Samarcanda

Com um generoso património distinguido pela Unesco, em reconhecimento dos esplêndidos monumentos construídos pelos timúridas nos séculos 14 e 15, época grandiosa da Rota da Seda, e seus sucessores no século seguinte, Samarcanda é a mais mítica das cidades do Usbequistão. Surpreende não apenas a decoração das fachadas das mesquitas e madraças, como também a dos seus interiores. Em comum, os motivos e cores, uns magnetizantes mosaicos de tons azuis raros e inesquecíveis. O Registão, usualmente descrito como o mais impressionante sítio de toda a Rota da Seda, e o Shah-i-Zinda, a necrópole da dinastia Timúrida onde descansam eternamente muitos dos seus membros, com excepção do seu fundador, com direito a lugar próprio, são dos monumentos mais belos jamais vistos, parte da cultura persa e influência para muitos outros monumentos construídos mundo fora.

Nos últimos anos a viagem de Tashkent até Samarcanda ficou muito facilitada com a introdução de um comboio rápido que passou a fazer o percursos em meras 2h30m. Todavia, por uma questão de horários, optámos por seguir de carro, previamente concertado com o motorista. A estrada é para seguir sempre a direito, não está mal conservada, embora não apresente as mesmas condições a que estamos habituados na Europa. A viagem durou quase 5 horas, acompanhada de uma paisagem quase sempre plana, com excepção de um troço a uns 90 kms de Samarcanda, onde vão aparecendo algumas ondulações com montes verdes. Não faltam ladas a dividir a estrada e à sua beira vão desfilando rebanhos de cabras pretas, bancas de venda de peixe seco, maçãs e melões – os melões tão gabados por Babur, bem grandes – e o que parece queijo. E, claro, não faltam campos de algodão, com pintinhas brancas a sobressair das plantas.

Samarcanda
Samarcanda
Samarcanda

A primeira impressão de Samarcanda foi a de uma cidade que, na verdade, é como que duas cidades diferentes, a monumental, com edifícios magníficos antigos, e a russa, com ruas largas e uma arquitectura moderna sem grande graça. Possui, no entanto, zonas verdes bem traçadas, tornando-a muito agradável para o visitante para lá dos elementos culturais.

Gur-e-Amir

A nossa primeira visita foi ao Gur-e-Amir, o mausoléu de Timur (Tamerlão), o responsável pela grandeza de Samarcanda no século 14, tendo-a tornado capital do seu largo império. Timur era um homem violento, diz-se que nas suas conquistas gostava de deixar pelo caminho as cabeças decepadas dos seus inimigos – o seu mausoléu possui a inscrição “se eu fosse vivo, as pessoas não estariam contentes”, realçando a sua fama de tirano -, mas foi ao mesmo tempo patrono das artes e da arquitectura, lançando as bases de um estilo magnífico que, consideram muitos, antecipou o esplendor do Taj Mahal, construído pelos seus descendentes que fundaram eles próprios o império Mughal na Índia.

Gur-e-Amir
Gur-e-Amir

Construído no início do século 15, o complexo do Mausoléu Gur-e-Amir é uma beleza. Um majestoso portal antecipa um pátio para lá do qual está o edifício que acolhe para a eternidade os túmulos de Timur e alguns dos seus descendentes. Este edifício foi mandado construir originalmente por Muhammad Sultan para servir de madraça, centro da educação e conhecimento islâmico, mas este neto de Timur acabou por falecer e o avô mudou os planos e ordenou que servisse antes de seu mausoléu. Todavia, ele próprio faleceu entretanto e foi outro dos seus netos, Ulugh Beg (decore-se este nome, igualmente central na história do Usbequistão e até da humanidade), que tomou a iniciativa de transformar este no mausoléu de Timur. Hoje permanecem lá todos os personagens atrás mencionados e ainda dois dos filhos de Timur. O túmulo deste destaca-se dos outros, estando num plano mais elevado e sendo de cor diferente, feito de uma só peça de jade.

Gur-e-Amir
Gur-e-Amir

No entanto, a decoração do interior da sala rouba todas as atenções, sendo de um deslumbre imenso. Com as paredes e a cúpula revestidas por completo de mosaicos em tons de azul claro e, sobretudo, dourados, a iluminação que enche o lugar é de uma harmonia sem par, fazendo-nos sentir sob um céu estrelado.

