Na viagem de comboio entre Andong e Gyeongju percebe-se na perfeição o porquê da península coreana ser conhecida como a “terra da tranquilidade matinal”. A paisagem serena, montanhas sucessivas intervaladas por rios e seus vales, é de uma beleza confortante. O verde e a ruralidade predominam na Coreia e a província Gyeongsang do Norte não é excepção. Porém, Gyeongju, a sul de Andong, acrescenta às paisagens cénicas a memória preservada de uma poderosa herança cultural.


O centro de Gyeongju, o “museu sem muros”, preserva o planeamento urbano e a cultura, religião e arte da dinastia Silla e grande parte deste rico património está distinguido pela Unesco como património da humanidade. O reino de Silla governou a Coreia entre o ano 57 a.C. e 934, mas foi no século 4, durante o designado período Maripgan, que atingiu o seu esplendor, designadamente pela sua arte dourada. O que mais nos impressionou, porque não tínhamos visto igual, foram os túmulos dos reis e oficiais desse período histórico. Sabemos hoje, todos os reinos ancestrais da Coreia possuíam práticas funerárias distintas e interessantes (incluindo os túmulos de Goguryeo, na Coreia Norte e China, com pinturas murais), e a península tem dezenas de exemplos espalhados pelo seu território, não apenas do reino Silla em Gyeongju, mas também do reino Baekje em Buyeo e Gongju, do reino Gaya em Busan e do reino Choson em Gyeonggi e Yeoju. Sobretudo, impressiona a forma perfeita como estes túmulos estão integrados na paisagem urbana da cidade, montículos verdes tão suaves que mais parecem um elemento natural ou um bem conseguido arranjo paisagístico.


O Parque Tumuli (ou Daereungwon) acolhe cerca de 23 túmulos das famílias reais e aristocratas de Silla. Tumuli significa colinas artificiais feitas de pedra e terra, precisamente os montículos verdes que compõem a paisagem do centro de Gyeongju. A visita ao túmulo Geumgwanchong, agora musealizado sob a forma de um edifício moderno que envolve esta ruína in situ, permite-nos perceber na perfeição o enquadramento histórico e o processo de construção e modelação destas estruturas funerárias, através de um vídeo em 3D.



Construídos entre os séculos 4 e 6, primeiro escavava-se a terra, de forma a criar um buraco e aí instalar a câmara de madeira com o corpo do morto juntamente com os seus bens, sendo depois coberta com terra e pedras até ser criado um monte bem alto. O objectivo destas estruturas era a protecção do caixão face aos elementos naturais e aos ladrões, mas o seu visual poderoso era uma evidente demonstração de prestígio e de autoridade real. A história da descoberta do sítio, cerca de 15 séculos após a sua construção, é deveras interessante. Em 1921 construía-se no local mais uma casa, junto a muitas outras já aí existentes, quando um polícia japonês (a Coreia estava, então, sob ocupação japonesa) viu um grupo de crianças a brincar com artefactos aí encontrados. O polícia terá percebido de imediato que esses eram objectos extraordinários e, assim, deu conta da descoberta. Trabalhos arqueológicos e estudos posteriores vieram a mostrar que o monte era afinal um lugar de sepulturas do período Silla. Esta, em especial, terá sido construída entre os anos 475 e 500 e pertencido a um homem, não um rei mas uma figura importante, talvez seu familiar.


Geumgwanchong significa túmulo da coroa dourada, e a coroa aqui encontrada é uma beleza, tendo sido ainda encontrados vários utensílios e ornamentos, muitos deles em museus de Gyeongju e Seul. Esta é uma de seis coroas de ouro encontradas, todas elas com um desenho único e cheias de ornamentos, um símbolo dos reis Silla. O ouro era, aliás, abundante durante o período Maripgan do reino de Silla, de tal forma que a sua capital, Gyeongju, ficou conhecida como a “cidade dourada”.

Nem todos os túmulos foram escavados, ou até encontrados, mas outro dos visitáveis é o Cheonmachong, igualmente musealizado. Conhecido como o “Túmulo do Cavalo Celestial”, em alusão a uma pintura nele encontrada, aqui podemos perceber como era o interior do túmulo, incluindo o lugar, forma e bens depositados no caixão.

O maior túmulo do Parque é o Hwangnamdaechong, um túmulo duplo, pertencente a um rei e a uma rainha que se fizeram sepultar com os seus ricos bens, algo habitual no reino. Em todo o caso, apesar de desconhecermos as personagens que estiveram na origem destas estruturas, ao caminhar por entre os vários montes do complexo, testemunhando a sua brilhante harmonia, como que lhes prestamos homenagem, agradecendo por tão característica prática.




