendo jus ao cognome de “Aldeia das Flores” a placa a indicar o percurso pedestre por aqui está totalmente encoberta pelas ditas flores).
Desta vez não íamos com destino à Ponte carregadas nem de lençóis para lavar nem da geleira para um piquenique depois de um mergulho no rio; nem parámos a meio para dizer olá à tia enquanto cuidava das cabras no Vale Pascoal.
 

 

Não. Hoje estes caminhos já são pouco usados e isso vê-se pelo terreno não totalmente desprovido de silvas e demais vegetação. 
Mas, como sempre, a caminhada até à Ponte é agradável, apesar de os últimos metros serem percorridos por estrada.
 
 
A pequena povoação da Ponte das Três Entradas não é mais do que um lugar. Mas dada a sua localização central – e o facto de ser parte de três freguesias (Aldeia das Dez, São Sebastião da Feira e Santa Ovaia) – aqui encontramos a escola para onde todos os alunos das redondezas vêm, bem como restaurantes, um hotel acabadinho de estrear (em substituição do velhinho Italva) e um parque de campismo. 
A praia fluvial é a maior atracção da Ponte. Pudera. As suas águas são lindas.
E a Ponte, obviamente. A sua arquitectura é original, três arcos, três entradas, duas delas mais perceptíveis, a deixar caminhar sob si os rios Alva e Alvoco, afluentes do Mondego.
 
Alva
 
Alvoco
 
Alva + Alvoco = ALVA
 
 
 
Das traseiras do hotel e sempre junto ao rio Alva é menos de meia-hora de feliz caminhada até São Sebastião da Feira. Outra praia fluvial, desta vez com uma distinta nora como coadjuvante no engrandecimento da paisagem.
 

 

 
 
De volta à Ponte das Três Entradas subimos até Aldeia por outro caminho, mais distante, aquele que segue em direcção a Avô, avista-a e vira-lhe as costas para abraçar a antiga calçada romana. Desde aqui, é sempre a subir até chegarmos às ditas casas dos holandeses e começarmos a sentir a nossa Aldeia das Dez.
 
 

Vale de Maceira

Perto de Aldeia das Dez, e parte da sua freguesia, fica o lugar de Vale de Maceira com o seu Santuário de Nossa Senhora das Preces. Este é um lugar surpreendente pelo que de bonito, interessante e bucólico pode condensar num espaço tão pequeno.
Diz-se que no século XIV Nossa Senhora das Preces terá aparecido a uns jovens no Monte do Colcurinho, não muito distante daqui, e desde aí o culto foi em crescendo e o monte tornou-se local de peregrinação. Aqui foi erguida a Capela de Nossa Senhora das Necessidades, a 1242 metros de altitude, num local ermo mas donde se abarca uma paisagem esmagadora de todas as serras à volta, incluindo a do Açor, está claro, mas também a da Estrela.
(O Colcurinho é um lugar imperdível. Poucas vezes se pode obter a sensação de se tocar no céu e ser companheiro de brincadeira das estrelas como estando no alto do Colcurinho. Há muito anos que não vou lá. As memórias impedem-me. Ok, tem a paisagem. Mas só me consigo lembrar do frio e da estrada de susto que temos de ultrapassar para lá chegar.)
Voltando ao Vale de Maceira e ao seu Santuário, o espaço de peregrinação foi para aqui transferido, uns 600 metros de altitude abaixo e pouco mais de 10 kms de distância, não se sabe muito bem quando. Talvez no século XVIII. 

