Um dia pelo Monte Olimpo

O Monte Olimpo é um dos lugares mais míticos da Grécia, a morada dos deuses. Na verdade, não é um pico, antes uma colecção deles, situado entre as regiões da Macedónia e da Tessália. E foi este conjunto de picos que nos acompanhou ao longo de um dia bem preenchido em que passeámos por uma aldeia típica, visitámos um castelo à beira mar, demos um mergulho no Mar Egeu, caminhámos por um bosque que nos transportou até uma cascata e contemplámos uma antiga cidade sagrada.

O Míticas, de significado “nariz”, é o ponto mais alto do Olimpo e da Grécia e o segundo mais alto dos Bálcãs. Com 2918 metros de altitude, a montanha onde está inserido ergue-se a apenas 18 quilómetros do mar. Os gregos antigos chamavam-lhe “panteão” e acreditavam que era aqui que os 12 deuses viviam, nas “misteriosas faldas” da montanha, como escreveu Homero, sendo Zeus o dono do trono. O Monte Olimpo é um parque nacional, o primeiro a ser criado na Grécia, em 1938, e é rico em biodiversidade, para além de grandes paisagens e uma cultura apaixonante.

Palaios Panteleimonas, também conhecida pela Velha Panteleimon, foi a aldeia por onde iniciámos esta jornada. Numa encosta do Monte Olimpo, debruçada sobre o mar, a sua implantação geográfica é de sonho.

De arquitectura típica do norte da Grécia, as suas ruas de pedra, com edifícios igualmente de pedra, varandas de madeira e telhados de cor ocre, tudo rodeado pelo verde da vegetação da montanha, fazem-nos viajar no tempo. Terá sido habitada desde o século 14, mas apenas no século 18 a sua ocupação cresceu, por conta de uma epidemia de cólera na cidade Platamon fez com que os seus habitantes procurassem refúgio na montanha. Construída a igreja em honra de São Pantaleão, como agradecimento por se terem visto livres da peste, a aldeia tomou o seu nome. Mas nos anos 1950 esta pitoresca aldeia acabou abandonada, e só na década de 1980 começou a ser restaurada, transformando-se muitos dos seus edifícios em alojamentos. Hoje é um destino procurado por aqueles que buscam sossego num sítio aprazível ou tão somente, como nós, conhecer uma pitada de ruralidade entre a montanha e o mar.

Daqui até ao Castelo de Platamon, que se vai vendo aproximar ao ziguezaguear da estrada, é um pulinho. Uma das maiores fortalezas da Grécia, tem a curiosidade de estar sobre uma colina imediatamente ao lado do mar, o Egeu. Do século 13, foi construído por cruzados sobre uma estrutura anterior de forma a controlar a estratégica passagem entre a Macedónia e a Tessália e o resto da Grécia. E acabou por ser usado mesmo depois desse tempo, quer pelos bizantinos quer pelos turcos e, até, pelos venezianos durante um curto período entre 1425 e 1427.

Os muros exteriores do castelo, entrecortados por diversas torres, dominam uma colina de encostas ajardinadas e bem cuidadas. A torre de menagem, no interior e ao centro do recinto intra-muralhas, é ela própria rodeada por umas sub-muralhas. Tem 16 metros e destaca-se desde ao longe. Mas são as vistas sobre o Egeu, de um tom azul penetrante, que roubam a atenção. Tão focadas estávamos nesta bonita paisagem enquanto circundávamos as muralhas do castelo que nem percebemos quando uma cobra saltou sobre uma de nós, provavelmente tão assustada quanto as visitantes. O certo é que o recorde mundial dos 10 metros foi pulverizado num ápice por uma destas portuguesas.

Já cá em baixo, mas com vista para o castelo, à beira da areia branca da praia de Paralia tivemos um merecido mergulho no mar Egeu, depois do susto. A água serena e quente, uns estranhos 25º, foi a ideal para um momento de total relaxamento entre aventuras.