Mausoléu Ak-Saray
Mausoléu Ak-Saray

Perto do mausoléu de Timur está um outro, cuja fachada discreta, por nunca concluída, não deixa adivinhar mais um interior esplendoroso – Bucara e Khiva podem comparar-se a Samarcanda na sua arquitectura exterior, mas é nesta que estão os interiores dignos de deslumbre. O Mausoléu Ak-Saray, de significado “palácio branco”, foi construído por volta de 1470 para acolher outros elementos da família Timur (o mausoléu vizinho já estaria completo), sobretudo Abd al Latif que, por ter ordenado a morte de seu pai, Ulugh Beg, não poderia ficar no mausoléu principal da família. Possui uma cripta subterrânea e outras salas não abertas a visita, mas a sala principal enche as medidas: tem as paredes e cúpula decoradas com mosaicos azuis e dourados vidrados em relevo, executados numa técnica designada por kundal em que o pigmento é aplicado em camadas juntamente com a folha de ouro, conferindo-lhe um aspecto cintilante. Tal é obra de grandes artesãos vindos de todo o império conquistado por Timur, trazidos para Samarcanda para trabalharem nas melhores condições e com fundos sem limites, mas o mais surpreendente é que na época desta construção, meados do século 15, a cidade já estava a entrar em declínio e, ainda assim, era capaz de trabalhos artísticos desta magnificência.

Registão

O Registão é a grande obra do império e o ponto alto da visita a Samarcanda e Usbequistão e um modelo da arquitectura oriental e islâmica. É um complexo composto por três madraças construídas entre os séculos 15 e 17, com uma ampla praça de permeio. A palavra “registão” vem do persa, de significado “lugar de areia” por ser areia que nos tempos antigos cobria esta praça, centro da vida social da cidade antes mesmo da existência das madraças, lugar onde se juntava a população para os momentos públicos, fossem anúncios de estado, celebrações ou execuções e onde os comerciantes vinham para vender os seus produtos. Tempos depois foram, então, construídas as madraças, e os portais de cada uma delas, virados para a praça, são monumentais. Não parecem, mas são de diferentes épocas: à esquerda, a Ulugh Beg, mais antiga, do século 15, e as outras duas, a Sher-Dor e a Tilya-Kori, do século 17, quando Samarcanda se preparava para entrar em declínio e ser substituída por Bucara em projecção – nos séculos que se seguiram, a sua população era escassa e as madraças serviram de abrigo para animais. Algo que surpreendeu nesta viagem pelo Usbequistão foi constatar como tantos dos seus inúmeros monumentos estão recuperados e restaurados, porque sabemos através de fotos que passaram por maus momentos ao longo da sua história. As madraças são escolas dedicadas ao estudo do islão. No início do século 20, o governo soviético proibiu a actividade religiosa das escolas, o que levou à sua mais rápida decadência; no entanto, foram também os soviéticos que iniciaram o restauro do Registão e outros momentos ancestrais e deram força ao simbolismo da sua importância enquanto legado da Rota da Seda.

Madraça Ulugh Beg
Madraça Ulugh Beg
Madraça Ulugh Beg
Madraça Ulugh Beg
Madraça Ulugh Beg
Madraça Ulugh Beg

A madraça Ulugh Beg, a mais antiga do complexo, construída cerca de 1420, tinha por companhia original uma mesquita, um caravançarai e um khanqah (lugar de retiro espiritual) que, em mau estado de conservação, acabaram por dar origem à sua substituição pelas outras duas madraças que vemos hoje. Ulugh Beg, neto de Timur, foi um dos grandes nomes da sua época, um intelectual amante das ciências, em especial a matemática e a astronomia, a par de governante (infelizmente, não tivemos oportunidade de visitar o seu Observatório Astronómico, único na sua época e avançado no tempo, sendo ainda hoje gabadas as avançadas conclusões que então lá se alcançaram). A madraça que leva o seu nome era, no seu tempo, o maior centro educativo e científico da cidade, lugar privilegiado para o estudo da filosofia, teologia, astronomia e matemática, e diz-se que o próprio Ulugh Beg terá dado aulas aqui. O portal, ladeado por dois minaretes (à semelhança da madraça que está em frente), está decorado com motivos de estrelas, simbolizando o céu. O interior, desenvolvido ao redor de um pátio com divisões em arcada, hoje salas transformadas em museu e uma série de lojas para turistas (uma constante no novo uso das madraças no Usbequistão), tem também as fachadas belamente decoradas, em especial com tijolos vidrados com motivos geométricos que dão movimento ao monumento. Pode, e deve-se, subir ao segundo piso desta espécie de claustro, para diferente panorâmica do pátio interior.