Envolvido pela intensa vegetação, depois de passarmos as poucas habitações do Vale de Maceira, entramos no Santuário e temos ao nosso dispor a igreja de Nossa Senhora das Preces, a maior capela. Seguem-se nas proximidades mais 12 capelas e uma 13.ª, a Capela de Santa Eufémia, mais distante e já a caminho do Piodão. Todas elas representam episódios da vida de Cristo numa caminhada aprazível para nós (as capelas foram restauradas há pouco tempo, não sem alguma polémica no que respeita à autoria dos trabalhos de restauro). Mais distante ainda fica a anteriormente referida Capela de Nossa Senhora das Necessidades, no alto do Monte do Colcurinho (a qual não é mais a original, tendo sido reconstruída diversas vezes, a última das quais não há muito tempo em consequência da sua destruição pelo fogo).
Ao redor da igreja de Vale de Maceira temos mais para nos deliciar para além das questões da fé. A vegetação e o arvoredo são esmagadores. Na pequena mata abaixo da igreja podemos apreciar uma pequena maravilha da botânica num espaço absolutamente recolhido e acolhedor. Diz-se que serão cerca de 38 as espécies botânicas passíveis de ser encontradas por aqui, para além de pequenos lagos e uma gruta em granito.

Cá em cima, junto à igreja, destaca-se o edifício da Albergaria (com possibilidade de acolher alguns peregrinos na dormida) e um belo coreto, para além de mais um lago com repuxo e um chafariz monumental.

Aldeia das Dez em fotos

Eis um passeio fotográfico por Aldeia das Dez:

Depois de passarmos o casarão dos Hall, temos logo à nossa disposição o primeiro miradouro, aquele que nos mostra a Ponte das Três Entradas e o Rio Alva lá bem em baixo 

O casarão do vale fica logo a seguir

E o palacete da tia Amélia (será sempre da tia Amélia) fica lado a lado com a capela 

 A Capela de Nossa Senhora das Dores e os seus azulejos simples

A vista fabulosa para a Serra da Estrela do Hotel Rural Quinta da Geia

As casinhas em granito sempre alindadas

É hora de subir a Rua do Forno e olhar para a ruína da Casa da Obra (ou Solar Pina Ferraz)

Ou então, avançar até à praça principal e escolher entre a esquerda e mais um miradouro ou a direita e o pelourinho e a fonte

Parece que o marco e o telefone que usávamos para enviar cartas e telefonar à mãe é agora o maior postal da Aldeia

Subindo as escadinhas encontramos a já centenária Fonte do Marmeleiro, onde a avó ia buscar água com o cantâro (muito bem) equilibrado na sua cabeça 

“Bom para limpar os sapatos”, diria a avó 

Chegamos ao adro, visitamos a igreja, ouvimos o sino, olhamos a Serra da Estrela e o Chão Sobral e descemos novamente

Olha a casa da velhinha Diná tão arranjadinha e cheia de florinhas 

Mais flores à janela

Fartas de olhar a Serra da Estrela, que tal olhar antes para a Serra do Açor?

Aldeia das Dez, das Flores, dos Miradouros

A viagem de Lisboa a Aldeia das Dez nos anos 80 era ainda um tormento. A partir de Coimbra, curvas e mais curvas. A melhor companhia não eram os pais, era antes um saquinho para as consequências do enjoo. Nos anos 90 o Ip3 atenuou parte do sofrimento e hoje cada vez mais lanços de estradas novas se vão vendo na paisagem para tornar a viagem mais rápida e confortável. Todavia, das Vendas de Galizes até Aldeia das Dez as curvas continuam. E ainda bem que continuam, são património histórico elas próprias. 

Queixas de quem já não é do tempo do quase isolamento da Aldeia, do tempo em que não havia estradas e tudo era percorrido a pé.
Começando por aqui. 
Histórias de quem ligava a pé Aldeia das Dez a Santa Ovaia, a Avó, ao Chão Sobral e a tantas outras, sempre as ouvi e até vivi algumas. Nas nossas saudosas e saudáveis intermináveis férias de Verão, a avô e as netas tinham de ir na carreira até ao Vale de Maceira e, depois, desde aí até ao Chão Sobral a pé; para um mergulho no rio íamos a pé até à Ponte das Três Entradas, lancheiras e geleiras a tira colo (a mãe até hoje se lamenta sem saudade da pouca saúde que era o programa de férias de ir lavar os lençóis ao rio – de carro, valha ao menos).

