Terras de Sicó – Pombal e Soure

Para completar este roteiro por Terras do Sicó, andaremos, por fim, por terras de Soure e Pombal. Aqui, há mais aldeias e vilas testemunhas da rica cultura desta região do centro do nosso país e mais fenómenos da natureza assombrosos. Comecemos, precisamente, por aqui, por um monstro de pedra que não assusta, antes diverte.

O “Monstro das Bolachas”, em Covão das Favas, fica no concelho de Soure com vista para o de Pombal, território de fronteira entre os distritos de Coimbra e Leiria – neste post andaremos cá e lá. Depois de passarmos por mais umas dolinas em Degracias, acima de uma outra dolina em Poios percebemos três buracas na rocha da escarpa da Senhora da Estrela, a exacta representação de dois olhos e uma boca. É uma imagem estranha mas muito divertida de todo o maciço do Sicó, mais um acidente morfológico desta unidade, semelhante aos do Vale das Buracas do Casmilo.

Esta é uma região muito atrativa para a escalada, daí vermos muitos indivíduos equipados a preceito, dispostos a subir mais alto. E é, igualmente, uma óptima região para caminhadas, tendo mesmo uma Grande Rota Terras de Sicó traçada (a GR26). Em Poios, abaixo da escarpa do Monstro das Bolachas, fica o Vale de Poios, o qual corre ao longo de um ribeiro seco ladeado por falésias verticais, lugar de um canhão fluviocársico que acabámos por não percorrer. Aqui fica o edifício há muito em construção do futuro Centro de Interpretação Turística e Museu de Sicó que, caso venha mesmo a ser concluído, será mais um pretexto para voltar ao Sicó.

Passamos por ovelhas e muros de pedra, aldeias como Pousadas Vedras e Ereiras, pertencentes ao concelho de Pombal, e Degracias e Pombalinho, concelho de Soure.

Soure

A vila de Soure é sede do concelho de mesmo nome. A ocupação humana na região, já se viu, é muito antiga, bem anterior à presença dos romanos, graças às suas condições naturais. Exemplos dela são o forno da cal de Vinha da Rainha (período Neolítico), o Crasto na Encosta do Sol, em Soure (Idade do Ferro, Soure e Dordias / Fonte Velha, em Pombalinho (período de domínio Romano), bem como diversos edifícios vindos da Idade Média, como o castelo de Soure, capelas, igrejas e pelourinhos. Todavia, o documento escrito mais antigo com uma referência a Soure é de 1043, alusivo à doação ao Convento da Vacariça de um mosteiro que aqui possuíam os irmãos João, Sisnando, Ordonho e Soleima. De 1111 é o foral da vila de Soure, concedido pelo Conde D. Henrique, no sentido de aí se fixar população. Ou seja, Soure é um dos concelhos mais antigos de Portugal, de fundação anterior à nacionalidade.

Castelo de Soure

Durante a Reconquista Cristã, a vila teve papel estratégico, com o seu Castelo, doado à ordem dos Templários (a sua primeira sede no território que viria a ser Portugal), parte integrante na linha defensiva de Coimbra, junto com os castelos de Montemor-o-Velho, Penela, Santa Olaia, Germanelo, Miranda do Corvo e Lousã. Foi por estas lutas entre cristãos e muçulmanos que, então, Soure tornou-se conhecida por “Finisterra” (fim da terra), por ser terra de fronteira. E a partir dela a Ordem do Templo e D. Afonso Henriques foram organizando expedições militares que lhes permitiram não apenas defender Coimbra e a linha do Mondego como ir conquistando território para sul aos mouros. Porém, com a conquista de Lisboa, em 1147, e consequente passagem da fronteira do Condado Portucalense do vale do Mondego para o vale do Tejo, Soure passou a estar em segurança e a praça fortificada foi perdendo importância, com as funções militares a serem substituídas pelas funções agrícolas, com campos férteis graças à água dos rios Anços, Arunca e Pranto.

