As Aldeias de Xisto da Lousã

Junto à vila da Lousã ficam algumas das mais pitorescas aldeias de xisto da serra de mesmo nome. Percorremos as estradas que serpenteiam a serra rodeados de uma vegetação frondosa feita de sobreiros, castanheiros, carvalhos e pinheiros. Pelo caminho, aqui e ali, surge um aglomerado de casas, sempre aninhadas numa encosta em declive, parecendo quase empoleiradas umas nas outras.

Das 5 aldeias de xisto do concelho da Lousã, Casal Novo foi a primeira paragem. Uma entrada mesmo à beira da estrada de asfalto deixa-nos face a face com uma rua sempre a (bom) descer. São edifícios de xisto de um lado e do outro desta rua única empedrada e muito declivosa, uns mais bem conservados do que outros e todos eles rodeados pelo arvoredo. Lá em baixo fica uma eira donde com tempo aberto se descobrem o Castelo da Lousã e o Santuário de Nossa Senhora da Piedade no meio da floresta.

As aldeias da Lousã terão começado a ser ocupadas por volta do século XVII ou XVIII de forma sazonal, na Primavera e no Verão, e as suas gentes dedicavam-se sobretudo à pastorícia. Nos dias de hoje estas aldeias têm muito pouca população com residência habitual, mas a de Casal Novo, que chegou a ter 65 habitantes em 1885, não tem sequer um, sendo as suas habitações todas de residência secundária.

O nome “casal”, já se sabe, significava em português arcaico um aglomerado de duas ou três casas. Já o “novo” do nome desta aldeia indicará que esta era uma povoação mais recente do que as vizinhas Chiqueiro e Talasnal.

Falhei a visita a Chiqueiro, sem que me tenha apercebido muito bem porquê.

Mas a visita a Talasnal é impossível de se falhar, não fosse esta a aldeia mais famosa da Lousã. Da estrada temos logo uma excelente panorâmica que nos mostra com exactidão a forma como a aldeia se espraia na encosta e na serra.

Aqui não há apenas uma rua. São vários os caminhos que nos convidam a descobrir todos os recantos do Talasnal e nos atiram para ruinhas estreitas e sem saída, umas a subir e outras a descer, perdendo-nos no meio daquela natureza construída. Não nos admiremos se dermos de caras com um javali – como me aconteceu – ou um veado ou corço.

Em 1911 o Talasnal tinha 129 habitantes, dois lagares de azeite e até uma escola. Hoje, neste mundo de encantar restam casas de residência secundária (mais uma vez, aqui não há já residentes habituais) feitas de xisto e belamente decoradas com flores e ramos de videira. Umas empoleiram-se nas vizinhas, mas outras conseguem reinar livres de amarras abrindo-se às vistas fabulosas da serra, obrigando ao desfrute relaxado do cenário.

À semelhança do que acontece no Casal Novo, na zona mais baixa do Talasnal consegue ver-se o Castelo da Lousã e um percurso pedestre liga-os, conduzindo-nos até à praia fluvial.

Estas aldeias não foram instaladas muito longe de ribeiras, mas em nenhuma delas o elemento água se faz sentir tão presente como no Candal. À sua entrada, junto à Estrada Nacional (EN) espera-nos a Ribeira do Candal rodeada de casinhas alcandoradas na encosta.

E quando atravessamos a pequena ponte e começamos a subir a aldeia vemos fontes e o som da água vai nos acompanhando. De todas as aldeias de xisto da Lousã, o Candal é a mais acessível, precisamente porque fica à beira de uma EN, daí que seja a mais desenvolvida. Ainda assim, em 1940 eram 201 os seus habitantes permanentes e nos Censos de 2011 0 (zero). As décadas de 50 e 60 viram a sua população emigrar em massa e apenas na década de 70 chegou a electricidade à aldeia. À semelhança do Talasnal, também tinha lagares de azeite e uma escola e o Candal era uma aldeia onde a pastorícia era a actividade principal, com as cabras e as ovelhas a serem guardadas no piso térreo das casas, e os seus habitantes dedicavam-se ainda a uma agricultura de subsistência e ao fabrico de carvão. Mas, tradicionalmente, aqui se trabalharia a pedra. Nesse sentido, o nome “Candal” derivará de “candar” que, por sua vez, derivará de “cantar a pedra”, porque enquanto trabalhavam a pedra os canteiros e os pedreiros iam cantando.

