As Portas de Ródão é um monumento natural originado por um fenómeno geológico e geomorfológico. Neste lugar onde o rio Tejo tem um dos seus momentos mais belos e poderosos, para além da singular paisagem existem testemunhos diversos da presença humana ao longo de milhares de anos.

Entre os concelhos de Vila Velha de Ródão, na Beira Baixa, e de Nisa, no Alentejo, cada um numa das margens do Tejo, o rio tem nas Portas de Ródão um estrangulamento natural. Uma garganta que o rio venceu e escavou há milhões de anos nas cristas quartzíticas da serra do Perdigão, medindo mais de 30 kms de comprimento e atingindo os 2,5 kms de largura máxima e sendo composta por duas cumeadas paralelas que abrem caminho ao Tejo. Tal foi possível não apenas pelo fenómeno erosivo provocado pela água do rio, mas também pela falha tectónica do Ponsul, aqui presente. Como escreveu o escritor beirão Hipólito Raposo, são “as ombreiras mutiladas de um arco do triunfo que um capricho plutónico quisesse ter ali deixado à honra do grande rio, nas primeiras auroras do mundo”.

Na cumeada norte, a uns 300 metros de altitude, está instalado o Castelo do Rei Vamba. Até aos nossos dias chegou a Lenda do Rei Vamba ou Maldição de Ródão, que fala do amor entre uma rainha cristã, que vivia no castelo de Ródão, e um rei mouro, da outra margem do rio. Namoravam cada um no seu lado das Portas de Ródão, sentados em cadeiras de pedra enquanto o rei cristão andava nos seus afazeres de caça ou guerra. Um dia, o rei mouro decidiu raptar a rainha cristã, escavando um túnel abaixo do rio, mas falhando a empreitada acabou por a levar atravessando o rio sobre uma teia de linho. O rei Vamba recuperou a sua mulher e, julgada em tribunal familiar, foi condenada à morte por despenhamento, presa a uma mó. No caminho da queda a rainha terá ditado que “nesta terra não haverá cavalos de regalo, nem padres se ordenarão e putas não faltarão”, e assim ficou a maldição sobre Ródão.

Também conhecido por Castelo de Ródão, Castelo das Vilas Ruivas ou Castelo das Portas, o Castelo do Rei Vamba é obra dos Templários, após doação dos terrenos onde está implantado por D. Sancho I, em 1199. Apesar da designação “castelo”, é na verdade uma torre de vigia, embora tivesse possuído uma muralha fechada, que talvez tenha funcionado em articulação com uma fortaleza principal. Situado num lugar estratégico, de ligação entre o litoral e o interior peninsular, onde se cruzam desde há muito rotas como as da transumância dos rebanhos entre a Serra da Estrela e o Alentejo, em busca de melhores pastagens, e das invasões militares, onde passado o Tejo se vem até Lisboa, este castelo desempenhou papéis vários ao longo da sua história. Durante a Reconquista Cristã, a ideia era a de controlar os movimentos na linha de fronteira do Tejo, nomeadamente as incursões muçulmanas vindas de sul. Mais tarde, nos séculos XVIII e XIX, serviria para impedir a passagem do Tejo a caminho do Alentejo (de norte para sul), como viria a suceder durante a Guerra dos Sete Anos e na primeira invasão francesa em 1807. Construído em granito, tem cerca de 15 metros de altura e a porta original estava ao nível do andar superior. Foi objecto de diversas reconstruções, a última das quais por iniciativa do Marquês de Alorna no início do século XIX, e de obras de conservação em 1999.




Podemos hoje entrar na torre e espreitar das suas aberturas, mas pouco ganharemos à já de si fantástica paisagem que se obtém do miradouro natural que é o lugar onde está implantado o Castelo do Rei Vamba. Vê-se a ponte metálica sobre o Tejo, o Monte de São Miguel, já do lado de Nisa, onde estão também as conheiras do tempo dos romanos que visitaremos mais tarde, e a ilha da Fonte das Virtudes, em pleno Tejo. São alguns dos elementos num cenário que não se explica. De cortar a respiração.

Este é ainda um ponto de observação de avifauna de excelência. Grifo, cegonha-preta, aguia-de-bonelli, são algumas das espécies que frequentam os vales encaixados, de difícil acesso aos humanos, aproveitando para aqui nidificar nas fendas e saliências das escarpas. O grifo, uma ave de rapina, tem nesta região a maior comunidade em território português. E perto do castelo temos ainda a Capela Senhora do Castelo, fechada aquando da nossa visita.

Mas muito anterior, quer à Capela quer ao Castelo, é a presença humana nesta região. As margens do Tejo foram habitadas desde os tempos do paleolítico, há centenas de milhares de anos, possibilitando a sua água a subsistência e a mobilidade das comunidades que aqui se estabeleceram. O complexo de Arte Rupestre do Vale do Tejo possui uma notável concentração de gravuras rupestres pré-históricas e o Centro de Interpretação de Arte Rupestre do Vale do Tejo faz o seu enquadramento, embora tenha estado encerrado para remodelação nos últimos anos (2021-2022). De qualquer forma, a Estação Arqueológica da Foz do Enxarrique, no cais fluvial de Vila Velha de Ródão, já nos dá algumas ideias sobre esta ocupação antiquíssima.

