Andong

Andong é a capital da província de Gyeongsang do Norte, a sudeste da Península Coreana. Esta região, onde estão, entre outras, as cidades de Gyeongju e Daegu, foi o centro do reino de Silla e é considerada o coração da cultura coreana, preservando tradições e acolhendo festivais. Foi, ainda, o centro do confucionismo coreano durante o período da dinastia Choson e é lugar das aldeias históricas de Hahoe e Yangdong, ambas distinguidas pela Unesco como património da humanidade. E, antes disso, era a região onde a cultura budista estava em pleno florescimento antes do estabelecimento da dinastia Choson, daí a série de templos, estátuas e pagodas que podemos ainda hoje testemunhar, vindos desde o final de Silla até à dinastia Goryeo.

Apesar de capital de província, Andong é uma cidade relativamente pequena e possui um ambiente tranquilo e despojado, muito longe do que imaginamos para uma capital. O centro da cidade não possui monumentos de relevo, mas tem uma série de lojas de grandes marcas, sem que tenhamos conseguido perceber o porquê, uma vez que o tipo de turismo que aqui pára não parece ser o seu público alvo – e as lojas estavam vazias. As ruas são tipicamente Ásia, mas não daquela Ásia das grandes cidades modernas – não há, em Andong, um urbanismo assente em edifícios de arquitectura espetáculo, antes um conjunto compacto de ruas estreitas ladeadas por edifícios baixos. Mas vê-se um cuidado em pontuá-las com elementos de decoração urbana que aludem às tradições locais.

Andong
Andong
Andong

Mais importante, Andong é uma cidade mercado e, nisso, é tipicamente coreana. O tradicional mercado antigo, coberto, vende desde roupa e utensílios para casa a comida, com destaque para produtos frescos como vegetais, fruta e peixe, em especial a cavala, uma das imagens de marca da cidade. E tem uma série de salas / restaurantes onde se pode provar a culinária que colocou Andong no mapa da gastronomia coreana, o Andong-jjimdak, um frango cozido a vapor com vegetais e marinado com molho de soja coreano. Também o soju de Andong, especialmente forte, é motivo de distinção.

Casa Imcheonggak

Do centro saímos a caminhar em direcção ao rio Nakdong, o mais longo da Coreia, que atravessa cidades como Daegu e Busan. Depois de passarmos pelo Templo Haedongsa e respectiva pagoda, ambos contemporâneos, junto ao rio está a Casa Imcheonggak. Foi construída em 1519 por Yi Myeong, oficial do período Choson e lugar de nascimento de Yi Sang-ryong, o primeiro primeiro-ministro do Governo Coreano Provisório durante o período colonial japonês. Agora recuperada, é um dos exemplos da importância histórica de Andong. A cidade terá sido fundada no século 1 a.C. e seria então conhecida como Gochang. Depois, acabou por ser controlada pelo reino de Silla, à semelhança da região, e mais tarde ainda pelos Goryeo que, em 930, lhe deram o actual nome de Andong. Com a chegada ao poder da dinastia Choson, Andong tornou-se um centro do confucionismo, que passou a religião de estado em detrimento do budismo. Não espanta, pois, que a região tenha sido lugar de tantas academias e legado tantos escolares confucionistas, dos mais proeminentes de toda a península. E que as principais famílias de Andong tivessem grande influência na corte Choson e suas políticas, como foi o caso do clã proprietário desta Casa Imcheonggak. No século 17 Andong foi perdendo influência e na década de 1950, durante a Guerra da Coreia, foi palco de uma das mais sangrentas batalhas, que destruiu quase por completo a cidade.

Pagoda de 7 Andares

Mais adiante, igualmente à beira do Nakdong, encontramos a Pagoda de 7 Andares, considerada a maior e mais antiga do género na Coreia. Faria parte do Templo Beopheungsa, construído no século 8, durante o período Silla, tem 17 metros altura e é feita de tijolos de barro. Na base tem esculpidas figuras caras ao budismo.

Já pela outra margem do rio Nakdonggang, seguimos a caminhar em direcção à Ponte Wolyeonggyo e ao Museu do Folclore de Andong, tendo pelo meio a barragem construída na década de 1970 e que levou à deslocalização de muitos, implicando a reconstrução de várias casas e edifícios em perigo de submersão. São cerca de 3 agradáveis quilómetros sempre na companhia do rio e sob vegetação envolvente.

