Seul Moderna

Pode parecer algo estranho iniciar um texto relativo à Seul moderna com um elemento tradicional. No entanto, um dos motivos pelos quais tanto admiramos a cidade é o facto de esta aliar tradição e modernidade de forma tão perfeita que as épocas se misturam e acabam por resultar num conjunto homogéneo. O bairro hanok Bukchon é um bom exemplo disso mesmo.

Há diversos bairros hanok em Seul, como o Insadong, Ikseondong ou Namsangol, mas o hanok Bukchon é o mais tradicional e conhecido e, por isso, turístico. Bukchon significa “bairro do norte”, por referência à sua localização na cidade, entre os Palácios Gyeongbokgung e Changdeokgung e o Santuário Jongmyo. E hanok significa “casa coreana”. É no Bukchon que encontramos o maior conjunto de residências tradicionais de Seul, de madeira e com telhados muito característicos, as quais serviram por séculos de casa aos nobres da dinastia Choson. Até que na década de 1930, já com a dinastia extinta, planos de expansão e modernização da cidade, muito por conta do seu enorme aumento populacional, levaram a uma transformação das casas do Bukchon, por forma a ir ao encontro das necessidades da vida moderna. Com isso, foram introduzidos novos materiais para além da madeira, como o vidro, embora o conjunto não tenho perdido as suas características típicas. Hoje, o bairro é um testemunho da arquitectura e cultura coreanas, mantendo-se ainda residencial, mas com a companhia de uma série de galerias, cafés e casas de chá, e pequenas lojas.

Bukchon
Bukchon
Bukchon

É muito pitoresco, com grande destaque para os telhados duplos sobrepostos, inclinados a baixa altura. Como o bairro se desenvolve ao longo de um monte, acrescem as grandes vistas sobre a cidade. Com um senão: esta imagem poderosa da Seul tradicional em contraste com a Seul moderna é tão desejada e as ruas do bairro tão apertadas que se torna quase impossível poder usufruir da arquitectura e paisagem em tranquilidade. Do mesmo se queixam, obviamente, os seus habitantes, daí que sejam insistentes os avisos para que seja respeitado o seu sossego e privacidade por parte dos turistas em visita.

Templo Jogyesa
Templo Jogyesa

O centro histórico de Seul desenvolve-se ao redor dos elementos arquitectónicos sobre os quais nos debruçámos em anterior post, acolhendo os cinco palácios reais, o Santuário Jongmyo, o edifício da câmara, museus, mercados e, entre outros, o Templo Jogyesa. No bairro de Insadong, este templo, cujas origens vêm do final do século 14, é central ao budismo coreano. Em consequência de um incêndio, foi reconstruído no início do século passado, ainda durante o domínio japonês, mas hoje expressa na totalidade o budismo tradicional coreano, sendo pertença da ordem Jogye, precisamente a mais dominante no país.

Templo Jogyesa
Templo Jogyesa

Apanhámos ainda os resquícios do festival anual de celebração do nascimento de Buda, ocorrido em maio, e, assim, pudemos testemunhar o vibrante colorido das lanternas de papel. É uma explosão de cor, que quase ofusca os dourados do salão principal do templo e as delicadas pinturas das suas portadas.

Parque da Ribeira Cheonggyecheon
Parque da Ribeira Cheonggyecheon

Nesta zona da cidade, para além de algumas ilhas de bairros hanok, há também um aglomerado urbano feito de edifícios relativamente baixos, em especial a norte da ribeira Cheonggyecheon. Suspeitamos que, com a pressão urbanística, não tardará muito até serem totalmente substituídos pelos cada vez mais presentes arranha céus. Na verdade, nas últimas décadas Seul tem sofrido uma autêntica metamorfose, e o projecto do Parque da Ribeira Cheonggyecheon é disso exemplo. É, porém, um excelente exemplo de urbanismo feito a pensar nos cidadãos. Inaugurado em 2005, a reconversão do Cheonggyecheon, com origem na Praça Cheonggye e um caminho de cerca de 10 kms até se encontrar com o rio Han, implicou a destruição de uma via rápida sobrelevada face à ribeira. Veem-se as imagens do antes e não se acredita no agora. Mas o que é certo é que a requalificação do Cheonggyecheon pode ter feito disparar o preço do imobiliário nas imediações, mas tornou as suas margens um lugar para ser vivido e sentido. Podemos caminhar pela promenade que nos guia até à Praça Cheonggye e desfrutar de um ambiente que é, ao mesmo tempo, tranquilo e animado. Um sítio luminoso, literalmente, de encontro ou de introspecção.

