"Entre Dois Impérios – Viajantes Britânicos em Goa (1800-1940)", de Filipa Lowndes Vicente


Por incrível que pareça, não se encontram muitos livros sobre Goa do ponto de vista histórico (nem de nenhum outro). No entanto, no final do ano de 2015 foi publicado “Entre Dois Impérios – Viajantes Britânicos em Goa (1800-1940)”, de Filipa Lowndes Vicente (edição Tinta da China), com uma parte dedicada em exclusivo às mulheres viajantes.

A opção de focar os viajantes britânicos é plenamente justificada e o título da Parte I, “Colonizar a colónia vizinha”, não deixa dúvidas acerca dos preconceitos e intenções dos ingleses face à Goa portuguesa.

Pegando no que os vários britânicos foram escrevendo na sequência das suas visitas a Goa, a autora mostra-nos a sua (deles) estranheza, incómodo e até confusão pelo que observavam.
William Howard Russell, escritor oficial da viagem do príncipe de Gales a Goa, em 1875, por exemplo, ao referir-se às pessoas escrevia que “os europeus pareciam hindus mascarados e era muito difícil perceber onde acabava o hindu e começava o europeu”.

Aponta a autora, então, que para um inglês, Goa era mais estrangeira do que o resto da Índia. É duplamente exótica por não encaixar nas representações que previamente os viajantes faziam da Índia. O que acontecia era que “em Goa as fronteiras não eram tão claras e isso podia ser perturbador para quem queria que os goeses cantassem música nativa e se vestissem de nativos. Os nativos não correspondiam às suas expectativas sobre a alteridade e a vontade de reconhecer fronteiras bem definidas entre “nós” e os “outros”. Os viajantes não queriam ver-se ao espelho. Queriam o diverso. Não lhe perturbava a diferença, mas a familiaridade do que via e ouvia, demasiado semelhante a si própria”.

Por outro lado, os britânicos possuíam um sentimento de superioridade em relação a Goa, a “outra” colónia. A Dunlop Smith, membro da comitiva de Lord Minto na visita a Goa em 1909, por exemplo, “o que mais parecia incomodar não era a pobreza, nem a óbvia decadência goesa em relação a um passado longínquo, mas os sinais de riqueza, de orgulho ou de ostentação que pareciam ter sobrevivido ao declínio”.

Os britânicos que chegavam a Goa (e qualquer pessoa, em geral) constatavam o abandono da Velha Goa. Os tempos do Romantismo levavam a que o interesse pela ruína estivesse em voga. No entanto, este abandono e ruína que se verificavam constituíam uma “metáfora perfeita para a história do auge e declínio do império português” que os ingleses não deixavam de repisar. 

Não surpreende, pois, que o tema mais comum aos viajantes em Goa durante este período seja o do contraste entre o passado glorioso do império português na Índia e a decadência do presente. E que tal leve os ditos viajantes a assinalar que fosse efectuada uma reflexão sobre as lições da história e sobre a forma como os britânicos deveriam analisar as causas da decadência portuguesa na Índia, para não incorrer nos mesmos erros. Ou seja, “Goa enquanto laboratório para as políticas coloniais britânicas do presente”. Para eles, “Goa era uma outra Índia”, “um lugar colonizado por outros mas que seria mais bem colonizado por eles”. Vemos aqui presentes e marcantes os estereótipos de que Portugal era sujeito, como país da Europa do Sul, “atrasado” e “inferior”. A pretensão britânica sobre a Índia do lado tinha subjacente a ideia de que “se o governo português não sabia fazê-lo, então devia permitir que outros o fizessem”. 

A este propósito, a autora levanta uma interpretação curiosa acerca da “feminilidade dos territórios colonizados ou dos seus habitantes”, segundo a qual “Goa era do género feminino (da ausência de um exército à desolação de uma capital parada no tempo, da riqueza da terra por explorar aos portos onde não havia movimento ou comércio, da ridicularização de cerimónias e costumes desajustados ao abuso de indumentárias que já tinham passado de moda, da religiosidade exacerbada do catolicismo às ruínas de um passado que não voltaria: tudo isto culminava numa Velha Goa, onde a natureza já ganhara há muito a batalha contra a intervenção humana e onde as ruínas eram tanto matéria como metáfora, o desmoronamento do império português tornado visível). O império britânico, pelo contrário, apresentava sinais de uma masculinidade latente.”

Estas ideias britânicas estavam muito presentes nos discursos coloniais e ao mesmo tempo levam a autora a questionar se não poderemos encontrar nestas posições uma forma de “dupla colonização” ou de “duplo orientalismo”.

Os britânicos em Goa estavam ainda condicionados pelas diferenças de religião entre o catolicismo e o protestantismo. Eles viam o catolicismo como “uma religião exacerbada, excessiva, plena de rituais e de imagens que a afastavam da essência divina e do verdadeiro cristianismo, imbuído no protestantismo. Um excesso semelhante ao do hinduísmo. Viam como problemático a fusão entre as duas religiões, catolicismo e hinduísmo, que levara a que algumas superstições dos gentios fossem acrescentadas às suas. Ou seja, a hibridez de Goa congregava o pior de dois mundos.”. Entendiam Goa como um lugar amoral, onde o excesso de riqueza levara à decadência.

