Os Pescadores, de Raul Brandão

Os Pescadores, publicado em 1923, é uma obra superior, uma ode à costa portuguesa, de Caminha a Olhão, “esta nossa terra portuguesa vai pela costa fora sempre de braços abertos para o mar, estreitando-o amorosamente contra si”.

Pura beleza, já se vê, este conjunto de crónicas escritas por Raul Brandão (1867-1930), descendente de pescadores, nado e criado na Foz do Douro.

Uma constante percorre todo este livro, a das mulheres que perdem os seus homens, maridos e filhos, para o mar, mas que continuam vivas e a viver desse mesmo mar que lhe roubou os seus. Como a própria avó do autor, viúva aos 20 anos.

À semelhança de “As Ilhas Desconhecidas” (outro monumento sobre o qual havia escrito aqui), o mar é uma presença forte e descrito de forma sublimar. Mas também o céu. Uma explosão de cores do mar e do céu é-nos apresentada. “Primeiro a costa, ao longe violeta e vermelha, mais longe roxa e diáfana, mais longe ainda perdida na bruma.”

A luz como grande pintora e o autor com a “alma a escorrer tintas estranhas”. Como se este Os Pescadores, livro de memórias e livro de viagens, fosse também uma verdadeira pintura.

Começamos com a Foz do Douro e com as suas lembranças de menino, revivendo episódios e factos com saudade e ternura.

Pela Ria de Aveiro descobrimos que “o homem nestes sítios é quase anfíbio: a água é-lhe essencial à vida e a população filha da ria é condenada a desaparecer com ela. Se a ria adoece, a população adoece. A alma desta terra é na realidade a sua água. A ria, como o Nilo, é quase uma divindade. Só ela gera e produz.”.

“Pesca-se. Sonha-se. Toma-se banho. E esquece-se a vida prática e mesquinha.”

A vida, a vida que segue como uma pintura, como esta imagem de “um rapaz, no alto da duna, sopra o búzio com as bochechas cheias, chamando a companha para a pesca.”

Pintura eloquente, e pintura contundente, como esta descrição das gentes da Ria: “tudo aqui é pobre e humilde mas não grosseiro. Os homens trigueiros, secos e fortes e as mulheres bem lançadas. Mesmo as feias teem um ar de distinção. A família é sagrada. O contacto com a terra obriga o homem a olhar para o chão, o convívio com o mar obriga-o a levantar a cabeça. Quando saem do barco e o encalham os pescadores não fazem mais nada – deitam-se na areia. O resto compete à mulher: é ela que lava as rêdes e o peixe, que o salga e carrega é que faz a lavoura da Barrinha.”

Os Palheiros de Mira foram igualmente alvos da atenção delicada e inspirada de Raul Brandão: “Como vive esta gente? Vive com simplicidade nos palheiros, casa ideal para pescadores ou para um velho filósofo como eu. É construída sôbre espeques na areia, com táboas de pinho é um fôrro por dentro aplainado. Duram tanto ou mais que a vida; cheiram que consolam, quando novas, a resina, a árvore descascada e a monte; ressoam como um velho búzio e são leves, agasalhadas, transparentes. Por fora escurecem logo, e envelhecendo caem para o lado ou para a frente; por dentro conservam uma frescura extraordinária, e quando se abre uma janela, abre-se para o infinito.”.

Com o autor seguimos para sul. Para as Berlengas, que “parecem duas nuvens pousadas no mar”, “o mais belo sítio da costa portuguesa”. E para a Nazaré, Lisboa, Setúbal, Sesimbra e Caparica.

Passamos breve pelo Alentejo, que tem de ser atravessado para chegar ao Algarve, e cuja aparência mete medo a Raul Brandão. “É a terra do ódio. Tudo em que a gente põe a vista é duro e hostil”, sublinhando a monotonia, o pesadelo e a solidão do monte.

Chegando, enfim, ao Algarve, as frutas exaltam ainda mais os seus sentidos. Olhão, “um delírio de branco”, e Tavira despertam no autor a ilusão mourisca. “Tavira é uma terra de montanheiros, Olhão é uma terra de pescadores. O pescador é comunista e alegre, o montanheiro desconfiado e triste”. E fá-lo ter saudades de Olhão e sentir que “até o mau cheiro (de Olhão) me cheira agora bem”.

Em Sagres, uma comparação: “A névoa desfez-se e a ponta de Sagres é um colosso duro e negro. A este panorama falta-lhe talvez encanto. Está ali – está ali para sempre a duas ou três tintas cruas, azul, vermelho e negro. É decorativo – mas decorativo como um cenário. As meias tintas é escusado procurá-las. Nunca lhe chega a hora melancólica em que a paisagem do norte empalidece e desmaia como quem vai morrer.”.

Não deixa, todavia, de gabar a luz do Algarve, afirmando que “basta esta luz para se ser feliz”.

Outro pescado é versado, mas é a pesca da sardinha aquela que é transversal a este livro, “um manjar para pobres e para ricos, entra em todas as casas”, e exaltada: “cheira a algas e a mar vivo. Impregna-me e trespassa-me. Deixa-me sal nos beiços.”. Aprendemos sobre técnicas de pesca e como é transportada esta “febre”, estas “montanhas de prata que o mar produz”: a sardinha é “levada a dorso de cavalgadura e, diz-se, a sardinha que sabe a lombo de burro dizem que é a melhor”.

Mas as passagens mais pungentes são aquelas dedicadas às mulheres. Uma contradição percorre-as. Marcadas pela desgraça, o mar leva todos os seus. Mas “quando o inverno chega e a fome aperta, é ela que o injuria: Má raios partam o mar! Então quereis morrer à fome e os mininos?”.

Na verdade, o mar traz a morte, mas só o mar dá o sustento. Palavras como lágrimas, soluços, coração em farrapos, luto, enchem as páginas que falam das vidas destas mulheres, elas que choram “tantas lágrimas como aquele mar salgado”.

Elas, também, que trabalham tanto e mais que os pescadores. Vendem peixe, fazem carretos, carregam a canastra à cabeça, andam de pés descalços, criam e cuidam dos muitos filhos (“têm filhos às ninhadas”), lavam a roupa nos tanques. Mas também gritam umas com as outras e perdem a compostura, arrancam cabelos e dizem palavrões.

Ainda, uma curiosa caracterização das mulheres da Murtosa, Ilhavo, Ovar e Póvoa, todas diferentes fisicamente mas iguais em devoção e sacrifício. “A mocidade dura-lhes o que duram as rosas”. São mulheres sofridas. Não é preciso recordar, o mar leva-lhes todos.

Contundente, Raul Brandão tem ainda espaço e lucidez para uma nota de crítica ao estado da pesca no país de então. Escreve, “nós só temos um sistema bem organizado – o da destruição”. “Os pescadores sabem mais com os olhos fechados do que os técnicos com eles abertos.” E uma crítica directa aos métodos de pesca como as traineiras, aos excessos que presenciava e o temor de que faltasse o peixe em breve. E uma crítica ainda ao preço do peixe, caro, porque estava nas mãos de companhias poderosas. Soa actual?

À semelhança do que Raul Brandão escreve sobre os pescadores – “a respiração do mar é-lhes indispensável à vida” -, também este “Os Pescadores” é um livro imprescindível pelas palavras que se tornam paisagem da mais bela que podemos imaginar.

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