Parque da Ribeira Cheonggyecheon
Parque da Ribeira Cheonggyecheon
Parque da Ribeira Cheonggyecheon

Há cascatas, fontes e um quê de bucolismo no meio da metrópole, bem expresso pelas pedrinhas no meio água para atravessar as suas margens. Há até um túnel onde nos sentimos no meio de um aquário, com hologramas de tubarões e peixes variados refletidos na água da ribeira. É tudo? Não. As margens deste espaço público de qualidade foram ainda transformadas em biblioteca, com estantes para retirar livros e cadeiras para nos deixarmos a ler à beira da água. Ao entardecer, o lugar ganha ainda mais vida e luz.

Myeongdong

Vida e luz, dados pelos magotes de pessoas e pelos néons, é o que não falta no Myeongdong, o mais famoso dos bairros comerciais de Seul. Maioritariamente pedonal, o corrupio é intenso. Todos confluem aqui, locais e turistas, lojas de marca e lojas de bugigangas esquecíveis. É a imagem que todos temos da Ásia urbana e moderna. No Myeongdong há ainda muitas opções para se experimentar as delícias da comida coreana, mas o bairro de Euljiro é o melhor para o efeito.

Seoullo 7017

O Seoullo 7017, junto à Estação de Seul, é outro exemplo de boas políticas urbanas e arquitectura pública. Com extensão de cerca de 1 km, é uma linha pedonal elevada, construída no lugar de um antigo viaduto. A Seul da década de 1970 estava carregada de vias rápidas elevadas, uma cidade e um tempo em que o automóvel era senhor. Em 2017 foi inaugurado esta espécie de parque verde urbano. O nome Seoullo 7017 é uma referência à década substituída (70) e ao ano do substituto (17). Mais uma vez, ficaram a ganhar os cidadãos e, agora, todos nós podemos desfrutar de mais um espaço citadino como se estivéssemos no meio da natureza: há jardins urbanos, terraços e diversas espécies de plantas. De forma organizada ou espontânea, músicos vão soltando melodias para acompanhar a nossa caminhada, onde não faltam esplanadas de onde observamos a confusão da cidade que se vai desenrolando de toda uma outra forma abaixo de nós.

Namsan
Namsan Tower
Vista de Namsan
Vista de Namsan

E, de repente, em Seul damos por nós no meio da natureza verdadeira. O Namsan é um dos montes que fazem parte da cidade, o mais central deles e o que tem no topo a omnipresente N Tower. Foi construída na década de 1960, com o propósito original de bloquear o sinal da transmissão da televisão e rádio norte-coreana, mas na década de 1980 foi transformada em observatório. A torre quase duplica a altura da plataforma onde está instalada, mas desde a base as vistas são igualmente grandiosas. Seul é naturalmente bela, ocupada por um mar de construções – prédios e pontes – nos intervalos das montanhas e rio.

Namsam
Galeria Samsung Leeum
Galeria Samsung Leeum
Galeria Samsung Leeum

Para chegar ao topo do monte Namsan podemos utilizar o teleférico ou caminhar num trilho onde em parte foram edificados troços da muralha de Seul. Fomos a pé desde o centro e deixámo-nos envolver pela surpreendente floresta do Parque Namsan, até desembocarmos no bairro de Itaewondong, no sopé a sul do monte. Jovem e rico, é lugar de lojas de um comércio menos popular e de bares e restaurantes da moda. Nele está instalado o Museu / Galeria Samsung Leeum, de cuja arquitectura reteremos a sua incrível escadaria em espiral e de cuja colecção reteremos as delicadíssimas peças de cerâmica celadon da dinastia Goryeo, mas também porcelana buncheong da dinastia Choson. Pura beleza.

Museu Nacional da Coreia
Museu Nacional da Coreia

E, claro, é impossível perder o Museu Nacional da Coreia. Na nova casa desde 2005, este é um dos maiores museus do mundo, pelo que há que dedicar quase um dia para a visita pela história e cultura da península; o tempo será certeiramente bem empregue, deixando-nos mais preenchidos pelo conhecimento adquirido e mais generosos pela arte apreciada – tem até uma pagoda de 10 andares, parte do templo Gyeongcheonsa, em Gaepung, Coreia do Norte, da época da dinastia Goryeo, cerca de 1348. O nosso texto “Breve História da Coreia” foi em grande parte alimentado por esta visita.

