Tortoni

Buenos Aires é uma cidade de cafés. Daqueles onde dá vontade de ir estando sem ser incomodado. Confesso que não tenho por hábito frequentar cafés, mas quem não fica deslumbrado ao entrar, por exemplo, no Majestic, só para citar um no nosso país, no caso, no Porto?
O Tortoni é o mais antigo da Argentina, fundado em 1858 e situado na Av. de Maio, é um local onde se pode jogar bilhar, assistir a espectáculos (tango, jazz), tomar café, claro, ou simplesmente contemplar a história que por ali passou e foi sendo feita. Teve frequentadores assíduos entre artistas, políticos, intelectuais, escritores, como Borges, Garcia Lorca, Sábato.
É autêntico, apesar de vir nos guias turísticos. Aliás, se não fosse esta referência, provavelmente não saberia da sua existência. Durante o dia passei por lá para tomar qualquer coisa e à noite decidi voltar para assitir a um show de Tango. Como não é daquelas casas tipicamente turísticas, pelo menos no que ao Tango diz respeito, o ambiente era constítuido por porteños e não tão jovem assim. À excepção, então, das duas manas portuguesas, acabadas de entrar na casa dos 20 anos. Se estavamos perdidas, rapidamente nos envolvemos completamente. Um casal de velhotes sentado na mesa ao lado convidou-nos para a sua mesa e serviu-nos de anfitriões para o resto da noite. Ele era poeta e, vim a saber depois, um daqueles conceituados que vivia no Tortoni. Quando soube que eramos portuguesas, logo se lembrou de um jogador de futebol fantástico que havia jogado na nossa terra e casado com uma portuguesa monissíma que levou para a Argentina. A Sra Carmen, ex(?) modelo, é ainda hoje conhecida nos meios sociais argentinos e quanto ao futebolísta o Poeta acertou em cheio. As miúdas portuguesas, nem de propósito, eram ferrenhas do clube em que ele jogou em Portugal e por isso sabiam de quem se estava a falar – Yazalde, o fantástico Chirola.
Este começo serviu de arranque para um agradável serão em que o deslumbramento era total. Anos mais tarde havia de recordar aquela noite quando, num programa de um canal por cabo sobre Buenos Aires, volto a ver A.M.M. servindo de anfitrião no Tortoni, agora para um público mais extenso.
Para quem queira saber mais sobre este café, iniciando uma visita cybernética, aqui fica o link .

Pasaperros

Uma profissão que só conheço de Buenos Aires é a dos Pasaperros.
Para quem não sabe, ela existe sim e consiste em profissionais que levam os cãezinhos de outras pessoas a passear. O detalhe é que, concerteza para a jornada diária render mais, eles passeiam dúzias de cães de uma só vez, enquanto as madames se entregam a outros afazeres. É no mínimo pitoresco.


pasaperros

A Sorte

Sobre Buenos Aires escreveu Miguel Sousa Tavares uma lindíssima crónica aqui há uns tempos. Assino por baixo.

