A Ruralidade de Évora

Ao redor de Évora, em plena zona rural, típica das planícies alentejanas, estão várias mãos cheias de monumentos que vão surpreender qualquer viajante.

Graça do Divor
Graça do Divor
Graça do Divor

Nossa Senhora da Graça do Divor é uma povoação a cerca de 12 kms a Norte de Évora, já a caminho de Arraiolos. Com um casario tipicamente alentejano, com casas brancas com listas azuis, a pequena aldeia tem no Largo da Casa do Povo a casa brasonada dos Lobo.

Igreja de Nossa Senhora da Graça do Divor
Igreja de Nossa Senhora da Graça do Divor

E tem, num suave monte a pouca distância do seu centro, a Igreja de Nossa Senhora da Graça do Divor, distinta no seu monumental alpendre / pórtico maneirista em mármore de duas cores. A igreja já existia em 1536. Infelizmente, à semelhança de muitas outras pelo nosso país fora, não foi possível visitar o seu interior, o qual terá decorações de pintura a fresco, estuque e azulejos, assim como altar mor rococo em talha dourada.

Aqueduto da Água da Prata

Nos terrenos da Herdade da Água de Prata tinha origem a captação de água que, depois, num percurso de cerca de 18 kms pelo Aqueduto da Água da Prata, obra lançada durante o reinado de D. João III, entre 1533-37, era transportada até ao centro histórico de Évora. Se em Évora são visíveis diversos elementos parte da estrutura do Aqueduto, como a sua arcaria monumental à entrada da cidade, chafarizes e troços do aqueduto na Rua do Cano e Rua do Salvador, junto à Igreja de Nossa Senhora da Graça do Divor veem-se, igualmente, vestígios desta grande e importante obra. Esta zona do concelho era, na verdade, um território de muita água (vejam-se, hoje, as barragens alimentadas pelas ribeiras) e de solos de qualidade. Nas região, predominam as grandes propriedades agrícolas, caso da Oliveira, o mais antigo morgadio de Portugal.

Herdade Fitapreta

É por aqui que encontramos a Herdade Fitapreta, já nas proximidades de Évora, um dos espaços produtivos do enólogo António Maçanita. É nesta herdade que são produzidos os vinhos alentejanos da marca, como os homónimos “Fitapreta”, mas também o “ALFROCHEIRO tb quer estar NU” (um monocasta de uma casta antiga, a Alfrocheiro, que por muitos anos desapareceu) e o “TINTO do POTE de BARRO”, que procura encontrar o perfil de “vinho de talha” antigo, utilizando vinhas velhas de mistura e o antigo processo de vinificação em talha.

Herdade Fitapreta
Herdade Fitapreta

A herdade da Fitapreta, atualmente com cerca de 100 hectares, tem séculos de história, já que começou no século XIV. Tem como ex-libris o Paço do Morgado de Oliveira. Este edifício, de origem medieval, é de uma beleza extraordinária, sendo evidente no interior a sua origem. Tem vindo a ser recuperado, em estreito respeito com a sua história, sabendo-se que é um dos edifícios mais antigos de Évora. Atualmente alberga o restaurante A Cozinha do Paço, que oferece uma experiência gastronómica fine dining focada em produtos locais.

Herdade Fitapreta

Na herdade, para além de parte das vinhas da Fitapreta, existe um edifício contemporâneo em cortiça, onde está instalada a adega, que pode ser visitada, a loja e o local das provas de vinhos.

Castelo Real de Montoito / Castelo de Valongo

Para Este, perto de Montoito, já concelho do Redondo, mas ainda parte da freguesia de Nossa Senhora de Machede, concelho de Évora, está o Castelo de Valongo, também conhecido por Castelo Real de Montoito. Deixamos o carro à beira da estrada e descobrimos uma aberta na rede para aceder ao interior da propriedade privada, a Herdade de Castelo Real, onde está instalado o castelo numa colina pouco expressiva e em lugar isolado. Classificado como Monumento Nacional, ao Castelo rodeiam-no uma série de vinhas e um plano de água que alimenta as culturas vizinhas.

Castelo Real de Montoito / Castelo de Valongo

Não se sabe ao certo quando terá sido construído, sendo a data mais provável o século 13. Talvez no lugar já existisse uma torre ou um outro castelo, o denominado “Castelo Velho”, mas a hipótese de fundação pelos romanos tem poucos adeptos e pelos mouros carece de documentação. Certo será que no século 15 ou 16 sofreu arranjos vários, incluindo o acrescento da sua Torre de Menagem. O que vemos hoje, sem possibilidade de entrada no interior do Castelo, é uma fortaleza de arquitectura gótica e manuelina de forma quadrada, com quatro torres nos ângulos e torre de menagem num deles, que aliava as funções de paço senhorial e castelo, raro na época. Um lugar tão bonito, aliando paisagem natural a um distinto elemento construído, terá sido seguramente palco de algumas histórias. Na ausência da sua comprovação, resta-nos – e é muito – contemplar o majestoso e delicado cenário, que se presta a reflexos incríveis do castelo aí espelhado.

