Seul Tradicional

A expectativa na visita a Seul era grande. Imaginávamos uma cidade moderna e vibrante, grande e cheia de vida, com néons luminosos em destaque e, daí, talvez um pouco confusa. Assim, foi, à excepção da confusão, que não existe, antes um ordenamento tão simples que nos faz sentir de imediato parte da cidade. Mas Seul é muito mais do que isso. A par do entretenimento, tecnologia e criatividade que a “onda coreana” nos tem mostrado, Seul é ao mesmo tempo moderna e tradicional, com a história em cada canto. E é, sobretudo, uma cidade naturalmente bonita, rodeada de montanhas acolhedoras e rasgada pelo elegante rio Han.

Palácio Changdeokgung

A antiga Hanyang tem as suas raízes no ano 18 a.C., quando era capital de Baekje, um dos 3 Reinos da Coreia. Mas nem sempre foi o centro político da península. Só com a Dinastia Choson, a última, fundada pelo rei Taejo em 1392, foi o lugar escolhido para capital, permanecendo com esse estatuto até hoje. O vale de Hanyang era um lugar de mais fácil defesa, no meio da península, e com a possibilidade de navegação para Oeste e para a China. Possuía ainda um bom feng shui, rodeado de 4 montanhas que o protegiam dos ventos fortes. E, assim, a antiga Hanyang e Hanseong tornou-se Seul, de significado “capital”. Até se tornar o centro político, económico e cultural que é hoje, cuja área metropolitana acolhe metade da população do país, a cidade viu serem construídos diversos palácios e uma muralha, os quais resistem como ícones após diversas reconstruções, motivadas pelas invasões e destruições dos japoneses e da Guerra da Coreia, disputada entre o Norte e o Sul, altura em que a sua população caiu abruptamente – hoje, porém, e como vimos em post anterior, apostas certeiras levaram ao “milagre” de tornarem Seul numa das mais carismáticas e competitivas cidades do mundo.

Muralha de Seul
Muralha de Seul
Muralha de Seul
Muralha de Seul

Se Seul já existia no século 14, quando os Choson a tornaram sua capital, foi a partir daqui que se levantaram os seus maiores marcos arquitectónicos. A Muralha de Seul (Hanyangdoseong) começou a ser construída logo no início do reinado de Taejo, por volta de 1396. É uma estrutura impressionante, que serpenteia ao longo da cidade e das montanhas por cerca de 14,5 kms, cerca de 78% do traçado original, e com uma série de imponentes portas. Teve vários períodos de construção ao longo dos tempos. Numa primeira fase, o propósito foi sobretudo o de demarcação do centro da cidade e, após a invasão japonesa da década de 1590, a que se sucedeu a invasão dos Qing chineses, a muralha foi reforçada de forma a desempenhar funções militares – há troços da muralha em que alguns dos 1800 blocos de pedra têm entre 5 e 8 metros de altura.

Seul
Seul

Hoje é uma atracção turística por si só, com diversos trilhos traçados para a podermos percorrer e, assim, conhecer a cidade de um ponto de vista não tão óbvio: ao caminhar pelos troços da muralha damos conta que Seul é uma cidade onde a natureza tem uma presença fortíssima e é naturalmente bela pela sua implantação. O ponto alto destes trilhos pela muralha é o conjunto de paisagens fantásticas que podemos desfrutar, enquanto o bulício citadino corre lá em baixo, a curta distância.

Palácio Gyeongbokgung

O Palácio Gyeongbokgung é, igualmente, obra dos Choson. Construído em 1394, é o primeiro e o maior dos 5 palácios reais na cidade, residência dos futuros Choson e seus oficiais. À entrada, logo percebemos a sua implantação inspiradora, aos pés do monte Bukaksan.

Palácio Gyeongbokgung – render da guarda

Todas as manhãs e ao início da tarde, com excepção das 3as feiras, o render da guarda real é um espectáculo a não perder, um cerimonial que nos transporta ao passado, com os oficiais de vestes coloridas e gestos austeros. É realizado no pátio logo após a entrada pela porta Gwanghwamun e aqui temos uma boa perspectiva da Seul tradicional e moderna, lado a lado, dada pelos seus elementos arquitectónicos de diversas épocas.

Palácio Gyeongbokgung
Palácio Gyeongbokgung
Palácio Gyeongbokgung
Palácio Gyeongbokgung

Passado o primeiro pátio, aguarda-nos uma sucessão de portas e edifícios, em número de 200 e 800, respetivamente, a que acrescem 5792 salas. De arquitectura de influência chinesa, o conjunto palaciano foi reconstruído ao longo do tempo, na sequência de incêndios acidentais e ataques japoneses. Após a destruição provocada pela invasão japonesa de 1592-98, o rei Choson saiu para o palácio Changdeokgung, deixando o Gyeongbokgung abandonado por 273 anos. Só em 1867, no reinado de Gojong, a família real retornou, após restauro do palácio aos seus tempos gloriosos. Mas quando a rainha foi assassinada por agentes japoneses, em 1895, o rei saiu e não mais a dinastia Choson voltou a habitar este palácio. Só a partir de 1989 foi iniciado o restauro final, ainda em curso, estando já recuperado cerca de 40% do conjunto que, entretanto, foi distinguido pela Unesco como património da humanidade.

