No Minho, o jardim de Portugal, o rio Lima dá-lhe ainda mais encanto. O mitológico Lhetes, o “rio do esquecimento” para os romanos, tem no seu troço designado por Ribeira Lima ainda mais formosura, “toda salpicada de ermidas, de solares e aldeias brancas”, como descreve o Guia de Portugal. É, com efeito, uma região histórica e cheia de histórias, materializada nos inúmeros solares que há gerações se mantém na mesma família e engrandecem a já de si grandiosa paisagem. Visitámos alguns deles em Setembro do ano passado, à boleia da iniciativa do projecto Vinculum “Vínculos com (a) história: à descoberta das casas históricas da Ribeira Lima”, que se espera possa ter continuidade nos próximos anos.

Ponte de Lima é uma das povoações mais bonitas do nosso país e, neste caso, ponto de partida para sair em busca destes solares. Primeira vila de Portugal, a vila das torres medievais e da ponte de origem romana onde os arcos se sucedem é banhada pelo rio Lima.



Foi Estrabão quem primeiro comparou o rio Lima ao Lethes, o mitológico “Rio do Esquecimento” para os romanos, aquele que uma vez atravessadas as suas águas as memórias seriam apagadas, esquecendo-se tudo o que fora vivido até então, incluindo Roma. Corria o ano de 136 a.C. quando um exército romano rumo à Galiza hesitou, ciente do mito, atravessar o Lima, mas a “ousadia” concretizada provou não ter este rio os temidos poderes de esquecimento. O Lima nasce em Ourense, na Galiza, e o troço correspondente à última vintena de quilómetros, após deixar Ponte de Lima a caminho de Viana do Castelo e do Atlântico, é conhecido por Ribeira Lima, por ter menos água e ser menos sinuoso. O seu vale é o grande personagem da região, graças à fertilidade das terras, que permitiu a criação de uma sociedade agrícola e a emergência da pequena nobreza, incluindo do pequeno fidalgo rural.

São milhares os solares localizados nas margens do Lima, e a variedade das casas, desde o barroco de aparato à pequena propriedade agrícola, expressa bem a mobilidade social que a fertilidade destas terras limianas permitiu. As ligações comerciais da região são ancestrais (com o milho e o vinho à cabeça), primeiro com os ingleses e a Flandres e, depois, Índia e Brasil com a expansão marítima. Os diversos ancoradouros à beira Lima serviam para o embarque das pessoas e dos bens (incluindo a madeira de que as naus seriam feitas), que daí eram transportados pelas águas do rio até Viana do Castelo, a porta de entrada do vale do Lima ao mundo.


Associado a esta emergência dos proprietários da Ribeira Lima está a figura dos morgadios (vínculos), uma ordem social que perdurou em Portugal até à década de 1860, tendo sido abolida na sequência da vitória dos liberais sobre os absolutistas. O vínculo garantia a sucessão perpétua na família, concentrando a propriedade fundiária num reduzido número de pessoas. E, assim, os sucessivos chefes de família eram senhores dos seus domínios, estando a terra vinculada à família e acompanhando-a por gerações, passando por inteiro ao filho varão, seguindo o princípio da primogenitura. Com isso, enquanto o varão era senhor da terra e ia até ao Norte de África guerrear pelo rei, demostrando a sua coragem e fé em Deus, aos filhos segundos não restava senão partir para a Índia, primeiro, e Brasil, depois, para comerciar e tentar fazer fortuna. Mas também outros, de origens mais obscuras ou modestas, lançaram-se nessa aventura na época da expansão marítima e, com isso, novas elites locais emergiram, com o correspondente nascer de novas casas, a par do renascimento de outras mais antigas.



E, assim, surgiram nesta maravilhosa paisagem minhota os solares da Ribeira Lima. Ramalho Ortigão, nas Farpas, escreveu em 1885: “quem não foi e não veio, pela direita e pela esquerda da ribeira, de Viana a Ponte do Lima e de Ponte do Lima a Viana; quem durante alguns dias não viveu e não passeou nesta ridente e amorável região privilegiada das éclogas e das pastorais, não conhece de Portugal a porção de céu e de solo mais vibrantemente viva e alegre, mais luminosa e mais cantante.” E assim é.


Guiados pelos proprietários dos solares que aderiram a esta iniciativa, todos ainda com uma profunda ligação à terra e com algumas das suas propriedades hoje transformadas em turismo de habitação, pudemos visitar alguns destes testemunhos do prestígio da Ribeira Lima junto dos fidalgos portugueses entre os séculos 15 e 18. A instituição do morgadio, o regime de minifúndio e a presença da água, essencial para o abastecimento das casas e rega dos campos, foram decisivos para que o poder económico se centrasse nesta região. Assim, visitámos o Paço de Calheiros, a Casa de Bertiandos, o Paço de Vitorino, a Casa das Torres (Facha), a Casa da Carcaveira e o Solar de Sá. Por nosso conta, espreitámos ainda a Quinta da Torre, um exemplo de casa-forte medieval do século 13 na bonita Refóios do Lima.

