Évora pela História

Évora é cidade de história longa e rica, bonita e cheia de monumentos que testemunham o seu longo passado. Escolhida para Capital Europeia da Cultura Évora 2027, até lá muito irá mexer, reforçando o estatuto daquela que já foi considerada o “segundo membro do reino”, ou seja, a mais importante povoação depois de Lisboa. Caminhando pelas suas ruas, ora largas ora estreitas, o difícil é apreender tudo o que nos entra pelo olhar adentro, não sendo a despropósito que a maior cidade do Alentejo esteja classificada como Património Cultural da Humanidade pela Unesco. A Condé Nast, uma das revistas de viagens mais influentes, perguntava “Évora: será esta cidade subestimada a mais bonita das portuguesas?”

Um dos maiores símbolos de Évora é o Templo de Diana, legado dos romanos. Mas quando os romanos chegaram, já Évora existia. E com o mesmo nome que se mantém até hoje. Na pouco pronunciada colina onde se ergue, com a imensidão da planície alentejana ao seu redor, terá existido uma povoação castrense. O seu topónimo vem, para uns, do celta “ibhar”, de significado “teixo”, a árvore cuja madeira elástica permitia fazer-se arcos de flechas e lanças; para outros, virá do fenício “abor”, de significado trigo (aliás, Plínio, o Antigo, naturalista romano, na sua História Naturalis deu a Évora o nome de Ebora Cerealis). Também antes dos romanos, já os fenícios haviam andado pelo Alentejo, subindo os rios em busca de metais, em especial o cobre, de que a região era rica, usado para o fabrico do bronze. E, claro, antes de todos estes povos, a presença de diversos monumentos megalíticos é a prova maior da presença humana desde pelo menos o Neolítico.

Templo de Diana
Arco de Dona Isabel

Regressemos aos romanos, então. Chegaram por volta de 138 a.C., na primeira metade do século 1 a.C. deram-lhe o nome de Liberalitas Julia (mas o nome não pegou) e, instalados numa cidade já existente, fizeram dela um centro administrativo e económico. Évora estava a meio caminho da via que unia Olisipo (Lisboa) a Emerita (Mérida) e estrategicamente implantada na confluência das bacias hidrográficas do rio Tejo, do Guadiana e do Sado. Estava, pois, num importante eixo comercial.

Muralha de Évora
Casario de Évora

Depois dos romanos, vieram invasões bárbaras e os visigodos terão aí construído os primeiros templos cristãos. Em 715, a cidade foi tomada pelos muçulmanos, que a transformam na sua Yabura, reconstruindo-a, adaptando a malha urbana com a construção de uma alcáçova e, talvez, de uma mesquita, e expandindo-a aos primeiros arrabaldes. No século 12, o geógrafo muçulmano al-Idrisi descreveu Évora como uma “grande cidade, onde o comércio é próspero e os solos revelam uma fertilidade singular”. Os vestígios da época islâmica são evidentes, em especial na intrincada estrutura urbana, na tipologia das construções, fechadas sobre as ruas e abertas sobre pátios ou jardins interiores (de que são exemplos os jardins e antigo horto da Casa Cadaval e o pátio do Paço dos Condes de Basto, residência da condessa Vilalva e sede da fundação Eugénio de Almeida) e na toponímia (Rua das Alcaçarias, por exemplo, e outras mais).

Praça do Giraldo

Após tentativas de conquista por D. Afonso Henriques, Évora foi definitivamente conquistada aos mouros por Giraldo Sem Pavor, em 1165. O primeiro rei português concedeu-lhe foral em 1166 e dez anos depois doou a alcáçova aos Templários, porém, em 1211 foi cedida à Ordem de Avis, tendo passado estes a assegurar a defesa de Évora contra tentativas de reconquista. Foi a partir desta época que Évora viria a expandir-se inexoravelmente.

Portas de Moura

Com os muçulmanos, embora sem grandes rupturas, a cidade havia crescido para fora da primeira linha de muralhas (cerca-velha), envolvendo o núcleo urbano criado pelos romanos, com cerca de 1280 metros de perímetro, e possuía três arrabaldes / bairros, com a mouraria a norte e a judiaria a sul. Visíveis são ainda as torres da Porta de Moura, junto ao largo de mesmo nome. No século 14, entre os reinados de D. Afonso IV e de D. Fernando, parte-se desses arrabaldes e é construída a segunda linha de muralhas (cerca-nova), com uma extensão de 3600 metros, envolvendo o actual centro histórico, criando-se novas centralidades ao redor de conventos e, mais tarde, da universidade.

Sé Catedral – claustro
Universidade – claustro

A partir do século 13 / 14, Évora voltou a ser uma cidade notável, com grandes edifícios medievais que chegaram até aos nossos dias, como a Sé Catedral, o palácio e a igreja Real de São Francisco, para além de muitas outras igrejas e conventos, bem como casas nobres. E era a predilecta da corte, desde a época do rei D. Dinis e seu filho D. Afonso IV, passando por D. João I, D. Manuel e D. João III, este último trazendo-lhe construções renascentistas, como a fachada da Igreja do Convento da Graça. Em 1559 foi fundada a universidade, pelos jesuítas, época em que o rei D. Sebastião passava mais tempo em Évora do que em Lisboa. O período de domínio filipino veio interromper este tempo de esplendor e quando D. João IV subiu ao trono, em 1640, na sequência da Restauração, a sua Casa de Bragança tinha como sede a vizinha Vila Viçosa, entrando Évora em declínio. Mas hoje, séculos depois, mantém-se viva, sendo uma verdadeira cidade-museu que testemunha as suas várias ocupações ao longo da história. E, mais evidente, conserva no essencial a estrutura medieval, acrescentada no século 17 por um sistema defensivo abaluartado que, por sua vez, com a perda das necessidades militares foi adaptado a funções urbanas.

Casas Pintadas
Aqueduto da Água de Prata

Feita esta resenha histórica, em post seguintes visitaremos alguns dos seus inúmeros monumentos.

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