Uma Cascata e um Miradouro pela Serra do Moradal, em Oleiros

No concelho de Oleiros, Beira Baixa, estão alguns elementos geológicos de excepção que, nos últimos anos, têm ficado acessíveis à visita de quase qualquer pessoa, não necessitando para tal de se aventurar natureza profunda afora. São disso exemplo a Fraga de Água D’Alta e o Miradouro do Zebro, ambos na Serra de Moradal e em pleno Geopark Naturtejo, numa região onde predominam as cristas quartzíticas e se escondem bosques onde ainda se encontram vestígios da floresta Laurissilva. A GeoRota do Orvalho, incluindo os seus ajustados passadiços, permitem-nos descobrir alguns destes segredos.

A aldeia do Orvalho é o ponto de partida para a visita à Fraga de Água D’Alta, mas esse é apenas um pretexto para, de caminho, se visitarem outros geossítios e um ambiente natural recatado onde abundam afloramentos rochosos e ribeiras marginadas por densa vegetação e pontes e azenhas. Antes, porém, dizer que a referida GeoRota do Orvalho é um percurso pedestre linear com cerca de 9 quilómetros que aproveita os passadiços inaugurados em 2020 para nos levar de forma mais fácil a alguns dos lugares que, sem eles, talvez não chegaríamos a conhecer. O impacto destes passadiços não é, em nossa opinião, agressivo em termos paisagísticos; pelo contrário, o seu serpentear cabeços e afloramentos rochosos acima acrescenta ainda mais movimento e alegria à paisagem. Todavia, o facto de a GeoRota ser um percurso linear faz com que quem o queira percorrer por inteiro deva pensar em alternativas circulares (que as há, como este nosso percurso) ou se limite a visitar os lugares mais (merecidamente) famosos e aqueles que possuem os ditos passadiços, de que são exemplo a cascata da Fraga de Água D’Alta e seu vale das Fragosas e o Cabeço do Mosqueiro com ribeira do Orvalho no seu sopé.

Orvalho tem uma igreja matriz, uma curiosa torre do relógio e um casario com alguns edifícios de xisto. Deve o seu nome ou a uma espécie de planta conhecida por erva-pinheira orvalhada que se pode encontrar nos pinhais ou ao costumeiro nevoeiro que forma orvalhadas, cortesia das ribeiras que a envolvem. Uma delas é, precisamente, a ribeira do Orvalho, por onde começámos por caminhar até subir uns montes que nos oferecem vistas altaneiras da aldeia do Orvalho e do Cabeço do Mosqueiro, até chegarmos à cascata da Fraga de Água D’Alta, um dos 16 geomonumentos do Geopark Naturtejo.

É num ponto elevado relativamente à cascata da Fraga de Água D’Alta, a mais alta da Beira Baixa, com cerca de 15 metros, que aparecem os primeiros passadiços, transportando-nos em ziguezague até à sua base, onde está também uma piscina natural. Rodeiam-nas uns poderosos afloramentos rochosos de cristas quartzíticas, num belo e surpreendente contraste com o ambiente que vivenciamos no Vale das Fragosas e seu delicado bosque. Aqui é a Ribeira da Água D’ Alta que marca presença, escondendo outras duas pequenas cascatas ao longo do seu caminho feito de muito verde e pontes para ir passando de um lado para o outro da ribeira.

Mas a sua maior importância vem da biodiversidade que acolhe e, sobretudo, de ser um dos poucos lugares do nosso país (para além dos Açores e Madeira) que ainda guardam vestígios da floresta Laurissilva, que em tempos cobriu o sudoeste da Europa e que hoje está resumida a alguns locais da Macaronésia (entre os quais alguns pontos nos referidos arquipélagos) e pouco mais na Europa continental. Assim, graças à densa vegetação e à pouca entrada de luz natural neste vale, fazendo deste um lugar muito húmido, há aqui uma rara comunidade de azereiro, para além do folhado e do pequeno feto Omphaloides nítida, um endemismo Ibérico.

Da cascata da Fraga de Água D’Alta e do Vale das Fragosas seguimos para o Cabeço do Mosqueiro, mas antes há que ultrapassar novo vale, desta vez com a ajuda de um outro conjunto de passadiços – é um espectáculo à parte a forma como estão dispostos nas cristas quartzíticas, confundindo-se facilmente com o ambiente natural e permitindo um agradável sobe e desce pelos montes, pese embora os degraus e desnível a vencer. No fundo deste vale corre a nossa já conhecida Ribeira do Orvalho e neste pedaço breve de novo recanto cheio de vegetação encontramos um moinho em xisto – que tão bem havíamos gabado de cima, por entre a densa floresta -, um dos vários que em tempos aproveitava a força da água para moer milho, trigo, centeio e cevada; o seu interior foi mantido, servindo de exemplo etnográfico.

