Um Passeio pela Azambuja

Às portas da Grande Lisboa, Azambuja é um lugar essencialmente rural onde o Tejo e a fértil lezíria são marcas identitárias. É o concelho mais oriental do distrito de Lisboa e por entre belas paisagens terrestres e fluviais encontramos vestígios de ocupação pré-histórica e um património de uma monumentalidade com que não contávamos.

Comecemos por aqui, por Vila Nova de São Pedro e Manique do Intendente, agora ambas parte de uma mesma freguesia, juntamente com Maçussa. Vila Nova de São Pedro é uma pequena povoação cujo casario é facilmente identificável como ribatejano, com casinhas alvas com listas coloridas.

Está instalada na encosta de um monte sobre o vale da ribeira de Almoster e no alto desse monte sobrevive até aos nossos dias um povoado fortificado da época do Calcolítico, o designado Castro de Vila Nova de São Pedro. No ponto mais alto da região, lugar de defesa natural por permitir o controlo táctico da envolvente, é considerado um tesouro da arqueologia nacional e um dos mais antigos do género na Europa, sendo visível o recinto muralhado e vestígios das suas estruturas (no Museu Arqueológico do Carmo, em Lisboa, está uma maqueta com a reconstituição desta fortificação calcolítica e diversos artefactos daqui provenientes, incluindo um vaso ritual de cerâmica).

Este sempre foi um território procurado pelas suas terras férteis e hoje veem-se pequenas hortas e, sobretudo, vinhas em pequenos talhões que riscam as encostas. Os cavalos marcam presença aqui e ali e a vegetação é variada, com oliveiras, carvalhos e sobreiros e típica das galerias ripícolas junto às ribeiras.

A antiga Alcoentrinho era morgadio de Diogo Inácio de Pina Manique, chanceler-mor do Reino, e em 1791, por ordem de D. Maria I, passou a denominar-se Manique do Intendente, elevando igualmente a povoação a vila. Pina Manique propôs-se, então, a fundar uma verdadeira povoação com igreja, casa da câmara, pelourinho, casas para juízes e vereadores e um palácio para si. Acontece que o Intendente morreu sem que o seu palácio tivesse sido concluído e o estado de abandono segue até aos dias de hoje. Não obstante, a ruína possui um ambiente incrível. Em estilo neoclássico, no centro da fachada está a igreja que, era intenção, seguiu um desenho semelhante ao do Palácio de Mafra – a igreja foi o único elemento do conjunto a ser concluído e vê-se o seu frontão arredondado encimado por um obelisco piramidal e uma torre sineira atrás. A restante fachada, em mau estado de conservação, preserva apenas as janelas dos dois corpos laterais, com uns óculos na parte superior em evidência e, mais acima ainda, uns troféus decorativos na balaustrada. Personagens principais da ruína? As cegonhas, que mantém os seus ninhos no alto. Parece que o Palácio de Pina Manique faz parte da lista de imóveis a concessionar pelo Estado Português a privados, para instalação de unidades hoteleiras. A ver vamos.

A povoação, devidamente planeada, não é grande, mas tem uma das praças mais geométricas e impressionantes do nosso país. A Praça dos Imperadores, de formato hexagonal e com pelourinho ao centro, é uma beleza. Num dos flancos está a Casa da Câmara, edifício de fachada triangular em estilo neoclássico, com brasão de Pina Manique, lugar de exercício dos poderes político, administrativo e judicial da época, tendo funcionado igualmente como cadeia. Dela irradiam seis ruinhas, cada uma delas com nome de imperadores romanos, daí a designação da praça.