E da praia saímos para a montanha. Depois de passar Litochoro, as curvas sucedem-se na estrada e esta ganha altitude. O tempo quente vai ficando cada vez mais fresco, mesmo se mantemos o mar sob vista. E abrem-se vistas totalmente diferentes, agora para as enormes ravinas e picos do Monte Olimpo e para a profunda garganta do Enipeas, melhor percebida desde o miradouro Zilnia.

E assim chegamos a Prionia, o fim da estrada e, logo, o lugar de maior altitude acessível de carro. Há estacionamento, embora encha rápido, e um café / restaurante e este é, sobretudo, o ponto de onde saem diversas caminhadas para o Monte Olimpo. Não nos dedicámos a tamanha empreitada e limitámo-nos a uns breves passos que logo nos deixaram totalmente envolvidas na floresta e face a face com uma pequena cascata e uma piscina natural diante dela sem água.

Não muito distante daqui, mas noutro ponto de estacionamento junto ao mosteiro de São Dionísio (em restauro na altura da nossa visita), uma caminhada de uns 15 minutos por mais um denso bosque acompanhado de um curso de água leva-nos à cascata Epinea. Muito mais impressionante e luxuriante do que a anterior, este é um bom lugar não apenas para se admirar a natureza, mas também para um refrescante mergulho.

E, para o final do dia, sem tempo para as cascatas de Ourlias, que merecem certamente a visita, deixámos o Parque Arqueológico de Dion. Numa região rica em vestígios arqueológicos do período macedónio (como Pella, Vergina e os túmulos reais de Aigai), esta cidade sagrada da antiga Macedónia era dedicada a Zeus e aos Doze do Olimpo e o seu auge aconteceu entre os séculos 5 a.C. e 5 d.C. Primeiramente mencionada por Tucídides, nela eram celebrados jogos olímpicos em honra de Zeus e das Musas, bem como cerimónias sacrificiais. O recinto tem sido escavado desde 1928 e nele foram revelados inúmeros vestígios da ocupação vinda dos períodos macedónio, helénico e romano, alguns deles expostos no Museu Arqueológico de Dion, a meio quilómetro do Parque – e aqui encontramos, precisamente, o busto de Dion.

A implantação da antiga Dion, a cidade de Zeus, é impressionante. A imagem protectora do Monte Olimpo mesmo sobre ela é inesquecível e aqui sente-se de forma esmagadora o poder da natureza e da história, aliados perfeitos. A cidade remonta ao período helénico, quando era o centro religioso da Macedónia e Zeus, o rei dos deuses, era aqui adorado. Depois, acabou por tornar-se uma cidade próspera, sem perder a sua faceta de centro sagrado, e era frequentemente visitada pelos reis macedónios em honra de Zeus. Filipe II celebrou aqui as suas gloriosas vitórias e Alexandre, o Grande iniciou aqui a sua campanha à Ásia com sacrifícios a Zeus. No ano de 169 os romanos tomaram Dion, fundaram a Colónia Julia Augusta Diensis e construíram os seus santuários. No século 4 a cidade tornou-se sede de bispado, mas entraria em declínio nos séculos seguintes, provavelmente em consequência de repetidos terramotos que deixaram as casas em ruína e levaram os habitantes a abandoná-la. A última referência a Dion aconteceu no século 10, sob o domínio bizantino.

O recinto arqueológico é enorme, pelo que há que caminhar bastante. São cerca de 150 hectares, sendo que 50 deles correspondem à antiga área urbana, 50 aos santuários e os outros 50 estão ainda por explorar. Há santuários dedicados a Zeus, mas também a Demetrio, Isis e outros, os quais seriam magníficos e carregados de colunas e estatuetas. Dois teatros, o maior helénico e o mais pequeno romano. Um complexo de banhos romano, que possuía um avançado sistema de aquecimento (a cidade tinha igualmente saneamento básico) e incluía um odeon, vendo-se no local mosaicos e estatuetas. E restam ainda parte dos muros da fortificação do período helénico. Tudo isto lado a lado com o rio Ourlias, escondido para lá da vegetação. É, enfim, um sítio belíssimo e cheio de ambiente, onde sentimos que foi feita história.

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