Mosteiro de Tibães

O Mosteiro de São Martinho de Tibães é um monumento nacional instalado num pacato pedaço de ruralidade às portas de Braga. Com origem anterior à fundação de Portugal, foi casa-mãe da Ordem de São Bento, tendo os beneditinos no século 18 procedido a uma profunda reedificação do seu mosteiro, tão ao gosto do barroco joanino que então dominava a arte e arquitectura do reino. E o certo é que, pese embora a perda de parte da magnificência original e o que falta ainda recuperar em consequência do abandono a que foi votado no século passado, tudo impressiona neste mosteiro composto por igreja, claustros, pátios, dependências monacais e cerca.

Um enorme terreiro antecede o Mosteiro, onde se vê um cruzeiro ao centro. É auspiciosa, esta chegada. Assim como a paisagem que dele se alcança, instalado na encosta do monte de São Gens e abrindo-se a um vale na margem esquerda do rio Cávado. Do conjunto do Mosteiro de Tibães fazem parte, para além da igreja, as dependências monacais, incluindo claustros e pátios, e um vasto terreno intra-cerca, composto por hortas (pomar e vinhas), mata, várias fontes, lago, aqueduto e escadório que leva à Capela de São Bento.

Mosteiro – vista
Mosteiro

São do século 6 as primeiras referências a um mosteiro em Tibães, fundado por São Martinho de Dume, provavelmente antecedido por uma vila romana. Reconstruído no século 11, o mosteiro pertencia a D. Urraca e, depois de doado à Sé de Tui, acabaria doado à Sé de Braga. No século 17, porém, a Ordem de São Bento, uma das mais antigas e, então, poderosas em Portugal, acabou por destruir muito do seu património arquitectónico e artístico que já vinha da época da nacionalidade. No caso de Tibães, tornada casa-mãe dos beneditinos em 1567, o seu mosteiro começou a ser reedificado no final do século 17 e ao longo do século seguinte, substituindo-se o anterior por um mais moderno, sob o signo do barroco. Em 1834, à semelhança do acontecido a muitos outros, a extinção das ordens religiosas trouxe o declínio e até abandono do mosteiro, tendo sido vendido em hasta publica, com excepção da igreja, e os livros da sua rica biblioteca dispersos. Na década de 1970, houve propostas de adaptação do conjunto a pousada e a escola universitária de Agronomia, mas acabou afecto ao património do Estado, e as obras de restauro continuam.

Igreja

Após o grande terreiro onde está o cruzeiro de Tibães, logo ficamos diante da igreja do mosteiro. São duas as torres sineiras da igreja, um pouco recuadas face à sua austera fachada maneirista, em granito, onde estão as figuras de São Bento, São Martinho e Santa Escolástica.

Igreja
Igreja
Igreja
Igreja

O interior é profusamente decorado ao estilo barroco e rococó joanino, abundando a talha dourada nos retábulos da capela-mor e nas oito capelas laterais, bem como nos dois púlpitos.

Igreja
Órgão
Coro-alto
Coro-alto

Junto ao coro-alto, não passa despercebido o órgão, com elementos decorativos e suportado por figuras algo grotescas. O coro-alto, por sua vez, permite que a luz entre através das suas grandes janelas e, para além da vista privilegiada e altaneira para a nave única da igreja, destaque para a decoração do seu cadeiral: com mais talha dourada em relevo, veem-se representações de monges beneditinos, animais fantásticos, elementos vegetais enrolados e até carrancas nos tampos dos assentos.

Claustro dos Cemitérios
Claustro dos Cemitérios

Antes de entrarmos na igreja, porém, havíamos passado pela sala de recepção, onde está uma maqueta do Mosteiro de Tibães e sua loja, com alguns elementos em exposição. E logo nos dirigimos para um dos claustros, no caso o Claustro dos Cemitérios. De dois andares e com planta quadrada, o piso inferior possui arcadas assentes em colunas toscanas e tem ao centro um chafariz rodeado de canteiros floridos. Nas alas, diversos painéis de azulejo com a representação da vida de São Bento. Era ao redor dos 2 claustros e 4 pátios que estava organizada a vida comunitária dos beneditinos.

Claustro do Refeitório
Claustro do Refeitório

No segundo piso, vê-se não apenas este claustro de um ponto de vista mais alto como também o outro claustro, o do Refeitório, destruído por um incêndio e hoje descaracterizado (chegou até a servir de terreiro agrícola com eira e sequeiro), junto ao qual está a cozinha, com duas grandes chaminés. É a partir deste piso superior que seguimos à descoberta das dependências monacais.

Sacristia
Aposentos do Abade Geral – capelinha
Aposentos do Abade Geral
Aposentos do Abade Geral – Pátio do Jericó

Começamos pelos Aposentos do Abade Geral, composto por diversos espaços, como sala de espera, sala de visitas, quarto, capelinha e jardim. Possuíam um recheio rico, quer no que respeita às pinturas e imagens quer ao mobiliário, de madeiras exóticas e de qualidade. O que se vê não será todo original, antes proveniente de museus nacionais. Ainda parte destes aposentos privados, destaque para a varanda alpendrada e para o jardim privado do abade, também designado Pátio do Jericó, com chafariz alimentado pela água de uma mina no monte de São Gens.

Galeria dos Abades Gerais

Segue-se a Galeria dos Abades Gerais, onde estavam os espaços da Congregação, como dormitórios (celas) e a secretaria. O corredor de acesso a ela tem os tectos pintados a branco, azul e amarelo, e nas paredes uma série de quadros de reis, príncipes, papas e bispos, bem como revestimento a azulejo.

