Machu Picchu

E agora algumas notas sobre Machu Picchu, a Montanha Velha.
Há quem aqui pretenda chegar para viver uma experiência mística ou algo do género. É já para avisar que misticismos não são comigo. Desafios para se ir conhecer algo mítico, isso sim. E Machu Picchu é, com toda a certeza, um dos lugares que preenchem o imaginário de muitos milhões de pessoas. Pelo que representa de uma civilização, pelo estado de conservação que chegou até nós e, principalmente, pela localização maravilhosa que ocupa. Mas não adianta vir com a pretensão de que vamos encontrar o lugar mais inspirador e sentarmo-nos sobre uma pedra a deixar a imaginação fluir. Isso não existe por aqui pelo simples motivo de que é quase impossível estarmos sozinhos, sem as carradas de grupos que aqui vão chegando. Uma dica, porém, é tentar ir subindo as demasiado altas escadas ou terraças, deixando a maioria dos estoirados turistas para trás e para baixo. É que, de facto, não é assim tão fácil visitar Machu Picchu. Será uma canseira para a maioria das pessoas.

É talvez também por isso que é tão interessante pensar nesta obra que os incas construíram por volta de 1450, num local de acesso tão difícil que nunca foi encontrada pelos invasores espanhóis e que apenas em 1911 foi descoberta pelo historiador americano Hiram Bingham, com a ajuda de alguns indígenas. Encravada em entre duas montanhas – Machu Picchu, a montanha velha, e Wayna Picchu, a montanha jovem –, diria que quase que pendurada numa delas, custa a crer como foi possível que há quase 600 anos se carregasse material para construir algo assim e num lugar assim.
Quando Bingham lá chegou as construções estavam quase que por completo cobertas pela vegetação, tal como, aliás, os vários complexos arqueológicos que vamos encontrando pelo caminho inca. Nos dias de hoje a limpeza da vegetação que persiste em cobrir as construções ainda continua e, dizem, as ruínas de Machu Picchu podem chegar quase até lá baixo ao pé do rio Urubamba, mas há que ter cuidado com as perigosas cobras que por aqui reinam.
Ainda hoje não se sabe muito bem qual o uso da “cidade perdida de Machu Picchu”. Alguns defendem que seria a “cidade das mulheres escolhidas” por a maioria dos restos mortais encontrados nos túmulos pertencerem a mulheres; outros pensam que foi construída já no período de declínio do império inca com o objectivo de re-ganhar forças; outros ainda julgam que aquando da chegada dos espanhóis já não seria habitada. A teoria que hoje parece prevalecer é a de que Machu Picchu era um sítio real e cerimonial que os incas tiveram de abandonar à pressa com a invasão dos espanhóis.

À parte todas estas histórias e lendas, o melhor que temos a fazer é inventar a nossa própria teoria e deixarmo-nos ir caminhando, subindo e descendo, entrando nas ruínas, descobrindo os telhados de palhota, as janelas de pedra, as pequenas praças e as praças enormes onde hoje alguém trouxe as lamas para compor ainda mais o cenário.

Uma nota final para dar conta das características arquitectónicas e urbanísticas das cidades incas. Como consideravam a natureza sagrada, os incas não alteravam a paisagem, dai talvez o recurso à construção dos socalcos, donde resultam as lindíssimas terraças. É quase omnipresente o uso destes degraus circulares imensos. Com isso, nós, habitantes do século XXI sentimo-nos agradecidos por hoje ainda podermos caminhar pacatamente por uma cidade bem planeada onde o respeito pela paisagem é total.

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