A encosta onde está situada são na verdade uma espécie de duas vertentes cortadas pela Ribeira. Olhando da estrada, a do lado esquerdo é onde fica a maioria do casario. Subimos a bom subir as ruas inclinadas, deambulando pelos caminhos sem saída que vão dar a mais uma casinha de xisto sem reboco ou a um ponto que nos oferece mais uma vista privilegiada. Há aqui, porém, muitos edifícios abandonados e em ruína, o que é ao mesmo tempo uma pena e uma consequência inevitável do avançar do tempo. Ainda assim, o prazer de apreciar as decorações das casas com flores e descobrir umas chaminés singulares, esse, está sempre presente.

Apesar de mais acessível, o Candal acaba por receber menos visitantes – e menos confusão – do que o Talasnal. Foi por isso que no Candal, na sua Loja de Aldeia do Xisto, pude saborear com mais tranquilidade um talasnico, um doce típico de mel e castanha.

A Cerdeira é a aldeia que se segue, onde se chega após um desvio mais adiante na EN. Digamos que a subida de carro pela estrada de asfalto até lá faz suar tanto como se optássemos por seguir a pé. São curvas e mais curvas, tão apertadas e sem visibilidade que nos fazem duvidar que o caminho vá ter a alguma espécie de civilização. Mas vai. E uma daquelas onde a criatividade tem feito por imperar e, com ela, dar nova vida e transformar a aldeia. Cerdeira é a mais criativa e artística das aldeias de xisto.

Mais uma vez, a sua implantação geográfica é soberba, uma daquelas cuja beleza, isolamento e tranquilidade só podem resultar em pura inspiração. Aqui o Homem teve de se esmerar para moldar os elementos naturais a seu belo prazer. Uma longa rua a descer (ou a subir, conforme a perspectiva) até ao vale onde corre uma pequena ribeira, mais uma rua traseira mais curta, escadaria com chão de xisto a condizer com os edifícios e esplanadas perfeitas fazem da Cerdeira o lugar ideal para se montar ateliers e residências artísticas que acolhem gente de todo o mundo e donde a arte há-de brotar. Até um espaço de botânica que usa a planta do xisto como planta aromática.

O nome Cerdeira virá do antigo “sardeira”, a árvore hoje commumente conhecida por cerejeira e que por aqui terá em tempos medrado. Em 1940 os censos registaram o maior número de habitantes que a aldeia já teve, 79. Hoje, mais uma vez, ninguém aqui reside de forma habitual. A este respeito, há até uma história triste que o cinema de João Mário Grilo, no filme de 1992 “O Fim do Mundo”, connosco partilhou: na década de 1970, tinha a aldeia três habitantes, uma discussão pela partilha da água acabou por deixar a aldeia deserta. Constantino matou os outros dois e em 1983 voltou à Cerdeira, após o cumprimento da sua pena, onde, homem bom e respeitado apesar do seu crime, viveu os seus últimos anos de vida partilhando as tradições da aldeia com quem entretanto para aqui viera.

Gondramaz

Gondramaz fica na Serra da Lousã, já concelho de Miranda do Corvo. As aldeias da rede de Aldeias de Xisto, em especial as da Lousã, podem parecer todas iguais. Têm uma implantação fabulosa na paisagem serrana e têm preciosas casinhas de xisto. Gondramaz não foge a isso. É bela nas suas ruas empedradas com xisto e nas fachadas decoradas com flores.

Mas ao contrário das outras aldeias, o seu centro é marcado por uma igrejinha, um dos poucos elementos arquitectónicos rebocado a cal branca que não é de xisto.

Temos ruas e ruinhas, até um Beco do Tintol.

Mas, por entre o casario belamente restaurado, o que Gondramaz tem que a faz tornar ainda mais apelativa e inesquecível – embora fora do radar dos que não são hóspedes – é a piscina no fundo da aldeia cujas águas repousam para o infinito da serra.