Madraça Sher-Dor
Madraça Sher-Dor
Madraça Sher-Dor
Madraça Sher-Dor

A madraça Sher-Dor, construída entre 1612 e 1636 pelo emir de Samarcanda, que era igualmente o governador do khanato de Bucara, está diante da Ulugh Beg. A ideia seria a de servir de espelho da mais antiga, no entanto, face à diferença de época entre as duas construções – 200 anos -, o decurso do tempo fez com que o edifício existente tivesse encolhido e a própria praça descesse cerca de 2 metros, o que levou a que a nova madraça saísse mais alta do que a anterior. Aliás, é visível a olho nu, que não necessita de ser especialmente atento, que as paredes dos edifícios estão um pouco tortas, seja por “deficiência” do projecto seja pelo assentamento do terreno, ainda para mais num território sujeito a terramotos. Esta madraça possui uma curiosidade: no seu portal estão representados dois leões dourados a carregar o sol às costas e a perseguir uns veados brancos, motivo raro no islão, que proíbe a representação de seres vivos. O nome da madraça, “sher” significa, precisamente, “leão”.

Madraça Tilya-Kori
Madraça Tilya-Kori
Madraça Tilya-Kori
Madraça Tilya-Kori
Madraça Tilya-Kori
Madraça Tilya-Kori
Madraça Tilya-Kori

A terceira madraça, frontal à entrada da praça, é a Tilya-Kori, construída 10 anos após a Sher-Dor, no lugar do antigo caravançarai. Conferindo ainda mais harmonia ao conjunto, esta madraça está ladeada por dois minaretes e duas belas cúpulas, possuindo ainda uma cúpula de um azul delicado mas intenso, correspondente à mesquita. O pátio interior é acolhedor, embora esteja também ele ocupado com lojas, e pareceu ser mais tranquilo. O nome “Tilya-Kori” tem o significado de “trabalho dourado”, por referência ao já referido estilo decorativo kundal, usado na sala de reza da mesquita, a mais bonita destas três madraças. Em resumo, em comum a todas elas, uma decoração superior e encantatória, cheia de movimento e cor, mas uma cor que não é tão usual assim no nosso mundo ocidental. Robert Byron, o autor de “Estrada para Oxiana”, nunca esteve no Usbequistão, mas escreveu a certo passo nessa obra que a cor e os motivos são um lugar comum na arquitectura persa, e assim é efectivamente também aqui.

Registão
Registão

À noite, todos os dias, as cores são outras e sob outra forma. Um espectáculo de luz, acompanhado de música, é projectado nas fachadas das madraças, iluminando-as. Não é muito elaborado, mas é o suficiente para lhe dar um encanto diferente.

Samarcanda
Mausoléu Bibi Khanum
Mausoléu Bibi Khanum
Mausoléu Bibi Khanum

Uma longa avenida pedestre, ladeada por lojas, restaurante e muito verde, segue do Registão ao Bazar Siab. À direita fica a cidade velha de Samarcanda, com ruas estreitas (com fraquíssima iluminação à noite), mesquitas e até uma sinagoga. E a meio do caminho está o Mausoléu e Mesquita Bibi Khanum, homenagem à amada mulher chinesa de Timur, descendente directa de Gengis Khan, que não lhe deu filhos. O mausoléu, também conhecido por Saray Mulk Khanum, é um edifício de fachada simples e hoje desprovido de decoração, encimado por uma cúpula do azul típico da região. É todo ele uma reconstrução, já que esteve em acentuado estado de ruína durante séculos, e crê-se que os trabalhos de restauro tenham estado assentes em suposições do que terá existido. De qualquer forma, foi um gosto visitá-lo e descobrir um interior com decorações em gesso onde dominam as cores azul e branco e motivos florais e geométricos.

Mesquita Bibi Khanum
Mesquita Bibi Khanum

A Mesquita Bibi Khanum, à sua frente, é de uma escala impressionante e possui duas cúpulas maravilhosas, com (mais) uma improvável variedade de azuis e motivos decorativos, incluindo inscrições em árabe. Antes, porém, passamos por mais um majestoso portal, com 18 metros altura. Foi Timur quem ordenou a construção da mesquita em 1399, talvez em honra da sua mulher favorita, e para tal esta teria de ser a maior e mais bonita alguma vez vista no mundo, plena de materiais nobres, como mármore, e ricas decorações, para o que trouxe os melhores arquitectos e artesãos. No entanto, a ambição desmedida ainda não permitia tais construções na época e, poucos anos depois, a estrutura da mesquita começou a ruir, assim se mantendo até meados do século 20 (mantendo também o título de edifício mais alto da cidade). Só na década de 1970 é que os responsáveis soviéticos empreenderam o seu restauro, concluído já com o Usbequistão separado da União Soviética, como parte do ideal do seu primeiro e muito duradouro presidente Islam Karimov de recuperar os edifícios da época timúrida, fazendo de Timur o herói e orgulho da nova nação independente. Com um largo pátio, o interior da mesquita possui uma decoração semelhante à do mausoléu, mas aqui a cúpula tem mais uma roseta dourada.