Não obstante esta posição religiosa diversa, apesar das críticas à Inquisição em Goa, São Francisco Xavier estava presente (pela curiosidade que despertava) em quase todos os textos dos viajantes britânicos. 

Dos motivos para visitar Goa, a autora aponta três modelos dominantes:
aqueles que viajavam por motivos de doença e que aproveitavam para escrever (turismo de saúde ou turismo medicinal);
Padres católicos ou protestantes que tinham um interesse religioso por Goa;
Relatos de viagem escritos por homens que foram a Goa em visita oficial.

O viajante mais conhecido será Richard Burton, autor de Goa and the Blue Mountains, publicado em 1851. Burton tinha curiosidade por uma outra Índia, desejava partir para um lugar menos comum e atraia-o Camões. Ainda assim, não deixou de ser crítico da Goa portuguesa. Face aos edifícios da Velha Goa estranha-os em relação ao turista habituado à Índia britânica. E explica a sua destruição pela pobreza dos portugueses. A lição histórica que Goa e os seus erros poderia representar para a política colonizadora britânica está bastante presente. Tal como o seu racismo, a par de ideologias suas contemporâneas: aponta o clima e a mistura de sangue como dois dos principais factores que teriam levado à degeneração da raça. Burton, tal como outros britânicos, ligavam a decadência e o declínio de Goa (do império português, enfim) a uma consequência da política de casamentos e ao cruzamento de portugueses com hindus de castas baixas. Esta mistura entre colonizadores e colonizados teria, segundo ele, afectado a consolidação da soberania portuguesa, para além de que, o não envio dos filhos de portugueses para Portugal (ao contrário do que seguiam os britânicos) terá resultado num processo de aculturação que mais não fez do que tornar ténue a linha entre aqueles que possuíam o poder e aqueles que a ele estavam subjugados. Filipa Lowndes Vicente esclarece ainda que “as relações de britânicos com mulheres indianas, [eram] tão comuns como não oficiais, estavam imbuídas de uma hierarquização que, longe de demostrar a tolerância ou a empatia com a terra colonizada, poderia até ser considerada como uma outra forma de colonização”.

Em seguida, algumas ideias mais expressas por outros viajantes.

O Conde Van Hübner, diplomata austríaco, dizia acerca da cidade de Velha Goa que era um “monumento fúnebre” que preservava as cinzas do Portugal heróico, enquanto a natureza selvagem que a tinha invadido substituía a função das flores que, habitualmente, se plantavam junto aos túmulos. O silêncio sepulcral apenas era interrompido pelos sinos que chamavam devotos inexistentes, e o abandono desolador da antiga cidade apelava tão-só à lira de Camões para lhe cantar as tristezas.

James Forbes viajou em 1813. Publicou cartas e desenhos. A curiosidade era o que o movia e registou o contraste entre o branco das casas e a natureza luxuriante. Não deixa, no entanto, de referir a inquisição de Goa e de a considerar uma cidade desoladora, um cenário melancólico de deploração e ruína.

Charles Frédéric de Montholon-Sémonville, diplomata e senador francês, fez de Goa um lugar de passagem a caminho de Mumbai. Em relação a Pangim, expressou a sua emoção: “Encontrei muito frequentemente, sobretudo nesta costa do Malabar, lugares deliciosos; mas aqui, no cenário quase mágico que se desenrolava à minha frente, qualquer coisa distinta e que me deixou espantado pela sublime estranheza da cena. Nos montes que dominam as margens do rio, nas ilhas, nos fortes, nos conventos, toda a arquitectura portuguesa do século XVI; os seus muros grandes e altos que tiveram os seus dias de pujança e dominação inquieta e orgulhosa, testemunhos hoje em dia silenciosos de uma rápida decadência, parecem ainda projectar, sob um sol incandescente, um orgulho de grandes sombras douradas sobre um solo indiano, pisado com tanto impacto pela primeira conquista europeia empreendida na Ásia.”

Williams Howard Russell, acompanhante do Príncipe de Gales na sua visita oficial a Goa em 1875, narrou a viagem. Considerou que os portugueses na Índia ficavam muito castanhos e os europeus pareciam hindus em costume, ou seja, vestidos com trajes ocidentais. Notou a ausência de mulheres entre a pequena multidão reunida para saudar o Príncipe. A mistura racial, os mestiços, levou-o a afirmar que era muito difícil perceber onde acabava o hindu e começava o europeu – a etnia e o género, pela presença ou pela ausência, converteram-se nos primeiros critérios de classificação de uma Índia percebida como diferente. Sobre Goa: “um arsenal em ruínas; palácios em ruínas; paredes do cais em ruínas; igrejas em ruínas – tudo em ruínas.” A lição: ” A história dos portugueses na Índia contribuiria certamente para enriquecer a narrativa moral de qualquer historiador de filosofia que quisesse debruçar-se sobre o declínio e a queda de impérios. Gama! Albuquerque! Estes são os grandes nomes a ter em consideração. É um lugar que qualquer inglês deveria visitar. Um lugar onde em especial um Príncipe Inglês poderá retirar enorme proveito da sua visita. Se nós nos orgulhamos dos nossos feitos e da nossa história na Índia, e se nos rejubilamos pelas façanhas da nossa raça, ao olharmos para certas ruínas como aquelas que o Príncipe de Gales tem contemplado, somos levados a questionar-nos sobre os factores que minam as fundações de Estados poderosos e que contribuem para transformar em pó o trabalho de estadistas e soldados.”

