O rio Vizela nasce nas Serras de Fafe, corre para a Barragem de Queimadela e aldeia de Pontido, entra no concelho de Felgueiras pela povoação de Jugueiros e logo segue curso formando um belo vale em Pombeiro de Ribavizela. Daí, prepara-se para atravessar a sede de concelho que toma o seu nome, Vizela, para se lançar no seu troço final ao encontro do rio Ave, pouco depois da Vila das Aves, já concelho de Santo Tirso. São cerca de 45 quilómetros ao longo de uma paisagem muito diversa, desde as serranias onde a ruralidade impera até à periurbanidade das novas cidades marcadas pela actividade industrial.

Com a nascente no Pico do Morgair (freguesia de Gontim), ponto mais alto do concelho de Fafe, a 894 metros de altitude, o rio Vizela forma-se entre serras. Ao seu redor estão as serras da Cabreira, Gerês e Alvão, e o conjunto de picos mais baixos de que faz parte é designado por Serras de Fafe.



Não muito longe da nascente do Vizela está a Barragem da Queimadela, inaugurada na década de 1990, e que através do aproveitamento das águas deste rio abastece Fafe. Mas não é pela obra de engenharia que a visitamos, antes pela sua envolvente, muito acertadamente transformada em espaço de lazer. Há um parque de campismo, uma praia fluvial e um caminho, ora de terra batida ora de passadiços de madeira, ao longo de todo o perímetro que margina a Barragem. A paisagem é serena, com o elemento água acompanhado de uma vegetação que, a dado passo, se revela um bosque cerrado. Há até umas cascatinhas para compor o cenário.



E há, ainda, uma pitada de herança cultural e etnográfica por conta da recuperação de uma aldeia antiga que havia sido abandonada há décadas. A aldeia do Pontido, à beira do rio Vizela e escondida na densa vegetação, viu a sua meia dúzia de edifícios em granito restaurados e colocados à disposição de alojamento em espaço rural. É um recanto de tranquilidade onde, para além das casas (uma delas restaurante), foram recuperados o moinho e o pisão, ambos engenhos que aproveitavam a força da água para o seu labor, entretanto caídos em desuso. Numa sociedade cuja economia assentava primordialmente na agricultura e na pastorícia, no moinho eram moídos os cereais e no pisão eram pisadas as lãs a partir das quais era produzido um tecido conhecido por burel que, por sua vez, era depois transformado em peças de vestuário. Em tempos que já lá vão, era comum as famílias terem ovelhas que forneciam a lã tão necessária para produzir os agasalhos que serviriam de defesa do frio das serras.



Ainda nas Serras de Fafe, onde é realizado o famoso Rally de Fafe e Felgueiras, encontramos a Casa do Penedo, por alguns considerada a “casa mais estranha do mundo”. Instalada numa zona de planalto, sem árvores e recheada de grandes blocos graníticos – e muitas turbinas eólicas -, a Casa do Penedo foi construída em 1974 como casa de férias de uma família de Guimarães. Foram aproveitados 4 grandes rochedos que, na verdade, se confundem com a própria casa. Na sua origem, a ideia era mesmo essa, a de criar um elemento que passasse despercebido, tal a comunhão com a natureza que a envolve. Possui, ainda, perto, uma piscina, o que faz da propriedade um elemento verdadeiramente estranho, mas feliz.


A cidade de Fafe, instalada num vale, não é banhada por nenhum rio, mas tanto o Vizela como, sobretudo, o Ferro, seu afluente, passam perto. No século, 19 Fafe viu muitos dos seus habitantes abandonarem a região com a emigração para o Brasil, mas esses “brasileiros” moldaram, ainda assim, a arquitectura da povoação. Com efeito, ao enriquecerem em terras de além mar, decidiram, em troca, investir na construção de casas na sua terra natal. Até hoje, essa arquitectura domina o cento histórico de Fafe (e muitos outros pontos da região).


Um dos maiores exemplos de “Casa de Brasileiro” é a Casa do Santo Novo, construída em 1869 e hoje Casa da Cultura e Museu da Emigração e das Comunidades. É um palacete neoclássico, com um largo terreiro diante a fachada principal, revestida a azulejo, acompanhado por um chafariz central. Adquirido pela Câmara Municipal de Fafe, este espaço é hoje público. Não visitámos o interior, encerrado à nossa presença, mas parece que apesar de muito alterado (tal como os corpos do conjunto do palácio, que era maior), conserva a escadaria monumental e decorações a estuque quer nas paredes quer tectos dos seus salões.

Ao lado, está a Casa de João Alves de Freitas, também conhecida por Palácio do Grémio, por aí ter estado instalado o Grémio da Lavoura, depois propriedade da Cooperativa dos Agricultores de Fafe. Hoje, à semelhança do seu vizinho, é propriedade da Câmara Municipal. Este palacete é também uma “Casa de Brasileiro”, construído já no século 20 e de influência neoclássica. Nele destaca-se o torreão num dos lados da fachada principal e duas palmeiras nas traseiras, este último um elemento muito querido a estes “brasileiros”.

