Breve História da Coreia

A Coreia está entre a China e o Japão, geográfica e culturalmente falando. Não nos precipitemos, no entanto, em concluir que é uma súmula dos dois vizinhos, uma espécie de primo que aparece nas fotografias em segundo plano. Pelo contrário, a Península Coreana tem uma história e cultura próprias, que se foi desenvolvendo ao longo de dezenas de séculos, pese embora diversas épocas de domínio daqueles. Hoje, e desde a década de 1950, a península permanece dividida entre o Norte e o Sul, numa linha imaginária riscada no Paralelo 38°N: a Coreia do Norte optou pelo isolamento e poucos sabem o que se passa no país, a Coreia do Sul é uma das maiores economias do mundo e todos ouvem a sua música e veem os seus filmes e séries.

Busan

Mas nem sempre foi assim. Terminada a II Grande Guerra Mundial, os soviéticos ficaram com influência sobre o Norte e os americanos sobre o Sul da Coreia, tendo-se seguido a Guerra das Coreias, entre 1950-53. Nessa época, o Norte era mais rico e industrializado do que o Sul, mais agrário.

Gyeongju – Túmulos Silla
Museu Nacional de Gyeongju – figura em barro de mulher, período Silla
Gyeongju – Observatório Cheomseongdae

Muito antes, porém, há um passado que lhes é comum. Crê-se que cerca de 2333 a.C. o mítico rei Dangun fundou o Gojoseon (“Antigo Choson”), nome pelo qual a Coreia do Sul é ainda hoje conhecida pelos vizinhos do Norte, e desde aí aconteceu uma história contínua num mesmo território ao longo de milhares de anos. O desenvolvimento na Idade do Bronze levou ao sedentarismo que, por sua vez, levou ao crescimento de vilas e às diferenças sociais. Então, os mais poderosos entre os agricultores locais foram gradualmente incorporando os seus vizinhos e, assim, emergiram vários proto-estados na Península Coreana. O primeiro desses estados terá sido, precisamente, o de Gojoseon, na actual província chinesa de Liaoning e noroeste da Coreia, ou seja, nordeste da China e Península Coreana. Ao longo do tempo, Gojoseon desenvolveu uma cultura própria, rivalizando com os estados de Yan e com as dinastias de Qin e Han da China, tendo acabado por cair por volta de 108 a.C. após conflitos com estes últimos.

Seul – Templo Bongeunsa
Seul – Templo Jogyesa
Gyeongju – Templo Bulguksa

A partir de 57 a.C. os proto-estados foram-se consolidando em três reinos distintos, tendo este período da História da Coreia entre 57 a.C. e 668 ficado conhecido como os 3 Reinos. Rivais uns dos outros, e ao mesmo tempo aliados, foram eles: o Reino de Goguryeo / Koguryo (o primeiro dos 3 reinos a adoptar o budismo, via China, possuidor de uma cultura diversa, aberta e cosmopolita que influenciou os demais reinos seus contemporâneos – os seus túmulos têm bonitos murais e já neste período as telhas dos telhados tinham motivos de nuvens e lotus -; a sua capital estava em Gungnaeseong, actual cidade de Ji’an na China, e depois em Pyongyang, já com vista a futuras expansões para sul), o Reino de Silla (que atingiu o apogeu no século 4, no período Maripgan, de significado “maior do que o khan”, com o esplendor do ouro materializado em magníficos tesouros reais e acessórios, como as coroas reais que podem ser vistas em Gyeongju; no século 6 aceitaram o budismo como religião oficial e adoptaram um sistema de governo centralizado) e o Reino de Baekje / Paekche (donos de cultura distinta e florescente que mantinha contactos com a China e o Japão; estado baseado na autoridade real; estabeleceu-se na região do rio Han por volta do início do século 1, tendo primeiro capital em Hanseong, hoje Seul, e depois Ungjin – Gongju e por fim Sabi – Buyeo).