Museu Nacional da Coreia

A arquitectura do edifício onde está instalado o Museu Nacional da Coreia é poderosa, com uma monumental recepção logo na esplanada à entrada que deixa ver ao fundo o centro de Seul.

Dongdaemun Design Plaza
Dongdaemun Design Plaza
Dongdaemun Design Plaza

Mas quem gosta de arquitectura espectáculo, tão ao género da malograda Zaha Hadid, não pode perder o Dongdaemun Design Plaza (DDP), bem representativo da Seul contemporânea e cultural. Inaugurado em 2014, é já um símbolo da cidade. A forma ondulada, cheia de curvas, deste enorme edifício em betão, aço e alumínio faz lembrar algo entre uma nave espacial ou um cogumelo gigante. Infelizmente, acabámos por não conhecer o seu interior, limitando-nos a tentar perceber os contornos da sua fachada.

Hongdae
Hongdae
Hongdae
Hongdae

A caminho do rio Han, mas ainda na sua margem norte, o bairro Hongdae é um dos mais populares e frequentados pela juventude. O nome e o seu crescimento teve origem na Universidade Hongik, e a partir da década de 1990 o bairro foi atraindo artistas, em especial músicos, também muito por conta das rendas baixas. Hoje, e apesar da gentrificação ter levado a uma subida dos preços, mantém ainda uma grande dose de irreverência. As lojas vendem tudo o que está na moda, desde roupa, acessórios e cosméticos a brinquedos para aqueles que apesar de já não serem crianças permanecem com esse espírito. Em especial, e é o meu caso, o bairro é um paraíso para os amantes de action figures e colecionadores de bonecos em vinyl. A arte está presente em cada momento, desde o estilo dos seus frequentadores, aos grafittis e artistas de rua. A cena da música indie coreana teve aqui o seu berço, são várias as lojas de música, mas uma das atracções é assistir a uma das actuações de música ou dança informais e espontâneas que frequentemente têm lugar na rua principal do bairro. É entretenimento garantido.

Parque da Linha Florestal Gyeongui
Parque da Linha Florestal Gyeongui

Elemento interessante no bairro é constatar, uma vez mais, o resultado de outro projecto de reconversão urbanística, desta vez pelo enterramento da linha de comboio Gyeongui. Com uma extensão de 6,3 kms, parte do Parque da Linha Florestal Gyeongui passa junto a Hongdae e este é mais um espaço verde urbano por onde podemos caminhar. Há relva, zonas de estadia e equipamentos de lazer e, mais raro, uma obra incompleta, pronta ser moldada pelos próprios cidadãos, conforme os seus interesses e necessidades.

Yeouido
Yeouido
Yeouido

Finalmente ultrapassado o Han para a sua margem sul, espreitamos o rio que deu nome a Seul num dos seus momentos citadinos mais bonitos. A ilha de Yeouido era historicamente um lugar de pastagem e até à construção do primeiro aeroporto na península coreana, em 1924, não tinha muito mais do que areia. O aeroporto já não existe há muito, e a partir da década de 1960 a ilha sofreu uma metamorfose absoluta, com planos de expansão e urbanização deste território. Hoje é o distrito financeiro por excelência de Seul, mas também central à política – a assembleia nacional está nele instalada – e aos media. Há uma série de arranha-céus, sendo o Edifício 63 o mais icónico deles, o mais alto fora dos Estados Unidos da América na época da sua construção, em 1985. Mas o que nos atraiu a visitar Yeouido foi a possibilidade de desfrutar do rio enquanto pedalávamos tranquilamente Parque Yeouido Hangang afora (alugam-se bicicletas no local).

Rio Han
Rio Han
Rio Han
Rio Han

É um espaço muito popular, quer entre locais quer entre turistas, pela beleza natural e construída que oferece. Da beira do rio vamos admirando a panorâmica urbana da outra margem de Seul, enquadrada pelas montanhas. E percebemos que o rio tem plantadas diversas pequenas ilhas. Os pilares das várias pontes que ligam ambas as margens são um espectáculo à parte, tantas vezes personagens do cinema coreano. E, depois, o parque tem uma série de atracções, desde músicos de rua a animar o ambiente, a jogos de luzes e água.

