Grândola

O concelho de Grândola, no Alentejo Litoral, é um território instalado numa planície entre a serra e o mar. Tem 45 kms de praias de areia branca entre a península de Tróia e Melides, mas tem, ao mesmo tempo, vastos lugares de florestas de sobreiros e pinheiros onde se pode caminhar em plena comunhão com a natureza. Desta vez foi este o pretexto para visita à região.

Há uns tempos havíamos andado pela Comporta, entre os concelhos de Alcácer do Sal e de Grândola, e disso demos testemunho aqui no blog. Agora iniciámos as nossas andanças no centro da vila de Grândola, antes de tomarmos a Rota da Serra. O centro histórico rola à volta da Praça Dom Jorge, onde estava instalada a antiga casa da câmara, edifício do século 18 que era igualmente cadeia e tribunal e hoje é propriedade do Partido Comunista Português. O seu edifício marca ainda a urbanidade, com a sua Torre do Relógio com listas vermelhas sobre o branco a destacar-se da praça.

Junto a ela está o edifício que foi em tempos a Igreja e Hospital da Misericórdia, construídos em 1568 e 1603, respectivamente (uma lápide sobre a porta marca à data do hospital). Acontece que no início do século passado a Santa Casa decidiu-se pela construção de um novo hospital e vendeu esta sua propriedade ao lavrador João Rodrigues, que aqui mandou construir em 1934 o Cine-Teatro Grandolense. E, assim, desde essa década o edifício passou a ser a sede da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense – Música Velha, fundada em 1912. Durante 30 anos, o antigo Cine-Teatro foi um dos principais centros de actividade cultural da vila, onde se realizaram inúmeros saraus e récitas de beneficência, sessões de teatro, música e cinema, sempre com o foco na defesa dos valores da liberdade e da democracia, tendo aí marcado presença diversas figuras da oposição ao regime. Foi em 17 de Maio de 1964 que José Afonso lá actuou, tendo ficado impressionado com a dinâmica cultural e com o espírito de liberdade e fraternidade da associação. Em consequência, em homenagem ao povo de Grândola, Zeca Afonso compôs a canção “Grândola, Vila Morena”, cujo poema foi lido pela primeira vez em 31 de Maio desse ano na Sociedade: “Grândola Vila Morena / Terra da Fraternidade / O Povo é quem mais ordena / Dentro de ti ó cidade / Em cada esquina um amigo / Em cada rosto igualdade / Grândola Vila Morena / Terra da Fraternidade / Capital da Cortesia / Não se teme de oferecer / Quem for a Grândola um dia / Muita coisa há-de trazer”. 10 anos depois, a canção veio a ser a senha do Movimento das Forças Armadas na Revolução do 25 de Abril e permanece até hoje símbolo dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. O edifício foi adquirido pela Câmara Municipal de Grândola em 1998 e requalificado em 2010.

A memória da Revolução dos Cravos em Grândola diz presente, também, numa das suas entradas, com o Memorial ao 25 Abril, da autoria de Bartolomeu dos Santos. Na vila, há ainda espaço para o Monumento à Liberdade, de Jorge Vieira, e a escultura dedicada a José Afonso.

Voltando ao centro histórico, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção, em estilo barroco e neoclássico, é de fundação do século 16, anterior mesmo ao foral concedido a Grândola em 1544 por D. João III, embora tenha sido reconstruída posteriormente.

