Salonica

Salonica, a segunda cidade da Grécia depois de Atenas, fica no norte do país. Carismática capital da Macedónia, o antigo reino de Alexandre, o Grande e actual região grega, mescla influências dos vários povos que fizeram dela sua casa, atestando a sua excepcional situação geográfica, junto ao mar e com a montanha nas costas. Vibrante e jovem, é muito menos caótica do que Atenas e o lugar para os amantes da comida.

O nome da cidade vem de Thessaloniki, o nome da filha de Filipe II (pai de Alexandre), de significado “vitória dos tessálios”, dado em homenagem pela batalha ganha pelos macedónios (tessálios) face a uma tribo da região. Quando Cassandro, que havia casado com Thessaloniki, fundou Salonica no ano de 315 a.C., escolheu o nome da sua mulher para a nova cidade. De localização estratégica, protegida por montanhas, com vários rios próximos e à beira do Golfo Termaico, esta situação permitia-lhe estar no cruzamento das vias terrestres e marítimas entre o ocidente e o oriente. Tal possibilitou a vida longa e contínua da cidade, cosmopolita desde a antiguidade. A civilização Macedónia era poderosa, mas também outros povos que aqui viveram, como os trácios, os romanos, os bizantinos, os eslavos e os otomanos. Conquistada pelos romanos em 168 a.C., logo se tornou uma das capitais do império e, quando este terminou e permaneceu apenas como império romano do oriente, Bizâncio, Salonica manteve-se ao longo dos tempos a segunda cidade mais importante, logo a seguir a Constantinopla. Frequentemente atacada por godos, eslavos, sarracenos e cruzados, permaneceu um centro cultural donde irradiava influência para a região balcânica. Por exemplo, são de Salonica os monges Cirilo e Metódio, os dois irmãos cristãos que converteram muitos eslavos e criaram um novo alfabeto. O império bizantino resistiu até 1453, mas em 1430 a cidade foi tomada pelos otomanos. Era então, e de uma forma ou de outra assim continuou, uma sociedade multicultural, onde se cruzavam cristãos, judeus e muçulmanos. Mas manteve sempre o seu carácter grego, embora as consequências da guerra grega pela independência face aos otomanos, levada a cabo entre 1821 e 1827, não tenham chegado logo a Salonica. O século 19 foi tenso, com muita intriga e movimentos a favor de reformas ao estilo ocidental e só em 1912 a cidade foi libertada dos otomanos e incorporada no estado grego (curiosamente Mustafa Kemal Ataturk, o pai da Turquia moderna, nasceu em Salonica). Como consequência, desde há muito cosmopolita, a cidade viu o século 20 trazer transferência de populações, com a debandada de muitos muçulmanos e, depois, a deportação de muitos judeus com a 2ª Grande Guerra Mundial. E houve ainda a tragédia provocada por incêndios, sobretudo o de 1917 que destruiu 2/3 da cidade.

Para um visitante, Salonica é uma cidade fácil de caminhar e com um centro relativamente compacto. A primeira impressão é a de um lugar para se viver ao ar-livre, com uma longa promenade marítima, nesta que é uma cidade portuária. E um lugar onde o antigo e o novo convivem lado a lado. E aqui, é fácil de constatar, a Grécia tem tanto património monumental, cortesia de uma longa e rica história, que é impossível manter tudo musealizado e visitável. Ruínas romanas, igrejas e muralhas bizantinas, banhos árabes, todos estes elementos estão a um passo de distância.

Um enorme cruzeiro a passar no mar logo abaixo, enquadrado por quarteirões com prédios do século 20 e visto desde a praça onde acima se revelam as ruínas da Agora da antiga cidade romana é uma imagem e exemplo revelador. Era aqui o coração da dita cidade romana, o centro administrativo, económico e civil. Veem-se os vestígios do odeon, de santuários, ruas e edifícios públicos como os banhos e as suas grandes dimensões são indicativas da importância da urbe construída no século 1 e abandonada por volta de 450. Acabou descoberta apenas na década de 1960 e o plano para aqui se construir um tribunal com diversos edifícios públicos ao redor acabou abandonado.

Mas há mais testemunhos da época romana nesta cidade que é um verdadeiro museu aberto, todos em plena convivência com a nova Salonica. Como as ruínas do Palácio de Galerio, entre prédios.

Ou o Arco Triunfal de Galerio, também conhecido por Kamara, construído entre 298 e 305 em comemoração pelas campanhas vitoriosas deste imperador sobre os persas. Apesar de nos dias de hoje apenas restarem 3 dos 4 pilares de 1 das 2 filas paralelas deste Arco, os grandiosos relevos decorativos representam, precisamente, cenas de batalha. Fica na carismática rua Egnatia, com um olho para a Rotunda.