Em Vila Velha de Ródão vale a pena visitar o Lagar de Varas, uma estrutura construída na margem esquerda da Ribeira do Enxarrique, a qual inclui dois sistemas de extracção de azeite, um com duas varas, do século XIX, e outro mecanizado, do início do século XX. Aqui produzia-se azeite, economia tradicional da região que marcou as suas gentes assim como o olival ainda marca a paisagem.




Já esquecidas da feia e mal cheirosa indústria de Vila Velha, cortesia das empresas de celulose e transformação de papel, saímos no maravilhoso passeio de barco pelo Tejo, com as Portas de Ródão como vigia. Do Cais Fluvial de Vila Velha de Ródão sai um passeio de barco organizado pelo restaurante aí situado, com duração aproximada de uma hora que nos leva a navegar tranquila e saborosamente pelo rio. Começamos por passar sob a ponte metálica que liga a Beira ao Alentejo e que em 1888 veio substituir as seculares barcas que ligavam ambas as margens. E depois da passagem pelas estreitas Portas de Ródão alargamos o horizonte e deixamos o barco fluir pela ilha Fonte das Virtudes, percebendo agora que é na verdade um istmo, e pela ilha do Cabecinho, já junto à margem alentejana. Por entre cantos e recantos, uns corvos marinhos andam por aqui.


Na margem alentejana está a área do Conhal. À semelhança do geomonumento das Portas de Ródão, o Conhal faz parte do Geopark Naturtejo, distinguido pela Unesco e Monumento Natural classificado pelo ICNF. O Trilho da Mina de Ouro do Conhal, PR9-NIS, com partida na aldeia do Arneiro, permite-nos apreciar em grande os diversos elementos aqui presentes: as Portas de Ródão, o rio Tejo e a flora e fauna locais. Do miradouro da Serrinha, após uma subida, obtém-se nova panorâmica enorme das Portas de Ródão.



Por entre vegetação tipicamente mediterrânica, com o zimbro a cobrir as escarpas rochosas, descemos até à beira da ilha que havíamos contornado no passeio de barco. Perto fica o Pego das Portas, ainda mais junto a elas, de onde as barcas saiam até Vila Velha de Ródão, e vice versa, atravessando o Tejo antes da construção da ponte metálica. O picareto era a embarcação tradicional e até há alguns anos era construído no Arneiro (povoação onde a arte da pesca ainda se mantém um pouco, ao contrário das restantes aldeias), havendo agora poucos a laborar, substituídos por embarcações mais modernas. O rio Tejo foi uma via de comunicação de tráfego intenso de pessoas e bens, tendo a navegação decaído muitíssimo com a construção do caminho de ferro em 1885-93. E, por isso, havia vários cais ao longo das margens do rio, alguns deles do período romano.


Mas a maior marca dos romanos neste lugar é a Mina do Conhal do Arneiro, uma mina de ouro a céu aberto explorada pelos romanos no século I. Uma das maiores arrugia descobertas em Portugal – arrujide era a designação usada pelos romanos para mina de desmonte a céu aberto com aplicação de energia hidráulica -, num espaço que se estende por 600 mil m2 vêem-se montes de cascalheira resultantes da remoção do ouro dos terraços, as conheiras. O processo de laboração desta mina de ouro tinha como elementos essenciais os canais, a lagoa de decantação e as conheiras e seguia mais ou menos pelo seguinte: a água era transportada através de canais de abastecimento talhados – os “corrugi” – como a Vala dos Mouros, com início na Ribeira de Nisa, próximo de Vinagra; a água era depois acumulada perto da mina em albufeiras conhecidas por “stagna” e posteriormente guiada para a frente de exploração através de canais; transportada sobre grande pressão, a água era então injectada nas frentes de exploração, levando ao colapso dos depósitos e ao retrocesso das frentes de exploração; por fim, o ouro era recuperado, usando-se canais e lagoas de decantação dos materiais sedimentares mais finos; e os seixos eram removidos manualmente e amontoados em pilhas alongadas ou cónicas, chegando a atingindo os 5 metros de altura – são estas as conheiras. Esta mina terá funcionado cerca de 69 anos e dela terão saído cerca de 3 toneladas de ouro que permitiram cunhar até 450 mil “aurei”, a moeda de ouro romana a partir do reinado de Augusto, no século I. O lugar conhecido por Castelejo, com 15 metros de altura, tem uma posição estratégica no centro da exploração, vendo-se o Tejo e as Portas de Ródão, e terá funcionado como ponto de vigilância sobre a exploração mineira e o tráfego fluvial do Tejo. Impressiona a paisagem natural, mas impressiona também a paisagem alterada pelas conheiras: diz que a terra removida equivale a toda a terra removida para a construção da autoestrada Lisboa-Porto.