Palácio Gyeongbokgung – Salão do Trono

O edifício que primeiro impressiona no “Palácio da Felicidade Cintilante” é o Geunjeong, o Salão do Trono, no meio de um largo pátio cerimonial. Era aqui que as cerimónias de estado tinham lugar, como audiências, recepções e proclamações. A escala é grandiosa, um enorme edifício de telhado duplo sobre uma plataforma, elevando assim também de forma figurativa a dignidade do monarca. Infelizmente, não visitámos o seu interior.

Palácio Gyeongbokgung – pormenor
Palácio Gyeongbokgung – pormenor
Palácio Gyeongbokgung – pormenor
Palácio Gyeongbokgung – pormenor

Para lá do Salão do Trono estão as alas privadas, os aposentos do rei e os aposentos da rainha, com jardins privados, templos e pavilhões, e diversos edifícios governamentais. É um prazer deambular por todos estes pátios e edifícios, apreciando-nos seus pormenores decorativos.

Palácio Gyeongbokgung – Salão do Banquete Real

Um desses pavilhões é o Gyeonghoeru, instalado num lado artificial. Designado por Salão do Banquete Real, e representando o ying e yang, é mais uma enorme estrutura de madeira, aberta e sem paredes, com 2 pisos suportados por 48 pilares de pedra.

Palácio Gyeongbokgung – Hyangwon

Talvez o lugar mais idílico do palácio, o Hyangwon é outro pavilhão construído num lago artificial, preenchido com nenúfares. É um dos edifícios mais recentes do conjunto e onde se consegue perceber na perfeição a sua beleza, rodeado de montanhas.

Palácio Gyeongbokgung – interior
Palácio Gyeongbokgung – interior
Palácio Gyeongbokgung – interior

Vários edifícios do Palácio Gyeongbokgung tinham as suas portadas abertas, permitindo-nos espreitar para o interior. Ainda no conjunto palaciano, mas dele individualizado, há ainda o Museu do Palácio Nacional e o Museu Nacional Popular, com a sua pitoresca pagoda.

Palácio Changdeokgung

Para Este, a 1,5 km de distância, está o Palácio Changdeokgung. Igualmente património da Unesco, foi construído em 1405 como palácio secundário em relação ao Gyeongbokgung, mas, como referido anteriormente, acabou por servir como palácio principal por 270 anos. Tem mesmo ao seu lado o Palácio Changgyeonggung, outro dos 5 dos palácios reais de Seul. A história do Changdeokgung é semelhante à do palácio que visitámos anteriormente e à própria história da cidade – da época Choson e com diversos percalços na sua integridade ao longo dos tempos – e o restauro prossegue. No entanto, ao contrário do Gyeongbokgung, cujos edifícios principais estão dispostos em conformidade com o eixo principal do meridiano, o Changdeokgung foi modelado de acordo com a topografia do terreno. Menos formal, a sua arquitectura tem uma beleza assimétrica que é única na Coreia e a acompanhá-la tem a harmonia com a natureza, mais uma vez enquadrada com a montanha.

Palácio Changdeokgung – Porta Domhwa
Palácio Changdeokgung
Palácio Changdeokgung

O Palácio Changdeokgung é ainda mais bonito do que o Gyeongbokgung. Com menos visitantes, pudemos deambular pelo seu espaço e edifícios de forma tranquila, apreciando todos os seus detalhes. A Porta Domhwa é a maior e mais antiga porta de madeira da Coreia. O seu duplo telhado está decorado ao estilo chinês que pudemos ver na Cidade Proibida, em Pequim, e noutros edifícios deste palácio. Os ornamentos dos telhados dos edifícios são, aliás, um dos destaques do Changdeokgung, delicadamente decorados com figuras zoomórficas. Outro elemento amiúde presente é o taegeuk, o símbolo azul e vermelho que é parte da bandeira da Coreia do Sul, representando as tradições coreanas e a harmonia no universo: o vermelho as forças cósmicas positivas e o azul as forças cósmicas negativas, seu antagónico, mas, ao mesmo tempo, complementar.