Perto está o Observatório Cheomseongdae, também do período Silla. Com 9,5 metros, é uma estrutura em pedra, construída no reinado da rainha Seongdong-gu, entre 632-647. O nome significa “plataforma para olhar as estrelas” e é considerado o mais antigo observatório da Ásia a chegar aos nossos dias. Nas sociedades antigas, a observação do movimento celestial tinha grande importância política, uma vez que as observações astronómicas serviam de guião para as culturas agrícolas, sendo igualmente um meio de “adivinhar” a fortuna do país. Diz que os seus 365 tijolos de pedra correspondem aos 365 dias do ano.



O Palácio Donggung e o Lago Wolji é o que resta de um dos principais complexos palacianos do reino de Silla ao longo de 1000 anos (57 a.C a 935). Para além de um largo terreno “vazio”, o que visitamos hoje é uma reconstrução efectuada na década de 1970. O edifício principal não era, de todo, um dos mais importantes, mas o reconstruído pavilhão do Palácio Donggung (Palácio do Leste, correspondente aos aposentos do príncipe herdeiro) é um símbolo imponente e arquitectonicamente belo, acompanhado de um não menos bonito lago. Diz que à noite, iluminado, o lugar toma todo um outro ambiente, mas não chegámos a confirmar. O lago, originalmente criado no século 7 e anteriormente conhecido por Anapji (lago do pato e do ganso), agora Wolji (lago da lua reflectida), é um lago artificial, escavado na terra, e ao seu redor existem diversas árvores que fazem deste um lugar idílico.


Também integrado na classificação da Unesco, a área designada por Hwangnyongsa inclui as ruínas do antigo templo de mesmo nome e o Templo Bunhwangsa, ambos representantes do budismo Silla. O Templo Hwangnyongsa era o maior do reino Silla e, diz a lenda, corria o ano 553 quando o rei Jinheung construía o seu palácio e viu um dragão amarelo a ascender ao céu neste local. Devoto budista, o rei logo substituiu a construção do palácio por um templo, a que deu o nome Templo do Dragão Amarelo, precisamente, Hwangnyongsa. O templo continuou central e importante para além dos Silla, designadamente durante a dinastia Goryeo, mas acabou destruído em consequência da invasão mongol, em 1238, restando hoje pouco mais do que pedras correspondentes às fundações. Durante séculos, o lugar manteve-se ocupado por casas e campos cultivo, e apenas na década de 1970 escavações arqueológicas revelaram restos do templo num terreno pantanoso, tendo sido descobertos vários artefactos e partes do enorme telhado. No espaço ocupado pelo Templo Hwangnyongsa foi, entretanto, construído um museu para acolher a réplica da pagoda de 9 andares e 80 metros pertencente ao antigo templo, durante séculos a mais alta de toda a Coreia.


Diante do que resta do Templo Hwangnyongsa e seu museu está o Templo Bunhwangsa, cuja área de implementação é 80 vezes mais pequena do que o seu vizinho. Foi fundado em 634, também durante o período Silla, e à semelhança do outro templo foi igualmente muito destruída pelos mongóis e, mais tarde, pelos japoneses. Ainda em uso, preserva, no entanto, o salão principal e a sua pagoda de pedra, a mais antiga do reino Silla a chegar aos nossos dias. Esta pagoda, considerada Tesouro Nacional, é de facto um belo monumento, inspirada nos exemplos da Dinastia Tang da China, à excepção do uso da pedra. Teria 9 andares, dos quais restam hoje 3, e devemos observar com atenção o seu pedestral, com esculturas de guardiães em cada uma das entradas da pagoda.




A visita ao Museu de Gyeongju é essencial para se conhecer a arte elevada do período Silla, quando Gyeongju era capital, mas também de outros períodos da cidade. Estão lá, claro, as coroas de ouro e muitos outros artefactos, incluindo os ornamentos encontrados nos túmulos. Estas coroas de ouro têm uma característica forma de árvore, com uma série de pingentes de ouro e jade como decoração. Pretenderiam, talvez, simbolizar a “árvore da vida”, ligada à ideia de uma imensa árvore como centro do mundo cujos ramos conectam todo o cosmos, ligando o céu ao submundo, e terão a sua origem nos adereços dos xamãs siberianos.



Em Gyeongju, espreitámos ainda a Ponte Woljeonggyo, mais um dos pontos a não perder na cidade. Construída no ano 760, é uma ponte de madeira coberta e assente em pedra, originalmente com 60,57 metros. Atravesse-se a ponte, repare-se nas coloridas decorações de pintura e retorne-se para a margem original saltando de pedrinha em pedrinha sobre o rio Namcheon.