Uma Cidade
Por MIGUEL SOUSA TAVARES
Sexta-feira, 04 de Julho de 2003

“Deixem que hoje vos fale de uma cidade – afinal o berço onde todas as políticas começaram e devem ser avaliadas no concreto. De uma cidade que é capital de um país que vive uma tremenda crise económica, acumulando a maior dívida externa do mundo e só agora começando a sair de um período de tamanha turbulência social e política que chegou a ter cinco Presidentes num mês – e todos eles constitucionais. É uma cidade que eu há muito sonhava conhecer e que só agora tive a sorte de o fazer. Porque é uma sorte e uma lição exemplar conhecer Buenos Aires, a capital argentina.
Buenos Aires é uma cidade que nos reconcilia com a condição urbana, que nos lembra que as cidades podem ser construídas para o serviço dos homens e que nos ensina que a dimensão e a beleza são conciliáveis, a monumentalidade e a escala humana podem conviver juntas, os serviços e o comércio podem-se conjugar de forma perfeita com o prazer e a arte de viver uma cidade. Ao contrário, por exemplo, do Rio de Janeiro, cujo enquadramento paisagístico natural não tem paralelo no mundo, Buenos Aires não dispõe de trunfos naturais: não tem costa marítima, nem um rio digno desse nome, não tem lagoas, nem enseadas nem montanhas, enquadrando-a. Não há um Cristo Redentor a quem dar graças por tanta fortuna. Aqui, tudo é obra dos homens e nada é acrescento divino. É uma cidade feita por homens e para os homens viverem. Por homens visionários e arrojados que ousaram pensar grande, que construíram a mais antiga e ainda hoje a maior e mais bonita ópera de todas as Américas – o Teatro Cólon, decorado com mármores de Carrara e de Estremoz -, que secaram pântanos para plantarem os mais fantásticos jardins públicos, que os semearam de uma profusão de estátuas de pedra e de bronze (tantas que, quando já não havia mais heróis nacionais para representar, foram dedicadas a Mozart ou a Verdi), que deitaram abaixo quarteirões inteiros para rasgarem algumas das mais largas avenidas do mundo (a 9 de Julho é mesmo a mais larga do planeta), que, de um canal vindo do Rio de La Plata – que outrora servia a cabotagem e de que a respectiva administração portuária, ao contrário do que sucede entre nós, abriu mão por completo a favor da cidade -, transformaram numas maravilhosas docas de pequenos edifícios de tijolo vermelho, ao serviço do comércio, dos bares e restaurantes e da marinha de recreio, em pleno coração da cidade.
Dizem os brasileiros, com a sua tradicional rivalidade com os argentinos, que eles são uma espécie de italianos que falam espanhol e gostariam de ser ingleses. Não perceberam como esta ironia presunçosa revela afinal um tributo: Buenos Aires e a Argentina foram construídas com o melhor de Itália, da Espanha, da França e da Inglaterra. Para Buenos Aires, os espanhóis trouxeram a história e a monumentalidade, os italianos o bom gosto e a arte de viver, os franceses a decoração e os ingleses os jardins e a paixão pelos cavalos. Por isso, na cidade convivem harmoniosamente os pequenos bairros populares antigos, território do tango e de uma certa rufiagem cativante, com os quarteirões de arranha-céus, sobrepostos por décadas sucessivas de arquitectura futurista, desde os anos 20 até à actualidade (foi a primeira cidade da América Latina a erguer um arranha-céus, a primeira a escavar um metropolitano, em…1910!). Convivem a zona tradicional de comércio da “Baixa” com a zona de serviços e escritórios, a zona de edifícios públicos em volta da Praça de Mayo e da Casa Rosada com as magníficas zonas residenciais, como Recolletos (sic, o Autor queia, certamente, escrever Recoleta), com a sua profusão de