Museu Nacional da Coreia – máscaras, época Buyeo
Museu Nacional da Coreia – homem a cavalo, período Silla
Museu Nacional de Gyeongju – Coroa Dourada, período Silla

Depois do período dos 3 Reinos, em 668 sucedeu-lhe Silla Unificada, com a unificação do país, embora tendo como grande influência os Tang da China, para onde o governo enviava os seus oficiais. A capital estava em Gyeongju, “a cidade do ouro”, e era caracterizada por uma sociedade feudal.

Museu Nacional da Coreia – sino em bronze da dinastia Goryeo (1058)
Museu Nacional da Coreia – rei Taejo adorando Bodhisattva dinastia Goryeo (1307)
Museu Nacional da Gyeongju – porcelana celadon

Em 918, já com a Coreia unificada, surgiu a segunda dinastia, os Goryeo, a origem do nome Coreia. Com capital em Kaesong, hoje na Coreia do Norte, possuía uma cultura florescente e admirava e interagia com a civilização chinesa dos Song – foi nesta dinastia que se introduziu o sistema de exames para o serviço civil. O budismo era a religião do estado (são ricas, as suas escrituras budistas), mas coexistia com o confucionismo. Como legado de beleza que ainda hoje podemos testemunhar e apreciar, a sua cerâmica típica, a celadon, é deveras bonita, com uma profunda cor de jade, transmitida via Rota da Seda. Diz-se que “os celadons são as flores azuis do povo Goryeo”. Os Goryeo sofreram com as invasões mongóis.

Museu Nacional da Coreia – trono Choson
Seul, Parque da Ribeira Cheonggyecheon – mosaicos com parada Choson
Seul – muralha

Entre 1392-1897 a Coreia foi governada pela sua terceira e última dinastia, os Choson / Joseon. Foram buscar o nome 15 séculos atrás, como forma de proclamar o seu estatuto de sucessora dos Gojoseon, o “Antigo Choson”, o tal primeiro estado a emergir na Península Coreana. Foi fundada pelo General Yi Seonggye, depois rei Taejo, e guiava-se por 3 princípios: suprimir o budismo em favor do confucionismo, aliança com a dinastia Ming da China e fazer cumprir a teoria da fisiocracia, que coloca a agricultura como chave da prosperidade. “Choson, o país onde o sol nasce mais cedo no Oriente”, tinha a capital no vale de Hanyang, hoje Seul. A dinastia Choson durou 500 anos, muito por conta da doutrina da benevolência. Pretendiam restaurar a identidade coreana e a virtude e a disciplina, e para isso optaram pelo confucionismo, de tal forma que se dizia ser a Coreia mais confucionista do que a China. Mas um dos grandes feitos deste período / dinastia foi a criação, em 1443, do alfabeto hangul, um sistema simples da linguagem coreana que tornava possível a todos aprender a lê-la (as 14 consoantes do novo alfabeto foram criadas de forma a mimetizar a forma da boca de que cada som requer, e as 10 vogais foram criadas através de formas que representam o céu (um ponto), a terra (uma linha horizontal) e os humanos (uma linha vertical), o que tornou a escrita fácil de aprender e escrever). Foi o rei Sejong, o Grande, que introduziu o hangul, estando hoje imortalizado nas notas de 10.000 won.

Gyeongju – Ponte Woljeonggyo

Com um largo histórico de invasões por parte da China e do Japão ao longo dos séculos, no final do século 19 a Coreia viu-se perante um cenário dramático: o Japão imperialista ganhou a guerra sino-japonesa de 1894-95, tornou-se a força dominante na região e Choson perdeu as suas relações intrínsecas com a China, ela própria subjugada pelos japoneses. Então, o Japão voltou a invadir a Coreia. Os coreanos tentaram reagir, estabelecendo o Império Coreano, uma tentativa de defender a soberania nacional contra os poderes estrangeiros, tendo para tal implementado reformas no sentido da modernização. Mas os japoneses prevaleceram, tornando a Coreia num seu protectorado em 1905 e colonizando-a por completo em 1910, anexando-a. Os coreanos foram, então, subjugados e sua identidade posta em causa, no que é ainda hoje visto na península como ilegítimo e humilhante, não tendo havido qualquer pedido de desculpas por parte do Japão.