O esquisito nome Gondramaz virá, provavelmente, de “villa Gundramaci” ou “quinta de Gundramaco”, nome de origem germânica. Tal facto faz crer que a origem da aldeia poderá estar relacionada com a presença visigótica na região, o que atiraria o povoamento do lugar para o século VI – VIII. Teriam já bom faro, os nossos antepassados, no gosto por se instalar numa paisagem tão tranquila, hoje preenchida por castanheiros, carvalhos e azevinhos

Casal de São Simão

A rede das Aldeias de Xisto é uma iniciativa de um conjunto de aldeias do interior da Região Centro de Portugal que se propõe preservar e promover a paisagem cultural, ao mesmo tempo que procura valorizar o património arquitectónico construído. São 27 aldeias no total, perdidas pela Serra da Lousã, pela Serra do Açor (incluindo a minha Aldeia das Dez), pelo Zêzere e pelo Tejo-Ocreza.

Casal de São Simão é uma destas aldeias, a única representante do concelho de Figueiró dos Vinhos, e fica situada na Serra da Lousã, à semelhança daquelas a quem dedicaremos os próximos dois posts. A paisagem de todas elas é, por isso, muito semelhante, com uma vegetação sempre carregada. O casario também não difere muito, especialmente no que respeita à sua implantação, sempre em declive. Mas os materiais de construção nem sempre são os mesmos. Os de Casal de São Simão, por exemplo, apesar de dita “aldeia de xisto”, são quartzito. E isso deve-se ao facto de geologicamente a aldeia ser guardada por umas escarpas com cristas quartzíticas, as Fragas de São Simão. Da aldeia um caminho pedestre transporta-nos directamente até à parte baixa destas fragas, onde fica uma praia fluvial. Mas já lá iremos. Comecemos por um curto recorrido pela aldeia, porque curta é ela.

À entrada de Casal de São Simão, num ponto mais elevado na paisagem, reina a Ermida de São Simão, do século XV, a mais antiga da região. A aldeia, logo a seguir, é praticamente uma só rua, como o são muitas destas pequenas aldeias de xisto. Casal é uma palavra portuguesa que em português arcaico dizia respeito a um aglomerado de duas ou três casas em meio rural. Não cresceu muito mais do que isso, desde então. E São Simão é o santo protector da aldeia.

As casas estão na sua maioria bem recuperadas, com as fachadas revestidas da pedra do quase dourado quartzito e decoradas com flores. Descemos pela rua empedrada e o desfile de casas típicas continua. A natureza rodeia-nos em socalcos e amiúde vemos vinhas e vemos fontes que fazem com que a água seja aqui um elemento omnipresente.

Não seguimos a pé até às Fragas de São Simão, antes vamos até elas de carro. Antes de começarmos a descer até à Ribeira de Alge paramos no miradouro para vermos a fantástica panorâmica desde o topo, com o Casal como um ponto isolado no meio da natureza e os rochedos agrestes a furar a pacata paisagem. Mais sereno só mesmo lá em baixo, junto à praia fluvial. Seguimos por um caminho onde a água nos acompanha por ambos os lados, de um a da ribeira e do outro a de uma pequena levada. E só então surge o ansiado cenário da fraga que rompe os rochedos, criando uma pequena piscina natural rodeada de belas rochas. A água é absolutamente transparente e os reflexos mágicos.

Uns castelos pela Beira

As regiões de Viseu e da Guarda possuem uma série de castelos que, em tempos, serviram de protecção da raia. Mas se de Espanha, hoje, já nem o dito “nem bom vento, nem bom casamento” assusta, muito menos o faz a defesa da fronteira. Ainda assim, os castelos ali seguem de pé, altivos e orgulhosos da sua história e prontos para fazer as delícias dos mais aventureiros.

Já se viu que sou fã de castelos. Muitos haveria a destacar, mas desta vez optarei por indicar apenas estes três, todos eles classificados como monumento nacional e todos eles doados por D. Flâmula ao Mosteiro de Guimarães no século X. Mas, mais decisivo para esta escolha, todos eles diferentes e verdadeiramente surpreendentes na sua forma.

