Porto Santo – 1a Parte

Preparamo-nos para aterrar no Porto Santo e, com o tempo limpo, vemos desde o céu uma porção de território que cabe por inteiro sob o nosso olhar. Terra castanha banhada por um azul magnético. Já com os pés assentes na ilha, haveríamos de perceber que ela não é apenas árida, tem pequenos recantos de floresta, mas o mar, esse, é mesmo atraente. Acontece que, talvez pouco reconhecido, o Porto Santo é muito mais do que praia e lazer, com variados picos e miradouros naturais de uma quantidade surpreendente para a sua modesta área. Assim como as paisagens igualmente variadas, todas de uma beleza especial.

Porto Santo

A forma da ilha do Porto Santo, parte do arquipélago da Madeira, é muito curiosa. Com 12 kms de comprimento e 6 kms de largura máxima, a sua zona central é aplanada e tem a sul o Pico de Ana Ferreira e a norte os mais altos Pico do Facho e Pico do Castelo e, sobretudo, arribas rochosas abruptas. Está rodeada de 6 formosos ilhéus plantados no mar a curta distância da terra e possui uma longa praia de areia dourada com quase 9 kms de extensão. Amiúde se ouve que a ilha é pequena, correcto, e que nada mais tem do que praia, totalmente errado. A este propósito, ouso desenvolver uma “tese”: a maioria das pessoas vai para o Porto Santo em busca da praia e, provavelmente, não passará daí; uma vez na areia, olhará para norte e avistará uma sucessão de picos, com destaque para os já referidos Pico do Facho e Pico do Castelo, mas também para o Pico do Maçarico e seu vizinho Ilhéu de Cima, e facilmente pensará que nada mais haverá para além deles. Quanto muito irão até ao Miradouro da Portela para apreciar as vistas e os moinhos tradicionais. Pois bem, a área para além de todos estes elementos pode não ser extensa, mas é de uma beleza surpreendente e a prova de que a ilha não se basta com a realmente fantástica praia. E será uma pena que não se a chegue a conhecer.

Miradouro da Portela

Geologicamente, o Porto Santo é uma ilha mais antiga do que a Madeira e está muito erodida – esta é outra das suas grandes atracções, constatar as formas que tomou na sua vida milenar. A primeira do arquipélago a ser descoberta, em 1918 João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, andaram à deriva no mar e aqui chegados encontraram um abrigo seguro, um Porto Santo. Mandada povoar pelo Infante Dom Henrique, com gente que veio sobretudo do Algarve, Bartolomeu Perestrelo foi o seu primeiro capitão donatário. A sua filha, D. Filipa Moniz, haveria de casar com Cristóvão Colombo e, diz-se, foi aqui que o navegador preparou a sua viagem até às Américas. Na Vila Baleira, maior povoação da ilha, está a Casa Colombo / Museu de Porto Santo, a casa onde Colombo terá habitado, hoje transformada em museu. A sua arquitectura, em pedra, e jardim com dragoeiro faz-nos (bem) sentir numa ilha da Macaronésia. E através da colecção exposta no seu interior podemos fazer uma viagem pela história da ilha, quer geográfica quer etnográfica.

Moinhos

O povoamento do Porto Santo não foi fácil, desde sempre condicionado ao isolamento geográfico e a recorrentes saques de piratas e corsários. A economia nunca conseguiu desenvolver-se, tendo tido contra si a escassez de água pela fraca pluviosidade, a reduzida área agrícola e terrenos secos e pouco férteis. Houve alguma criação de gado, em especial o bovino, e foram implementadas culturas de sequeiro, como trigo, cevada e centeio. Mas não chegaram para que os períodos de fome não fossem persistentes. Um dos elementos mais característicos da paisagem de Porto Santo são os seus típicos moinhos. As atafonas (moinhos manuais ou de força animal) terão surgido logo por volta de 1501 e os moinhos de vento a partir da década 1790, alguns deles ainda resistem na paisagem, uns restaurados outros nem por isso, memória de um tempo em que estas estruturas aproveitavam o vento nesta ilha relativamente baixa para a moagem de cereais para o fabrico do pão.

