Um dos grandes prazeres numa visita a Évora é caminhar pelas suas ruas, deixando-nos surpreender por pormenores que fazem do seu generoso centro histórico um dos mais bonitos e relevantes de Portugal.

O edificado de Évora é rico e diversificado, encontrando-se abundantes elementos arquitectónicos notáveis, testemunhos de diversas épocas da longa história da cidade. Um desses elementos são os pátios das casas, herança não apenas moura, mas também do carácter rural da cidade, uma vez que a classe abastada esteve na maior parte dos casos ligada à actividade agrícola.



Igualmente, a casa com grande chaminé, saliente na frente de rua, mostra a importância da cozinha na organização interna da casa, mais uma característica da vivência rural trazida para a cidade.

Outra evidência em Évora é a dos edifícios com galeria com um ou mais arcos no piso térreo, o da loja, e que dão entrada para os pisos superiores, tão bem presentes na Praça do Giraldo, mas também noutras ruas da cidade. No que respeita aos elementos decorativos, as atenções voltam-se sobretudo para os esgrafitos, uma técnica decorativa ancestral praticamente desaparecida no resto do país, mas que se mantém forte em Évora. Aparecem na forma de frisos pintados, decorando as fachadas com desenhos monocromáticos.


E não faltam, ainda, as portas e janelas de moldura manuelina, a maior parte delas vindas de edifícios demolidos no século 19, mas outras permanecendo nos edifícios de origem, de que é exemplo maior a da Casa Garcia de Resende que, diz-se, acolheu o cronista e poeta eborense Garcia de Resende.




A Praça do Giraldo era já a Praça Grande da Idade Média. É, desde o século 14, a mais importante da cidade de Évora, o espaço público extramuros para onde confluem diversas ruas e a actividade administrativa, económica e social. Em tempos, teria dimensão idêntica ao fórum e seria lugar de um importante arco triunfal romano, mandado retirar em 1570 por D. Henrique por perturbar a fachada da igreja de Santo Antão, que por lá continua num dos topos da praça. Centro da cidade medieval, a praça serviu de local de feira, acolheu o edifício da casa da câmara e cadeia e nela foram edificados os Estáus, para receber a corte. E foi aqui que se construíram os primeiros edifícios em arcada, associados ao comércio, que permanecem como elemento distintivo do lugar. Era, no fundo, o vértice de ligação entre a cidade monárquica e eclesiástica e a cidade dos cidadãos e dos mercadores, fazendo ainda a articulação da cidade nova com a cidade velha. Permanece o ponto central de Évora, lugar animado, com o velho café Arcada e o bonito chafariz (a Fonte Henriquina, de 8 gárgulas, que se crê representarem as 8 ruas que saem da praça, a qual substituiu a original Fonte da Água de Prata), por entre o equilíbrio decorativo das fachadas dos edifícios que os envolvem, com destaque para a tal galeria em arcada no piso térreo, maioritariamente edifícios de comércio.



A Igreja e Convento de São Francisco, com a sua Capela dos Ossos, é um dos monumentos mais visitados de Évora. Esta zona da cidade medieval foi um dos seus núcleos de expansão para lá da Cerca Nova e o facto de o Convento de São Francisco ter sido um lugar de estadia real e até palácio real acabou por fazer com que surgissem muitos mais edifícios religiosos e civis e casas nobres ao seu redor. Os primeiros franciscanos ter-se-ão instalado em Évora em 1224, ainda em vida de São Francisco de Assis, e do primitivo convento apenas restam vestígios da igreja gótica e parte do claustro construído no século seguinte. A partir de 1336, a igreja foi palco de casamentos da família real e em 1387 D. João I fez mesmo saber aos frades que o convento passaria a ser poiso do rei, rainha e infantes. Depois, com D. Afonso V, o Convento de São Francisco passou a ser paço real, construindo-se uma nova igreja sobre a anterior. No século 16, D. Manuel trouxe-lhe tal magnificência arquitectónica que ficou conhecido como “Convento de Ouro”, sendo a nova igreja de São Francisco considerada a obra máxima do hibridismo do estilo manuelino-mudéjar, para além do arrojo técnico que foi a construção da cobertura da abóbada única, com 24 metros. Depois, foi sendo progressivamente abandonado e durante a dinastia Filipina foi entregue aos religiosos da Ordem Terceira da Penitência de São Francisco. Com a extinção das ordens religiosas, manteve-se a Igreja e a Capela dos Ossos, restaurada pelo benemérito local Francisco Barahona.