Hospedaria Monástica
Secretas

Mais adiante, a Hospedaria Monástica, onde eram acolhidos hóspedes e peregrinos, com diversas celas distribuídas por ambos os flancos de um longo corredor. É aqui que se percebe o quanto falta restaurar, trabalho árduo e demorado, depois de tanto tempo em que o Mosteiro foi deixado ao abandono. Não obstante, podemos testemunhar um espaço muito privado, as chamadas “secretas” ou “necessárias”, as retretes usadas pelos hóspedes do Mosteiro.

Passadiço
Passadiço – fonte

Um dos espaços mais curiosos deste segundo piso é o passadiço construído na década de 1730, assim dividindo o grande terreiro que existia entre a portaria do carro e a adega. Este passadiço tem uma fonte no meio, com o Cordeiro lançando água pela boca, e alegretes em cada um dos lados, servindo de costas aos bancos com canteiros de flores. Em baixo, o Pátio de São João e a zona de lavoura com várias dependências agrícolas do Mosteiro (adega e abegoaria, onde eram guardados os utensílios de lavoura), separadas por uma passagem com arcadas.

Terreiro da Adega
Terreiro da Adega
Pátio de São João

O Pátio de São João é mais um belo espaço, construído numa plataforma elevada em relação ao caminho que a circunda, tendo ao centro, com a companhia de mais uma série de canteiros, novo chafariz.

Sala do Capítulo
Sala do Capítulo
Sala do Capítulo

Por fim, a Sala do Capítulo, uma das mais nobres e bonitas do Mosteiro. Era nela que o novo abade geral era eleito pelos abades de todos os mosteiros da Congregação de São Bento. Com tecto em caixotões, é também uma galeria, com diversos retratos de antigos frades beneditinos e de D. Sebastião, Cardeal D. Henrique e D. Filipe I. E tem a revesti-la mais uns painéis de azulejo, desta vez representando a vida de José do Egipto. E, deste pedaço de mundo religioso, seguimos rumo ao terreno, ao encontro do mundo rural.

Mosteiro e zona agrícola
Aqueduto

A cerca conventual esconde muitas maravilhas. Seguindo igualmente os princípios do barroco, mas também do romantismo, distinguem-se várias zonas na cerca murada: a zona agrícola (com hortas, pomares, olival e vinha), a zona dos jardins (com o escadório e a Capela de São Bento), a zona da mata (com pinhal, eucaliptal e acácias) e as zonas em propriedade (olival de baixo, pomar e leiras). Pelos diversos caminhos, vamos encontrando bancos, fontes e tanques, por entre a vegetação e culturas agrícolas. Os monges beneditinos procuraram criar não apenas um lugar apto à agricultura, como forma de rendimento, mas ao mesmo tempo também um lugar de meditação e de experimentação. Vivia-se o século 17 e 18, época das múltiplas viagens para o Novo Mundo, e aqui procurou-se introduzir novas culturas, como o milho, trazido das Américas. Com o abandono do mosteiro na sequência da extinção das ordens religiosas, o lugar foi deixado aos elementos e, então, a vegetação foi crescendo espontaneamente, daí surgindo diversas espécies de flora e fauna que conseguiram adaptar-se a esta natureza. Nos últimos anos, já propriedade do Estado, a integridade da cerca tem vindo a ser mantida, nela se desenvolvendo quer projectos agrícolas quer de recreio.

Latada
Latada
Hortênsias
Foto da Fonte de São Bento

Iniciámos a visita aos jardins do mosteiro com entrada pela latada de vinha junto ao Terreiro da Adega. Era Setembro e os homens vindimavam em força, com os baldes já carregados de uvas. Simpáticos, deram a provar, mas não as apreciando recusei envergonhadamente. Junto à latada veem-se os arcos do aqueduto que passa pelo interior do Mosteiro e conduz a água às fontes. Daqui saem múltiplos caminhos. Os jardins desenvolvem-se em socalco e praticamente confundem-se com a zona agrícola. Há buxo, roseiras, azáleas, mas foram as hortênsias ainda em flor e coloridas quem mais seduziram.

Escadório
Escadório
Brasão da Ordem de São Bento
Capela de São Bento

O escadório barroco é um dos momentos mais cenográficos da cerca. Aproveitando o declive do terreno, uma escadaria em diversos patamares leva até à Capela de São Bento, passando por uma série de fontes, todas elas profusamente decoradas e de forma diferente. Esta subida procura representar a subida ao céu, acompanhada pelo som da água, sempre muito presente, um momento que se quer de contemplação. Ao cimo do escadório, está o brasão da Ordem de São Bento, com torre ameada, báculo, leão e ave e, logo a seguir, a Capela de São Bento, alpendrada, construída em 1554.

Mata
Mata
Mata – lago
Mata – arte contemporânea

É da Capela de São Bento que se adentra na mata, profunda em muitos trechos e preenchida por carvalhos, loureiros e até um pinheiro-bravo com duzentos anos e 47 metros de altura. E a mata esconde, ainda, um lago romântico, mais uma prova da importância fundamental do elemento água, quer em termos práticos quer cenográficos. E, como que a mostrar o sentido no tempo actual, diversas obras de arte contemporânea vão pontuando a mata, sinal de que o Mosteiro de Tibães, recentemente elevado a Monumento Nacional, está bem vivo.

Deixe um comentário