Quanto às duas mulheres focadas autonomamente no livro de Filipa Lowndes Vicente, Isabel Burton e Katherine Guthrie, o catolicismo da primeira distingue-a dos demais viajantes. Mas pouco mais as diferencia dos restantes nas conclusões a que chegam após a visita a Goa, para além do que, tal como os homens, escreviam a partir das ideologias dominantes na sua época e não questionavam a legitimidade do império britânico.

Isabel Burton escreveu: “A Índia portuguesa, graças a Deus, é apenas uma faixa de território com cerca de 70 milhas de comprimento, e fariam bem melhor se a vendessem ao governo britânico; de todos os lugares esquecidos e abandonados por Deus, mil anos atrasados em relação ao resto da criação, nunca vi nada que igualasse Goa.”. Notou ainda o isolamento de Goa face ao resto do mundo, ausência de bens de consumo, moda, vestuário medieval e grotesco, mas como muitos outros realçava a hospitalidade dos anfitriões, sem deixar de acrescentar de que tinha pena deles por terem de viver ali. Descreve o lugar como morto e com um clima pior ainda. Na sua primeira impressão de Pangim remeteu para Santos, no Brasil, onde tinha vivido. Dizia que todas as cidades construídas pelos portugueses eram feitas à semelhança de Lisboa e que a paisagem obedecia a uma mesma tipologia – a mesma “entrada abrupta do mar, entre rochedos montanhosos, sobre um rio amplo e sinuoso, ou um braço de mar, com margens de madeira, com as mesmas cidades brancas empoleiradas nas suas margens”. ” A costa longa e plana, o interior ondulado e coberto de vegetação, sobretudo pelas palmeiras, o território pontuado de aldeias brancas de telhados de palha e por casas verdes e brancas; pequenas fortalezas brancas que um canhão de dez libras demoliria; igrejas alongadas, assemelhando-se a celeiros, com grandes fachadas pintadas de branco, por dentro e por fora, a espreitar por entre a vegetação, mostram como os portugueses souberam moldar o território com base nos padrões do seu país de origem e das suas colónias. Nós estamos como que em Portugal, – numa faixa do Brasil – num hemisfério indiano.”

Guthrie, por seu lado, logo à chegada da fronteira portuguesa notou diferença nos territórios, uma paisagem mais cultivada, jardins com vegetais e laranjeiras, uma ponte com um santuário de cada um dos lados. A arquitectura das casas surge como característica nova e repara na ausência da varanda e da sua preciosa sombra e acredita que os portugueses nunca tinham sido capazes de se adaptar às arquitecturas locais, nem adaptar às características benéficas das regiões onde se instalavam.
“A minha primeira impressão de Goa e, acrescentarei, a minha última, era de que se tratava do mais estranho recanto da terra que eu alguma vez visitara.”. Também considerava os goeses educados. Mas a sua visão protestante fazia com que considerasse que a religiosidade vivida pelos católicos estava repleta de gestos supersticiosos e irracionais alimentamos por padres interessados em perpetuar a ignorância dos povos. Sobre Velha Goa não podia ser mais incisiva: ruína, solidão, natureza selvagem, ar infesto.

Concluindo, Filipa Lowndes Vicente encontra nas narrativas dos viajantes britânicos em Goa estudadas uma orientalização do português, ou seja, uma espécie de colonização dos colonizadores portugueses.

Livro a não perder por todos aqueles que gostam de história, literatura de viagem e estudos étnicos e do género. Melhor, para quem aprecia os quatro focados a um mesmo tempo.

