Que 10 años no es nada

Faz agora 10 anos – 1 década (!) – que pisei pela primeira vez a Argentina.
Por essa altura tinha inequivocamente um destino favorito, o Brasil, e uma cidade que julgava insubstituível, o Rio de Janeiro. Hoje o Brasil foi sem dúvida substituído pela vizinha Argentina. O Rio de Janeiro, esse, continua rei e senhor do meu destino, a tal ponto que, mesmo não conhecendo a maior parte do mundo, ficarei sempre na dúvida se me propuserem uma visita a uma cidade / país desconhecido ou ao Rio. Essa dúvida aumentará ainda mais se for obrigada a escolher entre o Rio e Buenos Aires.
Há 10 anos, então, aproveitando que a minha cidade – Lisboa – iria ficar semi parada pela visita de Bill Clinton e que os feriados de 1 e 8 de Dezembro calhavam num domingo – o único dia de trabalho, na altura, fora da vida de estudante – decidi comunicar aos meus pais que eu e a minha irmã iríamos viajar até à Argentina. Seria a primeira viagem que faríamos sozinhas, sem os pais ou sem alguém no destino que olhasse por nós.
Porquê a Argentina? Não faço ideia, mas a esta distância penso que Gabriel Batistuta e Gabriela Sabatini tiveram alguma influência sobre a decisão. Afinal de contas, o desporto sempre havia estado presente na minha vida e, assim, não seria estranho que, por exemplo, Borges, Gardel ou Che nada tivessem a ver com o assunto.
A viagem até nem começou nada bem. À chegada a São Paulo, e enquanto esperávamos o avião que nos levaria para Buenos Aires, descobrimos que a nossa bagagem havia ficado em Lisboa e que, com boa vontade, estaria em nosso poder cerca de 2/3 dias depois, uma vez que ficaríamos apenas 1 dia em Buenos Aires (depois regressaríamos) e iríamos imediatamente para Puerto Iguazu. Assim foi. De propósito, para irmos buscar os nossos pertences, tivemos que atravessar a fronteira Argentina / Brasil até ao aeroporto de Foz de Iguaçu, a melhor garantia para termos as malas mais rapidamente.
Antes disso, porém, escolhemos pernoitar em Buenos Aires num hotel de nome “Lisboa”. Está visto o porquê da escolha, não? O hotel era na verdade de 2 estrelas, apesar de vir descrito nos panfletos como sendo de 3 estrelas. Pedimos um quarto para 2 pessoas mas quanto o abrimos descobrimos que daria para 3 pessoas. Estranho. Quando saímos para a rua chegámos à conclusão que para a recepcionista não deveria ser nada estranho, afinal a rua do hotel tinha um cinema tipo “Olímpia” ou “Cine-Bolso” mesmo em frente e talvez a senhorita tenha pensado que as duas chicas solitas iriam em busca ou esperariam por companhia.
O dia da chegada a Buenos Aires foi a um domingo. No caminho do aeroporto para o centro o que mais impressionou – pela positiva – foram os magotes de pessoas que se encontravam à beira da auto-estrada a fazer piqueniques, aproveitando o verde da relva e os raios de sol. Depois, já no centro, nas ruas nas traseiras da Av. 9 de Julho (famosa pelos recordes de mais larga do mundo e por acolher o obelisco) o que mais impressionou – pela negativa – foi a quantidade enorme de lixo armazenado em sacos às portas dos edifícios.
A ausência de malas, a escolha do hotel e as ruas sujas e semi desertas de domingo tinham tudo para produzir um impacto não muito simpático e acolhedor da cidade mas… aquelas primeiras impressões esfumaram-se num ápice.
Para a memória da estadia em Buenos Aires fica a inclemente chuvada que caiu apanhando-nos desprevenidas na rua. Mas fica também a simpática oferta de uma boleia no chapéu-de-chuva que um guapo argentino nos ofereceu enquanto se encontrava parado, tal como nós, à espera de atravessar a rua. Fica ainda a recepção mais do que amigável, diria até paternal, que o poeta argentino Alberto Mosquera Montaña e sua senhora nos conferiram na nossa ida ao Café Tortoni, um dos mais mítico da cidade.
Fica também a ida ao Café La Biella, mais descontraído e moderno, e o estranho que foi ver as pessoas ali acomodadas a ler o jornal ou a conversar, com apenas uma bebida em cima da mesa, sem pressas, quer pela sua parte como pela parte dos funcionários. E os gelados Freddo! Tudo isto na Recoleta, famosa pelo seu cemitério. Também aqui, pela primeira vez, entrámos voluntariamente num cemitério e, desde aí, procuramos incluir uma visita a estes recantos de repouso nas nossas viagens. Ficará, ainda, na memória o preço exorbitante das coisas, bebidas a 400 escudos, refeições no Hard Rock Café (também o primeiro que visitei) a quase 2000 escudos. Uma loucura que teve o seu crash em 2001.
Nunca mais voltei a Buenos Aires, apesar de sempre pensar em fazê-lo. Em 1998, no entanto, voltei à Argentina mas dessa vez fui apenas a Bariloche, em trânsito vinda do Chile.
10 anos se passaram, quem diria?

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