Continuando nos passos do rio Vizela, deixamos para trás as Serras de Fafe, lugar da sua nascente, e o concelho de Fafe, por onde correm as suas primeiras águas. E, assim, chegamos a terras de Felgueiras, onde o Vizela entra pela povoação de Jugueiros.


Jugueiros é um pedaço de ruralidade com diversos elementos arquitectónicos que merecem apontamento. Banhada pelo rio Ferro afluente do Vizela, a ponte medieval de Travassós liga os lugares de Travassós a Santinho e Perlonga. Talvez construída no século 14, tem um arco em cavalete que lhe dá uma bonita imagem, ainda para mais com a pedra do arco coberta de vegetação. Pouco mais adiante, está outra ponte medieval, desta vez a Ponte do Arco de São João, já sobre o Vizela e com as mesmas características da anterior. É bonita a paisagem natural destes troços de rios, a que se junta ainda o rio Bugio, tendo todos eles ainda como elementos diversos moinhos, uma herança histórico-cultural de uma época em que estas estruturas eram centrais à economia local, moendo os grãos e produzindo a farinha.



E Jugueiros é ainda o lugar de uma série das chamadas “casas de brasileiros”, as edificações que os torna-viagem levantaram nas suas terras-natal, depois de ganharem a América. Impressiona a quantidade delas, mais a mais numa povoação relativamente pequena. Um dos melhores exemplos é a Casa da Vista Alegre, abandonada e em ruína (e à venda), singular com a palmeira junto à fachada principal.

Jugueiros possui ainda umas quantas capelas, sendo a Capela do Assento, de origem românica, um bom exemplo disso.



Mas, no que a edifícios religiosos diz respeito, o Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro é talvez o mais exemplar e monumental do concelho de Felgueiras. Nas imediações do centro da povoação de Pombeiro de Ribavizela, está instalado num bonito vale do rio Vizela. Junto a ele está o troço a descoberto, com arcos de volta perfeita, do aqueduto que abastecia o Mosteiro. Fundado no século 11, chegou a ter os favores da nobreza e até dos reis e foi um dos mais importantes mosteiros beneditinos do Entre-Douro-e-Minho. Mantém alguns elementos da época românica, como as arquivoltas do portal e túmulos com estátuas jacentes, mas sofreu profundas alterações no século 18. Destaque para a enorme rosácea na fachada e para o claustro em estilo neoclássico, cheio de ambiente, ainda que em ruína.
Após Pombeiro, não resistimos a passar pelo centro de Felgueiras, em busca do famoso Pão de Ló de Margaride. Mesmo no centro da cidade, a centenária Fábrica do Pão de Ló de Margaride, loja que preserva o mobiliário tradicional, é uma visita imperdível para saborear este doce que chegou a abastecer a Casa Real. Na região, a concorrência desta doçaria é elevada e a disputa pelo título do melhor pão de ló é motivo de orgulho. Se Felgueiras tem o pão de ló de Margaride, Fafe tem o pão de ló de Fornelos e Vizela tem o bolinhol, vencedor na categoria “doces” das 7 Maravilhas de Portugal, em 2019. Igualmente centenário, é mais húmido que os demais e, por isso, para nós o melhor deles, ainda que o possa não ser para os mais puristas, adeptos da tradição de um pão de ló mais seco. A Casa do Pão de Ló Delícia é uma excelente aposta para saborear esta verdadeira delícia.


Vizela é terra de termas e, porque isto anda tudo ligado, a história do bolinhol e sua fama é indissociável do crescimento de Vizela enquanto vila termal. As origens das termas remontam à época romana, século 1 a.C. É sabido, os romanos tinham gosto pelos banhos e a descoberta em Vizela de águas termais com propriedades medicinais, indicadas para o tratamento de doenças das vias respiratórias, de pele e reumatismo, fez com que a vila se fosse desenvolvendo, atraindo gente de toda a península. Mas isso apenas aconteceu a partir de 1787, data da descoberta das antigas termas romanas, no lugar hoje conhecido por Bica Quente. Em lugar central na hoje cidade, na Praça da República, a Bica tem uma inscrição e um monumento em homenagem a Bormânico, o Deus das águas termais. E tem, ainda, uma escultura em homenagem ao Dr. Abílio Torres, o médico hidrologista que foi o primeiro diretor das Termas de Vizela e visionário na criação do Parque das Termas. Porém, as primeiras instalações das termas de Vizela foram construídas cerca de um século antes dele, em 1785, embora muito precárias. À medida que Vizela ia atraindo gente, as condições das instalações iam melhorando, médicos foram sendo contratados e, por fim, as actuais termas iniciaram a sua construção em 1870, tendo a Companhia dos Banhos de Vizela sido fundada em 1873. Iam surgindo mais e mais hotéis, bem como hospitais, parques e jardins, e Vizela foi crescendo como uma vila termal chique, a que não faltavam as casas de chá. Nelas eram servidos o chá, devidamente acompanhado de bolos secos. Mas, à vontade de melhor receber os muitos turistas que frequentavam as termas juntou-se também a vontade de inovar. Foi daí que surgiu a ideia – diz que trazida por um galego – de criar um pão de ló diferente, rectângular e coberto de uma calda de açúcar que o deixava mais húmido do que os tradicionais. E, assim, no início do século 20 nasceu o bolinhol.