Aqui perto está o Paul de Manique, um espelho de água alimentado pela ribeira do Judeu, parte da rede de afluentes da margem direita do Tejo. A ribeira escavou aqui um vale de vertentes assimétricas, onde as colinas chegam aos 110 metros, e em anos de maior caudal as margens são inundadas, criando esta zona húmida onde os solos permanecem alagados durante grande parte do tempo. O Paul é um local de alimentação, reprodução e passagem de inúmeras espécies, acolhendo uma interessante diversidade de espécies animais – foram identificadas 403 espécies, entre crustáceos, aracnídeos, insectos, moluscos, peixes, anfíbios, répteis e mamíferos – e flora – 85 espécies. Há um posto de observação e um curto passadiço de madeira. No Verão, porém, pode acontecer a evaporação completa da água. Do Paul vê-se a povoação de Manique, vislumbrando-se até o obelisco e a torre sineira do antigo Palácio, e em tempos os terrenos ao redor tinham um muito maior aproveitamento agrícola, com hortas e vinhas.

Azambuja, a vila sede de concelho, está a 26 quilómetros de distância. Foi a Oliastrum dos romanos e a Azzabuja dos mouros, nome que deu origem ao topónimo actual. Tomada aos mouros no século 12, foi doada pelo rei D. Afonso Henriques a um dos fidalgos flamengos da ordem dos Cavaleiros da Flandres que ajudou na conquista da região. D. Sancho I concedeu-lhe foral no início do século 13, o qual viria a ser sucessivamente confirmado, incluindo por D. Manuel, já no século 16, tendo sido em sequência erigido pelourinho (o actual é uma reconstrução do século 20, após destruição anterior). É desta época a sua expansão, com a construção da Igreja Matriz e da Igreja da Misericórdia. Antes, porém, também D. Dinis se tinha ocupado da região, tendo aqui mandado plantar em 1294 o pinhal das Virtudes – a Mata Nacional das Virtudes lá permanece.

A Praça do Município é o centro histórico da Azambuja. Equilibrado, nele domina a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção, em estilo maneirista na fachada e barroco na talha dourada, com várias ricas capelas. Em baixo da igreja e ao centro da praça está o referido pelourinho, manuelino e muito elaborado nos seus detalhes.

E no Largo da Igreja há um conjunto de edifícios, originalmente dos séculos 16 e 17 e recuperados já no século 20, que conferem beleza ao lugar. Um correspondia à casa do padre, com loggia e colunas toscanas e um Passo da Via Sacra na fachada, e o outro a uma casa abastada da época.

Caminhando pelas suas ruas descobrem-se alguns pormenores, como uma parte preservada da antiga fachada do primeiro Cine-Teatro da Azambuja, de 1920, uma chaminé exemplar do património industrial da vila, um relevo decorativo numa porta e uns painéis azulejares representativos de histórias e tradições locais (como o da fonte do Toiro do Patrão, contando em estrofes um episódio em que face à tragédia das cheias da lezíria do Tejo o destino do campino do Ribatejo é salvar o touro; ou a história do Cavalo Ruço, outros dos elementos do Ribatejo e da lezíria).

A parte alta da vila dá-nos uma panorâmica da lezíria para lá do casario. Há muita água ao seu redor. Região fértil desde há muito, já se disse, desde a Idade Média foi sendo construída uma rede artificial de canais no sentido de aproveitar os pequenos cursos de água para abastecimento e escoamento de produtos vindos da zona, bem como a sua irrigação e drenagem. Nessa época, era pelo rio que chegavam os produtos necessários à vida das suas gentes, também utilizado para levar cereais, cortiça, madeira e outros produtos da região.