Largo do Pelourinho
Casa Colombo

O pitoresco Largo do Pelourinho é o núcleo central de Vila Baleira e, para além da Casa Colombo, acolhe a Igreja Matriz, a antiga Casa da Câmara e Cadeia (do século 16), o novo edifício da Câmara Municipal e Centro de Congressos. Pouco mais adiante está a Escola da Vila, a antiga escola primária da ilha, desactivada em 2018 e entregue pela Câmara Municipal do Porto Santo à associação cultural Porta 33, centro de arte contemporânea do Funchal, que a transformou num espaço cultural e de residências artísticas. Construída entre 1965-68, no tempo do Estado Novo, o projecto da escola foi entregue ao arquitecto Raul Chorão Ramalho. Os traços modernistas são evidentes, em especial no uso do betão e no desenho dos pátios ligados por palas. Para a história deste edifício, que poderá vir a tornar-se no primeiro na ilha classificado como património cultural, dois pormenores que dizem muito do avanço para a sua época: entre as 4 salas e 2 blocos havia 1 pátio que nunca chegou a ser dividido entre rapazes e raparigas – aqui todas as crianças brincavam juntas no recreio – e cada uma das salas de aula possuía um espaço complementar para aulas ao ar livre.

Escola da Vila

Curioso como neste centro “urbano” sentimos desde logo a presença tão próxima do Pico do Castelo e como iremos constatar que este assume formas tão diversas, dependendo do ângulo de onde se observa – neste, é um autêntico e perfeito cone.

Promenade
Pier

Depois de nos lambuzarmos com umas irresistíveis lambecas, o muito característico gelado da ilha, seguimos em direcção à promenade e ao pier / cais. A caminho, as estátuas do Infante Dom Henrique e de Cristóvão Colombo vão desfilando, até chegarmos ao Padrão dos Descobrimentos, conhecido pelos locais por “pau de sabão”. O pier foi construído em 1929 e restaurado na década de 1990. É um ícone da ilha, com 102 metros de comprimento apontados ao mar.

Praia do Porto Santo
Praia do Porto Santo
Praia do Porto Santo
Balneários

Não há dúvida de que o mar, e em grande parte a sua praia, é a grande estrela do Porto Santo, em especial quando observado desde o pier. Quer para norte quer para sul, destaca-se a longa língua de areia fina e dourada, acompanhada de um mar azul turquesa cristalino. A aridez dos picos que compõem a paisagem são um parceiro perfeito. A praia é óptima, não apenas para estender a toalha e dar uns mergulhos, o que se pode fazer durante quase todo o ano, mas também para umas agradáveis caminhadas (a não perder o balneário colorido sobre o areal, mais um projecto do arquitecto Chorão Ramalho). Para além disso, as areias da praia do Porto Santo são reconhecidas como únicas no nosso país, o resultado de um processo geológico com milhares de anos que permitiu a acumulação de arenitos pelo vento. E tem, ainda, qualidades terapêuticas.

Vista do Pico Ana Ferreira
Pico Ana Ferreira
Pico Ana Ferreira – disjunção prismática

O que não falta na ilha são fenómenos geológicos e geomonumentos que suscitam o interesse de qualquer um, mesmo que leigo na matéria. O Pico de Ana Ferreira é um deles, na parte sul do Porto Santo, acima do campo de golfe. O ponto mais alto deste monumento natural de forma longada está a 283 metros de altitude e este relevo em forma de crista com cerca de 1.100 metros de extensão é constituído por rochas magmáticas que ao arrefecerem formaram a disjunção prismática de basalto – o magma consolidado – que hoje vemos. Estas colunas prismáticas parecem uma espécie de tubo de órgãos, fazendo deste um lugar raro no nosso país.

Pico Ana Ferreira – gruta

Pelo Pico de Ana Ferreira há ainda a descobrir uma célebre gruta – a subida até lá permite-nos grandes vistas, mas uma vez dentro da gruta obtém-se uma imagem que já vem sendo clássica. E, diz a lenda, o nome do Pico deve-se a esta gruta, o lugar onde a filha bastarda de D. João II, Ana Ferreira de seu nome, ter-se-á refugiado dos ataques dos piratas.