antiquários, galerias de arte, livrarias (abertas até à meia-noite!) e, em cada esquina, o seu café, que é um verdadeiro café, local de estar, de ver e de conversar, sem fórmicas, nem alumínios nem plásticos, mas sim móveis de madeira antiga, tampos e balcões de mármore, fotografias gastas pelo tempo, homenageando os antigos frequentadores, de Borges a Fangio, de Gardel a Péron (e, de cada vez que pedir uma simples “bica”, saiba que ela vem sempre acompanhada por um copo de água com gelo, dois biscoitos e um guardanapo de papel espesso). Por isso também, em homenagem à influência inglesa, Buenos Aires tem ainda, não na periferia, mas em pleno centro, milhares de hectares de relvados e jardins públicos a perder de vista, com três hipódromos, dois estádios de pólo, “country clubs”, campos de futebol, de básquete, de ténis, picadeiros e escolas de equitação, percursos pedonais, para cavalos e para ciclistas, jardins infantis e jardins japoneses, jardim zoológico e jardins para passear cães, marinas e até um aeroporto para voos internos em pleno centro. E todas estas zonas – a comercial, a de serviços, as residenciais e as de lazer – não funcionam por territórios estanques, mas sim interligados, integrados uns com os outros, de modo que não há zonas desertas ou abandonadas conforme os horários, antes uma cidade que é habitada, vivida e desfrutada na sua totalidade.
Coitados dos brasileiros e da sua dor de cotovelo: a verdade é que os argentinos estão décadas, se não séculos, à frente dos brasileiros, em termos de civilização, de cultura e de qualidade de vida, mesmo se em plena recessão económica. E coitados de nós, que ainda planeamos as cidades de acordo com os interesses dos construtores civis e as necessidade de receitas das câmaras e que temos uma capital onde o grande problema actual é a localização de um casino que se destina a financiar a recuperação de uns teatros de revista que ninguém irá frequentar, porque há cadáveres irrecuperáveis e ainda bem. Em Buenos Aires, pelo contrário, é quase impossível conseguir um bilhete para a ópera, os teatros estão cheios, as casas de tango estão cheias, os jardins estão cheios e milhares de pessoas acotovelam-se a um domingo à tarde para ver uma mostra de pintura contemporânea.
Porque a irrecusável verdade é esta: cada povo tem as cidades que merece. Os políticos argentinos não são melhores do que os nossos, pelo contrário, são bastante piores. Mas o povo é infinitamente mais culto, mais exigente e mais civilizado. Não esperaram pelo Estado para se educarem, para aprenderem e para saberem fazer e exigir. E, se não podem exigir bons governos e bons políticos, podem e exigem bons cafés, bons serviços, boas lojas, boas livrarias, bons teatros. Em Buenos Aires um motorista de táxi pode-se comportar como um verdadeiro “John, ‘chauffeur’ russo”, saindo para abrir a porta de trás às senhoras, pode esperar uma hora sem se lamentar e de taxímetro desligado (!), pode-nos ir apontando a dedo todas as influências arquitectónicas europeias nos edifícios da cidade, pode dissertar sobre a história, a política ou a economia do país e até falar-nos dos livros de Saramago. Em Buenos Aires, um “barman” pode decidir espontaneamente oferecer-nos uma bebida, só porque simpatizou com o nosso “sentido de humor”, um livreiro pode ficar sinceramente abalado, se não encontramos o livro que procurávamos e dispor-se a telefonar para outra livraria para saber se o têm, um empregado de mesa pode-se confundir com um cantor de tango e um cantor de tango com um grande de Espanha arruinado. Povos assim constroem cidades assim. Vastas, largas, onde tudo é humano e, todavia, o horizonte desmedido.”