Robert Byron – A Estrada para Oxiana

Em Novembro do ano passado foi-me anunciada uma viagem que me impossibilitou de dormir a noite toda, tal era a ansiedade e entusiasmo. Iríamos, eu e os meus colegas de língua persa, dez dias para o Irão, com transporte, alojamento e refeições incluídos por conta de alguém que não nós. O visto ficaria a meu cargo e não hesitei em ir de imediato renovar o passaporte. Nem por um momento duvidei de tanta esmola. Os dias foram passando sem que surgissem novidades sobre a nossa viagem. Era para Janeiro, depois para o Carnaval, depois não era para a altura do Novo Ano Persa, mas era para logo de seguida. 
Quando há uns anos a editora Tinta da China anunciou a sua colecção de viagens lembro-me de ver logo referido que uma das primeiras obras a lançar seria o clássico “The Road to Oxiana”. Demorou e só no fim do ano de 2014 foi disponibilizada aos leitores em português.
A minha viagem ao Irão não aconteceu e a ter lugar (e terá) será por minha iniciativa, logo, o melhor que fiz foi mesmo iniciar e terminar a leitura de “A Estrada para Oxiana”, de Robert Byron. 
Este livro influenciou muitos pelo mundo fora, escritores ou não, aventureiros ou apenas indivíduos que gostam de viajar pelas letras. Publicado em 1937, na sequência da viagem de dez meses de Byron pelo Médio Oriente, entre 1933 e 1934, este é considerado o primeiro exemplo do quão grandiosa pode ser a literatura de viagens. O escritor Paul Fussell afirmou mesmo que “A Estrada para Oxiana” está para a literatura de viagens o mesmo que “Ulisses”, de Joyce, está para o romance entre guerras e “Terra Devastada”, de T.S. Eliot, está para a poesia. Já Bruce Chatwin, o herói de qualquer um de nós que começou a viajar nos anos 80 / 90, escreveu na sua introdução para o livro de Byron que este era “um texto sagrado, para além de qualquer crítica”, fazendo-se acompanhar desta obra nas suas viagens. Em resumo, Byron e o seu “A Estrada para Oxiana” fez com que muitos quisessem ser escritores de viagens. 
A Oxiana do título deste livro é a região de fronteira do norte do Afeganistão, mas o seu autor viajou pelo Chipre, Palestina, Síria, Iraque, Pérsia e Afeganistão, até chegar a Peshawar (então India, hoje Paquistão) e retornar para a sua Inglaterra. O objectivo inicial de Byron era o de visitar as jóias arquitectónicas da região. O autor possuía um enorme conhecimento sobre arte e as civilizações e não se coíbe de descrever as pessoas e lugares por onde foi passando. Mas, sobretudo, uma enorme sede de sair e conhecer o mundo.
Byron lembra logo ao início deste livro, a propósito das memórias da uma sua anterior viagem a Itália, “eu podia ter sido dentista, ou uma personalidade pública, se não fosse aquele primeiro vislumbre de um mundo maior”.
Mundo esse que o levou mais além, fora da Europa, pela Pérsia, por terras de Babur, o descendente de Tamerlão e Gengis Khan, que fundaria o império Mogol. As cores de mosaicos e azulejos de azul cor de uva foram-lhe marcantes e é por eles que sonho também. Aliás, diz Byron a certo passo, a cor e os motivos são um lugar comum na arquitectura persa.
É precisamente a apreciação da arquitectura e dos monumentos o seu forte. Seja na descrição da beleza de Ispaão (onde “as suas imagens entram subtilmente para a galeria de lugares que todas as pessoas reverenciam no fundo do seu coração”), das ruínas de Shaour (sobre as quais escreveu que “quem admira a força sem arte, e a forma sem alma, vê neles beleza”) ou da por si odiada arquitectura de Bombaim (“absolutamente horrível: indiana, chalet suíço, castelo francês, torres de Giotto, catedrais de Siena e São Pedro podem ser encontradas todas juntas em quase qualquer edifício”; para Byron a Índia Britânica era “uma gigantesca conspiração para fazer acreditar-nos que estamos em Balham ou Eastbourne”, enfim, “num país cheio de bons exemplos, os ingleses deixaram a marca da besta”).
A ironia de Byron é uma das constantes ao longo desta sua obra. A tal ponto que confidencia que “hoje em dia, negligenciar um pôr-do-sol constitui uma indiscrição política” e “elogiá-lo produz igual efeito”. Quebremos, então, “os tabus do nacionalismo moderno, no interesse da razão humana”, e deixemo-nos levar pela leitura snob mas sempre erudita e divertida de Byron por terras de Oxiana.