Ponta da Calheta
Ponta da Calheta
Ponta da Calheta

A vertente sul da ilha marca o final da longa praia de areia do Porto Santo, na Ponta da Calheta. À beira mar, algumas rochas tomaram umas formas e cores que não nos cansamos de apreciar e explorar. O Ilhéu de Baixo (ou da Cal) está mesmo ali, com o canal do Boqueirão de Baixo a dividir as porções de terra – são apenas 400 metros a separá-los, dá vontade de nos metermos a nadar ou num barco e ir descobrir este formoso ilhéu, a quem tiraremos melhor as medidas de um ponto mais altaneiro. Há cerca de 10.000 anos ter-se-á separado da ilha principal, em consequência de fenómenos erosivos, e é também conhecido por Ilhéu da Cal, por há tempos terem sido dele extraídas rochas calcárias, usadas na indústria da cal.

Miradouro das Flores

A Ponta da Calheta é dos melhores pontos na ilha para se apreciar o por do sol, seja na areia ou na esplanada do restaurante local. Ou desde o Miradouro das Flores, imediatamente acima no Cabeço do Zimbralinho, com panorâmicas de tirar o fôlego, quer para toda a ilha do Porto Santo quer para o Ilhéu de Baixo. Veem-se até a Madeira e as Desertas, ao fundo.

Ilhéu de Baixo
Pico Ana Ferreira
Praia do Zimbralinho

Sobre a arriba, caminhamos em direcção à Praia do Zimbralinho, primeiro junto à costa, com a tal vista superior do Ilhéu de Baixo, depois contornando o pequeno vale, com vistas para o Pico Ana Ferreira e para o Pico do Espigão, e novamente junto à costa. O cenário é de aridez, castanho claro cor da terra, mas consegue-se a companhia de alguma vegetação. Muito expostas ao vento, a erosão é evidente, daí que não seja aconselhável descer até à Praia do Zimbralinho. Não o fizemos, e apanhámos a encosta e praia já em sombra, não a percebendo em toda a sua beleza, este que é mais testemunho da atividade vulcânica. Ainda assim, deu para perceber que o Porto Santo não tem apenas praias de areia fina, tem também praias de seixos.

Ponta da Canaveira e Ilhéu do Ferro
Costa ocidental

Mais a sudoeste está a Ponta da Canaveira e daqui conseguimos observar parte da costa ocidental da ilha, bem como outro ilhéu a curta distância, desta vez o Ilhéu do Ferro, com farol nele instalado.

Morenos

Este é o lugar de outro dos geomonumentos do Porto Santo, os Morenos, com as paredes das falésias a apresentarem filões de natureza basáltica e traquítica, as quais interceptam rochas vulcânicas submarinas. Perto veem-se ainda fósseis de gastrópodes.

Fonte da Areia – miradouro
Fonte da Areia – formações rochosas
Fonte da Areia – formações rochosas
Fonte da Areia – formações rochosas

Um salto no espaço e vamos mais para norte, mantendo-nos ainda na vertente este da ilha. A Fonte da Areia, junto ao aeroporto, é lugar de miradouros e formações rochosas também de interesse geológico. A sua arriba é constituída por depósitos sedimentares (arenitos calcários) que são o resultado do transporte e acumulação de areias pelo vento. Nestes arenitos acumulados pelo vento observam-se fósseis de corais (como fragmentos de conchas, de ouriços, de algas calcárias e de foraminíferos) que, por sua vez, foram formados pelos efeitos erosivos do mar durante a Glaciação de Würm, quando o nível médio do mar se encontrava abaixo do atual, há cerca de 30.000 a 18.000 anos atrás.

Fonte da Areia – dunas
Fonte da Areia – dunas
Fonte da Areia – dunas

A Fonte da Areia é ainda o lugar de um mini deserto, onde as areias são maioritariamente compostas por dunas, onde aqueles fenómenos geológicos também podem ser observados.

Porto das Salemas
Porto das Salemas
Porto das Salemas
Porto das Salemas
Porto das Salemas

Mais adiante está o Porto das Salemas. Convém avisar que não é para levar o carro até lá abaixo, junto ao mar, tão acentuado que é o desnível da estrada de terra. Dada a pendente, não se pode dizer que a curta caminhada seja fácil, embora o que nos aguarda mereça o esforço que, advínhamos desde logo, a subida vai implicar. É, necessário, porém, visitar-se esta pequena praia rodeada de falésias escarpadas na maré baixa – só assim se sentirá na perfeição a beleza deste lugar cheio de piscinas naturais. Por sorte, a manhã de céu limpo permitiu ainda que o sol incidisse sobre a água destas piscinas, tornando-a cristalina e criando uns incríveis reflexos. Mas há mais piscinas naturais na ilha, como veremos em post seguinte.

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