Os rios Anços e Arunca, que serviram de fosso natural ao Castelo de Soure, seguem com presença preponderante na vila, mas hoje pela requalificação urbana que permitiu a criação do Parque da Várzea e do Parque dos Bacelos no lugar onde estes dois rios confluem. Do enorme terreiro que marca a entrada para estes parques vê-se toda a Soure, com o castelo, a igreja e a torre relógio a destacarem-se no belo panorama.

Castelo de Soure
antiga igreja de Nossa Senhora de Finisterra

O Castelo de Soure foi construído por Dom Sesnando, no século 11, numa zona plana junto aos rios acima referidos. Apesar de originalmente não possuir torres, um século após a sua construção os Templários acrescentaram-lhe duas mais uma de menagem. Com o tempo e a perda de importância estratégica, entrou em decadência e mau estado de conservação, tendo estado na posse de privados – só em 2004 se tornou propriedade da Câmara Municipal de Soure. Hoje preserva alguns panos de muralha, os quais têm casas adossadas, e percebem-se ainda as torres e algumas janelas na fachada. E junto ao Castelo está também a ruína da antiga igreja de Nossa Senhora de Finisterra, construída no século 15, onde trabalhos arqueológicos parecem ter revelado a existência de uma necrópole.

Soure
Igreja São Tiago

Em 1513, o D. Manuel renovou o foral da vila e, igualmente importante, é o facto de que foi aqui que o futuro rei, ainda enquanto Duque de Beja e administrador da Ordem de Cristo, mandou construir a igreja de São Tiago, em 1490. Há quem acredite que este edifício marca o início do que viria a ser conhecido como estilo manuelino, com a representação da primeira esfera armilar, a marca utilizada por D. Manuel como símbolo do seu poder pessoal e real.

Soure
Soure
Soure
Soure

A vila é pequena e compacta, com ruas de traçado irregular, próprias das povoações medievais. À semelhança de muitas outras em Portugal, o conjunto dos seus edifícios não está na melhor forma, com muitos exemplos de abandono, mas vale a pena, ainda assim, caminhar pelas suas ruas e praças. Destaque para o edifício da câmara municipal, de arquitetura revivalista em estilo neomanuelino, e para a Praça Miguel Bombarda com a referida igreja matriz de São Tiago, bem como a Igreja da Misericórdia e a Torre do Relógio.

Pombal
Pombal – Rio Arunca

À semelhança de Soure, também Pombal, sede do concelho vizinho, tem um castelo e é banhada pelo rio Arunca. Como escrevemos atrás, durante a época da Reconquista Cristã, a região foi doada por D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, aos Templários para defesa da fronteira a sul de Coimbra e fixação da população. E, assim, Gualdim Pais, Grão-Mestre da Ordem dos Templários, fundou Pombal, mandou construir o castelo, em 1156, e concedeu-lhe foral, em 1174. Muito antes, porém, na época romana, já teria existido um povoado fortificado no cimo da colina onde ainda hoje segue o Castelo de Pombal, imediatamente sobre o centro histórico, na margem direita do rio Arunca. Foi alterado ao longo dos tempos, primeiro com o reforço de várias linhas de barbacã e depois no paço interior, até ao restauro profundo na época do Estado Novo, à semelhança de tantos castelos no nosso país. A marca distintiva deste castelo de várias torres é, porém, a sua torre de menagem, datada de 1171, um dos mais antigos exemplos a chegar até aos nossos tempos.

Castelo de Pombal
Castelo de Pombal
Pombal

A povoação foi-se desenvolvendo pela encosta sul da colina do Castelo, em direcção ao Arunca e, entretanto, também Pombal foi perdendo a sua importância estratégica e militar, à medida que a fronteira de Portugal avançava para sul. De qualquer forma, não foi esquecida. No século 14, D. Pedro I mandou construir a Torre do Relógio Velho, para nela serem recolhidos os impostos devidos pelos judeus e pelos mouros no dia de São Martinho, a quem havia sido, entretanto, entregue a comenda de Pombal. A Torre do Relógio marcava a transição do velho burgo, instalado junto ao castelo, para o novo burgo, a caminho do rio. Mais tarde, no século 16, D. Manuel I acrescentou-lhe um relógio e sino, assim se passando a marcar os toques ao nascer e pôr-do-sol para recolhimento de judeus, impedidos que estavam de sair da judiaria à noite. Também o castelo foi recuperado por D. Manuel I, que concedeu novo foral a Pombal em 1512.

