Rumo a Machu Picchu – 2.º Dia do Caminho Inca

Para este 2.º dia mudámos de estratégia e enchemos uma mochila o mais que pudemos para deixar a outra bem levezinha e irmos trocando entre nós o pouco peso que restou. Não que o peso do 1.º dia tivesse sido insuportável, mas o panorama que nos anteciparam para este 2.º dia roçava o assustador. Indo directamente ao final, a carregar as nossas coisinhas todas acho que não nos safávamos desta jornada.
Foi, efectivamente penoso a espaços. A muitos espaços, para dizer a verdade. Iniciámos a caminhada às 7:30 e foram cerca de 5 horas e meia sempre a subir até chegarmos aos exactos 4215m de altitude (o ponto mais alto do caminho) até ao passo de Warmiwañusca, também conhecido como o “passo da mulher morta”, vá-se lá saber porquê. Literalmente, é ir até lá e receber os incentivos e os aplausos dos companheiros que vão chegando primeiro.

A paisagem é brutal, já sem o rio por perto, tão alto íamos, mas com o vale esmagador ao nosso redor. É até um contra-senso, ter-se esta paisagem toda a nossos pés e não se conseguir aproveitá-la convenientemente, tal era o cansaço. As minhas habituais dores de cabeça aproximaram-se do insuportável (o mal de altitude também não deve ser alheio à coisa).

E depois de chegarmos até mesmo lá em cima, toca a descer por quase 2 horas. Se a subida não era tecnicamente difícil, já a descida sempre de pedras irregulares e com degraus muito altos obrigava ao máximo de atenção. Aqui começa o caminho inca original, com muitas mexidas para restauro ao longo dos tempos, é claro.
Mais uma vez, a subida e a descida dos carregadores é impressionante.

Neste 2.º dia são cerca de 11 km em 7 horas de percurso, daí que a opção tenha sido almoçar no final, já no acampamento, em Pacaymayo. Depois, sesta, jantar e dormir. Enfim, vida quase boa e a certeza de que o pior havia ficado para trás.

Rumo a Machu Picchu – 1.º Dia do Caminho Inca

No total dos 4 dias são 33km de caminhada pelo Vale Sagrado até se chegar ao destino: as ruínas incas de Machu Picchu.
O caminho tradicional – turístico – de 4 dias tem o seu início ao km 82 da estrada de Cusco para Aguas Calientes, a cerca de 2200m, e é apenas um dos muitos caminhos que os antigos incas percorriam. Para se seguir por estes trilhos há que fazê-lo obrigatoriamente com uma agência e guias devidamente licenciados, com verificação de documentação e registo de entrada ao início do caminho. Temos até direito a carimbo no passaporte. Os grupos nunca são muito grandes e o nosso – sorte – tinha o que será a dimensão ideal: 6 pessoas, a saber, 2 irmãs portuguesas, 1 casal canadiano, 1 argentina sola e 1 dinamarquês quarentão. Todos os outros tinham trinta e poucos anos. Poderia haver grupo mais uniforme? Com o correr dos dias viríamos a concluir que nem escolhidos a dedo nos poderíamos vir a dar melhor.

Este tour não é nada barato. No nosso caso foram 435 dólares por pessoa, sem o carregamento dos nossos pertences pelos carregadores e respectivas gorjetas. Há que não carregar com muita coisa, mas é inevitável levar alguma roupa – tanto faz calor quando o sol abre, como frio quando o sol se vai –, alguns snacks para ir comendo quando a fome aperta e o cozinheiro ainda não deixou a mesa pronta, alguma água para não desidratar, repelente para combater os bicharocos, protector solar, estojo de primeiros socorros não vá o azar bater à porta, máquina fotográfica para a posteridade e … seca, saco cama e rolinho para fazer de assento e a dita cama não ser tão dura. Os carregadores têm um trabalho a raiar o absurdo (e nós compactuamos com isso) e levam às costas, para além das suas coisas, o que os turistas lhes pagam para levar (dizem que com um muito duvidoso limite de 20 kg), as tendas, as mesas e cadeiras onde vamos fazer as refeições e comida e bebida para os dias todos. Todos têm um aspecto gasto, muito superior à sua idade real, usam umas sandálias que não os protegem minimamente e deixam ver claramente os pés com cortes largos e profundos. E lá vão a correr, passando por nós, levezinhos, quase que em excesso de velocidade.

Neste primeiro dia alancámos com aquele peso todo e iniciamos os cerca de 13km e 5 horas pelas 11:00. Foi uma caminhada fácil, sem grandes subidas, com o rio Urubamba, que aqui toma o nome de Vilcanota, por companhia e banda sonora, ouvindo ora vagamente ora intensamente o som da sua água a correr, e as montanhas com o topo nevado a dar grandiosidade ao cenário. O vale é belíssimo.