As Valas do Tejo eram muitas, entre as quais, para além da Vala da Azambuja, a de Alpiarça, a de Benavente, a do Carregado, a da Ribeira de Muge, a de Salvaterra de Magos (a primeira, construída logo no século 13 com o objetivo de escoar o excesso de águas) e a de Vila Franca de Xira. A Vala Real da Azambuja foi mandada construir em 1750 (mas a sua construção durou até ao início do século 19), pelo Marquês de Pombal, ligando a vila de Azambuja ao Rio Tejo e destinando-se ao enxugo dos campos desde Santarém até à Azambuja. Este longo canal é uma linha de água com cerca de 26 quilómetros de extensão, navegável nos últimos 17 quilómetros e inicialmente navegável por barcos de maior porte, como fragatas e barcos varinos. A grande maioria das valas estão hoje desactivadas, sendo algumas aproveitadas como sistema rega e para a prática de desportos náuticos e cruzeiros fluviais, como acontece com a da Azambuja, que promove o projecto Rota dos Mouchões com um passeio na embarcação típica do Tejo, o varino Vala Real, que leva a descobrir o património natural e cultural locais, como a observação de aves e da aldeia piscatória avieira Porto da Palha.

Esta Vala Real da Azambuja está marginada por zonas agrícolas e possui uma vegetação típica ripícola composta por salgueiros, freixos, choupos, e uma extensa alameda de palmeiras bicentenárias junto ao lugar onde a Vala / Rio Maior se junta ao Tejo, na foz do canal.

Aqui encontramos a ruína do Palácio das Obras Novas, também conhecido por Palácio da Rainha, construído no século 18, no reinado de D. Maria. A sua função era servir de apoio à navegação fluvial da vala, quer como estalagem quer como entreposto comercial dos barcos da Companhia de Navegação do Tejo e Sado e da Companhia dos Canais de Azambuja, sendo composto de quartos na hospedaria e terminal de mercadorias. Muito degradado, o edifício principal está virado ao Tejo e tem portal em estilo neoclássico, constituindo uma entrada cénica. A população local gosta de se lhe referir como “palácio”, aludindo à antiga presença da nobreza, designadamente do rei D. Carlos e do Príncipe D. Luís Filipe, que para aqui vinham caçar e para as suas regatas. Acontece que as costumeiras subidas das águas deixaram o lugar vulnerável às cheias e isso, aliado à falta de manutenção e construção de infraestruturas que regulassem os caudais de água, levaram a prejuízos e falência, ainda mais agravados pela construção do primeiro troço da linha ferroviária entre Lisboa e Carregado, inaugurado em 1856.

Para o final deste passeio por terras da Azambuja deixámos a visita à aldeia avieira de Porto da Palha, também conhecida como Lezirão, situada à beira do rio Tejo. No final do século 19, movimentos migratórios de pescadores oriundos das praias entre Espinho e Vieira de Leiria vieram para as margens férteis do Tejo em busca de melhores condições de vida. Ficaram conhecidos como avieiros. O peixe era abundante, em especial o sável e a lampreia, e as águas do Tejo tranquilas, proporcionando alimento e sustento. Chegaram a 38 as aldeias avieiras do Tejo, permanecendo hoje vestígios de 14. A primeira aldeia avieira da Azambuja foi a Aldeia das Obras e ficava junto ao Palácio das Obras, entretanto destruída pelo fogo. A Aldeia do Lezirão / Porto da Palha é mais tardia e toma estes nomes por estar dentro da Herdade do Lezirão e por ser aqui que os barcos provenientes de Lisboa vinham carregar a palha para fazer a “cama” e alimentar os cavalos e burros que na altura puxavam os carros na capital. Os avieiros tinham um modo de vida muito próprio: o barco – a bateira – era o seu instrumento de trabalho e aí trabalhavam, comiam e dormiam. E pariam e criavam os filhos.

Felizmente, os avieiros acabaram por se fixar definitivamente em terra e hoje restam algumas das suas casas típicas de madeira apoiada em estacas, para ficar acima da quota máxima de inundação do Tejo. Os barcos não servem já de lar e o pequeno cais da aldeia tem também barcos de recreio atracados. A aldeia de Porto da Palha tem um café e algumas casinhas, sendo visível que mantém o ambiente e modo de vida rural e fluvial. Para além da paisagem absolutamente tranquila que as águas do Tejo insistem em nos dar.

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  1. Apesar de já conhecer muitos destes lugares, é sempre bom recordar. Boa partilha!

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