Perto da Torre está a Praça Marquês de Pombal, com a Igreja Matriz de São Martinho e os antigos edifícios da Cadeia e Celeiro. Este é o coração histórico de Pombal – a igreja uma construção medieval e a cadeia e celeiro construções resultantes da organização urbanística promovida pelo Marquês de Pombal em 1776, hoje ambos espaços museológicos (na antiga cadeia está instalado o Museu Municipal Marquês de Pombal, com vários bens e documentos que documentam a sua vida e época). O Marquês, que passou os seus últimos anos de vida em Pombal, tendo aqui acabado por morrer em 1782, deu-lhe um novo élan, juntamente com a construção de uma ponte sobre o rio Arunca e o desvio da estrada real para dentro de Pombal. No entanto, as Invasões Francesas de 1811 causaram estragos e destruição na povoação, incluindo na estrada real, o que, juntamente com a epidemia de cólera ocorrida na década de 1830, deixou Pombal isolada e ao abandono. Só com a construção da linha de comboio, em 1855, voltou Pombal a ter ligação facilitada com os grandes centros do país e, por conta da instalação de alguma indústria na região, pode voltar a desenvolver-se.

Largo do Cardal
Largo do Cardal
Largo do Cardal

A hoje cidade de Pombal é agradável, possuindo como seu novo centro urbano a zona envolvente ao Largo do Cardal. Aí estão o Jardim do Cardal, a Igreja de Nossa Senhora do Cardal e os Paços do Concelho, um bonito conjunto, acrescentado por um coreto e o busto de homenagem ao Marquês de Pombal, sem esquecer a muito atraente Casa Cor de Rosa, obra do arquitecto Ernesto Korrodi.

Arte Nova – Ernesto Korrodi
Arte Nova – Ernesto Korrodi

Perto estão outros exemplos de arte nova, igualmente obra deste arquitecto, uma junto ao rio Arunca e outra na Rua Almirante Reis, onde encontramos também o antigo pelourinho. Nelas podemos observar pormenores decorativos típicos deste estilo, como os azulejos, relevos escultóricos e guardas em ferro, tão característicos em Korrodi, o arquitecto suíço que acabou por se estabelecer na região de Leiria e deixar obra um pouco por todo o Portugal.

Cardal

Voltando ao Cardal, não passa despercebido o antigo convento e igreja. Aqui ficou o túmulo do Marquês de Pombal, até ser transladado para a Igreja da Memória, em Lisboa, na década de 1920, mas a sua importância cultural está ligada às Festas do Bodo e Procissão em Honra de Nossa Senhora do Cardal. Estas festas populares e seculares estão associadas a uma lenda que nos conta que, arrasados por uma praga de gafanhotos e lagartas, os pombalenses empreenderam uma procissão de preces e prometeram a Nossa Senhora de Jerusalém que se os livrasse da praga fariam uma festa. Prontamente atendidos, face ao milagre logo iniciaram os preparativos para a festa, cujas despesas ficaram a cargo de D. Maria Fogaça. Acontece que ao colocarem dois grandes bolos no forno, um deles ficou mal colocado e, mais uma vez invocando o nome de Nossa Senhora de Jerusalém, um dos criados entrou no forno, ajeitou o bolo e, novo milagre, saiu dele ileso. E assim se iniciou a festa do bodo, ficando o bolo conhecido por “fogaça”.