Hoje, décadas volvidas e após 10 anos sem estar / ficar em Aldeia, as distâncias parecem coisa pouca. Afinal, as coisas têm a dimensão que lhe queremos ou sabemos dar.
Aldeia das Dez é sede de freguesia, no concelho de Olivera do Hospital, e tem pouco mais de 500 habitantes.
A sua história remonta com certeza ao período da ocupação romana na Península Ibérica. Talvez antes mesmo dos romanos aqui houvesse um povoado, ainda que escassamente habitado. Mas com os romanos, a estrada militar imperial Salamanca – Conimbriga obrigava à sua guarda e conservação, exigindo a presença de alguns indivíduos em permanência nestas terras. Ainda hoje, ligando a pé Avô a Aldeia das Dez podemos encontrar vestígios da calçada romana. E no princípio do século passado foram achadas algumas moedas romanas por aqui, o que torna inequívoca a ocupação romana, tendo estes destronado os lusitanos no século II a.C. Seguiram-se os bárbaros do norte, os muçulmanos e, por fim, os cristãos.

No início a aldeia não teria o nome de Aldeia das Dez. 
Mas há registo de que já em 1527 D. João III teria mandado proceder ao numeramento da população das Beiras e aí se mencionava o lugar de Aldeia das Dez (Aldeia das Dez tinha então 49 habitantes, Avô 59, Piodão 2, Soveral – hoje Chão Sobral – 8 e Vale de Maceira 5).
O nome será, talvez, a curiosidade maior desta aldeia, sendo rara a pessoa que não indague um forte “das Dez?” como reacção à sua designação.
Várias hipóteses existem; nenhuma certeza porém.
Uma hipótese de partida é que a palavra “aldeia” é um termo árabe composto do artigo al e do substantivo diâr – há muitos séculos que se chama Aldeia a toda a parte leste de Avô. 
Depois, podemos recorrer à lenda que nos diz que durante a Reconquista cristã dez mulheres terão encontrado um tesouro numa caverna situada na encosta do Monte do Colcurinho e terão repartido esse tesouro entre si e, num pacto entre elas, passaram as suas peças de geração em geração, até hoje (o segredo deve ter sido muito bem guardado e nenhuma das minhas ascendentes me legou nada ou então a minha geração não descende de nenhuma dessas dez senhoras).
Outro dos palpites é que a aldeia antiga se terá repartido pelos povoadores em dez courelas, conforme nos dizia Diamantino Antunes do Amaral, na Voz do Santuário, em 1969.
Certo é que para além de Aldeia das Dez encontramos tradicionalmente ao seu redor mais seis casais, como Avelar, Vale de Maceira, Goulinho, Chão Sobral, Colcorinho (o ponto mais alto da freguesia, a 1240 metros de altitude e com a capela de Nossa Senhora das Necessidades no seu topo) e Gramaça. Hoje também o Cimo da Ribeira ganhou individualidade.
Fora estes, em Aldeia há diversos lugares com nome próprio como o Secolinho, Cabo Lugar, Outeiro da Cruz, Soito Meirinho e muitos mais. 
Nomes é o que não falta por aqui e fico com uma imensa pena por já não saber chegar à Regada, à Retorta, ao Samaldo, à Moenda e ao Vale Pascoal, fora todas as Tapadas que ainda são nossas.

Nos dias de hoje Aldeia das Dez está com uma forte dinâmica, sobretudo à boleia de dois factores: a construção do boutique hotel Quinta da Geia, a qual começou em 1998, e a integração da aldeia no roteiro das Aldeias do Xisto, em 2011, apesar de aqui ser o granito o rei.

