Numa região com diversas quintas, o Solar dos Zagallos é uma das mais interessantes e abertas a visita. Situado no núcleo histórico da Sobreda, em Almada, este exemplo de arquitectura residencial de casa agrícola com capela foi construído no século XVII, após a instituição do morgadio da Sobreda por Rodrigo de Oliveira Zagallo. No início do século XX a propriedade passou para a família Piano e em 1982 a Câmara Municipal de Almada adquiriu-o, fazendo dele um espaço de cultura que se estende do palácio do Solar aos jardins.

A Casa da Sobreda ou Quinta da Sobreda, como também é conhecido, foi construída sobre uma linha de água e tinha então a agricultura como principal fonte de rendimento. Alterada ao longo dos tempos, destaca-se desde logo a arquitectura do seu edifício principal, com uma elegante escadaria para lá do pátio de entrada.

É a ala oeste do Solar, em estilo neoclássico, mandada construir por Francisco de Paula Carneiro Zagallo e Melo, o “fidalguinho da Sobreda”. Por trás desta decisão esteve o desejo de receber o rei D. João VI na Sobreda – este Zagallo era adepto da causa absolutista e na luta que opôs os filhos de D. João VI chegou a estar aquartelado no palácio do Solar um dos batalhões da infantaria miguelista. Mas se o rei não veio até ao Solar, as intervenções então efectuadas vieram até nós: ainda hoje é possível admirar quer os painéis de azulejo com cenas de galanteio no patamar de acesso ao Salão Nobre quer as pinturas do tecto desta sala. Para mostrar o seu conhecimento da cultura clássica, em 1828 mandou pintar a cena mitológica onde está representado o encontro amoroso de Leda, esposa do rei de Esparta, com Zeus, aqui em forma de cisne.


Mas Francisco de Paula Carneiro Zagallo e Melo não ficou conhecido apenas por ter sido o morgado que mais marcas arquitectónicas deixou no palácio. A sua relação com a população local era respeitada e para além de lhes fornecer água (tendo aberto um poço público no início do século XIX e mandado canalizar a água desse poço para a bica existente na entrada do solar e jardim, no Largo do Rio, actual Largo António Piano Júnior) apoiava também os mais necessitados com esmolas e facilitava-lhes emprego. O brasão na fachada do solar representa a união das famílias Zagallo e Carneiro. Mas a partir de 1908 foi a família Piano, banqueiros de origem italiana, que se tornou proprietária do solar. Manteve os laços estreitos com os locais e por iniciativa de António Piano Júnior foi construída a sede do Clube Recreativo e Instrução Sobredense, tendo também promovido obras de conservação na Escola Primária da Sobreda na década de 1940.

Feito este enquadramento histórico, voltemos então a entrar no palácio do Solar dos Zagallos pela escadaria da sua ala mais recente, apreciando os azulejos e os tectos que surgem no caminho da nossa visita. As salas têm pouco mobiliário e aproveitamos para espreitar os jardins desde as janelas. E noutras detemo-nos nas obras expostas nesta galeria de arte municipal.

No piso inferior, para além de outras salas, encontramos a Capela de Santo António da Sobreda, simples na forma mas onde o leque de obras em azulejo se alarga, uma pitada de barroco no Solar. Dedicada a Santo António, aqui o vemos representado nos painéis em azulejo azul e branco, um deles evocando o episódio “Sermão aos Peixes”.

Nos jardins há mais painéis de azulejo. Desde logo, no seu topo este, no início da alameda, à entrada no antigo Largo do Rio. Aqui se vêem duas cenas que ilustram momentos da história da virgem Maria, o painel superior representando a sua entrada ainda criança no Templo de Jerusalém e o painel inferior representando a “Fuga para o Egipto”.


No meio da alameda, a Capela do Senhor dos Passos (cujo interior acolhe a sepultura de Francisco de Paula Carneiro Zagallo e Melo) tem a fachada revestida com mais painéis de azulejo, desta vez com o tema central da Paixão de Cristo. Diante desta Capela está o Lago Central, abastecido com água de uma das nascentes existentes nas proximidades.

Mas ainda não terminou o elenco das capelas deste Solar dos Zagallos. A Capela de Santo António Caiado marca o limite oeste da alameda do jardim, em terrenos que primitivamente eram pertença da Quinta do Caiado, entretanto aglutinados pelos Zagallos. Construída após o Terramoto de 1755 junto a uma mina de água, o seu interior terá conchas e embrechados como decoração (não o visitámos). Ao seu lado está a Casa da Água ou Casa de Fresco, o lugar onde era recolhida a água captada pela mina e encaminhada por uma caleira até à bica – o outro edifício é a Casa das Bonecas, uma réplica da Casa da Água, uma casa de brincar mandada construir por um dos Pianos como prenda para uma das suas netas. A água, já se sabe, era um elemento central e essencial a esta propriedade. Para além da propriedade ter sido construída sobre uma linha de água, no vale envolvente cruzam-se ainda outras linhas de água que correm em direcção ao Sapal de Corroios. Não admira, pois, que a presença da água se faça sentir na arquitectura e nos elementos decorativos do Solar e seus jardins.


E é fácil percebermos ainda hoje o quão extensa seria a área agrícola desta antiga propriedade e o quão essencial seria para o seu dia a dia. Atrás do edifício principal temos o pomar, com o laranjal a dominar. Mais atrás ainda ficam as estufas e o seu pátio com uma azinheira monumental, lado a lado com a Academia de Música de Almada, que ocupa hoje o que era a antiga zona agrícola.


Um dos momentos mais deliciosos é o Jardim de Aparato, nas traseiras da ala oeste do palácio, com um pequeno lago ao centro. Num outro pequeno jardim encontramos um não menos mimoso poço decorado com os omnipresentes azulejos.


Infelizmente, perdemos a Fonte das Conchas. Mas andámos perto, e atravessando o Túnel da Murta e Pátio do Chá não resistimos a deixar-nos estar num dos bancos deste pacato jardim do Solar dos Zagallos.