Moreira de Rei, no concelho de Trancoso, é uma aldeia pequenina aberta a um vale a perder de vista com a silhueta de uns montes ao fundo. Diz que do alto do seu castelo, à noite, se distinguem as luzinhas de 52 povoados, um por cada semana do ano. O castelo de Moreira de Rei tem raízes longínquas, pelo menos desde o século X. Seria então uma estrutura defensiva rudimentar, mais de acompanhamento a uma povoação rural do que de salvaguarda militar. O actual castelo datará do tempo de D. Afonso Henriques e está hoje em ruína. Acontece que essa ruína é fantástica. São rochedos e mais rochedos, todos formosos, que se percebe ainda dar corpo a esta fortificação. É um aproveitamento certeiro dos recursos naturais em todos os aspectos, quer construtivos quer paisagísticos. A muralha resiste a espaços e não há torres, mas ainda assim é uma felicidade deambular pelo curto espaço interior deste castelo.

O castelo de Penedono é provavelmente o mais elegante e bonito castelo português. Na verdade, não se veem muitos castelos com esta forma no nosso território, quase a forma de um castelo de fadas. As suas origens remontarão igualmente ao século X, mas a sua actual configuração será uma reconstrução do século XIV, motivada por desejos de autonomia das gentes de Penedono em relação às rivais de Trancoso. De planta poligonal, este é um castelo-paço com cinco torres quadrangulares coroadas por ameias piramidais. O também conhecido como Castelo do Magriço (Álvaro Gonçalves Coutinho, guerreiro eternizado por Luís de Camões no “Os Lusíadas”) assenta sobre um afloramento granítico e é rodeado por uma baixa barbacã. Do seu pequeno interior obtém-se enormes vistas panorâmicas.

O Castelo de Numão é um castelo bem maior do que os anteriores. Uma constante, porém: as vistas magníficas que dele se alcançam, desta vez para a paisagem do Côa, para mim uma das mais épicas de Portugal. Localizado no concelho de Vila Nova de Foz Côa, a primeira referência a este castelo data igualmente do século X. Instalado no topo de um monte, o seu perímetro muralhado de forma ovalada irregular é extenso, cerca de 250 metros.

Andamos pelo mato rasteiro, damos de caras com uns cavalos a pastar e o seu dono a relaxar perante aquela paisagem imensa, ufano por nos informar ser Numão a terra de Dina Aguiar, vemos até as ruínas de uma igreja românica e uma cisterna e, por fim, arriscamos subir às muralhas e a uma das suas seis torres, dum total de 15 que em tempos existiram. Como se fôssemos um arqueólogo, não apenas em busca da história, mas também de mais um panorama. E que vista, esta.

Linhares da Beira

Da rede das 12 “Aldeias Históricas de Portugal”, Linhares da Beira era a única que ainda não tinha visitado (de todas as outras podem ser lidos posts escritos anteriormente neste blogue).

No vale do rio Mondego, perto da Serra da Estrela, Linhares é uma aldeia medieval do século XII. Antes disso, porém, terá tido origem num castro lusitano, foi visigoda e muçulmana, até que em 1169 D. Afonso Henriques lhe concedeu foral. Linhares foi crescendo com a época da Reconquista Cristã e manteve a sua importância para além dela, uma vez que a sua localização geográfica impunha que a Bacia do Mondego fosse protegida como retaguarda às fortificações da raia. O nome Linhares virá de “campo de linho”, cultura outrora forte na região.

Cortesia da evolução da sua ocupação ao longo dos séculos, pelas ruas de Linhares podemos testemunhar a presença de estilos arquitectónicos não apenas medievais, mas também quinhentistas – são estes que ainda perduram em grande número.

Mas o maior símbolo de Linhares da Beira será o seu castelo e é por aqui que iniciaremos o nosso passeio. À medida que vamos serpenteando pela estrada que nos leva até à aldeia vamos vendo o castelo de Linhares aproximando-se cada vez mais. Instalado num cabeço a 820 metros de altitude, alguma fortificação existia já até o actual castelo ter sido reformado no reinado de D. Dinis no século XIII.

Bem preservado, ainda hoje serve como que de vigia da aldeia e do vale a perder de vista, oferecendo uma excelente panorâmica. Entramos pela sua porta virada para o largo da Igreja Matriz e um pátio recebe-nos como antecâmara para o enorme terreiro que se apresenta para lá da porta seguinte. Aqui ficamos face a face com as duas torres com ameias – a de Menagem e a do Relógio – que já se percebiam desde ao longe na estrada e percebemos como é grande o castelo. Os andorinhões fazem-nos companhia e salpicam o céu azul com uns pontinhos a preto.