Abiul

Terminamos este passeio por Terras de Sicó a sul, numa das mais interessantes e curiosas povoações da região, aliando na sua visita história e paisagem. Abiul, concelho de Pombal, está implantada num bonito vale cercado por algumas elevações, entre as quais a Serra do Sicó, cujo cume que dá nome à região é parte desta freguesia – tem 553 metros de altitude, mas não é o mais alto dos vários montes que compõe o conjunto do Sicó; esse fica na Serra de Alvaiázere, a 618 metros de altitude.

Paço dos Duques de Aveiro

Crê-se que exista desde o tempo dos visigodos, tendo recebido foral em 1167 e sido doada ao Mosteiro do Lorvão em 1175, o qual, por sua vez, vendeu parte da vila a André da Silva Coutinho no século 15. Com a morte deste, nos inícios do século 16 foi parar à posse do Duque de Aveiro, seu parente, crescendo e tornando-de próspera, preservando ainda a vila testemunhos dessa época. Os Duques de Aveiro mantiveram-se senhorios de Abiul até 1759, data em que, acusados de envolvimento na tentativa de assassinato do rei D. José, os seus bens, incluindo a vila, foram confiscados e vendidos em hasta pública. E não mais Abiul teve a mesma preponderância, embora não seja correcto afirmar-se que não está viva. A explicação do topónimo não é certa, mas sabe-se que aquando a concessão do seu foral tinha o nome hebraico Abiud. Daí, terá derivado para Abiul ou, defendem outros, será uma mistura do moçarabe (abu – pai) e do latim (Iulii – Júlio) de significado “pai de Julio”.

Portal manuelino
Nicho seiscentista
Igreja Misericórdia

A Casa de Aveiro, quando recebeu Abiul, mandou construir o edifício da câmara, cadeia, hospital, igrejas e capelas, tendo ainda instituído a Misericórdia. Hoje permanecem as ruínas do Paço dos Duques, com destaque para o portal em arco manuelino de volta perfeita ornamentado e um nicho seiscentista de pedra lavrada que fez parte da capela do palácio. O terreiro do que foi o Paço está hoje ocupado por casario da vila. Perto está o antigo edifício da Misericórdia.

Palanque
Forno comunitário

Pouco mais acima, encontramos o largo onde se mantém vivos dois elementos etnográficos que definem Abiul e seu papel na história. O forno comunitário que aqui ainda existe está ligado à Festa da Fogaça, celebrada na vila há séculos, que, por sua vez, está ligada a um evento ocorrido em 1561 – 1562. Nessa data, aconteceu uma grande peste que matou muitos dos habitantes de Abiul e os sobreviventes fizeram voto de realizar uma festa à sua padroeira, Nossa Senhora das Neves, celebrada no primeiro domingo de Agosto e conhecida por Festa do Bodo. Acendia-se o forno da praça na sexta-feira anterior e deixando-se a consumir lenha até domingo, aí se colocando dentro um grande bolo de trigo (com 110 a 120 Kg), a fogaça, retirado do interior do forno depois de cozido por um homem acabado de se confessar e comungar que dele saia imaculado. Esta Festa, que incluía missa solene, sermão e corrida de toiros foi mantida até aos primeiros anos do século 20.  

Praça de Touros
Praça de Touros

Foi também neste Largo do Forno do Bolo que se terão realizado em 1561 as primeiras touradas no nosso país, lugar da mais antiga praça de touros de Portugal. Os Duques de Aveiro assistiam às lides desde o Palanque, uma tribuna ao ar livre cuja janela foi reconstruída na década de 1980. Em 1868, porém, esta praça de touros no Largo acabou substituída pela actual praça de touros de Abiul, no lado contrário da vila.

Por fim, uma visita à igreja matriz de Nossa Senhora das Neves. Não se sabe a data da sua construção original, mas D. Manuel terá promovido a sua reconstrução no século 16 e durante os tempos foi sendo objecto de alterações. Em estilo barroco, tem torre sineira, elementos decorativos visigóticos nas portas Norte e Sul, cinco altares laterais com talha dourada e está revestida a azulejos azuis e brancos (século 20), surpreendendo a sua brancura e luminosidade. É bem bonita e uma óptima forma de nos despedirmos do Sicó.

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