Após a Reconquista Cristã, a região foi cedida à Ordem de Santiago, como recompensa pela sua participação nas conquistas que levaram à formação do Reino de Portugal, e o então “Lugar de Gramdolla” não foi excepção. A sede da Ordem estava em Alcácer do Sal e o termo de Grândola pertencia-lhe. A par da defesa da região, a grande preocupação era povoá-la, e para o efeito a Ordem de Santiago criou a comenda de Grândola, no reinado de D João I, no século 14. Distribuídas as terras, as suas gentes dedicavam-se então à agricultura e à criação de gado, e o lugar foi crescendo, tendo adquirido o estatuto de aldeia. Foi nessa sequência que lhe foi atribuído o dito foral / carta de vila em 1544. A autonomia administrativa e judicial trouxe um ainda maior crescimento, acompanhada da vinda de famílias nobres e profissionais de diferentes áreas. Para além da criação dos já referidos edifícios da Misericórdia e seu Hospital e dos paços do concelho, o lugar foi obtendo alguma importância económica, sobretudo por conta da cultura da vinha e das oliveiras na zona da várzea de Grândola. A Casa Frayão Metello, setecentista, com fachada longa, dois pisos e brasão da família é disso testemunho e uma das mais destacadas da vila. Mais tardia, o actual edifício da Câmara Municipal, novecentista, está junto ao Jardim Dr. Jacinto Nunes e foi originalmente a casa de morada da família deste histórico grandolense por adoção. Ao lado, perto do coreto, estão dois outros exemplos da arquitectura civil desta época, hoje junta de freguesia local.

Até ao século 19, o concelho de Grândola permaneceu eminentemente rural. Após essa data, a sua economia foi alargada à exploração da cortiça e mineira, designadamente nas Minas do Lousal, hoje desactivadas mas com actividade entre 1900 e 1988. Só em 1855 o concelho ganhou costa marítima, com integração da freguesia de Melides.

Voltando um bom bocado atrás no tempo, vale a pena a visita à Igreja de São Pedro, construída no século 16 e tornada escola no século 20, há poucos anos transformada em núcleo museológico municipal. Aqui se viaja pela história da região, uma história longínqua cujo território se crê ter tido ocupação humana desde o Paleolítico. São muitos os testemunhos arqueológicos e certo é que há cerca de 7500 anos, no Neolítico, surgiram por aqui as primeiras comunidades agro pastoris, de que é exemplo Montum de Baixo, em Melides. E as grutas naturais do Lagar e Zambujal, também em Melides, foram utilizadas por estas comunidades neolíticas como espaços de rituais e lugares de enterramento. Há ainda a registar os monumentos megalíticos do Neolítico e Calcolitico da Anta da Pedra Branca, do Lousal e da Pata do Cavalo e, na transição para a Idade do Bronze, a Necrópole de Cistas das Casas Velhas. Por sua vez, dos romanos, que a partir do século 1 a.C. ocuparam a região, dedicando-se à agricultura, pastorícia, exploração mineira e salga de peixe, os vestígios mais relevantes estão nas ruínas romanas de Tróia, um dos mais importantes complexos fabris de conservas de peixe do império romano e o maior do Mediterrâneo ocidental. São também dignos de registo o sítio do Cerrado do Castelo (no centro da vila, no interior de uma escola!), a Barragem do Pêgo da Moura e a Mina da Caveira. Tudo exemplos do rico património histórico-cultural de Grândola.

Feito este enquadramento, saímos então a caminhar pela Rota da Serra de Grândola, um percurso pedestre marcado por uma paisagem que rompe por completo a fama de ser este um território de planície. A poucos passos do centro da vila, logo entramos num montado de sobro de uma extensão surpreendente.

O montado é obra do Homem e é um ecossistema muito rico em valores ecológicos, formando uma paisagem cultural que, no caso do Alentejo, é também parte da sua identidade. Nele domina o sobreiro, mas existem igualmente outras espécies, como azinheiras, outro tipo de carvalhos, pinheiro-bravo e pinheiro manso. A biodiversidade em termos de flora passa ainda por outras espécies, como estevas (já a despontar em pleno Fevereiro), sargaços, medronheiros, carrasqueiros e giestas, mas também ervas aromáticas e cogumelos. Em termos de fauna, não testemunhámos muitos elementos, para além de umas pegadas de javali, e o montado desta serra também não será casa do famoso porco alentejano.

