As aventuras de Filipe Seems por Lisboa

“Tudo é ficção, acaso e destino, labirinto e jogo. Os homens necessitam de fábulas e não há destino mais nobre do que povoar o mundo com as personagens das fábulas”.

Filipe Seems é uma personagem criada pela dupla Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves, argumentista e desenhador. As aventuras deste detective particular surgiram pela primeira vez nas páginas do jornal Se7e, corria o ano de 1992, e resultaram em três livros: “Ana”, de 1993, “A História do Tesouro Perdido”, de 1994, e “A Tribo dos Sonhos Cruzados”, de 2003 – lançados todos juntos numa caixa ainda com um dvd em 2009.

Antes mesmo de as histórias ganharem forma, Nuno Artur Silva imaginava já a Costa do Castelo como o lugar onde Filipe Seems viveria e aí desfrutaria da luz de Lisboa e da vista do Tejo. A personagem principal mais óbvia é Seems, sim, mas estas aventuras em banda desenhada são uma ode a Lisboa, omnipresente em todas as histórias. Uma Lisboa futura com muitas referências do passado e, sobretudo, literárias. “Sonhava com uma cidade que não existia, mas que gostaria que existisse…”. Assim é Lisboa nestas histórias, uma cidade imaginária que se baseia em muito do real.

As personagens deambulam pelo Chiado, o Campo Pequeno surge-nos sem muitos acrescentos futuristas, mas as gôndolas percorrem toda uma Baixa inundada desde o Elevador de Santa Justa até ao Terreiro do Paço, ao mesmo tempo que um teleférico sai do Castelo e um eléctrico voa sobre o casario da cidade. E que dizer da neve a cobrir os telhados de Lisboa?

O traço de António Jorge Gonçalves é, como sempre, belíssimo e diverso, com várias experiências diferentes ao longo dos três livros.

Filipe Seems é curioso e inquieto, sempre em busca de algo não conhecido. Na primeira história, “Ana”, na verdade três Anas gêmeas (Ana Lógica, Ana Bela e Ana Hera), diz-nos “primeiro queria saber o porquê da semelhança, depois, procurar na semelhança a diferença”.

Fábulas, mistérios, intriga, labirintos, esquecimento – “era contra o esquecimento que eu escrevia (é sempre contra o esquecimento que se escreve), porque não a queria perder” – e amor, claro.

Logo às primeiras páginas observamos Filipe Seems e não podemos deixar de recordar Corto Maltese, o marinheiro de Hugo Pratt. No segundo livro, “A História do Tesouro Perdido“, o que poderia não passar de uma suposição revela-se expressamente numa inspiração. Seems anda às voltas com o mar, oceanos e navegadores numa aventura que é uma caça ao tesouro onírica e a imagem de Corto Maltese vem reproduzida nos quadrinhos. Esta é uma história de desencontros onde, afinal, o tesouro que se buscava no mar se encontra no deserto. A Lisboa donde se parte é representada através de escadinhas, ruas apertadas e até uma caravela, mas há ali elementos que nos fazem viajar para o passado, com os habitantes de Alfama com vestes muçulmanas, para logo de seguida sermos transportados para o futuro através do tal eléctrico voador.

O terceiro e último volume, “A Tribo dos Sonhos Cruzados”, é o mais estranho e difícil. Os desenhos são amiúde baços e esbatidos e os textos tornam-se intrincados, como um sonho desorientado em que as histórias se entrecruzam. Seems vagueia em busca de Ana, anda perdido, tentando encontrar-se, com perguntas como “o que é o desejo, o que fica depois do desejo?”, em imagens hipnotizantes como a música e dança do flamengo que relata. Mas, na verdade, pelo trilho do sonho vai em busca da sua cidade, aquela que conhece como a palma da mão e à qual regressa como se a ela chegasse pela primeira vez. A nossa Lisboa, real ou imaginada.

3 pensamentos sobre “As aventuras de Filipe Seems por Lisboa

      1. Quando estive em Portugal tive muita vontade de adquirir algumas obras, mas o preço das livrarias me assustou um pouco, assim como a falta de espaço na mala me fez repensar.

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