A Capela dos Ossos é hoje, no entanto, a grande atracção do conjunto, construída na primeira metade do séc 17 e a mais antiga de Portugal dedicada ao culto das Almas do Purgatório e, depois, ao Senhor dos Passos. Algo macabra, para alguns, coisa certa na vida, para outros. A ideia é a de provocar pela imagem a reflexão sobre a transitoriedade da vida humana e o consequente compromisso de uma permanente vivência cristã. À entrada somos recebidos por um anúncio: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”. Pois é, as paredes e os pilares da Capela estão revestidos de alto a baixo por milhares de ossos e caveiras humanas provenientes dos espaços de enterramento do convento. Observam-se ainda azulejos nos rodapés e frescos na decoração do tecto com passagens bíblicas e outros instrumentos da Paixão de Cristo. À entrada da Capela, destaque para um elemento contemporâneo, um painel azulejar da autoria de Siza Vieira, representando uma alegoria que contrapõe a alusão da morte ao milagre da vida. A visitar, ainda, o núcleo museológico correspondente ao antigo dormitório dos frades, com obras de pintura, escultura, ourivesaria, paramentaria e objectos devocionais, bem como, na altura da nossa visita a exposição particular de presépios da Colecção Canha da Silva. Do terraço que dá para o mercado vê-se a entrada do centro histórico de Évora.


Voltando ao Paço Real, no Jardim Público junto à Igreja do Convento de São Francisco está o que resta do palácio real quinhentista, construído no antigo horto conventual. O edifício que ficou conhecido como Galeria das Damas possui uma arquitectura manuelina, com influências mudéjares, destacando-se o torreão-mirante com loggia em arcos, o revivalismo decorativo das janelas e as arcadas triplas. No interior está agora o Centro Interpretativo da cidade de Évora, contando a história da cidade ao longo de 20 séculos.




O Jardim Público é o grande parque urbano da cidade, o resultado da adaptação do Baluarte do Príncipe e do Baluarte do Conde de Lippe a mata e jardim público na década de 1860 e seguinte, pelo cenógrafo italiano Giuseppe Cinatti. Conserva as características de jardim romântico, à inglesa, um lugar de lazer. Típico da época da sua criação, em que um dos focos estava no embelezamento das cidades, a ideia foi a de criar um ambiente o mais natural possível. Canteiros, diversos caminhos, bancos em madeira, calçada portuguesa, estatuária varia (estátua de Vasco da Gama, busto de Florbela Espanca e de Cinatti), o coreto em posição de destaque e até uma ruínas fingidas (uma torre quatrocentista, ameada e com janelas mudéjares geminadas, retiradas do antigo Paço dos Vimioso), exemplares da lógica do romantismo, tão adepta do gosto medieval e da ruína e do pitoresco.

A Igreja da Graça, foi construída em meados do século 16 no lugar onde existia já o convento da Ordem dos Eremitas Calçados de Santo Agostinho. É a única igreja de transição renascentista-maneirista existente em Portugal e a sua fachada maneirista é considerada uma revolucionária transgressão, precedendo o despontar deste estilo no nosso país. E é, ao mesmo tempo, considerado o primeiro exemplar de arquitectura da Renascença construído no Alentejo. Em granito trabalhado, a sua fachada tem uma profusão decorativa, na qual se observam quatro imponentes esculturas que representam os primeiros mártires da Inquisição queimados em Évora no ano de 1543. Inclui convento e claustro. Com a extinção das ordens religiosas, em 1834, a igreja funcionou como escola primária e parte do convento chegou a ser adaptado para fábrica de rolhas de cortiça e, já no século 20, foi adaptado a messe militar.