A bela Rotunda é um dos monumentos mais antigos da cidade. Construída em 306, provavelmente para servir de mausoléu a Galerio (ou seria um templo dedicado a Zeus?), foi tornada a primeira igreja de Salonica por Constantino e, depois, transformada em mesquita pelos otomanos – o minarete ainda permanece, vistoso e elegante. O nome alude à sua forma cilíndrica, sendo comparável em arquitectura ao Panteão de Roma, e o interior mostra ainda alguns dos frescos / mosaicos que decoraram o edifício, dos primeiros no Médio Oriente, resultado da sua faceta cristã. Hoje está consagrada a São Jorge, que vemos num painel decorativo à entrada da igreja.

A Rotunda é um dos 15 monumentos Paleocristãos e Bizantinos de Salonica incluídos na lista do Património da Humanidade da Unesco, da qual consta a igreja Panagia Chalkeon (Nossa Senhora dos Caldeireiros), de 1028, também conhecida por igreja vermelha por estar construída inteiramente em tijolos. É um belo exemplo de arquitectura bizantina e, à semelhança de outras igrejas, durante o período otomano foi convertida em mesquita. Fica junto à Agora e a pouca distância daquela que é uma das igrejas mais simbólicas de Salonica, a Igreja Agios Dimitrius (São Demétrio).

São Demétrio, santo padroeiro de Salonica, foi um soldado romano mandado matar pelo imperador Galerio, perseguidor de cristãos, no lugar onde está hoje a igreja a si devotada, então uns banhos romanos. As suas relíquias estão no interior da igreja, num cibório de prata, e a missa que aqui se desenrolava, no momento da nossa visita, permitiu perceber as muitas diferenças entre o cerimonial ortodoxo e o católico. Era cá um vai e vem de pessoas, constantemente a beijar os ícones, e o silêncio não era de ouro. Por outro lado, a sua fachada, muito destruída pelo devastador incêndio de 1917, também não nos dá imediatamente a ideia de estarmos perante uma igreja.

Ao lado, e a pouca distância, encontramos dois edifícios que tiveram a função de banhos públicos e uma mesquita. São eles o Geni Hamam e o Bey Hamam, este do século 15 e em uso até 1968 como os “banhos do paraíso”, o maior hamam preservado do mundo grego, ainda com um grande número de elementos da sua decoração original. Infelizmente, estava não só fechado como parecia deixado ao abandono, e esta situação fez-nos pensar como a Grécia, à semelhança de Roma, tem tanto património monumental para preservar que, repetimos, é impossível acorrer à tudo. Uma pena. A mesquita, por sua vez, é a Alaca Imaret, também do século 15 e hoje sem uso, embora o seu porte grandioso e diversas cúpulas no topo despertem os nossos sentidos. Mais curioso, a antiga mesquita está no meio de uns prédios e, escondida num canto, encontramos uma discreta igreja ortodoxa no piso térreo de um deles.

E, para fechar o tema igrejas, não podemos deixar de referir a Igreja Agia Sophia (Santa Sofia), construída no século 8 sobre as ruínas de uma anterior basílica cristã. Até 1524, esta era a grande catedral da cidade, data em que foi convertida em mesquita, tendo voltado ao cristianismo depois de 1912. Destaque para os seus bonitos ícones e mosaicos.

Num registo diferente, outro dos maiores testemunhos da época bizantina em Salonica está nas muralhas bizantinas. Na cidade alta, permanecem diversos troços da antiga muralha, cuja construção teve início por volta do século 5, embora tenha sofrido diversas reparações e adições ao longo dos tempos. A fortaleza de Heptapyrgion (Yedi Kule para os otomanos), que na verdade tinha dez torres, reina no ponto mais elevado, no lugar da Acrópole de Salonica, e teve várias funções, a última das quais prisão, até 1989. A Torre Trigonion é a mais famosa do conjunto e vem do século 15, tendo ajudado a prevenir a invasão da cidade. Tem piada vê-la ao perto, mas é ainda mais divertido vê-la enquadrada pelo casario.

Desde a Torre Trigonion consegue-se uma panorâmica aberta da Salonica banhada pelo mar, onde se distingue na perfeição a Rotunda entre o casario. É uma das melhores vistas que se obtém da parte alta da cidade, juntamente com aquela que vimos desde a Igreja Agios Paulos (acima do jardim Pashina), de diversos pontos na subida ao bairro Ano Poli e desde o Mosteiro de Vlatadon (ainda em funcionamento, mais um dos sítios incluídos na lista da Unesco, donde se destaca o seu antigo katholikon com frescos do século 14).

Ano Poli é um bairro de ruas estreitas e inclinadas com casas típicas dos Bálcãs, como a do edifício otomano onde está hoje instalada uma das bibliotecas da cidade. Mas a maior parte das suas casas são mais simples e de arquitectura popular, empoleiradas nas ruas verticais e com janelas que deixam ver a bela paisagem ao seu redor; em dias limpos vê-se até o Monte Olimpo.

E se subimos, agora descemos, desta vez com mais facilidade, ideal para sentir a tranquilidade de mais um bairro com ambiente quase familiar, com restaurantes com esplanadas.