B.A.

Às vezes pergunto-me porque gosto tanto de Buenos Aires (BA) e chego à conclusão de que pura e simplesmente não sei responder.
Foi uma cidade a que cheguei e logo a achei estranha. A primeira impressão foi a dos contentores cheios de lixo. Mas logo acreditei que era assim porque estavamos num domingo. Depois um pequeno reconhecimento pelo centro; numa esquina havia uma carripana com um gramofone a passar um sonoro Tango. Estranho? Então o Tango não é a música tradicional de BA? Passada a falta de hábito (se calhar não ando tanto assim pelo centro de Lisboa, onde talvez seja normal ouvir-se música popular pelas ruas – primeira de muitas comparações com Lisboa, a minha cidade.), este foi um sinal incial de que esta era uma cidade com vida e com um ambiente pitoresco e ao mesmo tempo melancólico que nos faz sentir em casa.
Os cafés e confiterias (aconselho o La Biela, mais descontraído, e o Tortoni, mais para os “cotas”, mas imperdível pela sua atmosfera histórico-literária) estavam sempre cheios de pessoas que ora tomavam qualquer coisa ora liam descansadamente o jornal. Conclusão: o café como local para se estar demoradamente, sem empregados em cima de nós a despacharem-nos mal vêem que acabámos de dar a última dentada no pastel de nata – primeira grande diferença entre as duas cidades.
Segunda grande diferença: os parques da cidade estão igualmente apinhados de porteños que, ora apanham sol, ora jogam, ora lêem, ora montam a sua tenda para venda de quaisquer objectos ou pura e simplesmente convivem. BA é uma cidade enorme, cosmopolita, onde há lugar não só para os grandes edifícios como também para os diversos parques no meio dos vários bairros. De todos os bairros, a Recoleta é talvez o mais agradável para se passear, com as suas praças plenas de espaços verdes, cafés e restaurantes charmosos, comércio e centros culturais. Esta é uma BA mais moderna, na qual muitas vezes nos perguntamos se estamos mesmo na América Latina ou antes numa cidade europeia. No entanto, nem no nosso continente encontramos uma cidade assim, única.
Existe outra BA, talvez a mais reconhecida, a popular, que na minha opinião se aproxima mais de Lisboa. Lisboa tem o Fado e Alfama e Mouraria, BA tem o Tango e San Telmo e La Boca. San Telmo é um bairro onde os artistas têm os seus estúdios e é conhecido por acolher a Feira do mesmo nome que tem lugar na Praça Dorrego todos os domingos, sendo possível aí encontrar artesanato. É aqui que se encontram as melhores casas de Tango da cidade. Por seu lado, La Boca é certamente o bairro mais colorido de BA, com algumas das suas casas feitas de zinco e de outros materiais de barcos abandonados utilizados pelos imigrantes italianos que ali aportaram. Estas características são bem visíveis na rua pedonal Caminito, um monumento a céu aberto desta cultura decorativa. Por estes bairros, bem como em Avellaneda, do outro lado do canal Riachuelo, encontram-se várias cantinas com um ambiente ruidoso tipicamente porteño, em contraste com os restaurantes mais tranquilos do centro de BA. Bem tentámos (as manas) ir a uma dessas cantinas recomendadas para os lados da rua Necochea, só que… bom, o taxista que nos calhou pura e simplesmente não sabia onde era. Mas tentou, perguntou aos transeuntes, perguntou a quem calhou, olhou para o nosso mapa, e nada. Não desistiu, deu montes de voltas até que achámos que a busca era suficiente. Preço da viagem? Ora “nenas” é lógico que não é nada. Pois, normal.
Parecida com Lisboa?

Patagónia em filme

Por ocasião da Mostra de Cinema Argentino que passou faz um ano no Cinema King, tivemos o privilégio de assistir ao “Histórias Mínimas”, de Carlos Sorin.
Este filme ternurento mostra-nos a viagem de três personagens em busca das suas ilusões pelos caminhos intermináveis da solitária Patagónia. Ou melhor, por parte da província de Santa Cruz. É a história de Don Justo (um velhote de de 80 anos), de um caixeiro viajante e de uma senhora que vai receber um prémio que ganhou num sorteio de um programa de televisão. A que mais me marcou foi a de Don Justo, que percorre cerca de 400km, a pé e à boleia, em busca do seu cão Malacara por considerar que não foi correcto com ele e que por isso este teria fugido, o que o atormenta. Há em todo o filme o retrato da enorme solidariedade que se vive por aquelas bandas tão desoladas, mas que nem por isso afastam as pessoas de irem em busca dos seus sonhos.
É um filme despretencioso e simples, “mínimo”.

Yo Vengo A Ofrecer Mi Corazón

Quién dijo que todo está perdido
Yo vengo a ofrecer mi corazón
Tanta sangre que se llevó el río
Yo vengo a ofrecer mi corazón

No será tan fácil, ya sé que pasa
No será tan simple como pensaba
Como abrir el pecho y sacar el alma
Una cuchillada del amor

Luna de los pobres siempre abierta
Yo vengo a ofrecer mi corazón
Como un documento inalterable
Yo vengo a ofrecer mi corazón

Y uniré las puntas de un mismo lazo
Y me iré tranquilo me iré despacio
Y te daré todo, y me darás algo
Algo que me alivie un poco más

Cuando mo haya nadie cerca o lejos
Yo vengo a ofrecer mi corazón
Cuando los satélites no acancen
Yo vengo a ofrecer mi corazón

Y hablo de países y de esperanza
Hablo por la vida, hablo por la nada
Hablo de cambiar ésta, nuestra casa
De cambiar por cambiarla no más

Quién dijo que todo está perdido
Yo vengo a ofrecer mi corazón

de Fito Páez