Psy
BTS

Seul é uma metrópole, com uma extensão inimaginável. Apesar de ser dona de uma óptima rede de transportes, combinando linhas de metro e comboio, é garantido que gastaremos algum tempo a aceder a determinados lugares desde o seu centro histórico. Nas longas viagens de metro, vamo-nos entretendo em confirmar que, sim, a indústria da beleza em Seul é fortíssima, a ver pelas muitas miúdas que usam o tempo das viagens na sua rotina do cuidado da pele. Com a ajuda dos acessórios, aplicam os produtos no rosto de forma insistente e repetida, demoradamente, todo um processo que ajuda a que a viagem não demore tanto – para elas e para nós. E assim chegamos a Gangnam, mais rápido do que esperávamos. Gangnam é o bairro tornado famoso por Psy, quando em 2012 lançou a música “Gangnam Style” e pôs o mundo a cantar e a dançar a eletrizante melodia e coreografia. A música é uma paródia crítica ao bairro dos ultra novos ricos. Por entre as maiores lojas de moda de marca, há até uma avenida das estrelas, a K-Star Road, dedicada aos maiores nomes da K-Pop, a música que a Coreia tornou mundial. Nela não falta o boneco de Psy (nem do BTS, o mais famoso dos grupos coreanos), mas noutra zona do bairro, junto aos edifícios Coex e Hyundai Global Business Center (projecto do arquitecto Daniel Libeskind), há ainda uma enorme escultura do gesto dos braços que tornou viral com a sua música e dança.

Gangnam Style
Biblioteca Starfield

O Coex é um multifunções, incluindo centro comercial. Edifício monstruoso, fomos até lá pela curiosidade de conhecer a sua improvável – pela localização e beleza – Biblioteca Starfield.

Templo Bongeunsa
Templo Bongeunsa
Templo Bongeunsa
Templo Bongeunsa
Templo Bongeunsa

Do outro lado da estrada está o Templo Bongeunsa, fundado em 794, ainda no período Silla, e reconstruído 1498, já durante a dinastia Choson, tendo sido destruído durante a Guerra da Coreia, no século passado. É, à semelhança de outros templos coreanos, um lugar vivo, cheio de cor, longe do recolhimento que costumamos assistir nas igrejas católicas. Erigido na encosta de um monte verde, no Bongeunsa tem piada constatar o contraste entre a arquitectura budista e a arquitectura do nosso tempo, feita de arranha-céus de aço e vidro. Estupidamente, por ser o dia semanal de encerramento, não visitámos dos túmulos reais Seolleung e Jeongneung, da Dinastia Choson, património Unesco.

Parque Olímpico
Parque Olímpico
Parque Olímpico
Parque Olímpico
Parque Olímpico
Parque Olímpico

Por fim, e como amantes de desporto que somos, e fãs de Jogos Olímpicos, não podíamos deixar de conhecer o Parque Olímpico, o lugar onde se desenrolaram os Jogos Olímpicos de Seul, em 1988. À entrada oriental do Parque, o edifício em curva com a marca desses Jogos não engana: estamos de volta aos anos 80. Seguimos em modo revivalismo e nostalgia acompanhadas pelas mascotes dos Jogos pela avenida que vai dar aos edifícios onde tiveram lugar as provas de ginástica e, mais adiante, natação. Espreitámos a piscina olímpica e voltámos a perceber com contentamento, como fizéramos em Munique, que é ainda utilizada por todas as classes: jovens e idosos, amadores e profissionais. Nos corredores, diversas fotos dos nossos inesquecíveis heróis, que soube tão bem recordar: Matt Biondi e Janet Evans, mas também a surpresa Antony Nesty e o albatroz de Offenbach, Michel Gross, para além dos míticos russos Salnikok e Polyansk e alemã Kristin Otto. Ao redor da piscina há um lago com caminhos em volta para percorrer, enquanto se descobrem aqui e ali umas esculturas. É um espaço grande e ainda vivido, com muita natureza e arte de permeio. Na vertente sudoeste do parque, junto ao lago Mongchon não perdemos a oportunidade de testemunhar o nome de Rosa Mota e de Portugal inscritos no muro da fama dos Jogos Olímpicos de Seul, a Rosinha tão querida de tantos nós, portugueses, e asiáticos.

Parque Olímpico
Parque Olímpico
Parque Olímpico
Praça da Porta da Paz Mundial
Praça da Porta da Paz Mundial

E, assim, chegamos à entrada monumental, para nós saída, a Praça da Porta da Paz Mundial, com a chama olímpica ainda acesa. Uma despedida em grande desta viagem pelos anos 80, quando ainda não havia certezas do sucesso coreano. Daqui, enquadrados pelo enorme portal desta praça olímpica, espreitam-se os arranha céus da Seul de hoje, incluindo os 123 andares do Lotte World Tower, o mais alto edifício da Coreia e sexto do mundo, prova provada de que a Coreia se cumpriu.

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