Estará ainda muito bem gerida, de que são exemplos as abundantes decorações florais – esta é também conhecida como “Aldeia das Flores” – e a reutilização do edifício desde sempre conhecido como Casa da Obra, antigo Solar Pina Ferraz, para eventos cénicos, musicais e outros.

As casas da Aldeia estão bem cuidadas no geral e vemos algumas bem antigas ainda de pé e recuperadas.

As fontes são várias e bem bonitas.

Existem duas capelas e uma igreja. A igreja matriz, devotada a São Bartolomeu, é um exemplo muito interessante quer no seu exterior quer no seu interior, com destaque para o belo trabalho artístico em madeira da tribuna lateral, realizado por artesãos e técnicas locais, e para o retábulo em talha dourada.

Aqui, em Aldeia, até o cemitério velho está arranjado e é bonito, já sem as campas que nos faziam inventar cenários.
Aldeia das Dez tem ainda outro epíteto, o de “Aldeia Miradouro”. Eis porquê:

A minha Aldeia das Dez

Aldeia das Dez é e será sempre a terra da minha avó. 
Desde sempre me habituei a ouvir falar do Rato, dos Caganeiras, do Galo, dos Catitas, do Zarolho. Tudo apodos, uns levados com ofensa, outros já parte assumida da personalidade das famílias. 
O Tóino Marques subia a rua para ir tocar o sino, a Maria do Bento descia a Tapada para regressar a casa e a avó Quitas lá vinha velhinha com o seu marido Augusto Belo. A peixeira parava em frente à nossa casa e apregoava “Mariazinha, ó menina Mariazinha, quer cá peixe?”.
Ir lá baixo à Lurdes fazer recados significava ir comprar qualquer coisa ao mini-mercado; ir “lá lém” significava ir a casa das tias.
Aos domingos de manhã não podíamos sair de casa para brincar porque era a altura em que todos se dirigiam ao adro para a missa na igreja da Aldeia e nós morávamos no adro. Pior, sem contemplações a avó obrigava-nos a vestir os vestidos brancos de renda e folhos, mesmo que não saíssemos de casa, no estrito cumprimento das ordens da mãe. De tarde, mesmo com o calor no topo, lá a convencíamos a ir andar de bicicleta em consecutivas voltas à igreja, pedalando o mais rápido possível quando passávamos a porta do cemitério velho.
Daqui do adro deixávamos-nos estar a ver os foguetes disparados rumo ao céu durante as festas, não só em Aldeia mas em todas as terras vizinhas. E daqui do adro víamos aterrorizadas o fogo que demasiadas vezes consumia as terras da serra.
Muitos domingos à tarde íamos ainda ao campo de futebol e sentadas nas pedras da floresta, bancadas improvisadas, puxávamos e aplaudíamos os nossos “coxos” que tentavam jogar à bola no pelado lá em baixo.
Nas tapadas íamos buscar o material que nos permitia fazer os arcos e as flechas e as penas dos índios. Todos queríamos ser índios, nenhum cowboy.
Mas uma das maiores lembranças que trago de Aldeia das Dez está lá ainda para ser apreciada e sentida por qualquer um de nós, local ou forasteiro, visitante de sempre ou de primeira viagem: as badaladas saídas do sino a chamar para a missa, as badaladas saídas do sino a dar conta de que alguém morreu. Pura melodia.
Voltando ao início, se a minha família tem apodo, não o sei. A mim ainda hoje basta dizer que sou da Mariazinhha e antes que acrescente … do adro, já todos sabem de quem estou a falar. Pode uma senhora de 97 anos ainda carregar o cognome de Mariazinha? Pode. Bem vindo a Aldeia das Dez.