Ainda mais no coração de Fafe, junto à Praça 25 de Abril e ao Jardim dos Presidentes da República, estão diversos exemplos de “Casas de Brasileiros”. Os três exemplos que daremos são todos eles edificações oitocentistas, com 3 pisos – o térreo destinado a espaço comercial e os demais a residência -, fachadas revestidas a azulejo e data de construção inserida nessa mesma fachada. A primeira, a Casa de António Joaquim Novais Coutinho, foi construída em 1882, toma as cores da bandeira do Brasil, e o último piso seria originalmente destinado a pensão. Após ter perdido toda a sua fortuna, o proprietário acabou por suicidar-se na Amazónia e, depois, parte do edifício foi arrendado ao Club Fafense.


As outras duas estão lado a lado e são ambas Casas de Fortunato José de Oliveira, construídas por este rico comerciante e proprietário de quintas em Fafe, uma em 1860 e a outra em 1862. Acabaram unidas e serviram de residência da família e centro de animação social e política: em 1906 e 1907 o rei D. Carlos foi aqui recebido e conta-se que entre o recheio da casa estavam lustres de cristal de Veneza e porcelanas chinesas e da Vista Alegre, parte delas adquiridas especialmente para receber o rei.



Para além das “Casas de Brasileiros”, em Fafe há ainda que apreciar a fachada da Casa do Santo Velho, uma casa nobre barroca construída no século 17 – é uma das mais antigas da cidade. Possui um portal com brasão com as armas das famílias que estiveram na origem da sua fundação, para lá do qual se espreita o pátio e a fachada da casa (com as dependências agrícolas no piso térreo e as habitações no primeiro piso) – destaque para a enorme chaminé. A capela contígua é posterior e da Casa faziam parte uma série de quintas: a propriedade era extensa e a urbanização de Fafe levou à sua desintegração. Aliás, a este propósito, este solar é conhecido por Casa do Santo Velho por oposição à Casa do Santo Novo, construída mais tarde por um seu proprietário em terrenos de uma das quintas.




Por Fafe, passámos ainda diante do Tribunal, onde está a escultura representativa da Justiça de Fafe , aludindo ao lema “com Fafe ninguém fanfe”. E pelas suas duas igrejas, sendo que a Igreja Nova de São José, em estilo neo-gótico, é obra do arquitecto Ernesto Korrodi. Já com a noite a cair, não demos pela fachada do Cine-Teatro, pintada em tons rosa e com desenhos que demostram o amor às artes, este que foi um dos últimos edifícios construídos por iniciativa de um “brasileiro”, em 1923, e entretanto restaurado, tendo-lhe sido acrescentada uma enorme estrutura em vidro na fachada lateral. Pelo contrário, ainda fomos a tempo de passear pelo Jardim do Calvário, também de iniciativa de “brasileiro”, um espaço murado e sereno, com coreto ao meio, lago e várias espécies de árvores, com destaque para as camélias.

À saída de Fafe, depois de nos deliciarmos com o pão de ló da Doçaria de Fornelos, espreitamos mais um monumental solar barroco, a Quinta da Luz, cuja fachada principal é antecedida por um vasto terreiro com chafariz com estatuária ao centro e uma fonte numa das laterais. Na fachada destaca-se a enorme pedra de armas, as grandes colunas de granito e uma profusa decoração, bem como a escadaria dupla que dá acesso à entrada da casa. O solar terá sido construído no final do século 17 por uma família nobre da região, os Fidalgos da Luz, distinguida pelo rei D. José pelos serviços prestados à nação, e hoje é uma daquelas villas de turismo de luxo que se pretendem exclusivas.


A menos de 5 minutos de viagem de Fafe está a Igreja de São Gens, na freguesia de mesmo nome. A curiosa implantação do seu campanário, aproveitando o remate de um penedo, fez-nos desviar no caminho para a conhecer, e não nos arrependemos. É mais uma bela imagem para a nossa colecção de “edifícios na pedra”. Originalmente, o Mosteiro de São Bartolomeu e São Gens de Montelongo terá sido construído no século 11 e logo extinto, mantendo-se a sua igreja que, por sua vez, acabou por ser muito alterada no século 18, tendo-lhe sido introduzidos elementos barrocos e neoclássicos. Apesar de não fazer parte da Rota do Românico, preserva, porém, elementos desta época, nomeadamente, no portal lateral da igreja, composto por duas arquivoltas com capitéis com motivos zoomórficos e fitomórficos.

De Fafe seguimos para Jugueiros, já no concelho de Felgueiras, de que daremos conta no post seguinte.