Saindo do castelo, a aldeia desce por ali abaixo. As ruas de pedra correm umas para as outras e os edifícios de granito preenchem-nas. Há de todo o tipo de casas, desde as mais populares a solares, com um brasão aqui e outro ali. Veem-se diversas janelas singulares esculpidas nas fachadas de pedra ao gosto manuelino do século XVI, decorando-as.

As fontes são também um elemento decorativo de destaque na aldeia. E, no meio de mais pormenores curiosos, damos de caras com uma passagem por um arco, a Rua do Passadiço, que daria entrada para a judiaria medieval, uma vez que Linhares acolhia uma comunidade judaica.

Na aldeia encontramos ainda os vestígios da calçada romana que passava pela povoação, parte da Via da Estrela que ligava Mérida (Emerita Augusta) a Braga (Bracara Augusta).

Ucanha

Ucanha é uma povoação única na paisagem portuguesa. Afinal, que outra aldeia ou vila no nosso país possui uma ponte fortificada?

A meio caminho do Mosteiro de Salzedas, de cujo couto monástico fazia parte, e não muito longe do Convento de São João de Tarouca, esta aldeia do Douro Vinhateiro está situada na encosta do tranquilo e fértil vale do rio Varosa, afluente do Douro. Com muito verde ao seu redor, um rio a correr criando nas suas margens duas povoações, um património construído medieval interessante e bem conservado, é no entanto a singularidade da sua ponte com torre-fortaleza que a torna especial. Esta era a entrada monumental para o tal Couto de Salzedas e servia para protecção e controlo das pessoas e bens, para além de permitir atravessar o rio. Para esta passagem obrigatória era cobrada portagem – determinada por documento régio de 1315 -, constituindo assim uma fonte de rendimento dos monges cistercienses de Salzedas e factor de desenvolvimento da povoação. Construída por estes no século XII e classificada como monumento nacional, José Leite de Vasconcelos, filólogo e etnólogo, o maior vulto da terra, acreditava que a ponte tinha sido construída para servir três funções: a de defesa do couto, a de ostentação senhorial e a da cobrança fiscal -. Em 1504 a portagem foi extinta e a partir daí, apesar de a ponte ter continuado a servir como passagem para a outra margem do Varosa, a torre foi perdendo parte da sua importância. Após uma intervenção de restauro já no século XX, segue bem conservada.

A torre de Ucanha tem cerca de 20 metros, forma quadrangular e três pisos e balcões de matacães em cada uma das faces do último deles. Pode subir-se os seus vários andares, ocupados no interior por espaços expositivos, incluindo uma homenagem a Leite de Vasconcelos, e a vista desde cima proporciona um cenário bem bonito.

Já cá em baixo na Vila da Ponte, como também era conhecida a povoação de Ucanha, podemos caminhar pela Rua Direita (única rua), perpendicular ao rio e com cerca de 500 metros de extensão e uma inclinação acentuada em ambas as suas extremidades, passando sob a torre e atravessando a ponte com arco central bem maior do que os demais, formando um cavalete e trazendo mais um sobe e desce à curta caminhada. Do outro lado ergue-se um outro núcleo urbano, agora o de Gouviães.

Os edifícios de Ucanha são maioritariamente em granito e destacam-se o pelourinho, a igreja matriz e a casa da câmara e da cadeia. As casas de dois pisos têm por vezes escadas exteriores e varandas de madeira coloridas.

Junto ao rio, entre a ponte velha e a ponte nova, temos uma pequena praia fluvial. Perto da ponte velha de Ucanha, onde por entre salgueiros e amieiros apreciamos com mais detalhe os seus quatro arcos, ainda se veem algumas azenhas. E cobras. Único susto no meio do sossego desta pacata de povoação de cerca de 400 habitantes cuja principal ocupação é a agricultura, nomeadamente o cultivo do milho e da vinha.

Por curiosidade, diga-se que segundo Leite de Vasconcelos o algo estranho nome de Ucanha derivará de “Cucanha”, a forma antiga do nome da povoação, usada até ao século XVII. E que a palavra “cucanha” significaria, em português antigo, casebre ou lugar de diversão.

