Terras de Sicó – Condeixa e Penela

As Terras de Sicó, no centro de Portugal, são dominadas por um maciço calcário ao redor do qual a história e a cultura se desenvolveram desde há séculos num cenário cheio de fenómenos cársicos curiosos. O seu território estende-se ao longo de seis concelhos – Condeixa-a-Nova, Penela, Soure, Pombal, Ansião e Alvaiázere – e em cada um deles há muito para nos surpreender.

O ponto que leva o nome Serra do Sicó fica no concelho de Pombal, a 553 metros de altitude, mas nem sequer é o mais alto dos vários montes que compõe o conjunto do Sicó. Esse fica na Serra de Alvaiázere, a 618 metros de altitude. De qualquer forma, não é tanto a altitude que mais nos marca num passeio por esta região ondulada. É antes o facto de ser lugar de memória da ocupação romana e medieval, de ruínas e castelos, de buracas, dolinas e lápias e de ovelhas e cabras que, juntamente com a flora autóctone, dão um queijo saboroso. A paisagem é pontuada por muitas oliveiras e algumas vinhas, cortesia dos romanos.

Comecemos por aqui, pelos romanos.

Na vila de Condeixa, concelho de Condeixa-a-Nova, o museu PO.RO.S – Museu Portugal Romano em Sicó, inaugurado em 2017, é um centro de interpretação multimedia e interactivo dedicado à história e ao património romano em Portugal. Aqui se faz o enquadramento do papel dos romanos, começando por nos mostrar que foram eles que construíram uma das primeiras sociedades globais à escala do mundo então conhecido. O Império Romano durou mais de 5 séculos no ocidente e 10 no oriente, e a sua capacidade de organização, a sofisticação das suas cidades, a engenharia das suas estradas e pontes levou à assimilação e integração de diferentes povos sem que, no entanto, perdessem a sua identidade. Os romanos chegaram às Terras de Sicó em 136 a.C. e, para além de Conímbriga, havia ainda perto dela a Seilium (Tomar) e a Collippo (Leiria), que em conjunto administravam as Terras de Sicó, e vilas como o Rabaçal e Santiago da Guarda. Nesta região passava a via mais importante da Lusitânia, a via imperial e militar que ligava Olisipo (Lisboa) a Bracara Augusta (Braga). Mas a região, e Conímbriga em especial, beneficiava ainda do rio Mondego e seus afluentes, que traziam os barcos com gentes e bens. Os romanos deixaram diversas influências, ainda hoje sentidas. Ao longo da exposição são-nos lembradas diferentes expressões que ainda hoje fazem parte do discurso do dia-a-dia, como “Roma e Pavia não se fizeram num dia” ou “quem tem boca vai a Roma”. O latim como origem da nossa língua, a numeração romana, o hábito da escrita, muitas expressões no direito, as leis em geral, o pão e o vinho e o cristianismo e valores civilizacionais são marcas incontornáveis do que somos como povo 2000 anos depois.

Este Museu PO.RO.S está instalado na antiga casa da Quinta de São Tomé, uma quinta agrícola do século XVI com capela privativa e janelas de moldura manuelina. Uns moinhos de água que estiveram em funcionamento até à década de 1970 aproveitavam a ribeira de Bruscos, a qual ainda marca presença e cuja envolvente foi transformada em parque verde.