H2otel – Unhais da Serra

Em Unhais da Serra fica um dos hotéis com mais ambiente do nosso país.
A poucos quilómetros em linha recta, mas com a Serra da Estrela pelo meio para contornar, fica uma pequena Aldeia com 10 no nome onde os meus tri, bi, avós foram fazendo pela vida para que permitissem que o meu pai e eu viéssemos anos mais tarde a este mundo. Reza a lenda que o meu pai e a minha mãe usaram dos ares da Serra para que a mana pudesse hoje escrever a meu lado neste blog.
Serve este intróito para explicar a que ambiente me refiro quando penso no H2otel http://www.h2otel.com.pt
Quartos com jacuzzi ajudam.
Como a piscina exterior com água quentinha e vista próxima da montanha com neve branquíssima.
Ou os trilhos que se podem percorrer por ali caminhando de mão dada ou com mochila com material para o piquenique.
Massagens a qualquer hora do dia no spa.
Petiscos e pratos típicos a provar no restaurante próprio.
Decoração limpa e despojada.
Aproveitei a minha estadia como pude. Na companhia da mamã e da mana. Foi um bocado ao lado do que escrevi para trás. Foi bom na mesma.

Aldeia das Dez

Alcandorada na encosta Norte do Monte do Colcurinho, Serra do Açor, e sobranceira ao Rio Alvôco. É aí que se situa esta aldeia.
É uma aldeia que, como muitas outras, tem uma igreja, cujo sino toca de hora a hora, e um adro.

Tem uma banda filarmónica que toca nos dias de festa que, quando são religiosas, têm sempre uma procissão, a maior das quais no dia do padroeiro S. Bartolomeu (24 de Agosto).

É uma aldeia em que, como todas as outras por este país, nas festas as mulheres dançam com as mulheres porque os homens preferem o tintol.
É uma aldeia onde é possível ter uma aula de astronomia a céu aberto porque o ar é impoluto.
Uma aldeia rodeada por pinhal e com vistas desafogadas, serenas e bonitas. Uma aldeia que funciona como miradouro, pois é possível avistar o topo do Colcurinho, a Serra da Estrela e outras aldeias serranas.

Uma aldeia onde se fazem e se come cavacas e tijelada.
Esta aldeia podia ser como muitas outras espalhadas por aí. Mas não. Esta é especial. É aqui que estão as minhas origens familiares paternas. Onde passava, quando era miúda, Verões intermináveis e despreocupados. Dias que começavam com o despertar ao som único do sino da igreja. Que eram passados a andar de bicicleta à volta do adro da igreja. A tentar jogar à bola também no adro da igreja. Embora esta missão fosse quase impossível porque havia, para algumas mentes, um conflito entre o sagrado e o profano (!!??). A brincar aos índios e cowboys nos pinhais, onde todos queriamos ser índios para podermos usar os arcos e flechas feitos por nós. A atazanar as galinhas, coelhos e gatos. Dias a tentar convencer, sem efeito, a avó que brincar a seguir ao almoço com 40º dá saúde e faz crescer.
Por todas estas memórias também eu canto a marcha da Aldeia das Dez (1945):

Nossa aldeia terra airosa
Linda alegre e singular
Cada pedra é uma rosa
Enfeitando o lindo altar

(…)
Cantemos à nossa terra
Nosso abençoado lar
Os encantos que ela encerra
São tais que não têm par

Terra que é nosso amor
Outra não vemos melhor
Nem por certo deve haver
De tanta gente lhe querer
Não cansemos de a louvar