Mesquita Bibi Khanum
Mesquita Bibi Khanum
Mesquita Bibi Khanum
Mesquita Bibi Khanum

Associada à construção da mesquita, há uma lenda: Timur estava fora, em campanha militar, e Bibi quis fazer-lhe uma surpresa com a construção da mesquita, acompanhando as suas obras. O arquitecto ter-se-á apaixonado por Bibi e exigido um beijo em troca da continuação da construção; quando Timur voltou, matou o arquitecto sem piedade e determinou que as mulheres passassem a usar véu, para não tentarem os homens.

Mesquita Hazrat Hyzr
Mesquita Hazrat Hyzr
Mesquita Hazrat Hyzr
Mesquita Hazrat Hyzr

Era segunda-feira, dia de encerramento do bazar, e seguimos em direcção à colina que lhe é sobranceira, onde está a Mesquita Hazrat Hyzr. Construída no sítio de uma antiga mesquita totalmente arrasada pelas tropas de Gengis Khan, em 1220, a actual data de 1884. E dá ares de palacete. Da sua varanda alpendrada obtém-se grandes vistas da cidade, mas este é só por si um espaço bem bonito, suportado por colunas de madeira ornamentadas, típico da arquitectura das mesquitas do Usbequistão. Colunas semelhantes vemos igualmente no pátio, a suportarem uma galeria coberta cujo tecto possui umas decorações coloridas. Para além de um delicado minarete, o conjunto acolhe também o mausoléu de Islam Karimov, o primeiro presidente do Usbequistão.

Shah-i-Zinda – Túmulo Ulugh Ulzhaoyim
Shah-i-Zinda
Shah-i-Zinda
Shah-i-Zinda
Shah-i-Zinda
Shah-i-Zinda
Shah-i-Zinda

E, por fim, chegamos a outro dos lugares imperdíveis de Samarcanda, o complexo Shah-i-Zinda. Em Afrasiyab, o lugar original da cidade que antecedeu Samarcanda antes da sua destruição pelos mongóis, esta necrópole é uma estreita avenida, a subir, pejada de mausoléus de ambos os lados, construídos entre 1370 e 1449. Um delírio decorativo cheio de cor e fantasia. O paraíso dos mosaicos em tons de azul. Aqui estão familiares de reis e nobres, e o persa Shah-i-Zinda significa literalmente “túmulo do rei vivo”. O facto de se crer que aqui está também o túmulo de Kusam ibn Abbas, primo do profeta Maomé, no final do complexo, tornou-o um lugar de peregrinação, por alguns equivalente à peregrinação (haji) a Meca.

Shah-i-Zinda – Mausoléu Ulugh Ulzhaoyim, enfermeira da corte de Timur
Shah-i-Zinda – Túmulo Shodi Mulk Oko
Shah-i-Zinda – Mausoléu Shodi Mulk Oko

O mais bonito dos mausoléus é o segundo à esquerda, logo após a escadaria. Lugar de descanso eterno da irmã de Timur, Shodi Mulk Oko, tem uma decoração interior belíssima, com as paredes e a cúpula totalmente revestidas com mosaicos, alguns esculpidos, com figuras geométricas de uns azuis impressionantes, incluindo majólica. O seu portal dialoga intimamente com o do mausoléu em frente, tão juntos que estão. Ambos altos, estão ricamente decorados com mais azuis, bem como inscrições em árabe.

Shah-i-Zinda – Mausoléu Shirin Bika Aga
Shah-i-Zinda – Mausoléu Shirin Bika Aga
Shah-i-Zinda – Mausoléu Ali Nasafi
Shah-i-Zinda
Shah-i-Zinda – Mausoléu Tuman Oko
Shah-i-Zinda – Mausoléu Tuman Oko
Shah-i-Zinda – Templo Kusam bin abbas

Mas há muitos mais, todos eles deslumbrantes. E aqui percebe-se, nos mausoléus menos conservados, como ficaram as paredes e os túmulos com o decurso do tempo: gastas e sem restauro, as paredes têm o tijolo à vista e os túmulos o branco original com a falta dos mosaicos. Neste complexo de mausoléus, atente-se, ainda, nas portas de madeira esculpidas.

Ao lado da necrópole Shah-i-Zinda está o principal cemitério de Samarcanda, donde nos despedimos com mais uma grande panorâmica da cidade.

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