Cusco, o Umbigo do Mundo

Indo directamente ao assunto: depois de conhecer Sucre e Potosi, na vizinha Bolivia, a bitola no que a encantamento diz respeito por cidades coloniais fica muito elevada. Ou seja, cara peruana Cusco, até o tentaste mas não o conseguiste. Não obstante, mereces muitas palavrinhas e fotografiazinhas.

Cusco é a porta de entrada para a maioria dos turistas que visitam o Peru e é uma excelente base para se partir para inúmeras atracções no Peru. Facilmente se perde (ou, neste caso, ganha) à sua volta um mês a visitar locais tão diferentes como as igrejas da própria cidade de Cusco, a omnipresente Machu Picchu, as cidadelas no Vale Sagrado e os seus mercados artesanais e têxteis, caminhando, pedalando, andando a cavalo ou fazendo rafting nas suas proximidades ou partindo para umas trips de 4 ou 5 dias para o Parque Nacional Manu (já na selva da Amazónia) ou para o Lago Titicaca e suas ilhas flutuantes. Tudo sempre com muita emoção e boa onda.
Porém, antes de ser uma cidade colonial, Cusco foi o centro do império Inca. Reza a lenda que o primeiro Inca, Manco Capac, foi mandatado pelo deus do sol, Inti, para encontrar um local a que correspondesse o umbigo do mundo – e eis como surgiu Cusco, ou Qosq´o em Quechua. Depois, os espanhóis chegaram em 1533 e começou a queda dos incas e o ocaso de Cusco. Destruição pelos espanhóis e destruição por alguns terramotos levam a que hoje quase não se encontrem vestígios dos incas em Cusco (bem diferente é o que se passa nas suas redondezas), tirando os muros inca da estreita Hatunrumiyoc e da não tão larga assim Loreto, bem como de alguns aspectos preservados do sítio de Qorikancha, em tempos o mais rico templo do império inca.

Até que em 1911 Machu Picchu foi “descoberta” e desde ai Cusco entrou definitivamente no mapa da arqueologia mundial e no pensamento de 10 em cada 10 turistas do planeta Terra.
E turistas é o que mais se encontra em Cusco. Bares, restaurante, agências de viagem, lojas de câmbio, tudo. Queremos ver as meias-finais do Mundial de Futebol da África do Sul? É só escolher entre o bar uruguaio, o bar holandês, o bar alemão ou o bar espanhol. Este último é mais difícil, tal é ainda o ressentimento para com os espanhóis. Mas espanholitos é o que não falta por aqui. Melhor, parece não faltar nenhuma nacionalidade neste melting pot em que todos nos encontramos num mesmo sítio com um objectivo comum: o cumprir de um sonho, de uma aventura, a chegada a Machu Picchu, seja a caminhar, a cavalo, de comboio, o que é preciso é chegar à mais mítica.

Cusco é a Plaza de Armas, imensa, com a catedral a dar-nos as horas, como se fosse necessário haver horários nos fins de tarde de tempo limpo e azul intenso passados num dos balcões dos seus edifícios coloniais (já bem adulterados). Ou simplesmente sentados junto a uma das colunas que nos deixam entrever a Plaza.

Os turistas têm até direito a MacDonalds. Ou, melhor, os cusquenhos têm direito a MacDonalds. Aliás, é só começar a descer a Av. del Sol, fugindo da Plaza de Armas, para se sentir que Cusco tem vida para além dos turistas, com universidade, tribunal, lojas práticas. Mas esta demarcação, que surge naturalmente, é bastante vincada, pois afastando-nos um pouco da praça deixa-se quase de ver turistas para se ver quase só cusquenhos. O que, se não é perfeito, evita-nos aquela sensação de passar por uma cidade sem a compreender nadinha, sem vislumbrar sequer um seu habitante, sem chegarmos sequer a poder imaginar como será um pouco da sua vida do dia a dia.

Voltando à Plaza de Armas, junto aqui fica a zona mais turística, com as ruas desordenadas com as lojas para os mochileiros e os mercados sempre iguais. Um pouco mais afastado fica o bairro de San Blás. Onde? Lá para cima, é subir um pouquinho. Só que… qualquer pouquinho nesta altitude equivale a subir todos os degraus da Torre dos Clérigos a correr. Em San Blás ficam os artesãos e os estrangeiros que aqui chegaram, viram e ficaram. É, talvez, dos lugares mais pitorescos de Cusco, onde o esforço de caminhar pelas suas ruas estreitas e inclinadas compensa, mais não seja pela vista que se vai poder observar.
E de Cusco, tirando alguns pequenos museus algo interessantes, estamos mais ou menos conversados. Partamos, então, rumo ao Vale Sagrado, onde o nosso carote bolleto turístico nos dará acesso a um punhado de sítios fantásticos.

(Apenas um comentário mais. Aqui há três anos havíamos estado em Puno, cidade peruana junto ao Titicaca, e pudemos verificar que os edifícios pura e simplesmente não eram terminados, ficando não só por pintar como por levar telhado. Em Cusco e arredores tudo é diferente. A província é outra, certo. Mas a diferença é grande e tirando a paisagem que nos é estranha, os telhados com telha de cor ocre é nos bastante familiar. Dá um ar mais composto e deixa-nos a impressão de que esta zona não será assim tão pobre. Será?)

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