Palácio Changdeokgung
Palácio Changdeokgung
Palácio Changdeokgung – Salão do Trono
Palácio Changdeokgung – Salão do Trono

À medida que avançamos palácio fora, os edifícios vão se sucedendo. Igualmente num patamar elevado em relação ao solo, desta vez pudemos espreitar o interior do salão do trono do palácio, o Injeongjeon. Aí vemos uma tela emblema real dos Choson, com a representação do sol, relativo ao rei, e da lua, relativa à rainha, e ainda de montanhas, cascatas e pinheiros.

Palácio Changdeokgung
Palácio Changdeokgung
Palácio Changdeokgung
Palácio Changdeokgung

Segue-se um grupo de edifícios onde estavam instalados os escritórios do rei e dos seus oficiais. Voltamos a poder espreitar o interior de outros salões do palácio, uma vez que as portadas estavam abertas, e, assim, percebemos a sua simplicidade.

Palácio Changdeokgung
Palácio Changdeokgung
Palácio Changdeokgung

Espaço acolhedor, com sucessivos pátios e corredores de ligação entre eles, nesta ala o destaque vai para os telhados que quase se sobrepõem uns aos outros, tão juntos estão os edifícios. Um deles toma um azul diferente de todos os outros, uma espécie de azul cobalto. Os telhados do Changdeokgung são todo um programa, uma delícia neste país que, veremos mais adiante, tem como marca distintiva da sua arquitectura, precisamente, a tradição dos telhados dos seus edifícios populares.

Palácio Changdeokgung
Palácio Changdeokgung

Mas não é só a forma e a decoração na parte superior dos telhados do palácio que encanta. Também a base interior está recheada de decoração, desta vez com padrões geométricos coloridos de azul, vermelho ou verde, à vez.

Palácio Changdeokgung – Naksonjae
Palácio Changdeokgung – Naksonjae
Palácio Changdeokgung – Naksonjae

Para além de edifícios coloridos, e para mostrar a sua variedade, o Palácio Changdeokgung tem ainda uma ala totalmente diferente, quase monocromática, optando ora pelo castanho ora pelo branco no complexo Naksonjae. A simplicidade é aqui levada ao extremo, apresentando um estilo modesto sem a vibrante pintura tradicionalmente aplicada aos edifícios reais, mas o resultado é o mesmo: um mimo. Esta ala exclusivamente privada foi construída em 1847 pelo rei Heonjong para os seus aposentos e biblioteca pessoal e residência para a sua concubina. Acabou por servir como última residência real: a última imperadora Sunjeonghyo residiu aqui até 1966 e a princesa Deokhye, mulher do último príncipe da família real coreana, até 1989.

Palácio ChanJardim Secreto

A visita ao Palácio Changdeokgung não fica completa sem a visita ao designado Jardim Secreto, com bilhete à parte e reserva prévia obrigatória de visita guiada, pelas vagas limitadas. Este largo jardim encantador, nas traseiras do Palácio, pode ser acedido quer desde a entrada principal do Palácio Changdeokgung quer do Palácio Changgyeonggung, os dois palácios a Este. Destruído pelos japoneses em 1592, foi restaurado depois dessa data. A sua designação de “secreto” não é tão certeira como a de “escondido”, tal é a reclusão que aqui se experimenta. O desenho do Jardim foi adaptado à topografia do lugar, com a sua beleza natural a ser acentuada pela escassa artificialidade do projecto paisagístico. A construção deste jardim escondido teve vários propósitos, desde lugar para a composição de poemas, como cenário de banquetes e jogos militares conduzidos na presença do rei.

Jardim Secreto
Jardim Secreto
Jardim Secreto

Ao caminharmos pelo Jardim, logo ficamos totalmente imersos na floresta carregada de verde. O elemento água não podia faltar: lagos e um canal correm pelos pequenos vales. E tal é bem evidente no complexo Buyongjeong, talvez o mais bonito do Jardim Secreto. Para além da água, há aqui muita cor dada pelos seus graciosos pavilhões. Num lugar assim, é fácil não só relaxar como também alcançar inspiração para tudo o que se pretenda. Há de ser o mais próximo de paraíso que se possa imaginar.

Jardim Secreto – Yeon-gyeong-dang

Outro complexo de destaque no Jardim Secreto é o Yeon-gyeong-dang, cujo desenho foi inspirado nas casas tradicionais da nobreza coreana, as yangban. Este lugar foi pensado originalmente como área de lazer e recolhimento da realeza, e também como salão de recepções para o Príncipe Regente, mas acabou por servir de casa de hóspedes nos últimos anos da Dinastia Choson. Agora, é usado pela República da Coreia do Sul para recepções de Estado, como aconteceu em 2010, num encontro de mulheres dos chefes de estado dos países do G20.