Torre de Coelheiros

Torre de Coelheiros, a caminho da Albufeira do Alvito, é nome de freguesia, mas também de uma torre medieval, igualmente designada por Paço dos Cogominhos. A cerca de 10 kms a Sul de Évora, no topo de mais uma colina que quase não se percebe, a torre está numa das extremas da povoação, dentro de um recinto murado que é hoje escola primária mas já foi casa nobre. Crê-se que tenha sido construído no século 14, altura em que foi constituído o morgado da Quinta da Fonte dos Coelheiros a favor de Fernão Gonçalves Cogominho, cavaleiro fidalgo e meirinho-mor do rei D. Afonso IV, e sua mulher Maria Annes.

Torre de Coelheiros

É uma das mais antigas casas-torre do Alentejo, testemunho de uma época em que as construções senhoriais desempenhavam a função de símbolo de posse do território e nelas se aliava a função residencial à forma arquitectónica militar, a torre. Com o tempo, por volta do século 17 ou 18, foram-lhe acrescentadas outras construções, donde resultou a casa solarenga que com novas e posteriores reconstruções vemos hoje. Destaque para os merlões piramidais com seteiras na torre (com cerca de 15 metros de altura) e, do lado oposto, para a escadaria exterior de aparato que dá acesso ao jardim e casa. Já esteve em ruína, pelo menos em parte, e em 1957 acabou doada pelo último proprietário à Câmara Municipal de Évora, sob condição de na torre ser instalada a Junta de Freguesia, a Casa do Povo e uma escola primária. E assim foi, tendo piada apreciar uma torre medieval por entre baloiços e desenhos de crianças.

Paço de Valverde
Paço de Valverde
Paço de Valverde

Junto à povoação de Valverde, a Oeste de Évora, está o Paço de Valverde, uma bonita quinta quase perdida do mapa. A Universidade de Évora, que tem aqui o Pólo da Mitra, dá-lhe vida e ajudará pelo menos a mantê-lo em parte (o espaço está ligado ao ensino agrícola desde o início do século 20). A Quinta do Paço do Bom Jesus de Valverde foi criada pela diocese (mitra) de Évora no século 16. Servia então de descanso e retiro para os seus arcebispos, que aqui levantaram o seu Paço Episcopal, com os edifícios residenciais ao redor de um pátio. Para lá dele está a mata, horta e uma série de jardins e capelas. A este conjunto em estilo renascentista foi depois acrescentado um grande lago, designado de Moisés, já do período barroco.

Convento do Bom Jesus de Valverde
Convento do Bom Jesus de Valverde – claustro
Convento do Bom Jesus de Valverde – capela
Convento do Bom Jesus de Valverde – capela
Convento do Bom Jesus de Valverde – capela

Antes, porém, em 1540 já o Cardeal D. Henrique, o fundador da Universidade de Évora, havia mandado construir o Convento do Bom Jesus de Valverde, colado ao Paço. Deste Convento (agora alojamento local), destaca-se o seu pequeno claustro com colunas toscanas e, sobretudo, a capela, uma das mais importantes obras da arquitectura portuguesa do renascimento. Com uma escala miniatural, é considerada como a mais harmoniosa e perfeita das igrejas renascentistas do nosso país. 32 colunas de mármore suportam as cúpulas, que por sua vez permitem uma luminosa entrada de luz, e nos cantos dos octógonos veem se pinturas a fresco.

Convento do Bom Jesus de Valverde
Lago de Moisés, Paço de Valverde
Lago de Moisés, Paço de Valverde

Colado a esta quinta de recreio com convento, encontramos o Aqueduto do Convento do Bom Jesus de Valverde, uma construção mais tardia, do século 17, que se destinava ao abastecimento de água ao Convento – terminava no lago de Moisés. Por aqui está o seu troço mais monumental, uma arcaria de arcos de volta perfeita. Ao todo, o aqueduto conventual possuía uma extensão de cerca de 1 kms, com alguns troços subterrâneos e respiradouros.

Igreja de Nossa Senhora da Tourega
Vila Romana de Nossa Senhora da Tourega
Vila Romana de Nossa Senhora da Tourega
Vila Romana de Nossa Senhora da Tourega