Raul Brandão – As Ilhas Desconhecidas

Esta obra de Raúl Brandão (1867-1939), autor de Húmus, é um excelente livro de viagens.
“As Ilhas Desconhecidas – Notas e Paisagens” são o relato da viagem que o autor fez aos arquipélagos dos Açores e da Madeira no Verão de 1924, tendo sido publicado originalmente em 1926 e republicado em 2011 pela editora Quetzal.
Após a leitura do livro, que Raul Brandão diz serem notas de viagem, é evidente o maior gosto e simpatia do autor pelas paisagens e gentes dos Açores em relação às da Madeira, que considerava já então excessivamente turística.
Em ano de abertura dos voos para os Açores às companhias low cost, e prevendo-se o crescimento das visitas por parte dos continentais, não será nada má ideia a leitura prévia desta obra maior da nossa literatura de viagens. 
O livro é belíssimo, todo ele um panegírico às nossas ilhas. As palavras, essas, tocam fundo no nosso coração, ainda para mais o daqueles que amam as ilhas e o mar: “mar desmaiado, que não foi feito para se ver mas para respirar”. A paisagem, que aliás consta no nome completo deste livro, desperta no autor uma profusão de sentimentos tal que o leva a escrever que “à noite não posso dormir; estou encharcado de azul. Vou a pé pela estrada fora sob o luar derretido. Diante de mim abre-se o abismo do mar cheio de estrelas”. De lembrar que Raul Brandão nasceu na Foz e era descendente de pescadores e antes desta havia escrito a obra “Os Pescadores”.
Depois de passar rapidamente pela Madeira, Raul Brandão seguiu para os Açores. Por aí foi viajando, de barco, de ilha em ilha. Com a experiência da paisagem que se sucedia à paisagem diz a certo ponto ter percebido que “o que as ilhas têm de mais belo e as completa é a ilha que está em frente”.
Sobre o Pico, ponto mais alto de Portugal, aponta que “isto que de longe era roxo e diáfano, violeta e rubro, conforme a luz e o tempo, aparece agora, à medida que o barco se aproxima, negro e disforme, requeimado e negro, devorado por todo o fogo do Inferno. É um torresmo. Nunca labareda mais forte derreteu a pedra até cair em pingos e desfazer-se em cisco. É uma imagem a negro e cinzento que me mete medo.”. Ainda assim, não deixou de tentar a “exaltação da vida livre” de subir até ao Pico: “Dorme-se numa furna para ver amanhã o nascer do sol no alto do Pico. Quem quer, dorme às estrelas. Vamos… O que eu procuro, pela última vez na minha vida, não é o panorama – é a exaltação da vida livre.”.
São Miguel, a ilha ainda hoje mais acessível, é lugar das Sete Cidades e face a esta paisagem Raul Brandão não podia ser menos contido na grandiloquência que o sentimento conferiu às palavras: “irrealidade, algo fora da vida, regiões inesperadas de sonho”.
Da Madeira, como já referido, Raul Brandão não parece ter levado o mesmo encantamento que levou dos Açores, não deixando de as comparar e ter da primeira uma visão crítica. “Agora conheço melhor a Madeira. Passado o primeiro entusiasmo, vejo tudo a frio. Esta ilha é um cenário e pouco mais – cenário deslumbrante com pretensões a vida sem realidade e desprezo absoluto por tudo que lhe não cheira a inglês.”. Ainda assim, realça a sua cor a as suas frutas.
Embora Raul Brandão tenha uma atenção a todos os sentidos – visões, sons, sabores – a exaltação da cor e da paisagem é uma constante ao longo de toda esta obra. A cambiante da cor produziu em Raul Brandão tais sentimentos que parece que não são apenas os Açores que poderão ser comparados ao Japão, como algures se diz. Também o espírito do autor, disponível para se deixar tocar pelo evoluir do dia, parece ter semelhanças com os autores japoneses, tão sensíveis à mudança das estações. Um naturalista, também.
Presentes de forma amiúde estão, igualmente, a solidão e uma certa melancolia que provoca toda a beleza visitada. Nas gentes açorianas o autor sentiu um isolamento extremo (no Corvo) e uma coragem destemida (caça à baleia no Pico), mas sobretudo uma partilha e espírito de comunidade admiráveis.
As Ilhas Desconhecidas é uma das obras maiores de toda a nossa literatura, em especial para quem aprecia que coloquem em palavras sublimadas as nossas gentes e o nosso território.