Jardim Secreto – Yeon-gyeong-dang

Uma curiosidade vista neste complexo, mas também em muitos outros espaços dos palácios reais coreanos: veem-se caracteres chineses, ao invés do hangul, o alfabeto coreano criado em 1446 pelo rei Sejong como forma de incrementar literacia na Coreia. Na época dos Choson (e anteriormente) havia muita proximidade com a China, funcionando a Coreia quase como que um estado tributário, tal era a influência daqueles. Assim, e apesar do alfabeto hangul já estar em uso, os palácios continuavam a receber inscrições em caracteres chineses, a linguagem usada pela corte e pelos oficiais.

Palácio Gyeongbokgung – hankok
Palácio Changdeokgung – hanbok
Jardim Secreto

Uma nota para se ler com um enorme sorriso no rosto: as visitas aos palácios efectuadas com o hanbok, a veste tradicional coreana, são gratuitas. Pois é, para a menina e para o menino, mesmo sendo graúdos, basta alugar a veste pomposa e não pagam nada. O hanbok era já usado no período dos Três Reinos (57 a.C. a 668) e hoje usa-se sobretudo em ocasiões formais, como casamentos e funerais. É composto por dois elementos principais, o jeogori (casaco curto como peça de cima) e o baji ou chima (calças ou saia, conforme o caso), e pode ser mais ou menos colorido e mais ou menos ornamentado, mas é quase sempre elegante. Voltando à visita aos palácios reais, as fotos com personagens vestidas de hanbok ficam ainda mais bonitas.

Santuário Jongmyo

E porque não é só de palácios que a Seul tradicional é feita, embora não os tenhamos esgotado todos, impõe-se a visita ao Santuário Jongmyo, igualmente da época da Dinastia Choson. Neste monumento faz todo o sentido o epíteto dado aos Choson por Percival Lowell, em 1885: “a terra da manhã tranquila”. Visitámo-lo às primeiras horas da manhã, e sentimo-nos transportadas para o esplendor matutino que se viveria naquele reino. O Jongmyo era o santuário supremo do estado Choson, tendo sido aqui depositadas as placas espirituais dos antepassados reais e levadas a cabo as cerimónias em memória dos reis e rainhas falecidos. Foi o rei Taejo, fundador da dinastia Choson, quem iniciou a sua construção, tendo ficado finalizado em 1395. Seguindo a filosofia confucionista e os conceitos de geomância, este santuário nacional foi construído a Este do palácio real, sendo que a Ocidente ficava o santuário Sajik, o lugar onde se desenrolavam os serviços rituais para os deuses da Terra e culturas agrícolas.

Santuário Jongmyo
Santuário Jongmyo

O Santuário Jongmyo é um espaço grande, de forma a poder acomodar todas as placas espirituais em memória dos elementos da longa dinastia Choson. Quando um rei ou rainha morriam, as cerimónias de luto continuavam por 3 anos e depois disso as placas desses mortos eram transferidas para o Jongmyo, nas câmaras que guardavam os seus espíritos. As dos reis mais virtuosos estão consagradas no Jeongjeon, o salão principal, enquanto que no Yeongnyeongjeon estão as dos ancestrais de Taejo e as dos reis coroados postumamente. O complexo possui ainda edifícios onde os rituais eram preparados, nomeadamente, onde os participantes se vestiam e aguardavam o momento da solenidade. Para além deste ritual ancestral, outros rituais de estado tinham lugar no santuário, alguns deles conduzidos pessoalmente pelo rei. Ainda hoje, uma vez por ano, no primeiro domingo de Maio, o espaço acolhe um desses rituais.

Santuário Jongmyo – Yeongnyeongjeon
Santuário Jongmyo – Jeongjeon

Quanto à arquitectura do Jongmyo, não possui grandes decorações, sendo antes dado enfoque à solenidade, ao sublime e à simplicidade extrema, reflexos da autoridade da dinastia Choson. O Jeongjeon, o salão principal, é um edifício de madeira muito longo, com 19 câmaras de espíritos, onde estão depositadas as placas de madeira com inscrição do nome do falecido e onde o seu espírito descansa. Diante deste edifício está uma plataforma de pedra rodeada por muros a toda a volta. Acreditava-se que os espíritos entravam pela porta Sul e o rei e seus oficiais pela porta Este, enquanto os músicos e as dançarinas entravam pelo porta Oeste. É vedado pisar no meio do recinto, apenas acessível aos espíritos. Respeitemos, pois, as tradições. E os espíritos.

Por fim, uma explicação para a existência destes ritos: ao levar a efeito os ritos ancestrais na presença das placas dos espíritos, os vivos poderiam conviver novamente com os mortos. Na Coreia, estes rituais eram prática comum não apenas na corte real, mas também junto dos nobres e até de pessoas comuns. As placas assumiam formas diferentes, conforme o estatuto social do morto, mas eram sempre de madeira de castanheiro. Hoje, sinal dos tempos, são usadas em papel, como podemos ver nos diversos templos pela Coreia do Sul.

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