Vimos o primeiro sitio arqueológico do caminho desde cá de cima – o Llactapata, com os seus socalcos de terraços circulares.

Pelo caminho – apenas do primeiro dia – ainda se vão encontrando pequenos povoados e vendedores de refrigerantes e chocolates.

Chegamos ao acampamento, em Wayllabamba, a cerca de 3100m – os carregadores haviam chegado bem antes e já tinham as tendas montadas – e com pouca demora jantámos. Depois de um almoço de truta, à noite foi a vez de carne com arroz. Neste primeiro dia ficámos com a suspeita – todas as refeições seguintes confirmada – de que o cozinheiro era fantástico: comida variada, sempre com sopa, prato principal e sobremesa.

Apesar de a caminhada deste primeiro dia ser fácil, o cansaço estava instalado e só me apetecia era ir dormir (talvez por desconfiar que não o iria conseguir fazer, afinal de contas seria a minha estreia a dormir em tenda). Eis senão quando chega um grupo de velhotes (mesmo) alemães para perto de nós, mas para se juntarem às cervejolas que uma pequena mercearia vendia no local onde assentaram o nosso acampamento. O certo é que a cerveja deve ter-lhes dado bastante energia porque no segundo dia saíram pouco antes de nós e nunca mais os vimos a não ser novamente à noite, no novo acampamento. Haja vigor.

A caminho de Machu Picchu

E, finalmente, o caminho inca. O tão sonhado e desejado caminho inca aos 35 e 34 anos das manas.
Machu Picchu é o sítio arqueológico mais importante do continente americano. Descoberta apenas em 1911 pelo historiador americano Hiram Bingham – que possui um livro disponível na internet sobre a sua expedição “Inca Land – Explorations in the Highlands of Peru” em http://www.gutenberg.org/etext/10772 – , a cidade (que se julgava) perdida dos incas é o destino de quase todos aqueles que vêm a Cusco e, até, ao Peru.
Existem várias hipóteses para se lá chegar. A mais comum é a viagem de comboio de cerca de uma hora e meia a partir de Ollantaytambo (a cerca de duas horas de autocarro de Cusco) até Aguas Calientes, o povoado sem graça que nos recebe antes de entrarmos na cidade dos incas. Um aviso. Em tese, qualquer pessoa, nova ou velha, pode alcançar Machu Picchu. Acontece, porém, casos de quem por força da elevada altitude de Cusco (3326 metros) e de uma má aclimatização à zona tenha de voltar para altitudes mais baixas. Machu Picchu, essa, está apenas a 2430 metros acima do mar, logo, não é isso que irá impedir a jornada. Mas que atrapalha, ai isso atrapalha.
Apesar de existirem treks alternativos de mais ou menos dias, a outra hipótese mais comum de se chegar a Machu Picchu é percorrendo o trek de 4 dias – o caminho inca original (ou mais ou menos original, como se verá depois). Quem opta por este trek percorre caminhos que atingem os 4200 metros. Um novo aviso, pois. Em tese, qualquer pessoa, nova ou velha, com um mínimo de preparação física pode alcançar Machu Picchu desta forma. Acontece, porém, casos de quem seja atleta, que se considere numa condição física bem acima dos mínimos e se veja e deseje para conseguir terminar o trek. Bom, talvez seja exagero da minha parte esta descrição. Mas que o segundo dia do trek, o tal onde se vai a modestos 42000 metros de altitude, é verdadeiramente difícil e, até, penoso, ai isso é.
Sigamos, pois, dia a dia a nossa caminhada adentro o mítico império inca.

Os Mercados do Vale Sagrado

E porque as compras fazem também parte da viagem, ainda para mais se de produtos de artesanato e têxtil bonitos e a óptimos preços se tratar, uma visita aos mercados do vale sagrado não pode faltar.

O mercado de Pisac é o maior da região e ao domingo torna-se gigantesco mesmo. Um aviso para quem estiver efectivamente interessado em explorá-lo convenientemente: com meia hora não dá nem para passar da primeira rua e com uma hora apenas chegamos à entrada do mercado que merece mesmo ser visto.
No nosso caso montámos uma estratégia bem cerrada para não chegarmos atrasadas ao autocarro da excursão e, com isso, passámos a correr pelo artesanato e os têxtis (que outros mercados e lojas também vendem) para depois voarmos pelas frutas e comidas (onde as cores e o movimento intenso são reis). Soube a pouco, óbvio.

