Santo Tirso

Vizinha de Famalicão, mas já no distrito do Porto, Santo Tirso é, igualmente, uma pequena cidade industrial com preocupações urbanísticas e culturais. Parte do Grande Porto e localizada nos vales do Ave e do Sousa, também aqui houve um rio e antigas fábricas para requalificar e a cultura esteve no centro das decisões e acções.

A história de Santo Tirso está intimamente ligada ao Mosteiro de mesmo nome, crê-se que fundado no ano de 978, junto ao rio Ave. A povoação, então conhecida por Moreira de Riba de Ave, foi-se desenvolvendo ao redor do Mosteiro beneditino e acabou mesmo por tomar o seu nome: Santo Tirso de Riba de Ave. A sua influência foi tal que tornou-se famosa a Romaria de São Bento, hoje Festas de São Bento, um dos momentos do ano mais esperados na cidade, aliando religião e cultura, o sagrado e o profano.

Começámos a nossa visita a Santo Tirso precisamente pelo seu mosteiro, desde o início do século 20 ocupado pela Escola Agrícola (primeiro Escola Asilo Agrícola, agora Escola Profissional Agrícola Conde de São Bento). Esta aproveita as antigas quintas do espaço monacal, que correspondiam à sua antiga cerca e vão até à beira do rio. A Igreja do antigo Mosteiro, com fachada maneirista simples e duas torres sineiras recuadas, foi construída no final do século 16 e reconstruída no século seguinte.

O interior é barroco, com destaque para a talha dourada, quer do altar mor quer das capelas laterais, e também para o órgão de tubos. O conjunto possui dois claustros, mas visitámos apenas o principal, com entrada junto a Igreja. Com um chafariz ao centro, o ambiente é tranquilo, como se espera de um lugar religioso, mesmo que na prática já não o seja. A sucessão de arcaria produz um efeito muito bonito, acrescentada pela decoração dupla dos capitéis, toda ela diferente.

Após a extinção das ordens religiosas, em 1834, a antiga hospedaria do Mosteiro foi adaptada a tribunal e paços do concelho recém criado; no entanto, só em 1863 foi Santo Tirso elevada a vila (e em 1985 a cidade). Como referido, veio depois a criação da Escola Agrícola, inaugurada em 1908, pelo rei D. Manuel II, o que permitiu que os terrenos da antiga cerca sejam até hoje mantidos como terrenos agrícolas.

A primeira vez que visitámos Santo Tirso, fizemo-lo com o pretexto de conhecer o novo edifício do Museu Municipal Abade Pedrosa. Este museu, com colecção arqueológica, havia sido inaugurado em 1989 nas antigas instalações da hospedaria, mas em 2016 foi-lhe acrescentado um novo corpo, projecto dos arquitetos Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto Moura e vencedor do Prémio Nacional de Arquitetura no ano seguinte. As linhas rectas e a cor branca não enganam, é puro Siza.

Subindo a ligeira encosta em direcção ao Parque D. Maria II, conseguimos apreciar melhor a implantação e formas deste novo edifício e de todo o conjunto onde está inserido, sendo uma beleza ver a Igreja do Mosteiro esquadrada pelas flores aqui plantadas.

Santo Tirso é ainda lugar do Museu Internacional de Escultura Contemporânea (cuja sede está no novo edifício do Abade Pedrosa), o mesmo é dizer que por toda a cidade vamos vendo espalhadas diversas obras de artistas estrangeiros e nacionais, como de Alberto Carneiro, Rui Sanches, Ângelo de Sousa, Rui Chafes, José Pedro Croft, Fernanda Fragateiro, Pedro Cabrita Reis, sobretudo ao redor do museu, da câmara municipal e do parque urbano.

O Parque D. Maria II é um lugar aprazível, com casa de chá e coreto, já a espreitar o centro da cidade. Não perder uma paragem numa confeitaria para saborear o doce jesuíta, original de Santo Tirso; diz que o da Confeitaria Moura é o melhor. O centro da cidade, sobretudo ao redor do Largo Coronel Batista, possui algumas casas de brasileiros, construídas no século 19. Foram as suas remessas e o início da industrialização que fizeram com que Santo Tirso fosse crescendo e desenvolvendo e, em 1868, alcançasse o título de vila.

A indústria têxtil foi o motor desse desenvolvimento. Fundada em 1845, a fábrica Fiação e Tecidos Rio Vizela foi a primeira deste sector em Portugal e chegou a ser a maior fábrica no nosso país, alavancando toda uma indústria associada ao Vale do Ave que ganhou fama internacional. Todavia, no final do século 20, esta indústria perdeu competitividade face às deslocalizações para novas regiões do globo com mão de obra mais barata e muitas destas fábricas foram forçadas a encerrar a sua actividade. A antiga Fábrica de Santo Thyrso, do final do século 19, ocupava uma generosa área à beira do rio Ave. Os vários edifícios do antigo complexo fabril destinado à fiação têm vindo a ser reabilitados e agora o espaço está transformado num quarteirão cultural e criativo, acolhendo empresas de moda e design. Mantém-se as chaminés da antiga fábrica e ao seu lado, para além do rio, estão umas hortas, imagem constante nesta região urbana que não perdeu o seu carácter rural.

Num dos edifícios está instalado o Centro de Arte Alberto Carneiro, inaugurado em 2021. Apresenta obras deste escultor, nascido na vizinha São Mamede do Coronado (hoje concelho da Trofa), que doou parte do seu acervo artístico à Câmara Municipal de Santo Tirso, e, assim, é mais um complemento ao Museu Internacional de Escultura Contemporânea e suas obras espalhadas pela cidade.

Para o final, eis o novo Parque Urbano Sara Moreira, parte da reabilitação das margens do rio Ave. Visitámo-lo no fim de uma tarde chuvosa, mas ainda assim não resistimos a um curto passeio pelos seus diversos caminhos rodeados de muito verde. Soube a pouco e meses depois fizemos questão de voltar, agora numa manhã soalheira.

Instalado numa mata de carvalhos e sobreiros junto ao rio, tem ainda zonas de estar, um anfiteatro ao ar livre, esculturas urbanas e valências desportivas, estando ligado ao Mosteiro de São Bento, isto é, centro da cidade, pelo Passeio das Margens do Ave, com cerca de um quilómetro e meio de extensão. O mais surpreendente é perceber que o rio Ave, outrora aqui tão maltratado pela forte presença industrial, mostra agora uma faceta serena e delicada, muito distante da imagem que dele esperávamos. Mais um belo pretexto para visitar Santo Tirso.

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