É a cortiça, na verdade, a sua grande mais valia. Já se disse, a extensão de sobreiros é enorme, e a Serra de Grândola tem certamente o seu contributo para que Portugal seja o maior produtor e exportador desta matéria-prima, a única actividade económica em que o nosso país é líder mundial. No caso específico de Grândola, é esta a principal fonte de rendimento das suas gentes e, diz-se, aqui se produz uma das melhores cortiças de Portugal. Até porque os solos da Serra, maioritariamente xistosos, são pouco dados à agricultura, assim surgindo a cortiça como boa opção económica.

A Serra de Grândola tem como especificidade ser paralela à costa, dificultando assim a entrada do ar marítimo. Ainda assim, a influência atlântica faz com que o seu clima seja mais moderado que no interior, até porque o sobreiro, espécie autóctone típica da região Mediterrânica de influência Atlântica, tem a capacidade de diminuir as elevadas amplitudes térmicas e a secura estival características do clima mediterrânico. A Serra não é muito elevada, não passando de uns modestos 326 metros de altitude. Tem, porém, muitas ondulações, daí que ao percorrê-la nos mantenhamos num constante sobe e desce. Sempre agradável, e quase sempre protegidos pelas copas dos sobreiros, abrindo-se aqui e ali panorâmicas para a vila e planície em redor. Destaque absoluto para as cerradas e frondosas manchas de floresta, com troncos elegantes e robustos, muitas das vezes retorcidos.

E a Serra tem alguma água – que costuma secar no Verão – vinda de nascentes ocasionais e, sobretudo, do seu principal curso de água, a ribeira de Grândola, também conhecida por rio Davino.

Outro aspecto curioso é constatar ainda a existência de montes, uns em ruína e outros ainda de pé, aqueles lugares que serviram de primeiro assentamento humano no território alentejano, e expressão da sua ruralidade. Neste caso, veem-se algumas ruínas de construções em taipa.

No alto de um monte a 252 metros de altitude, o Outeiro da Penha, está a Ermida de Nossa Senhora da Penha, uma construção religiosa do século 17 que se tornou local de peregrinação. Não a encontrámos aberta, mas diz que possui uma importante colecção de ex-votos. Daqui tem-se uma bela vista para Grândola.

E no último quilómetro, já à entrada de Grândola, na sua Várzea, os sobreiros dão lugar a um olival tradicional, mesmo junto à margem da ribeira de Grândola.

Mas há efectivamente, muita planície para contemplar na região de Grândola, aquela que se estende até ao rio Sado e onde a cultura do arroz fez história. Um pulo para sul, em direcção à costa Atlântica, leva-nos até Melides e sua lagoa, na fronteira com o concelho de Santiago do Cacém. Para norte ficam as praias de Tróia, Carvalhal, Comporta e Galé, das mais disputadas, por portugueses e estrangeiros.

Ao redor da Lagoa de Melides, a Rota Bio Melides, outro percurso pedestre marcado, obriga-nos a começar por contemplar este plano de água separado do mar por uma faixa de areia. É mais um lugar de grande diversidade de flora e fauna, em especial de avifauna, com mais de 200 espécies identificadas. Um posto de observação permite-nos, em silêncio, tentar identificar algumas delas.

Depois, botas ao caminho, há duna e há pinhal, e em alguns casos os dois ao mesmo tempo. E há a zona de várzea, junto à Ribeira de Melides, dominada pelos arrozais. E, claro, por fim, há o retorno à costa, com grandes vistas desde o cimo da arriba, quer para as falésias rosas junto ao mar quer, mais distante, a Serra da Arrábida.

O longo areal da Praia de Melides tem o oceano de um lado e a lagoa do outro, separados por uma barra dunar. Esta é aberta duas vezes por ano nas marés vivas dos equinócios, assim permitindo diminuir os processos de assoreamento e eutrofização e a renovação e limpeza da água e a entrada de várias espécies piscícolas. A Lagoa de Melides funciona ainda como zona de nidificação e desova de diversas espécies, quer aquáticas quer aves. Um paraíso à disposição de todos, sem precisar de refúgios de ricos e famosos.

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