Fica o resumo – compras de artesanato é com Pisac; compras de têxtis é com Chinchero.
Este último, diz-se que o local onde nasceu o arco-íris, com o bónus de se poder escolher os produtos no terreiro defronte da amorosa igreja colonial. No nosso caso, então, tivemos ainda outro bónus, o de escolher as peças coloridas às escuras, uma vez que o sol já nos havia abandonado. Sem lamentos, o que trouxemos a mais na mala satisfez.

Pisac e Ollantaytambo

Dos que visitámos, Pisac é provavelmente o maior sítio inca depois de Machu Picchu. Um antiga cidadela, com os terraços típicos dedicados à agricultura, templos, tumbas, tudo isto no topo de uma montanha sobre o vale sagrado donde, diz-se, os incas podiam controlar o seu império.

Mais encantadora, porém, é Ollantaytambo. Tambo significa povoado e este foi continuamente habitado desde o século XIII. É uma fortaleza inca que entrou para a história não só pela sua beleza e localização geográfica únicas, mas também por ter sido aqui que os espanhóis perderam uma das suas poucas batalhas contra os incas.

Mais uma vez os terraços incas não faltam, e imensos como não podia deixar de ser. No topo encontra-se um templo cerimonial e uma vista fabulosa para as montanhas andinas e vale sagrado.

As cores do fim de tarde parecem jogar um jogo em que os tons variam aqui e ali, sempre intensos e inesquecíveis. Na montanha à frente das ruínas vemos mais ruínas e perguntamo-nos como as conseguiram os incas esculpir num plano tão inclinado. E, o que é aquilo? A cabeça de um inca? A imaginação no vale sagrado não pára.

Maras/ Moray

Moray foi o primeiro sitio que visitamos e, logo, que surpresa, que lugar incrível. É um anfiteatro circular que os incas criaram e usaram para fazerem experiências com as várias espécies de culturas, dado o microclima que aqui se verifica. O nosso guia explicou que por cada socalco a temperatura descia dois graus centígrados. Fizemos questão de descer tudinho até lá baixo (estes “degraus”, pode não parecer, mas são enormes) e, há que dizê-lo com frontalidade, não o sentimos. Mas isso não retira nenhum encanto a Moray. Aliás, creio, daqui podiam ser inventadas as mais disparatadas histórias que bastava-nos tapar os ouvidos e só ver e ver e ver a lindeza que é este lugar rodeado pelas montanhas dos Andes, alguns com os seus picos nevados. A única coisa que se perdia era perceber como é tão fantástica também a acústica do sítio.

Moray fica perto do lugarejo de Maras onde, outra surpresa, existem umas salinas exploradas já desde o tempo dos incas. Divididas em quadrados ou rectângulos que vistos de longe parecem conter neve, estas salinas estão encravadas entre montes e vão se revelando aos poucos. Caminhamos pelas estreitas passadeiras que dividem os vários cantinhos, tentando não cair na saladeira, enquanto os senhores e senhoras os vão trabalhando e nos permitem confirmar que aquela água não é água, aquela neve não é neve, é mesmo sal e bem salgadinho.

Vale Sagrado

Dadas as distâncias, as estradas e a própria flexibilidade e frequência de transportes públicos, a melhor opção para se visitar o Vale Sagrado é através de uma visita organizada em grupo (ou alugando um táxi só para nós). Com isso perde-se uma das experiências mais incríveis que se pode ter na América do Sul – o viajar com e como os locais.
Os lugares indisputados são os de Maras e Moray, Pisac e Ollantaytambo, bem como os mercados de Pisac e Chincero. O problema das excursões, para além de lá caírem os bimbalhocos todos (lugar onde livremente nos poderão também incluir), é que uns pretendem dedicar mais tempo aos sítios arqueológicos, outros aos mercados para as comprinhas e outros ainda ao almoço. Para agradar a todos, e como de costume, feitas as contas não se fica tempo suficiente em nenhum lado. Ou seja, resta aquela sensação do podia ter sido mas não foi. E foi mesmo o caso, com direito, porém, a um bónus de uma emocionante discussão e quase motim quando o intrépido guia decidiu arrancar com o autocarro face ao atraso do casalinho peruano, mesmo tendo estes os seus pertences no dito autocarro. “Solidários”, gritou a argentina ao meu lado, talvez em memória do seu conterrâneo mais famoso. O certo é que o autocarro não arrancou sem o parzinho e estes insistiram em continuar a chegar atrasados. Resultado? Chegada a Chincero no final do dia, com a noite posta.
Uma treta, esta vida de excursionista forçada.
No entanto, esta visita pelo Vale Sagrado, com o Rio Urubamba e as montanhas dos Andes por companhia é obrigatória e inesquecível pela quantidade e qualidade de vestígios portentosos que os incas nos legaram.