Ponte Wolyeonggyo
Ponte Wolyeonggyo

A Wolyeonggyo é a maior ponte de madeira da Coreia, com 387 metros de extensão, e toma a forma de mituri, o calçado tradicional. Deve o seu nome ao reflexo da lua espelhado na água do rio e é verdadeiramente um momento cénico, sobretudo à noite, que leva muitos a visitá-la.

Perto está o Museu do Folclore de Andong, cujo interior nos dá a conhecer elementos da cultura e tradições locais, incluindo costumes, comida, vestuário, artesanato, ritos de passagem e máscaras. As máscaras são, aliás, uma fortíssima tradição secular da região de Andong, ligada às danças rituais que procuravam garantir boas colheitas e prosperidade – na aldeia histórica de Hahoe é celebrado anualmente o Festival de Danças de Máscaras de Andong.

Pouco além da ponte e museu, um pequeno conjunto de casas tradicionais hanok transforma a visita a este lugar num momento ainda mais prazeroso. São pouco mais de uma dezena de casas, cuidadosamente deslocadas para aqui em consequência da construção da barragem de Andong que, de outra forma, teriam ficado submersas. O conjunto de edifícios em madeira desta pequena aldeia possui um ambiente pitoresco e charmoso, bem representativo da cultura coreana. Deambulamos por eles, rodeados de um cenário natural feito de muito verde, e aproveitamos os seus pátios para repousar, deixando-nos embrenhar na tranquilidade dada por esta singela arquitectura tradicional.

Hahoe
Hahoe
Hahoe

A Aldeia Histórica de Hahoe, a cerca de 25 kms de Andong, está distinguida pela Unesco como património da humanidade. Implantada num ambiente absolutamente natural e rural, são garantidas grandes panorâmicas nesta aldeia tranquila e algo remota. O nome Hahoe alude à sua posição geográfica, “ha” de rio e “hoe” de viragem. Suaves montanhas recortadas por uma pronunciada curva em forma de “U” do rio Nakdong servem de cenário perfeito para o conjunto de casas tradicionais de um piso, feitas de madeira e com telhados de palha. À sua volta, os campos de arroz dão-lhe um ar tipicamente oriental. A aldeia vem já dos tempos da dinastia Goryeo (918-1392), tendo sido a casa do clã Ryu, donde saíram vários escolares e oficiais, incluindo Ryu Unryong, escolar confucionista, e Ryu Seongryong, primeiro ministro no final do século 16. No entanto, nela viviam não apenas nobres, mas também outras classes.

Hahoe
Hahoe
Hahoe
Hahoe
Hahoe

Passeamos pela aldeia, percorrendo as suas ruas e admirando as suas casinhas, algumas delas com sinalização de visita e indicação da sua história. Há ainda a pitoresca igreja e a imponente árvore zelkova, com 600 anos, diz que habitada pela deusa Samshin e com um ritual associado: dar três voltas à árvore, escrever um desejo num papelinho e pendurá-lo num ramo. Mesmo sem desejos pedidos ou cumpridos, é um lugar poderoso, carregado de ambiente.

Hahoe
Hahoe
Hahoe

E a caminho da curva do rio, há espaço para um pequeno pinhal, a Floresta Mansongjeong. Do outro lado do rio, onde se chega após uma curta viagem de barco (que não fizemos, uma vez que o barco estava parado), está o penhasco Buyongdae, com vistas privilegiadas para a aldeia.

Para além da sua beleza natural e património edificado, Hahoe é ainda destaque por ser lugar de origem da tradicional dança de máscaras, crê-se que iniciada ainda durante a dinastia Goryeo. Associada às danças rituais, através dela, investidos de máscaras que representavam diversos personagens, e com o recurso à sátira e humor, os aldeões resolviam as suas questões, assim estreitando os laços sociais entre os cidadãos. A tradição permanece até hoje, com a realização de um festival anual. Mais, à entrada da aldeia está o Museu das Máscaras, com uma colecção com exemplares coreanos e internacionais, incluindo a máscara mais antiga da Coreia, do neolítico, feita de conchas. Como referido antes, esta tradição das máscaras estava ligada a danças rituais através das quais os membros da comunidade procuravam garantir boas colheitas e prosperidade. Mas, com o avançar dos tempos, estas danças de máscaras foram tornando-se também actos performativos em que através do recurso à sátira e à ironia se expunham a hipocrisia e as contradições sociais da classe dominante (aristocratas e até monges budistas). Eram usados diferentes personagens, daí também a diversidade de máscaras que se observa nesta colecção.