Regressamos ao centro de Salonica, ao bulício das suas ruas ao redor da Ioanni Tsimiski, onde ficam as melhores lojas. E numa das gulosas pastelarias provamos a trigona, o doce mais famoso, um cone de massa folhada com creme, uma vez que ao pequeno almoço já havíamos provado a bougatsa, um género de bolinho também de massa folhada recheado quase sempre com queijo. Salonica é o melhor sítio da Grécia para os amantes da comida; azeitonas, queijos, peixe, marisco, tudo, resultado da marca que os povos de diferentes culturas aqui foram deixando ao longo dos tempos. E, o que é melhor para nós, portugueses, na cidade é usual pagar-se bem menos pelas refeições do que estamos acostumados no nosso país. Há, claro, alguns mercados a visitar, herança otomana, como os típicos Kapani (Vlali), onde se vende de tudo, incluindo vegetais, carne e peixe, e o Bedesten, de roupa, num edifício do século 15. Há ainda o Modiano, com lojas de comida, recentemente renovado e mais ao estilo do lisboeta Time Out Market.

Já junto ao mar, esta Salonica é um lugar deveras aprazível. Por aqui está a Praça de Aristoteles, uma das principais e mais populares, onde todos vêm para confraternizar a qualquer hora do dia. O quarteirão Ladadika, antiga zona de mercado cujos armazéns e escritórios foram substituídos por restaurantes e bares, e o porto ficam perto.

E deles já se vê a Torre Branca, o símbolo de Salonica. Construída no século 15 no lugar de uma antiga torre bizantina, é encimada por um torreão e tem 34 metros de altura distribuídos por 6 pisos. À beira mar, faria parte de um sistema defensivo protegido por muros e outras torres mais pequenas, de que já nada resta. Serviu de prisão e o seu actual nome (já teve vários) vem de 1890, quando foi branqueada por um antigo prisioneiro em troca de liberdade. O interior, os ditos 6 pisos, foi transformado em museu da cidade, onde se apresentam aspectos da sua história ao longo dos tempos – os painéis de leitura estão exclusivamente em grego, mas há um áudio guia disponível, essencial neste caso – e, no último piso, temos mais um miradouro.

Sabemos que o Monte Olimpo está para lá do Golfo, no entanto, o céu azul mas denso não o deixa perceber. Passamos pela estátua de Alexandre, o Grande e pelos guarda-chuvas do escultor Giorgios Zoggolopoulos e seguimos pela longa promenade totalmente pedestre.

Vale a pena alugar uma bicicleta e, com tempo, pedalar com a companhia do mar à descoberta de uma Salonica menos central. Neste passeio fomos até à praia com a pequena capela Agios Nikolaos, instalada num belo ponto aberto à baía, passando pelo edifício da sala de espectáculos Megaro Mousikes Thessalonikes, inaugurada em 2000, e desviando para o interior do bairro Hamidye, onde estão algumas elegantes mansões construídas a partir do final do século 19 pela classe abastada nas então aforas da cidade, o Exohes.

São disso exemplos a Villa Bianca (hoje galeria de arte municipal), a Villa Mordoch, a Villa Kapantzis (também centro cultural) e a Mansão de Ahmet Kapantzis (resistindo entre prédios numa movimentada avenida). Infelizmente, perdemos a Mesquita Yeni Camii, a “nova mesquita”, a última construída na cidade que era ainda otomana, em 1902.

Para o final deixamos os museus de Salonica, dois deles de visita obrigatória. O Museu Arqueológico de Salonica, instalado num edifício de arquitectura modernista de 1962, apresenta obras de arte e artefactos de escavações de toda a Macedónia, revelando a história desde o paleolítico até à antiguidade, abrangendo a formação do reino independente da Macedónia e a sua integração no império romano. Uns impressionantes túmulos estão logo no pátio de entrada, entre pilotis, e também no pátio interior / quintal.

Perto está o Museu da Cultura Bizantina, também instalado num edifício de arquitectura diferenciada. O império bizantino foi a continuação do império romano do oriente, quando Constantinopla se tornou capital, em 330. Então, Bizâncio assentou o seu desenvolvimentos na antiga civilização grega, na herança romana e no cristianismo. A queda de Constantinopla face aos otomanos, em 1453, marcou fim do império bizantino e acabou por provocar uma diminuição da população, destruição material e regressão intelectual, social e económica. Mas, ao mesmo tempo, serviu para reforçar a coesão do mundo grego. Assim, neste museu conhecemos uma grande diversidade de objectos de arte e cultura bizantina e pós bizantina (a arte pós bizantina era essencialmente religiosa, relacionado, precisamente, com a subjugação dos gregos face aos otomanos), como modelos de igrejas, casas com mosaicos, túmulos, frescos e ícones. Ícones fantásticos, de uma cor intensamente vermelha, uma imagem perfeita da arte da região para levar na memória.

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