Perto da Igreja da Graça está a Pastelaria Conventual Pão de Rala, obrigatória para provar a deliciosa doçaria local. Entre muitos outros doces, a especialidade é o pão de rala, feito de ovos, amêndoa e açúcar, com origem no Convento de Santa Helena do Calvário, e associada a uma lenda. Diz-se que quando D. Sebastião visitou a cidade e este convento, as freiras viram-se obrigadas a servir-lhe o que tinham à mão, algo feito apenas de pão ralo, azeitonas e água, tendo, ainda assim, o rei apreciado e, daí, surgido a ideia para mais um doce criado pelas irmãs.

Para além da doçaria, Évora é dona de muitos e bons restaurantes. Há, porém, também alimento para o intelecto, pelo que, para além de se espreitar a programação da Fundação Eugénio de Almeida, é também muito boa ideia dar uma saltada à Galeria Plato e à livraria independente Fonte de Letras. E muito mais se esperará nos próximos tempos, com o pretexto da Évora 2027, Capital Europeia da Cultura, e o recentemente renovado Salão Central Eborense será peça chave na programação cultural da cidade.


Saímos do centro histórico de Évora tal como entrámos: passando por uma suas das diversas portas. Já dissemos, o sistema defensivo de Évora era composto por duas cercas amuralhadas (a Cerca-Velha e a Cerca-Nova), torreões, barbacã, fossas, postigos, castelo, baluartes e fortes, tendo sido desenvolvido ao longo dos séculos 1 a 19, desde a época romana até à nossa era. Muito foi destruído, mas conservam-se visíveis alguns elementos valiosos. Se as muralhas da cerca-nova possuem maior impacto urbanístico, as muralhas da cerca-velha estão hoje integradas em várias habitações, deixando-se ver aqui e ali.


Por fim, impossível deixar de nos impressionarmos com a arcaria do Aqueduto da Água de Prata e sua arcaria junto à Porta de Aviz. Ao contrário da maior parte das cidades portuguesas antigas, Évora estava implantada longe de um curso de água, daí a necessidade de se recorrer a poços e cisternas existentes dentro da cidade para o abastecimento de água à população. Acontece que esses poços e cisternas eram na maioria privados e estavam nos pátios ou no interior das casas.



Encarregue por D João III de desenhar o projecto de abastecimento de água para a cidade, o arquitecto Francisco Arruda viria a desenvolvê-lo, trazendo a água desde a região da Graça do Divor até ao centro histórico, num percurso de cerca de 18 kms. Com canalizações e arcadas de granito de estilo renascentista e maneirista, e assente sobre vestígios do antigo aqueduto romano, a inauguração do Aqueduto da Água de Prata aconteceu em 1537, na Praça do Giraldo (então Praça Grande), com a chegada e o lançamento das primeiras águas através das bocas dos leões de mármore do primitivo chafariz da praça, então denominado Fonte da Água de Prata. E o seu término estava localizado junto ao Convento de São Francisco, onde existia um pórtico renascentista (Fecho Real do Aqueduto), destruído pelas obras de requalificação urbana levadas a efeito no final do século 19. Ao longo da Rua do Cano está parte do que resta do Aqueduto da Água da Prata, que volta a ter um troço visível na Rua do Salvador.



Para além da arcaria monumental à entrada de Évora, destaque para os três chafarizes monumentais localizados em três das mais importantes praças da cidade, os quais faziam a distribuição da água que chegava à cidade pelo Aqueduto: o Chafariz da Praça do Giraldo, o Chafariz do Largo das Portas de Moura e a Fonte do Largo de Aviz.



O Aqueduto da Água de Prata tem também um momento bonito na sua passagem pelo Convento de Santa Maria Scala Coeli, mais conhecido por Convento da Cartuxa, o primeiro desta ordem a ser fundado em Portugal, em 1587. Os últimos quatro monges cartuxos saíram apenas em 2019, transferidos para um mosteiro da ordem em Espanha. Após essa saída, o Convento, cuja quinta onde está instalado é propriedade da Fundação Eugénio de Almeida, permitiu visitas por um período, penitenciando-me até hoje não as ter aproveitado (diz que o seu claustro, com 100x100m, é o maior da Europa). Agora, e depois de em 2022 ter sido retomada a clausura do convento pelas monjas do instituto “Servidoras do Senhor e da Virgem de Matará”, apenas podemos visitar a sua igreja. Em estilo renascentista e plena de mármore, é bem acolhedora e bonita, mais um exemplo do poderio de Évora.