E daqui iniciamos a subida final até ao geossítio do Cabeço do Mosqueiro, num bonito troço por passadiços ao longo da crista do Penedo das Sardas. A forma deste penedo tem um grande destaque em toda a região, é um esbelto e poderoso rochedo com 666 metros de altitude, um verdadeiro miradouro natural.

Para além da Serra do Muradal e do vale do Zêzere e seus meandros, do topo admira-se as aldeias de Janeiro de Cima e de Janeiro de Baixo, mesmo ali, e ainda as Serras da Estrela, da Gardunha, do Açor e os Penedos de Góis, bem como se distingue na perfeição as montanhas rochosas da garganta quartzítica da Barragem de Santa Luzia, já concelho da Pampilhosa da Serra. O que não se vê, apesar de estar apenas uns 300 metros imediatamente abaixo, é a Garganta do Zêzere, um encaixe fluvial profundo do rio Zêzere na crista quartzítica, provocado pela erosão (este é outro dos geomonumentos do Geopark Naturtejo, ao qual em tempos tentámos alcançar, sem sucesso, no entanto, por a estrada estar então a ser objecto de obras, segundo cremos para efeitos de requalificação do espaço). Para além de miradouro, o Cabeço é igualmente um parque recreativo com estruturas de apoio várias e espaço para merendar.

Ao interesse paisagístico e geológico deste Cabeço do Mosqueiro, junta-se ainda vestígios de um antigo castro pré-romano. Não se sabe ao certo quais os primeiros povos que habitaram estas terras, mas por aqui terão passado romanos, germânicos e mouros. Após as invasões mouras, terão ficado despovoadas, só voltando a receber nova ocupação humana quando as ordens religiosas aqui chegaram com o objectivo de repovoar toda a região.

Estamos na Serra do Moradal, assim chamada por ter a forma de uma grande muralha em linha recta, e neste ponto predominam os afloramentos rochosos verticais e em crista. Parte do Geopark Naturtejo, está situada a este de Oleiros, sede de concelho, tem uma orientação SE-NW, entre a Ribeira da Magueija e o Rio Zêzere, e prolonga-se por 32 quilómetros até ao Rio Ceira. É a crista mais extensa e imponente da Beira Baixa e o seu ponto de maior altitude chega aos 912 metros, no Vilar. De notável interesse geomorfológico, é constituída por rochas quartzíticas formadas no Ordovícico, entre os 485 e os 443 milhões de anos, que há tempos imemoriais foram areias depositadas no fundo de um oceano ancestral nas margens do grande continente Gondwana, época em que a região se encontrava próxima do Pólo Sul. Na camada quartzítica veem-se marcas que constituem evidências fossilizadas das actividades dos pequenos animais que ali buscavam refúgio e alimento, escavando tocas e galerias. A vegetação no topo destas cristas escarpadas é rara, enquanto que nas suas encostas abruptas estão revestidas de diversas espécies arbustivas, como tojos, urzes, estevas, giestas, medronheiros e rosmaninhos. Pelo contrário, no sopé das encostas encontramos pinheiro-bravo e eucalipto e, como já vimos, junto aos cursos de água a vegetação chega a ser exuberante. De qualquer forma, são raras as áreas destinadas à agricultura e os solos pouco aptos a esta actividade, assim como é esparso o povoamento, que preferiu instalar-se junto às linhas de água quando a sua forma em barrancos assim o permitiu. A Serra do Muradal está, aliás, recortada por diversos cursos de água (para além dos já citados, também a Ribeira da Sertã, a Ribeira do Alvito e a Ribeira das Casas da Zebreira) e acolhe parte do vale do Zêzere.

Para o fim desta jornada deixamos o Miradouro do Zebro, a cerca de 20 quilómetros de estrada para sul desde o Orvalho. Outro dos geossítios da Serra do Moradal, este é o miradouro de que se fala, autoria do arquitecto Álvaro Siza Vieira e inagurado a 25 de Abril de 2024.

O pico do Zebro – nome de um animal parecido com o burro, mas mais forte e veloz, que viveu na Península Ibérica até ao século 16 – é o segundo mais alto desta serra, com 888 metros de altitude, e o lugar já era um miradouro natural, agora requalificado com a instalação de uma plataforma de betão monumental, à altura da paisagem onde está inserida. Esta estrutura circular possui 15 metros de diâmetro, é elevada a 30 metros do solo e 150 metros do fundo do vale, e tem duas lentes de vidro no chão que deixam espreitar de outra forma esse vale. Pouco abaixo da escarpa quartzítica (que é também uma parede de escalada), podemos apreciar ainda melhor os seus incríveis contornos, incluindo estes “buracos” de vidro.

Não nos desviamos, porém, da grande panorâmica da Serra do Moradal e seu vale, com destaque para os incríveis alinhamentos quartzíticos.

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