A Área Protegida da Serra do Açor

A Serra do Açor fica na zona centro do nosso país, entre a Serra da Lousã e a Serra da Estrela, e abrange vários concelhos, entre os quais Arganil e Oliveira do Hospital.
Não desdenhando da restante paisagem, a Área Protegida da Serra do Açor comporta dois ex-libris: a Fraga da Pena e a Mata da Margaraça, ambos situados no concelho de Arganil e abrangendo em parte as freguesias da Benfeita e de Moura da Serra.
Habituada que estava desde que nasci a passar algumas temporadas do ano pelas bandas da Serra do Açor, mais especificamente em Aldeia das Dez (10 badaladas, 10 casas, 10 habitantes, 10 o quê?), concelho de Oliveira do Hospital, cometi a proeza de demorar 29 anos para verificar in loco a maravilha que são aqueles dois poisos. Ainda fui a tempo de encontrar locais que parecem permanecer intocados pelo Homem. Embora longe de conhecer todo o país, ou sequer de estar próxima de o alcançar, avanço sem receios a colocação da Fraga num qualquer top dos recantos mais bucólicos e fascinantes do Mundo e quiça da Europa e de Portugal!
A Área Protegida da Serra do Açor é constituída por cerca de 346ha, de entre a totalidade de cerca de 1297ha que dispõe aquela montanha. Nesta Área Protegida a altitude varia entre os 400m e os 1012m, o que mostra bem o desnível e o recorte da paisagem. Para lá chegar, dominam os vales e mais vales. A estrada, como quase todas as outras por aqueles lados, é um composto de curvas e mais curvas, em asfalto e, depois, subitamente, em terra.


No Verão do ano passado a paisagem era desoladora. O fogo consumiu grande parte da Serra do Açor, tudo o que se via à volta parecia lava, de tão preto que os vales ficaram. O cenário era ainda mais chocante quando se deparava com o tão próximo que as chamas chegaram dos povoados. A preocupação principal – e talvez a única possível – era salvar as casas, daí o traçado que parece realizado a regra e esquadro presente na paisagem. No entanto, milagrosamente o fogo não penetrou quer pela Mata da Margaraça quer pela Fraga da Pena. Milagre? Só se for o de 2005, porque há uns anitos atrás não poupou a Mata.


Só para nos localizarmos convenientemente no mapa, direi que a povoação mais conhecida por perto, quer da Mata quer da Fraga, é o Piodão, aldeia sistematicamente colocada nos tops das mais bonitas, mais antigas, mais altas, mais pequenas, mais não sei o quê do país. O certo é que, passe todos aqueles títulos artificialmente criados para constar de um qualquer livro ou folheto de propaganda, o Piodão consegue manter as suas características de rainha das casas em xisto, com a sua igreja propositadamente a destoar no seu branco da cal. À chegada somos assaltados pelos vendedores na rua – de pão, de artesanato, de tudo o que calhar. Pena é que a casa com original artesanato que ficava por baixo do Museu tenha fechado. Os dois artesãos que faziam – e vendiam – os seus trabalhos com as matérias primas retiradas do que a natureza por ali reserva, como é o caso do xisto e da urze, eram (serão) uns verdadeiros artistas.

A Fraga da Pena


A chegada não é muito fácil. Não que o caminho seja muito mau. Simplesmente, fica quase no fim do mundo – será que ainda falta muito? Já a teremos passado? Talvez por isso se mantenha ainda tão autêntica.
A Fraga é um pequeno recanto, com imensa vegetação, fresquíssimo, uma excelente opção para ultrapassar parte dos dias de verão intenso. Ainda para mais pode-se banhar nas suas águas.
A caracterizá-la, o acidente geológico que constitui a queda de água de cerca de 70 metros, distribuida em várias plataformas. A cascata vai caindo desde lá de cima até um espaço onde a água é pouco mais do que congelante, protegida que está pelas árvores. Subindo as escadas – em xisto, nem sempre inteiro ou completamente seguro – descobre-se a cascata nos seus vários níveis. A cada “andar” uma pequena piscina artifical. No último “andar”, só para aqueles com mais fôlego para subir degraus, um verdadeiro ninho para os namorados. Desculpa lá, ó casalinho, se vos interrompi algumas coisa!

Pelos caminhos da Fraga vamo-nos deparando com algumas pequenas construções – todas elas em xisto. A maior delas, e talvez em melhores condições, possui um alpendre cacheado de videiras com as suas uvas a cairem-nos pelos ombros. Um mimo.
Por aqui, o silêncio apenas é interrompido pelo diálogo (ou monólogo) dos bichos que por ali andam e pelo passar da água da ribeira ou o cair da mesma água pela cascata.