Vizela é cidade orgulhosa. Orgulho do seu passado e tradições e por, enfim, ter conseguido alcançar a tão desejada autonomia com a elevação a concelho. Foi em 1998, depois de haver sido concelho entre 1361 e 1408, e a decisão foi tomada por Antonio Guterres, então primeiro-ministro. Uma escultura no topo do acolhedor Jardim Público / Praça da República agradece-lhe o cumprimento da promessa de a ter feito concelho, mas a obra não se livrou de polémica, pela avultada verba gasta.



E o orgulho dos vizelenzes é ainda evidente pelas muitas janelas e varandas dos edifícios que ostentam a bandeira de Vizela, em tons azul e amarelo e com os seus símbolos representados: a Ponte Romana, a Vizela Romana e as Águas Termais.


A mesma temática vê-se representada em painéis azulejares, como os do coreto no Jardim Público e à entrada das Termas de Vizela.


A Ponte Romana, ou Ponte Velha, tem efetivamente origem romana, tendo servido de ligação entre Bracara Augusta e Mérida. Reconstruída na época medieval, tem três arcos diferentes entre si e serve de passagem entre as duas margens do rio Vizela. As águas do rio Vizela não são tão gabadas como as águas de nascentes termais da cidade e, já se sabe, apesar da capacidade de produzir terrenos férteis ao redor, a intensiva indústria têxtil do Vale do Ave trouxe-lhe a previsível poluição. Todavia, quer as populações quer os poderes públicos estão cada vez mais atentos a estas questões, de forma a desfrutar e proporcionar de ambientes urbanos mais amigos do ambiente e acolhedores. Vai daí, a moda dos passadiços chegou há pouco a Vizela e, desta vez, com propósito e sucesso.




É junto à Ponte Romana e às Termas de Vizela que têm início os novos Passadiços de Vizela, inaugurados em Março de 2024. Logo aos primeiros passos, veem-se as chaminés das antigas fábricas a dominar a paisagem, mas, ao mesmo tempo, vamos caminhando junto a um rio sereno, serenidade esta apenas levemente quebrada por uns pequenos açudes.



Passamos por baixo de um dos arcos da Ponte D. Luís, a Ponte Nova, com moinho ao lado, e entramos no Parque das Termas, com árvores altas e um largo espaço ajardinado a que não falta sequer um lago. O rio Vizela continua a correr ao nosso lado, agora dando ares de canal. E surge mais um moinho e mais um açude, agora enquadrados por uma paisagem que tenta ser urbana, mas tem o suave movimento dos montes a contrariar. Com diversos equipamentos de estadia, como cafés ou simples bancos, o percurso dos passadiços deixa então de acompanhar o rio Vizela e passa a seguir lado a lado com a Ribeira de Sá, entrando num ambiente, agora sim, iminentemente rural. Na totalidade, são cerca de 5,5 kms de paisagem ribeirinha, atravessando-se algumas pontes recém criadas para passar de uma margem da ribeira para a outra, até chegar ao ponto final dos novos passadiços, a Cascata de Rompecias, também conhecida como Quedas de Água de Requeixos, uma sucessão de quedas de água. Depois, há que regressar com gosto, repetindo a dose de natureza e tranquilidade.


Ao deixar a cidade de Vizela, o rio Vizela passa ainda por povoações como Moreira de Cónegos e Vila das Aves, tornadas conhecidas pela suas indústrias e futebol, o que vai dar no mesmo, pois dinheiro puxa dinheiro, sendo esta a região com mais participantes na Primeira Liga. Em breve, pouco depois da Vila das Aves, o Vizela irá juntar-se ao rio Ave para, então, correrem como um só até ao Atlântico, em Vila do Conde.