Pelas redondezas de Ucanha vale ainda a pena um passeio até ao Mosteiro de Santa Maria de Salzedas e ao Mosteiro de São João de Tarouca para conhecer estas construções cistercienses, ambas do século XII, e cuja comunidade de eremitas transformaram esta região do Vale do Douro quer paisagisticamente quer num espaço de cultura e saber. O Mosteiro de São João de Tarouca, em especial, foi a primeira construção cisterciense em Portugal, iniciada em 1154, e tal facto esteve intimamente ligado quer à fundação da Ordem em 1140 quer à nacionalidade portuguesa e à figura de D. Afonso Henriques. Apesar de se encontrar grande parte em ruínas, segue como um dos melhores exemplos do ideal de construção da Ordem de Cister.

Viseu

Viseu, distrito e cidade, fica bem no centro de Portugal. Da capital da Beira Alta chega-se num pulinho ao Porto e parte-se para com pouca demora visitar aldeias históricas, castelos, montanhas e rios. Dito isto, a cidade de Viseu tem de ser uma centralidade a ter em conta. Amiúde considerada a melhor cidade de Portugal para se viver, Viseu tem história e soube transportá-la para os nossos dias, mantendo-a viva lado a lado com a modernidade.

A chegada a Viseu mostra-nos a cidade erguida no alto de uma colina, a praticamente 500 metros de altitude. A melhor forma de a começar a explorar é, ainda cá em baixo no planalto, estacionar o carro no parque de estacionamento onde entre Agosto e Setembro se planta a Feira de São Mateus. Esta feira franca, que decorre ininterruptamente desde 1392, é o cartão de visita por excelência da cidade tradicional que soube atravessar os tempos, adaptando-se. A Feira de São Mateus do antigamente representava um ponto de paragem obrigatório na cidade que estrategicamente se encontrava no caminho das rotas comerciais, e hoje permanece como um lugar de encontro que continua a atrair gente de todo o país, quer pelas suas inúmeras bancas de venda de produtos regionais quer pelos espectáculos de grandes nomes da música portuguesa que acolhe.

Junto ao recinto da Feira de São Mateus encontramos a Cava de Viriato, um sítio arqueológico mas também um dos muitos espaços verdes da cidade. Viseu é o centro do país e no imaginário português é também a terra de Viriato, o guerreiro mítico que liderou as tribos lusitanas nas suas batalhas face aos romanos. Sobre um bloco de granito, uma estátua de Viriato na Cava de Viriato homenageia o nosso herói, mas, na verdade, não está provado que algo neste espaço arqueológico lhe esteja ligado. Pelo contrário, este octógono de 38 hectares rodado por muros de terra batida e um fosso das águas do rio Pavia terá correspondido a um antigo acampamento-fortaleza usado pelos romanos no século I a.C. e mais tarde aproveitado pelos muçulmanos, não se sabe ao certo, constituindo esta até hoje uma das mais enigmáticas questões da romanização da Península Ibérica.

O que é certo é que a ocupação da cidade vêm da época castreja, no ano de 569 já Viseu era sede episcopal e, nos alvores da nacionalidade, D. Afonso Henriques fez questão de conferir importância a esta cidade nobre. Há até historiadores que não descartam a hipótese de o nosso primeiro rei ter nascido em Viseu, precisamente nos paços condais da sua família que existiam no lugar onde está hoje a Catedral.

Subamos, então, até o centro histórico de Viseu, a Cidade Velha, em tempos muralhada e com sete portas de entrada, de que restam hoje a Porta de Soar e a Porta dos Cavaleiros. Desde o recinto da Feira de São Mateus podemos subir à parte alta da cidade por teleférico ou a pé pela Calçada Viriato, uma rua efectivamente muito declivosa, ignorando o shopping que fica no sopé da colina, mas apreciando o espaço verde e o canal que o circunda.

No final da Calçada Viriato logo adentramos no coração de Viseu pelo Adro que recebe a alva Igreja da Misericórdia e a escura Sé Catedral de Viseu, com o pelourinho pelo meio. O granito da região faz-se representar num dos maiores símbolos da cidade, a Sé. Objecto de diversas alterações arquitectónicas ao longo dos tempos, a fachada actual é a terceira versão e data de 1635. O interior é monumental, com altar em talha dourada, e podemos ainda visitar o seu tranquilo claustro renascentista.