Somerset Maugham – Um Gentleman na Ásia


Somerset Maugham (1874-1965) é autor de muitos e aclamados livros. 
Em Um Gentleman na Ásia, que tem como título original The Gentleman in the Parlour, onde se deixa envolver pela espécie literatura de viagens, diz logo ao que vem: “Sendo escritor podia viver por outras pessoas uma vida que eu próprio não podia ter.”
Ao longo de toda esta obra a ironia e uma forma de discurso directo, sem intermediários para com o leitor, são uma presença constante e marcante.
“Para que o leitor destas páginas não seja vítima de nenhum equívoco, apresso-me a dizer-lhe que pouca será a informação que encontrará aqui. Este livro é o relato de uma viagem pela Birmânia, os estados shan, o Sião e a Indochina. Estou a escrevê-lo para meu próprio entretenimento e espero que também sirva para entreter quem se der ao trabalho de dedicar algumas horas à sua leitura. Sou um escritor profissional e, com este livro, espero ganhar algum dinheiro e quiçá alguns elogios.”.
Mais, “Embora seja muito viajado, sou mau viajante. O bom viajante tem o dom de surpreender-se. Tem um interesse perpétuo pelas diferenças que encontra entre o que conhece no seu país e o que vê no estrangeiro. Se possuir um sentido apurado do absurdo, encontra constantemente motivo para se rir do facto de as pessoas que o rodeiam não se vestirem como ele e não consegue deixar de se espantar por aquelas pessoas comerem com pauzinhos e não com garfos ou escreverem com um pincel e não com uma caneta. Como tudo lhe é estranho, repara em tudo, o que, consoante o seu estado de espírito, pode ser divertido ou edificante. Já eu tomo tudo por certo tão rapidamente, que deixo de ver o que seja de invulgar no meu novo ambiente.”
Claro o bastante, não há aqui concessões a um eventual leitor, em especial àquele (bom) viajante que se deslumbra facilmente (como eu) e gosta de ler relatos de deslumbres semelhantes escritos por grandes escritores (como eu, novamente).
E Maugham é Mestre. Sem favores vai relatando o que lhe dá vontade e nós, leitores, sentimos sem cinismo que muito do que relata pode não ter acontecido. Mas o que interessa é que a sua imaginação faz a nossa fluir e a leitura prende-nos de princípio ao fim. E diverte-nos. 
Alguns exemplos: “Tenho receio de pessoas muito simpáticas. É gente que nos consome. E acabamos imolados ao exercício do seu dom fascinante e da sua insinceridade.”; “As viagens por rio são monótonas e relaxantes. São iguais em qualquer parte do mundo, não há responsabilidade que nos pese nos ombros. A vida é fácil.”; “Preferia mil vezes que Proust me entediasse do que qualquer outra pessoa me divertisse.”.
O episódio do seu encontro com um padre italiano em terras dos shans é daqueles que não interessa se aconteceu mesmo. Interessam, sim, as palavras que Maugham dedica ao budismo pela boca do dito padre, segundo o qual o budismo é uma religião belíssima e que, por isso, não conseguia fazer nada com os shans, satisfeitos com a sua religião.
No Sião, actual Tailândia, Budas e wats é o que não falta para ver. Sobre estes monumentos escreveu Maugham que “lancei um olhar impaciente a mais um Buda de proporções imensas. E mais um, e mais outro” e “os wats angustiavam-me com a sua magnificência berrante e faziam-me doer a cabeça, e os seus ornamentos fantásticos enchiam-me de mal-estar”. Afinal, a culpa não era dos wats e o escritor viajante tinha acabado de adoecer com malária.
Sobre Banguecoque, capital da Tailândia, uma opinião surpreendente: “é impossível olhar para estas cidades mornas e populosas do Oriente sem sentir um certo mal-estar. São todas iguais, com ruas estreitas, arcadas, linhas de eléctrico, poeira, sol ofuscaste, chineses por todos o lado, tráfego compacto e ruído incessante, não têm historia nem tradições. Não inspiraram pintores. Nem há poetas que, transfigurando tijolos e argamassas sem vida com a sua divina nostalgia, lhes tenham transmitido uma melancolia formidável, que não lhes era própria. Vivem a sua vida, sem associações, como um homem sem imaginação. São duras e resplandecentes, e tão irreais como o pano de fundo de uma comédia musical. Não nos dão nada. Mas quando as deixamos, temos a sensação de que alguma coisa nos passou ao lado e não conseguimos deixar de pensar que têm algum segredo que nos ocultaram. E, embora se tenha sentido algum tédio enquanto lá estivemos, recordamo-las com nostalgia.”
O Vietname não lhe parece ter suscitado grandes estados de alma. De Saigão, a sua apreciação é mordaz, dizendo que “tem o ar de uma vila provinciana do sul de França”, sendo “agradável para se passar alguns dias de ócio”, destacando o mítico Hotel Intercontinental. Hué, por sua vez, “não é imponente” e de Hanoi diz não ter encontrado nada que lhe interessasse muito (umas décadas após Somerset Maugham, como deslumbradinha que sou, ainda para mais na primeira visita à Ásia, visitei estas três cidades e a mim encheram-me as medidas. Hué é um excelente poiso para se tocar o olhar de primeira viagem nas cidades imperiais que vemos depois quer na China – Pequim com a sua Cidade Proibida – quer na Índia – Agra com a sua Fatehpur Sikri).
Pelo contrário, sobre os templos Angkor, eleitos recentemente pela Lonely Planet como a maior experiência que o viajante pode ter no mundo, a sua opinião é mais próxima daquela que qualquer um de nós que já os visitou pode ter, sem deixar de a expor de uma forma única e sincera: “mas, agora eu chego a esta parte do meu livro, sou assaltado por um sentimento de consternação. Nunca vi nada no mundo que me maravilhasse tanto como os templos de Angkor, mas não sei como hei-de fazer deles uma descrição que transmita ao leitor de grande sensibilidade algo mais do que uma impressão confusa e vaga da sua grandeza”.
Pese embora o encantamento de este e de outros locais desta Ásia visitada por Maugham, o autor conclui de forma brilhante e inequívoca sobre o sentido maior que ela acabou por lhe revelar: “Pareceu-me então que, nestes países do Oriente, o monumento da Antiguidade que mais impressiona, que mais respeito inspira, não é nem um templo, nem uma cidadela, nem uma grande muralha, mas o homem. O camponês, com os seus costumes imemoriais, é de uma época muito mais antiga do que Angkor Wat, a Grande Muralha da China ou as Pirâmides do Egipto. Foi com surpresa que descobri como tinha mudado pouco a vida destas pessoas no espaço de mil anos. Continuam a fazer as mesmas coisas com os mesmos utensílios.”.