A Mata da Margaraça

A Mata da Margaraça, uns kms antes da Fraga da Pena para quem vem do Piodão, o contrário para quem vem de Arganil ou Coja, ocupa parte da vertente norte da denominada Serra da Picota e, diz-nos o seu centro de acolhimento, é um resíduo do que foi um dos mais opulentos maciços florestais das Beiras.
Da partida do centro de acolhimento e de interpretação – em xito, pois claro –, na qual se prevê, igualmente, a instalação de um núcleo museológico, são possíveis vários cenários para explorar a Mata, uns mais longos outros para quem ali vai de fugida. São inúmeros os caminhos que poderemos explorar, muitos dos quais atravessados por ribeiras.

O seu coberto vegetal é abundante, exuberante e, em parte, raro. Carvalho e castanheiro, medronheiros, folhados, azereiros e ulmeiros. Por toda esta riqueza vegetal, a Mata da Margaraça está incluída na rede europeia de reservas biogenéticas. Actualmente a Mata é propriedade do ICN.
Nas suas imediações existem escassas e pouco habitadas povoações. Ainda assim, vê-se que estas terras atraiam os agricultores, pelas quelhadas que vão povoando a paisagem que nos leva até à Mata (plataformas sustidas por pedras de xisto destinadas a conter a terra das encostas), e pelas levadas de água de rega.
A Mata propriamente dita é um contraste com a paisagem que a circunda, motivada pela aridez dos pinheiros que resistiram ao fogo impiedoso.
A sua fauna é também variada. Felizmente que não vi nenhum bicho raro, pois se qualquer insecto me deixa em transe… Não vi, ou fiz por não ver, nem javali, nem geneta. Nem coruja-do-mato, nem gavião, nem açor. Nem salamandra-de-cauda-comprida, nem lagarto-de-água. Ufa!

Belmonte. Terra de Cabral e Memória do Judaísmo

Belmonte, junto à Serra da Estrela, é conhecida sobretudo por ser a terra de Pedro Álvares Cabral, descobridor do Brasil.

A vila possui um rico património histórico, tal como o Castelo, Pelourinho, Igreja de São Tiago, Solar dos Cabrais, entre outros.

No entanto o interesse em descobrir esta vila beirã vai muito para além desse património histórico construído, isto porque Belmonte é a memória viva do antigo judaísmo em Portugal.
Após séculos de organização judaíca em segredo, nos anos vinte do século XX foi anunciada a existência de uma comunidade judaica. Porém, só em 1989 é que foi oficialmente criada essa comunidade. Até essa data esta comunidade sobreviveu às perseguições da Inquisição, aos processos de integração católica (os cristãos-novos) e conseguiu manter vivas as tradições judaícas, ao ponto de ser actualmente a única comunidade de origem Cripto-Judaica na Península Ibérica.
A sua importância não se deve tanto ao seu peso demográfico (cerca de 200 pessoas, 10% da população da vila) mas antes à forma como conseguiu resistir às vicissitudes históricas ao longo dos séculos e com isso manter, secretamente, as principais tradições e ritos religiosos.
O vestígio mais antigo desta comunidade é uma inscrição de uma sinagoga que data de 1296, o que demonstra a existência de uma comunidade nessa época. Tal como antes, actualmente Belmonte mantêm viva a cultura judaica como atestam o cemitério próprio e a nova sinagoga, inaugurada em 1997, que tem um rabino.

No belíssimo e interessante Museu Judaico, inaugurado este ano, podemos conhecer todo este percurso histórico e de resistência da comunidade judaica, assim como os seus costumes e rituais, a sua integração na sociedade portuguesa e o seu contributo para as diversas áreas da sociedade.