Mas uma das maiores atracções deste Adro e de toda a cidade é o Museu Nacional Grão Vasco. Instalado no antigo Paço Episcopal que está adossado à Sé, aqui fica uma das melhores colecções de pintura portuguesa desde o século XVI até ao presente, com destaque, claro está, para as obras do pintor Vasco Fernandes, o Grão Vasco, o maior expoente da Escola de Viseu. A sua obra maior é o retábulo criado para a Sé e que aí esteve durante séculos até ter sido transferido para o já centenário Museu. São 14 tábuas, incluindo a obra prima “Adoração dos Magos”.

Contornada a Sé, nas suas traseiras percebemos com surpresa a forma como este edifício assenta num maciço granítico.

A Praça Dom Duarte, que se abre num dos flancos da Sé, é um dos pontos mais pitorescos de Viseu. Ao redor da estátua do rei que aqui nasceu em 1391 veem-se prédios antigos com varandas em ferro forjado formando uma malha arquitectónica desalinhada mas atractiva. Nos pisos térreos destes edifícios, lojas de restauração moderna lado a lado com outras mais tradicionais. Na Praça Dom Duarte desembocam sete ruas, ou seja, daqui irradia a vida da cidade de traça medieval feita de ruas estreitas e sinuosas e de palacetes junto a edifícios de cariz mais popular. Não podemos, porém, deixar de observar a quantidade enorme de edifícios em muito mau estado de conservação neste centro histórico.

A Rua Direita e a Rua Formosa são as artérias comerciais por excelência. Mais uma vez, uma de comércio mais histórico e popular e outra mais moderna e elegante. A contemporaneidade expressa-se ainda pela edição do primeiro festival Vegan que ocupava o Mercado 2 de Maio por ocasião da minha passagem pela cidade.

E assim, caminhando ao longo da Rua Formosa, chegamos ao Rossio, a actual Praça da República onde ficam os Paços do Concelho. Esta é uma praça verde com esplanada coberta de tílias, o coração da cidade moderna. Impossível deixar de notar o muro de suporte do Jardim das Mães com um painel de azulejos a azul e branco com cenas do quotidiano das gentes da região que frequentavam a praça.

Já se disse, Viseu é uma cidade com muitas zonas verdes. Para lá da Igreja dos Terceiros de São Francisco, elevada sobre uma escadaria que lhe dá um ar atraentemente tropical, fica o Parque Aquilino Ribeiro. É um dos mais bonitos, com uma grande variedade de plantas e árvores muito antigas, como o exemplar de carvalho do século XVII que lá podemos admirar.

Para além deste parque temos ainda o Parque do Fontelo, o maior espaço verde de Viseu, com o Solar do Dão, campos desportivos e uma mata. E não podemos esquecer a Ecopista do Dão, uma ciclovia criada em 2011 que segue por quase 50 kms ao longo da antiga linha férrea do Dão que ligava Viseu a Santa Comba Dão. Pode-se pedalar ou tão somente caminhar pela totalidade ou parte deste(s) percurso(s) que nos transporta para cenários mais rurais da Beira, lembrando ainda que o Dão é região vitivinícola demarcada de Portugal.

Uma nota final para a cena cultural de Viseu, muito gabada pelas iniciativas artísticas que acontecem na cidade, com destaque para o já falado Museu Nacional Grão Vasco, mas também pela programação do Teatro Viriato, pela sua arte urbana espalhada pelas ruas e, sobretudo, pelo festival Jardins Efémeros. Este festival acontece desde 2011 e é um momento alto da cena cultural não apenas de Viseu mas do país pelas iniciativas culturais de carácter multidisciplinar, como música, arte e intervenções no espaço público, que preenchem a cidade, envolvendo a população. Infelizmente a edição deste ano foi cancelada por falta de verbas, mas espera-se que volte em 2020 e com ela mais uma demonstração da vitalidade de Viseu.

Mas, então, encerra-se um texto sobre Viseu sem passar por uma rotunda? Dizer, apenas, que impressiona sair da cidade em direcção a Nelas: quantos dedos das mãos serão precisos para as contar? Apesar de tudo, Viseu não escapa da fama (merecida) de ser a terra das rotundas.