A Ponte Sobre o Drina

Por muitos considerada a obra prima do nobel bósnio Ivo Andric, a história de “A Ponte Sobre o Drina” desenrola-se ao longo de quatro séculos, desde a construção da ponte da cidade de Visegrad, na fronteira com a Sérvia, até à entrada para a I Grande Guerra Mundial. Ao longo desse tempo o autor vai-nos contando histórias sobre as gentes da terra, sempre com a ponte como protagonista principal, as quais foram sofrendo a influência otomana – a ponte sobre o Drina foi mandada construir pelos turcos no século XVI -, sérvia e austríaca, até à emergência do nacionalismo.
Entre o relato de histórias de amor ou de pequenas vivências na passagem pela ponte de uma margem do Drina para a outra, impossível não deixar de refletir nas palavras do autor quando mostra, primeiro, a convivência pacífica entre as várias etnias e, depois, a quebra dos laços fraternos de séculos entre elas.
Primeiro:
“Os velhos conceitos e valores colidiam com os novos e opunham-se-lhes, combinavam-se ou coexistiam como se estivessem à espera para ver quais deles sobreviviam aos outros. O povo fazia contas em florins e em kreutzers, bem como em groshes e paras, media e pesava em côvados, em okas e drams, mas também em metros, quilos e gramas, fixava as datas para os pagamentos e encomendas pelo novo calendário, mas também, e na maior parte das vezes, segundo o velho costume: no dia de São Jorge ou no dia de São Demetrio.”
Depois:
“Só então é que na cidade começou a verdadeira perseguição aos sérvios e a tudo o que lhes estava ligado. Todo o povo se dividiu em perseguidos e perseguidores. A fera que existe dentro do homem e que só ousa mostrar-se quando as barreiras da lei e dos hábitos são removidas, estava agora à solta. Dado o sinal, as barreiras caíram. Como tantas vezes acontece na história humana, a violência, a pilhagem e mesmo o assassínio eram tacitamente permitidos desde que fossem cometidos em nome de interesses superiores, em conformidade com regras estabelecidas e contra um número limitado de pessoas de uma determinada espécie e credo. Um homem de espírito puro e de olhos abertos que então vivesse poderia testemunhar como é que se dá esse milagre e como uma sociedade inteira se podia transformar num único dia. Em poucos minutos a tradição secular da cidade foi devastada. É certo que sempre tinha havido secretos ódios, intolerância religiosa, infâmia e crueldade, mas também sempre houvera amizade e magnanimidade, e um sentimento de decência e de ordem que mantinham todos os instintos vis dentro dos limites do suportável, e que, ao fim e ao cabo, os acalmava, e os submetiam ao interesse geral da vida em comum.”
Publicada em 1945, esta obra confirma como os equilibrios nos Balcãs foram sempre dúbios e assim permanecem para além dela.

XXI, Ter Opinião

Ao número 4 a revista da Fundação Francisco Manuel dos Santos, XXI, Ter Opinião (https://www.ffms.pt/xxi-ter-opiniao/2015/4), editada no princípio deste ano, é inteiramente dedicada às cidades. 
Aborda em artigos sempre excelentes diversos temas hoje indissociáveis do urbanismo como o são, desde logo, o planeamento, a arquitectura, a política, a demografia e o turismo. 
O grafismo desta publicação é muito bonito, facilmente inteligível nos quadros que apresentam os números relativos aos temas, possuindo ainda fotos acertadas e umas ilustrações belíssimas. Em diversos artigos são nos sugeridas leituras e/ou filmes que possamos acrescentar ao nosso conhecimento.

Porque, como logo se refere no editorial a cargo de António José Teixeira, as cidades são hoje competitivas, disputando o estatuto da melhor para se viver, tal só pode ser alcançado se elas forem centros de poder que assentem não tanto nas suas infra-estruturas, mas mais no seu capital humano, oferecendo mais ideias e conhecimento, ou seja, mais formação e educação.
O planeamento é parte indispensável do processo de urbanização. Como não podia deixar de ser, é-lhe dado enfoque nesta revista dedicada às cidades. No entanto, no pensar previamente o espaço público não há uma receita – antes há que inovar e experimentar. Por isso vem tão a calhar o artigo que recorre à visão e sonho de um punhado de jovens arquitectos para nos despertar a curiosidade sobre a (sua) cidade imaginada.
Incontornável é o constante fazer política quando habitamos as cidades. Começa no planeamento,  na definição das opções dos poderes públicos, e segue com a participação na coisa pública que cada vez mais se espera que nós, habitantes das cidades, tenhamos. Como dois exemplos desta participação é analisado o papel desempenhado pelas redes sociais e pelos movimentos anti-crise.
O turismo, em especial em Portugal, é um factor que potencia a visibilidade dos seus espaços urbanos (e não só). A competição para ganhar um maior número de visitantes também passa por aqui e o desafio está entre preservar a identidade dos espaços ao mesmo tempo que se consegue regenerar e inovar, na tentativa de se apresentar um destino distinto dos demais.
Quanto se fala que cada vez mais e mais pessoas acorrem e continuarão a acorrer às cidades, a demografia é uma ciência imprescindível para se entender o fenómeno da vivência urbana. 
As gerações sucedem-se e os problemas vão-se colocando: como fazer face ao envelhecimento e como apoiar a natalidade.
Do meu ponto de vista, um dos artigos desta revista que mais despertam consciências, no sentido de nos fazer pensar e colocar em causa aquilo que nos costuma ser apresentado como uma verdade incontestada, é o de Maria João Valente Rosa, “Urbanização: contraceptivo à fecundidade?”. Diz-nos a socióloga especialista em demografia que “o debate sobre a natalidade é essencialmente ideológico. À escala global, não há um problema de fecundidade. Nos países mais ricos, a diminuição dos nascimentos veio a par com o desenvolvimento social e económico” continuando que “quanto aos nascimentos, dependendo do lugar do planeta em que nos situamos, assim falamos da sua falta – se estivermos do lado das regiões desenvolvidas -, ou do seu excesso – se estivermos do lado dos países mais pobres. […] Assim, a verdade é só uma, porque o planeta também o é: não há falta de crianças. O que existe é um desequilíbrio demográfico profundo, tal como também um profundo desequilíbrio social e económico entre regiões.”. Diz ainda acreditar que “talvez as razões que levam a esta excessiva angústia da Europa e de Portugal com o reduzido número de nascimentos se prendam com a inevitável perda de protagonismo demográfico destas regiões à escala global do mundo e das culturas autóctones. Não esqueçamos que a Europa representava 1/5 da população mundial em 1960 e hoje só equivale a 1/10.” Defende que os fluxos migratórios podem ser uma solução para o reequilíbrio   populacional, mas segue que nesta “inquietação demográfica” está em causa sobretudo a questão ideológica ligada à “perpetuação, a todo o custo, do Homem europeu”. 
A este propósito – o desequilíbrio demográfico – penso que faltaria a esta revista um artigo autónomo que se dedicasse a analisar os movimentos migratórios a que hoje se assiste à escala global e que, com defende esta autora, talvez nos pudesse ajudar a combater esta situação.
Por outro lado, informa ainda Maria João Valente Rosa, a quebra da fecundidade está ligada às cidades e à liberdade individual que estas passaram a assegurar – a um desenvolvimento social e mental dos indivíduos, em suma.
Nesta revista não falta ainda a visão de Álvaro Siza face a vários tópicos (modas, talento, luxo, crise, interesses e ignorância, entre outros), uma impensável comparação entre as cidades do Rio de Janeiro e de Montemor-o-Novo por Alexandra Lucas Coelho, que nelas habitou em momentos seguidos, e dois testemunhos mais íntimos das metrópoles de Tóquio (Ricardo Adolfo) e São Paulo (Ricardo Carvalho), ambos com ilustrações fantásticas de André Carrilho.
Há ainda espaço para uma reportagem que não nos deixa quietos e, ao mesmo tempo, cuja leitura é acompanhada com um sorriso nos lábios: “O último palmo de Lisboa”, a caminho de Loures as ovelhas convivem entre as vias rápidas e os prédios. A Ameixoeira a duas velocidades, entre pastores e a nova classe média-alta.
O que se pretende é ideias para as cidades. Um futuro aberto à imaginação, onde todos não deixemos de ter lugar.