Buda Jebiwon
Buda Jebiwon
Buda Jebiwon

Não muito distante de Hahoe ficam algumas academias confucionistas, que acabámos por não visitar. Visitámos, sim, o Buda Jebiwon, também conhecido por Buda Icheon-dong. O nome remete para o passo de mesmo nome onde havia uma estalagem, há muito usada pelos viajantes a caminho de Seul. O especial deste Buda, com provável origem no século 11, durante a dinastia Goryeo, é ter sido esculpido directamente na rocha. Tem a incrível altura de 12 metros, o corpo esculpido numa rocha natural e a cabeça numa rocha separada e colocada em cima daquela. O Buda, Maitreia ou Amitaba, discute-se, está representado com um sorriso benevolente. Para chegarmos até ao pequeno altar na base do enorme Buda percorremos um túnel decorado com coloridas lanternas de papel. Este Buda está rodeado pelo muito verde da floresta, em mais um ambiente natural. Quando a dinastia Choson subiu ao poder na Coreia, no final do século 14, o budismo perdeu influência e os monges foram obrigados a retirar-se para as montanhas. É muito por isso que vemos tantos templos recolhidos nas montanhas.

Templo Bongjeongsa
Templo Bongjeongsa

Um bom exemplo é o Templo Bongjeongsa, um dos templos budistas Sansa na lista de património da Unesco (sansa significa, precisamente, mosteiros na montanha em coreano), que floresceram entre os séculos 7 e 9 e serviram de centros de crença religiosa, prática espiritual e vida das comunidades monásticas. Apesar da supressão do budismo durante a dinastia Choson e a destruição provocada por guerras e conflitos ao longo dos anos, estes mosteiros na montanha permaneceram sítios sagrados e são emblemáticos do budismo coreano. O Templo Bongjeongsa foi fundado no ano 672 por um destacado monge do período do reino de Silla, Uisang, e o seu nome tem origem numa lenda: o monge Neungin terá feito uma fénix de papel e atirado-a para o ar, tendo a fénix tomado vida e voado para longe nas montanhas, pousando exactamente no lugar hoje ocupado pelo Templo Bongjeongsa. A cerca de 15 kms de Andong, é o maior templo da região e tem preservado a cultura budista coreana por 1300 anos.

Templo Bongjeongsa
Templo Bongjeongsa

À entrada no templo destaca-se o pavilhão Manseru, com bombo e dragão e, uma vez mais, o colorido das lanternas de papel. Dele espreita-se o belo cenário da montanha.

Templo Bongjeongsa
Templo Bongjeongsa
Templo Bongjeongsa
Templo Bongjeongsa

Com um pequeno pátio pelo meio, em frente está o Salão Daeungjeon, o edifício principal reconstruído em 1435. Ao lado, está o Geungnakjeon (o Salão do Nirvana), o edifício de madeira mais antigo da Coreia, construído no início do século 13, época da dinastia Goryeo mas com estilo da dinastia Silla Unificada, que já foi o salão principal do conjunto. Estes dois salões estão decorados na parte superior da fachada com os originais murais pintados. Há ainda mais edifícios, incluindo a possibilidade de pernoitar no templo, e uma pagoda em pedra de 3 andares.

Templo Bongjeongsa – Yeongsanam
Templo Bongjeongsa – Yeongsanam
Templo Bongjeongsa – Yeongsanam

A poucos metros do núcleo central do templo, está o Yeongsanam, composto por 5 edifícios estruturados ao redor de uma “praça central” de uma singela beleza plenamente integrada no cenário natural. Chovia e, percebemos depois, é um lugar certeiro para sentir o céu a fechar enquanto se ouvem as gotas a cair no soalho de madeira. Deixámo-nos estar, aguardando que o tempo se tornasse mais simpático para empreender a viagem de volta para Andong. Não aconteceu e, em contrapartida, pudemos experimentar a simpatia acolhedora de uma família coreana (pai, mãe e filho adolescente) que insistiu em oferecer boleia até ao centro da cidade. Com isso, e graças à tecnologia, comunicámos sem entraves e de forma divertida através dos tradutores do telemóvel, ficando a conhecer um pouco da vida destes coreanos. São curiosos e interessados no outro, no fundo, algo que nos é familiar e o que nos faz viajar para tão longe.

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