No âmbito da iniciativa levada a cabo, em Setembro de 2024, pelo projecto Vinculum “Vínculos com (a) história: à descoberta das casas históricas da Ribeira Lima”, visitámos alguns dos solares nas margens do Lima. Estas propriedades foram o motor da economia da região, baseada na agricultura, por conta da fértil várzea. Estão, quase sempre, implantadas em lugares donde se obtém uma panorâmica fantástica, seja para o rio e seu vale, seja para as montanhas da Serra de Arga.

Paço de Calheiros, um dos mais tradicionais, é disso exemplo. Disposto em patamares numa encosta sobranceira ao vale do Lima, preenchida por terras de cultivo onde se destaca a vinha, o primeiro registo dando conta da sua existência vem de 1122, antes mesmo da fundação de Portugal. No século 13 já se dizia que a sua origem se perdia no tempo. E, para além de antiquíssima, esta casa senhorial é o maior exemplo em Portugal, e um dos raros na Europa, da continuidade da propriedade numa mesma família deste a época medieval.

À entrada da bela alameda ladeada de arvoredo, o brasão mostra isso mesmo, o de ser esta uma casa de uma só família; e a família pertence a este solo, daí a palavra solar. Obviamente, ao longo dos séculos o Paço foi sofrendo várias transformações, mas a terra manteve-se e a família também. Mais, soube reinventar-se, sendo pioneira no turismo de habitação.


O actual Paço vem do século 18, com reformas nos dois séculos seguintes. A fachada barroca serviu de exemplo para outras na região, nomeadamente na solução de fachada dupla, nela integrando-se a capela. Tal deve-se ao facto de a casa possuir uma relação estreita com a aldeia que, à semelhança de outras, toma o nome dos seus proprietários históricos. Por isso, a capela esteve desde sempre aberta à aldeia, bem como à recepção dos peregrinos rumo a Santiago, uma vez que o Paço está na rota dos Caminhos de Santiago – no brasão veem-se 5 vieiras e 3 estrelas.



A visita ao interior da casa foi guiada pelo actual Conde de Calheiros, título conferido em 1890 pelo rei D. Carlos. A escadaria exterior leva até à varanda alpendrada e, daí, aos espaços comuns deste turismo rural. Salões pontuados por retratos da família e profusamente decorados, com diversas peças trazidas dos cantos do mundo por onde os elementos da família andaram (apesar do morgadio, os filhos segundos acabavam por trazer e deixar vários objectos). E janelas abertas à paisagem natural, uma constante nestas casas históricas. Assim como a imponente cozinha, um dos poucos testemunhos da residência anterior ao século 18, em granito e com uma grande lareira.







Os jardins são outra presença forte no Paço de Calheiros. Há o jardim barroco formal, de buxo e em socalcos, proporcionando as tais panorâmicas fantásticas sobre o Lima e seu vale. E, para que não restem dúvidas ser esta uma propriedade agrícola, para além de árvores de fruto, as vinhas envolvem fortemente a propriedade. Na altura da nossa visita, decorriam as vindimas, pelo que tivemos direito a conhecer também a adega, percebendo o papel do Paço na produção de vinho próprio.


Por fim, há a referir outro elemento de extrema importância e muito presente na quinta, a água. Essencial quer para o abastecimento da residência quer para a rega dos campos, a água é aqui abundante, existindo três minas que a levam até aos tanques e fontanários seiscentistas deste conjunto cheio de harmonia.

A Casa de Bertiandos é uma das mais gabadas da região e estão-lhe associadas histórias curiosas. Conduzindo na estrada nacional, é impossível não mostrar curiosidade pela longa fachada de cerca de 70 metros deste solar barroco, construído no século 15 por Fernão Pereira, descendente do Contestável Nuno Álvares Pereira – é por isso que se vê a bandeira do Condestável no cimo da torre. Com uma torre ameada ao centro (o elemento mais antigo do conjunto), em cada um dos seus lados desenvolve-se um corpo / casa independente, correspondente aos 2 vínculos mandados fundar em 1566 para cada um dos filhos da então proprietária. Acontece que esses irmãos tornaram-se desavindos, cortando relações, e viveram de costas voltadas – com a torre pelo meio. Mais tarde, já no início do século 18, um dos vínculos construiu um solar à esquerda da torre e, depois, o outro vínculo um solar à direita da mesma torre, mas avançado em relação a ela. Só em 1792, por casamento entre membros de ambos os vínculos, voltou a família a juntar-se e com a construção de um corredor central ficaram unidas as duas casas. Olhando a fachada, um leigo não dirá que não são parte de um mesmo plano, tal é a harmonia e simetria do conjunto.


Ambos os corpos possuem varandas alpendradas. O mais antigo ostenta na fachada pedra de armas, na altura da nossa visita tapada em sinal de luto por um membro da família (os proprietários explicaram que assim ficará até o pano cair naturalmente), e o mais recente um relógio de sol. Na casa da esquerda veem-se uns arcos ao nível do piso térreo, por onde passavam as gentes da aldeia. Pois é, até à construção da estrada, há cerca de 150 anos, a passagem era livre, por não existirem quaisquer muros na propriedade. E ainda assim é, pois o que parecem muros a ladear a estrada são, na verdade, sebes (o muro só existe na parte de trás do solar) e o limite da propriedade vai, ainda hoje, até ao rio, onde antes havia um cais para embarque dos produtos vindos da fértil várzea do rio Lima e seus afluentes Estorãos e Ribeira Longa – a Ecovia do Lima passa por aqui.

Mas as curiosidades não cessam. Em 1910 o solar de Bertiandos foi visitado pelo príncipe D. Luís Filipe e, bem mais antigo, no enorme terreiro à entrada do solar está um marco mileário romano que terá sido erguido junto à estrada romana que ia de Braga a Tui e, depois, transformado em pelourinho senhorial de Bertiandos quando esta foi elevada a vila, em 1750. À semelhança de outras povoações, esta sempre se confundiu com os seus senhores.






No âmbito desta iniciativa, não visitámos o interior do solar, “limitando-nos” a passear pelo jardim que o acompanha. Bem cuidado, um caminho por uma latada com hortênsias ladeada por árvores de fruto (diospireiros, macieiras e castanheiros) transporta-nos pela larga mata, onde sob a copa de vegetação intensa está uma pedra tumular. Há muita vinha ao redor, bem como diversos edifícios de apoio agrícola. E há uma fonte, a Fonte da Moura Degolada, com uma lenda a ela associada: conta-se que está assombrada pela alma de um jovem cristão que, enamorado por uma jovem moura, louco de ciúmes acabou por matá-la, só depois apercebendo-se do seu engano, confundindo o padre que a baptizava por um seu amante.



De volta à residência, destaque para a Capela de Nossa Senhora da Conceição, do século 18, com muitas lápides de antigos membros da Casa no seu interior.


Para o final ficou a visita à cozinha velha, considerada uma as mais representativas de todas as casas da Ribeira Lima. Nela, acompanhados dos seus utensílios, certamente dá gosto cozinhar.