Busan – Gamcheong

Em 1945, com o fim da II Grande Guerra Mundial, a Coreia voltou aos coreanos. No entanto, a Guerra da Coreia, que se desenrolou entre 1950-53, fez com que o país que por quase 1500 anos esteve unido fosse dividido em dois, Norte com os russos e Sul com os americanos. A Coreia era pobre, não possuía recursos naturais, as maiores indústrias ficaram a norte, o analfabetismo era de 78% e a tudo isto somavam-se os problemas sociais derivados da guerra: muitos tinham familiares desaparecidos ou assassinados e outros tantos tinham sido separados pela divisão territorial. A Coreia do Sul passou por fome, doença, crime, miséria e incerteza. E teve de lidar com a infâmia das mulheres de conforto, herança do domínio japonês (sobre estes dramas, leia-se as tocantes novelas gráficas de Keum Suk Gendry-Kim, “A Espera” e “Erva”). Mas, depois, a relativa paz e estabilidade levou a um aumento da natalidade no país, que se mantinha essencialmente agrícola.

Busan

Politicamente, a Coreia do Sul passou por um histórico de rebeliões, suicídios e assassínios dos seus governantes. Opressão e corrupção eram uma constante do governo autoritário e os golpes de estado sucediam-se. Houve, porém, um factor que acabou por ser decisivo: a aposta na educação primária universal revelou-se fulcral para o sucesso que veio a verificar-se.

Seul – Parque Olímpico

A democracia chegou tarde – imagine-se, na data dos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, a Coreia do Sul tinha abraçado pela primeira vez a democracia há poucos meses. E o sucesso económico também chegou tardiamente. Até à década de 1970, a Coreia do Sul mantinha-se pobre e Seul tinha uma série de favelas. Nessa década, os planos de expansão da cidade e um “milagre” levou a que Seul e o país se tornassem dos mais competitivos do mundo. À semelhança do que aconteceu no Japão, houve a aposta na dinâmica dos conglomerados industriais, como a Hyundai e a Samsung (os jaebeol). Estes souberam evoluir de negócios familiares, apoiar as necessidades do estado e reinventar-se, tornando-se os motores da economia de um país. Tudo isto à custa de muitas horas de trabalho por parte dos trabalhadores e sob uma ditadura militar autocrática e corrupta – só em 1992 foi eleito o primeiro presidente civil. De qualquer forma, embora as alterações económicas até essa data não tenham sido acompanhadas de alterações políticas, houve efectivamente alterações sociais: os laços familiares continuaram a afrouxar, muito por conta da vinda de muitos cidadãos dos meios rurais para as cidades, o confucionismo foi perdendo influência e a taxa de natalidade diminuiu (é hoje das mais baixas do mundo). Em contrapartida, verificou-se a emergência de uma classe média urbana, dedicada ao sector dos serviços e manufacturas, com capacidade para mais consumo, fazer férias e dedicar-se ao lazer, materializado nos filmes e na música. As mulheres, por sua vez, ganharam mais liberdade e igualdade.

Busan
Seul
Seul – rio Han

O país, como um todo, tornou-se inovador e empreendedor, cada vez mais distante da Coreia do Norte, de tal forma que são hoje de campeonatos totalmente diferentes. Repetimos, do Norte pouco se sabe, mas do Sul sabemos que em 2023 um terço dos turistas que a procuraram tinham menos de 30 anos. Vêm pela K-pop, que Psy tornou global em 2012 com o seu “Gangnam Style”, por “Parasitas”, filme vencedor do Óscar em 2020 (o primeiro em língua estrangeira, isto é, não inglês), por “Squid Game”, a série cruel que se tornou viral, e talvez pelos livros de Han Kang, a primeira coreana a ganhar o Nobel da Literatura, em 2024. Vêm certamente pela gastronomia, com o kimchi e o barbecue à cabeça (no meu caso, delicio-me com o bibimbap), à boleia dos muitos restaurantes coreanos que tem aberto pelo ocidente. É a hallyu, a onda coreana.

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