Urban Sketchers em Lisboa – Desenhando a Cidade

Na mesma linha do “Diários de Viagem 2 – Desenhadores Viajantes” ia o antecedente “Urban Sketchers em Lisboa – desenhando a cidade”, publicado pelos Urban Sketchers em 2012: o desenho num diário gráfico é “um antídoto perfeito contra o stress e, provavelmente, a melhor maneira de tirar o máximo partido da experiência de viajar”, escreve Gabi Campanario na sua Introdução.
Este livro foi publicado na sequência do Simpósio Internacional sobre desenho urbano que trouxe a Lisboa mais de 200 desenhadores de todas as partes do mundo. Um sketchcrawl, uma maratona de desenho que colocou estes artistas pelas praças e ruas a desenharem a nossa cidade em diferentes exercícios enquadrados em vários workshops.
Assim, tendo como guião diversos princípios e ideias – como a de que o desenho manual é uma forma de estimular o pensamento criativo, a de que existe uma nostalgia pelo autêntico e pelo feito à mão, de que tal aumenta a espontaneidade, de que o desenho in situ aumenta a capacidade do designer para ver e pensar criativamente e, sobretudo, de que converter uma paisagem em linhas, tons e texturas permite transmitir, de maneiras que a fotografia não possibilita, a essência visual de uma cena e a nossa reacção a ela – esses workshops passaram, entre outros, pelos seguintes locais:
No Cais do Sodré procurou-se praticar o registo gráfico dos movimentos da agitação de pessoas e veículos. 
No Largo de São Carlos o jogo de planos. 
No Largo de São Paulo exercícios de observação e acção de desenhar, como desenhar o transitório, escolher e desenhar um tema. 

Na Rua da Bica exploraram-se as suas características declivosas que causam um contraste provocado pelas sucessivas alterações do horizonte, bem como variações de luz e contrastes cromáticos entre o amarelo do ascensor, o azul do Tejo e as cores neutras da arquitectura. Principalmente, o contraste da rua inclinada e da cor amarela do elevador.
No Adamastor fez-se valer o local – miradouro – privilegiado para se observar o rio, o casario, as gentes que para lá confluem (turistas e autóctones) e Almada, o começo do Sul do país.

No Largo Luís de Camões procurou-se apreender o espírito do lugar e fixar os detalhes no desenho.
Em resumo, e como conclusão, este processo de desenho é excelente para se desvendar um local, vê-lo com outros olhos, descobrir nele pormenores antes nunca detectados. Possibilita, assim, uma redescoberta de locais que não nos eram de todo estranhos. Mas, mais importante do que o desenho em si é aquilo que envolve a sua produção – a atenção posta no acto de desenhar com as nossas percepções e impressões visuais. A final, com o mesmo universo e motivações semelhantes – o desenho – as sensações que cada um expressa para o papel são diversas. 
Como resultado, eis que temos um livro que nos dá a ver Lisboa como nunca a tínhamos visto.