Perto de Lisboa há algumas cascatas escondidas, em lugares surpreendentes. Para os lados de Pero Pinheiro, concelho de Sintra a caminho de Mafra, já zona saloia, segue-se na estrada e não se suspeita que por ali possa existir tal obra da natureza. Não que a região não seja bonita, com cabeços sucessivos que quebram a monotonia da paisagem semi-rural. Porém, os pequenos núcleos rurais são, amiúde, ocupados por um casario sem graça, que nada tem a ver com a interessante arquitectura vernacular saloia das casas caiadas e de telhados triangulares. Pior, a beira dos muitos cursos fluviais – está é a zona das águas livres – tem muitas das vezes a companhia de barracões informais e caseiros.



Saindo da vila de Sintra em direcção a Pero Pinheiro, junto à Base Aérea está aquela que é, talvez, a mais bonita destas cascatas. Ao fundo da rua da Bajouca, no lugar de Fervença, junto ao IC 30 está a Cascata de Fervença / Bajouca. É um lugar facilmente acessível e após alguns metros de caminhada há apenas que subir umas rochas para ficar diante da ribeira de Fervença e sua cascata. Uma cascatinha antecede uma outra maior, onde a água cai em pelo menos 4 patamares. Há uma piscina natural entre elas, ocupada por uma série de grandes blocos de pedra. E há, sobretudo, uma vegetação intensa a rodear o conjunto.

Pouco mais adiante, também junto ao IC 30 e a um dos seus viadutos, à chegada a Montelavar encontramos a Cascata de Armés. Está na ribeira de Adrião – à semelhança da anterior, afluente da ribeira de Cabrela – e, tal como a Cascata da Bajouca, a água cai em patamares. Nem o dito viaduto, nas suas costas, estraga o postal. Não é tão acessível como a anterior, mas a aproximação faz-se sem qualquer perigo.




A zona envolvente à Cascata de Armés, designadamente as margens da ribeira de Cabrela, é de uma beleza e tranquilidade inesperadas. Ouve-se a água a correr e o canto dos pássaros e observa-se a típica vegetação ripícola, para além de uma série de carvalhos cujos braços resultam num cenário ainda mais incrível. Deixando as suas margens e subindo os montes onde a ribeira da Cabrela corre relativamente encaixada abaixo, também o seu vale nos dá belas imagens. Tudo é verde ao redor. No topo dos montes, veem-se diversos moinhos, elemento típico da região saloia, e descobre-se ao fundo o Palácio da Pena, no alto do Monte da Lua.



Seguimos para a aldeia de Anços e para a ribeira do Mourão, onde está a mais conhecida destas cascatas. Já tivemos oportunidade de escrever aqui sobre a Cascata de Anços / Mourão. Agora, aproveitando um anormal ano de intensas chuvadas, fizemos questão de voltar para constatar ainda mais a força e a exuberância das suas águas.

Perto de Anços, há pelo menos duas paisagens algo inusitadas a visitar. A Pedra Furada é um lago artificial resultado de uma das muitas pedreiras presentes na região.


Mais interessante e de reconhecido valor geológico, o Campo de Lápias da Granja dos Serrões oferece-nos uma paisagem sobrenatural, uma daquelas que custa a acreditar que possa existir. Aqui estão os maiores exemplos de calcários do Cretácico com megalapiás de Portugal. Ao longo de milénios, a erosão resultante das águas da chuva em contacto com este tipo de rochas deu origem a formas estranhas e monumentais, uma consequência típica de relevos cársicos. Veem-se uma espécie de torres rochosas, várias delas, num conjunto que parece um autêntico labirinto. Junto ao parque de merendas de Anços está a mais espectacular destas formações rochosas, uma entrada em arco seguida de um sulco que serve de caminho e divisão entre os lados da enorme rocha.

Por fim, saindo de Anços a caminho de Negrais, junto à linha de caminho de ferro em Mastrontas está outra cascata bem escondida do comum dos olhares. Desconheço o nome da pequena ribeira onde se dá a falha que permite mais um bonito momento de queda de água, a qual pouco depois irá desaguar na ribeira de Cheleiros (de referir que todos estes cursos fluviais são afluentes do rio Lizandro, que se encontra com o Atlântico na Foz do Lizandro, perto da Ericeira). Voltando à Cascata de Mastrontas, será a menos visitada, daí que o caminho até ela possa não ser tão óbvio como o das anteriormente descritas, por menos pisado. De qualquer forma, olhando para o trilho, percebe-se um desvio, desce-se por umas pedras e à direita está mais uma bonita queda de água. Pela muita vegetação diante si, a foto não a capta na perfeição. Assim como não a vimos totalmente de frente, pela dificuldade de acesso à sua base. Apesar do desejo de conhecer belezas inesperadas, não vale a pena arriscar a saúde, pelo que garantimos que todas as cascatas listadas acima são de acesso seguro para quem possua um mínimo de autonomia física, não dispensando porém a devida atenção aos elementos.