Somerset Maugham – Um Gentleman na Ásia


Somerset Maugham (1874-1965) é autor de muitos e aclamados livros. 
Em Um Gentleman na Ásia, que tem como título original The Gentleman in the Parlour, onde se deixa envolver pela espécie literatura de viagens, diz logo ao que vem: “Sendo escritor podia viver por outras pessoas uma vida que eu próprio não podia ter.”
Ao longo de toda esta obra a ironia e uma forma de discurso directo, sem intermediários para com o leitor, são uma presença constante e marcante.
“Para que o leitor destas páginas não seja vítima de nenhum equívoco, apresso-me a dizer-lhe que pouca será a informação que encontrará aqui. Este livro é o relato de uma viagem pela Birmânia, os estados shan, o Sião e a Indochina. Estou a escrevê-lo para meu próprio entretenimento e espero que também sirva para entreter quem se der ao trabalho de dedicar algumas horas à sua leitura. Sou um escritor profissional e, com este livro, espero ganhar algum dinheiro e quiçá alguns elogios.”.
Mais, “Embora seja muito viajado, sou mau viajante. O bom viajante tem o dom de surpreender-se. Tem um interesse perpétuo pelas diferenças que encontra entre o que conhece no seu país e o que vê no estrangeiro. Se possuir um sentido apurado do absurdo, encontra constantemente motivo para se rir do facto de as pessoas que o rodeiam não se vestirem como ele e não consegue deixar de se espantar por aquelas pessoas comerem com pauzinhos e não com garfos ou escreverem com um pincel e não com uma caneta. Como tudo lhe é estranho, repara em tudo, o que, consoante o seu estado de espírito, pode ser divertido ou edificante. Já eu tomo tudo por certo tão rapidamente, que deixo de ver o que seja de invulgar no meu novo ambiente.”
Claro o bastante, não há aqui concessões a um eventual leitor, em especial àquele (bom) viajante que se deslumbra facilmente (como eu) e gosta de ler relatos de deslumbres semelhantes escritos por grandes escritores (como eu, novamente).
E Maugham é Mestre. Sem favores vai relatando o que lhe dá vontade e nós, leitores, sentimos sem cinismo que muito do que relata pode não ter acontecido. Mas o que interessa é que a sua imaginação faz a nossa fluir e a leitura prende-nos de princípio ao fim. E diverte-nos. 
Alguns exemplos: “Tenho receio de pessoas muito simpáticas. É gente que nos consome. E acabamos imolados ao exercício do seu dom fascinante e da sua insinceridade.”; “As viagens por rio são monótonas e relaxantes. São iguais em qualquer parte do mundo, não há responsabilidade que nos pese nos ombros. A vida é fácil.”; “Preferia mil vezes que Proust me entediasse do que qualquer outra pessoa me divertisse.”.
O episódio do seu encontro com um padre italiano em terras dos shans é daqueles que não interessa se aconteceu mesmo. Interessam, sim, as palavras que Maugham dedica ao budismo pela boca do dito padre, segundo o qual o budismo é uma religião belíssima e que, por isso, não conseguia fazer nada com os shans, satisfeitos com a sua religião.
No Sião, actual Tailândia, Budas e wats é o que não falta para ver. Sobre estes monumentos escreveu Maugham que “lancei um olhar impaciente a mais um Buda de proporções imensas. E mais um, e mais outro” e “os wats angustiavam-me com a sua magnificência berrante e faziam-me doer a cabeça, e os seus ornamentos fantásticos enchiam-me de mal-estar”. Afinal, a culpa não era dos wats e o escritor viajante tinha acabado de adoecer com malária.
Sobre Banguecoque, capital da Tailândia, uma opinião surpreendente: “é impossível olhar para estas cidades mornas e populosas do Oriente sem sentir um certo mal-estar. São todas iguais, com ruas estreitas, arcadas, linhas de eléctrico, poeira, sol ofuscaste, chineses por todos o lado, tráfego compacto e ruído incessante, não têm historia nem tradições. Não inspiraram pintores. Nem há poetas que, transfigurando tijolos e argamassas sem vida com a sua divina nostalgia, lhes tenham transmitido uma melancolia formidável, que não lhes era própria. Vivem a sua vida, sem associações, como um homem sem imaginação. São duras e resplandecentes, e tão irreais como o pano de fundo de uma comédia musical. Não nos dão nada. Mas quando as deixamos, temos a sensação de que alguma coisa nos passou ao lado e não conseguimos deixar de pensar que têm algum segredo que nos ocultaram. E, embora se tenha sentido algum tédio enquanto lá estivemos, recordamo-las com nostalgia.”
O Vietname não lhe parece ter suscitado grandes estados de alma. De Saigão, a sua apreciação é mordaz, dizendo que “tem o ar de uma vila provinciana do sul de França”, sendo “agradável para se passar alguns dias de ócio”, destacando o mítico Hotel Intercontinental. Hué, por sua vez, “não é imponente” e de Hanoi diz não ter encontrado nada que lhe interessasse muito (umas décadas após Somerset Maugham, como deslumbradinha que sou, ainda para mais na primeira visita à Ásia, visitei estas três cidades e a mim encheram-me as medidas. Hué é um excelente poiso para se tocar o olhar de primeira viagem nas cidades imperiais que vemos depois quer na China – Pequim com a sua Cidade Proibida – quer na Índia – Agra com a sua Fatehpur Sikri).
Pelo contrário, sobre os templos Angkor, eleitos recentemente pela Lonely Planet como a maior experiência que o viajante pode ter no mundo, a sua opinião é mais próxima daquela que qualquer um de nós que já os visitou pode ter, sem deixar de a expor de uma forma única e sincera: “mas, agora eu chego a esta parte do meu livro, sou assaltado por um sentimento de consternação. Nunca vi nada no mundo que me maravilhasse tanto como os templos de Angkor, mas não sei como hei-de fazer deles uma descrição que transmita ao leitor de grande sensibilidade algo mais do que uma impressão confusa e vaga da sua grandeza”.
Pese embora o encantamento de este e de outros locais desta Ásia visitada por Maugham, o autor conclui de forma brilhante e inequívoca sobre o sentido maior que ela acabou por lhe revelar: “Pareceu-me então que, nestes países do Oriente, o monumento da Antiguidade que mais impressiona, que mais respeito inspira, não é nem um templo, nem uma cidadela, nem uma grande muralha, mas o homem. O camponês, com os seus costumes imemoriais, é de uma época muito mais antiga do que Angkor Wat, a Grande Muralha da China ou as Pirâmides do Egipto. Foi com surpresa que descobri como tinha mudado pouco a vida destas pessoas no espaço de mil anos. Continuam a fazer as mesmas coisas com os mesmos utensílios.”.

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