Perto da Mitra está ainda a Anta Grande do Zambujeiro, o maior monumento funerário português, mas a entrada da propriedade onde está instalada estava fechada e o calor não permitiu caminhar por uns quantos quilómetros a pé (e também não visitámos a necrópole megalítica de Vale Rodrigo e as antas da Herdade do Barrocal, todas nas imediações de Valverde). Visitámos, sim, a Vila Romana de Nossa Senhora da Tourega. Junto à Barragem da Tourega, que mais parece um verdadeiro lago, alimentada pela ribeira de Valverde, este é mais um monumento de implantação fantástica. Até chegar à antiga Villa Romana de Nossa Senhora da Tourega percorremos uma estrada de terra batida de pouco mais de 1 km. À esquerda temos a Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Assunção da Tourega e à direita o cemitério. Deixamos o carro e seguimos a pé por aqui, em direcção às margens do espelho de água. Da época romana, esta villa estava perto de Ebora Liberalitas Julia (actual Évora) e de Pax Julia (actual Beja) na via romana a caminho de Salácia (actual Alcácer do Sal). Era, pois, uma posição estratégica, não só pelo fácil transporte, mas também pela envolvente paisagística, parte integrante da bacia hidrográfica do rio Sado (e das ribeiras de Valverde e de Peramanca) e pelo seu potencial agrícola. Hoje em ruínas e a descoberto, a villa terá sido construída no século I e seria propriedade de uma família de ordem senatorial, a qual incluía um complexo termal. Percebem-se algumas das suas estruturas, o que nem sempre é fácil no que respeita ao património arqueológico, mas este é um património em risco, a necessitar de passarelas elevadas e placas informativas em bom estado, de forma aos visitantes obterem um enquadramento deste património.

São Brissos
São Brissos
Anta Capela do Livramento

Na estrada que vai do Escoural para Valverde está um dos monumentos megalíticos mais pitorescos da região. É a Anta Capela do Livramento ou de São Brissos. A data de construção será entre 4.000 a.C. e 3.000 a.C., e durante a época romana terá sido cristianizado. Depois, no século 17 terá sido construída a ermida, reaproveitando a primitiva anta. Para além da beleza simples da Anta Capela, a que não falta o revestimento caiado do edifício e risca azul tipicamente alentejana, a envolvente onde está implantada é fabulosa, Alentejo puro.

A caminho do Cromeleque dos Almendres
Cromeleque dos Almendres

Por falar em monumentos megalíticos, poucas regiões haverá melhores do que Évora para tropeçar neste tipo de património – Évora é mesmo conhecida como a capital do megalitismo ibérico, com inúmeros e variados exemplos. O mais conhecido será o Cromeleque dos Almendres, erigido cerca de 4000 a.C. a 3000 a.C. (Neolítico). Na época, era evidente a posição privilegiada no terreno onde foi implantado, na bacia hidrográfica dos três maiores rios a sul, o Tejo, o Sado e o Guadiana, e num vale dominado do alto pela cumeeira da Serra de Montemuro e junto à Ribeira de Valverde. Hoje está à distância de de cerca de 4 kms por um caminho rural da aldeia de Guadalupe, já no Monte dos Almendres. O Cromeleque dos Almendres é o maior recinto megalítico da Península Ibérica e uma das estruturas monumentais mais antigas da humanidade. De planta circular, e com a floresta a toda a sua volta, é composto por cerca de 95 monólitos de granito em forma ovóide. A um olhar leigo, não se percebe o seu significado nem a razão das dezenas de elementos estarem assim dispostos, destacando-se antes a beleza inspiradora do lugar por eles adornada. Descoberto na década de 1960, foi Mário Varela Gomes quem, a partir da década de 1980, tem vindo a “juntar as peças” de forma a dispor cada monólito no seu aglomerado / alvéolo onde estaria primitivamente implantado. Estes monólitos têm tamanhos e formas diferentes, mas são na sua maioria baixos e largos, e estão todos eles muito erodidos. Alguns, porém, mostram vestígios decorativos ou ornamentais, como covinhas, báculos, lúnulas e linhas.

Cromeleque dos Almendres
Cromeleque dos Almendres

Não se sabe com certeza a função original do Cromeleque. Este recinto megalítico terá tido um carácter sagrado, mas não funerário. Provavelmente ligado à agricultura e ao pastoreio, nomeadamente proporcionando orientações astronómicas dos equinócios e solstícios ligados à mudança das estações, sabe-se que, apesar de ter sido criado pelas últimas sociedades de caçadores recoletores do Neolítico, numa época em que começaram a sedentarizar-se, acabou por ser acolhido pelos povos que se seguiram. Com efeito, e embora não se saiba com certeza se o lugar estava associado a um pequeno povoado calcolítico nas imediações, crê-se que a sua sacralidade tenha sido adaptada às práticas culturais dos sucessivos povos que habitaram o lugar, perdurando até aos tempos romanos, dado terem sido encontrados elementos na Herdade dos Almendres desta época que mostram isso mesmo. Até que, por fim, nos últimos 2 milénios terá começado a perder significado, tendo acabado esquecido até à sua redescoberta na década de 1960.

Menir dos Almendres

Perto está o Menir dos Almendres. Isolado, mas integrado na envolvente natural, é um monólito de forma fálica e de grandes dimensões, com 3,50 metros de altura, também da época entre 4000 a.C. e 3000 a.C.. Apesar da sua forma fálica, discute-se se não será antes uma forma antropomórfica, representando o humano e não uma parte da anatomia do homem, podendo assim não estar ligado a rituais de fecundidade, como muitos tomam como certo. Certo é que visto do Cromeleque durante o Solstício de Verão, percebe-se que este menir está apontado ao nascer do sol.

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