Depois, há que deambular pela Aldeia Hanok Gyochon, com uma série de casas históricas anteriormente propriedade de famílias aristocráticas de Gyeongju. Nesta viagem no tempo, contemplamos uma vez mais a típica arquitectura coreana – as casas hanok -, em especial os seus telhados em patamares. Não muito longe, a rua Hwangnidan-gil é uma óptima maneira de perceber a mescla perfeita entre o antigo e o novo: por fora, os edifícios da rua mais famosa de Gyeongju são casas hanok, mas o seu interior está agora ocupado por lojas da moda, cafés e restaurantes. Uma boa forma de finalizar este passeio pelo centro histórico da cidade.


Porém, há ainda mais património e história para descobrir nas redondezas de Gyeongju, entre eles a Fortaleza Sanseong, parte da estrutura defensiva ao longo da costa e outros pontos estratégicos, e os diversos vestígios de arte budista e templos budistas no Monte Namsam, que acabámos por não visitar. Visitámos, sim, o Templo Bulguksa, também património da Unesco, à distância do centro histórico de Gyeongju de uma viagem de autocarro de cerca de 45 minutos. Construído pelos Silla em 751, a maior parte dos seus edifícios foi destruída durante as invasões japonesas do século 16. Foi, porém, reconstruído e apresenta-se hoje bem restaurado. Implantado na montanha Toham e rodeado de carregada vegetação, é um prazer caminhar por ele e sua envolvente, admirando os contrastes de cor resultantes da conjugação da natureza e dos elementos decorativos do templo. Aliás, não sendo um dos maiores templos, artisticamente este é considerado um dos melhores.


Tem várias entradas, uma delas após o idílico lago com ponte de pedra, um cenário de evidente beleza, a que se seguem as esculturas de quatro coloridas divindades guardiãs do templo.






Depois de contornadas as escadarias da entrada principal do templo, interditas para salvaguarda do mesmo, passamos por uma série de portadas, pátios, pavilhões e detalhes arquitectónicos e artísticos, até desembocarmos no recinto principal. Vamos vendo por todo o lado um excelente trabalho em granito e em madeira, sendo que as pinturas refletem o estilo e gosto Choson, época da reconstrução do templo. Vai-nos escapando, porém, todo o simbolismo associado a este templo budista, ainda que uma série de guias estejam por lá para, de forma insistente, oferecer os seus préstimos. No entanto, sentimo-nos também nós, ainda que não budistas, de alguma forma a ascender entre a terra e céu, entre o mundo dos indivíduos e o mundo de Buda.


O Daeungjeon, Salão da Iluminação Perfeita, é o maior e principal do Templo, dedicado a Shakyamuni, o Buda histórico, tendo no pátio que o antecede duas pagodas: a Pagoda Dabotap, construída num estilo inovador, mostrando a essência da arte de Silla Unificada (século 8), e a Pagoda Seokgatap, representativa das pagodas tradicionais coreanas.


Perto do Templo Bulguksa está a Gruta Seokguram, também Unesco. Escondida na montanha, chegámos até ela após uma curta viagem de autocarro e, depois, descemos de volta ao Bulguksa por um fácil trilho de 2,5 kms de pura natureza. Conta-se que foi Kim Daeseong, primeiro-ministro do período Silla Unificada, século 8, quem mandou construir o templo e a gruta. Filho de pais muito pobres, Kim convenceu a sua mãe a doar, ainda assim, uma pequena terra para o templo; essa terra era tudo o que tinham. Poucos meses depois, Kim acabou por morrer, mas logo outro filho se juntou à família, tendo nascido um bebé segurando uma peça de metal nas mãos com Daeseong escrito. Depois de renascer, Kim Daeseong trouxe a sua anterior mãe para viver com ele e iniciou a construção do templo Bulguksa para os seus pais da vida atual e a Gruta Seokguram para os pais da vida anterior. A versão oficial é que a Gruta, uma capela budista, foi construída como capela privada para a família reinante, sendo parte do complexo do Templo Bulguksa e a ele ligado física, histórica e culturalmente.

Um pavilhão moderno marca a entrada no templo e gruta, umas centenas de metros mais acima. A Gruta artificial, escavada na rocha granítica da montanha, possui no interior a imagem de Buda. É o único santuário budista numa gruta artificial no mundo e é considerado uma obra de arte do budismo coreano. Encerrada ao público, e com fotografias proibidas, a câmara interior é observada através de um vidro e nela está a imagem de um monumental Buda, com 3,26 metros altura e 1,58 de pedestal, olhando em direcção ao mar na posição bhumisparsha mudra (gesto da mão que simboliza o momento em que Buda atingiu a iluminação). Rodeado de estátuas dos seus discípulos, bodhisattvas e outras divindades, é provavelmente Shakyamuni (Sidarta), o Buda Supremo, e preserva a sua forma original. Mais, esta obra prima tem a capacidade de produzir em nós uma serenidade absoluta.