Conímbriga, claro, é a rainha das ruínas romanas no nosso país, aquela que muitos de nós visitaram em idade escolar. Décadas depois, voltámos. Em Condeixa-a-Velha, este é o mais bem conservado e o melhor exemplo de uma cidade da época romana em Portugal. O seu povoamento teve origem antes dos romanos, na Idade do Bronze (finais do 2° milénio e início do 1°), e o topónimo “briga” remete para os celtas, mas foram os romanos que a alteraram e elevaram significativamente em termos urbanísticos. Conquistada a região por volta de 136 a.C., o sítio de Conímbriga tinha condições naturais de defesa e uma boa rede viária e a cidade foi fundada nos últimos anos a.C., no tempo do imperador Augusto. Atingiu o seu esplendor na segunda metade do século I, época da construção do fórum, das termas e do aqueduto, e tornou-se capital e manteve-se romana até 468 d.C. A ameaça dos povos bárbaros no século IV levou à fortificação da cidade e, em consequência, à redução da sua área urbana. Entrou em decadência e com o tempo foi perdendo relevância para Coimbra, a Aeminium dos romanos, sendo completamente abandonada na Idade Média. Em 1873 foram iniciados os primeiros trabalhos de escavação arqueológica e as visitas ao público acontecem desde 1930. A par do sítio arqueológico, visitamos também o Museu Monográfico.

Conímbriga foi uma cidade de média dimensão, que não deve ter ultrapassado os 6000 habitantes. Era uma típica cidade romana e um percurso – nem sempre óbvio de seguir – permite-nos hoje caminhar pelo que dela resta. Começámos por espreitar um troço bem conservado da antiga via romana, formado por grandes lajes calcárias. Logo à sua beira, duas das residências de aristocratas, de dimensões modestas: a Casa da Cruz Suástica (considerado pelos romanos um símbolo solar de boa sorte) e a Casa dos Esqueletos, ambas com belos mosaicos.

Para lá do muro de pedra está a Casa atribuída a Cantaber, uma residência enorme, espécie de palácio. E as Grandes Termas estão num canto do recinto, acompanhadas ainda hoje por uma bela paisagem.

Vamos espreitando os vestígios de diversas insulae, as casas dos habitantes menos abastados, por contraponto aos domus, até chegarmos ao fórum, o lugar central das cidades romanos, onde se concentrava a religião, magistratura, poder, política e comércio, quase sempre composto por templo e basílica. De fórum de Conímbriga restam apenas as fundações do templo e a praça central rodeada por pórtico de que se reconstruíram terrivelmente 3 colunas. Grande desilusão por esta opção foi um sentimento forte partilhado pelas manas, que apenas se recompuseram diante da Casa dos Repuxos, já para lá das muralhas e do arco do Aqueduto e das suas termas, espaço transformado em 2006 em recinto de espetáculos.

A Casa dos Repuxos é a grande residência aristocrática de Conímbriga e o ponto alto da visita às suas ruínas. Apesar da não muito bonita cobertura instalada em 1986, percebe-se na perfeição a forma e a elegância do peristilo (a galeria de colunas à volta do pátio) onde um conjunto de repuxos e mosaicos faziam certamente as delícias dos seus proprietários e visitantes – mesmo quase 2000 anos depois. Ambos produziam um efeito estético e decorativo maravilhoso, estando aqui presentes sobretudo três temas que permitem perceber o que mais valorizavam estes aristocratas: mitos heróicos, ciclo de baco e caça.

No Museu Monográfico podemos conhecer algumas das actividades que marcavam a economia e o quotidiano dos habitantes da cidade, bem como peças e objectos arqueológicos nela recolhidos.

Perto de Conímbriga encontramos o Castellum de Alcabideque. A nascente de Alcabideque, uma exsurgência natural de grande volume, traz à superfície a água que a bacia cársica aqui existente capta ao longo do Inverno. Nos primeiros anos do século I d.C., os romanos rodearam esta nascente por um passadiço em betão de argamassa de cal, com as comportas de regulação do fluxo da ribeira na base, e construíram uma torre de protecção do poço de decantação e limpeza das águas captadas, o castellum. O aqueduto que abastecia Conímbriga tinha aqui o seu início.

Voltando à vila de Condeixa, vale bem a pena caminhar pelas suas ruas e constatar a quantidade de palácios brasonados que aqui ganharam raízes, como o Palácio dos Almadas (antiga Pousada de Portugal, hoje Conímbriga Hotel do Paço), o Palácio dos Lemos (ou Sotto Mayor), de longa fachada e com capela, ou o Palácio dos Figueiredos, hoje paços do concelho, mesmo ao lado da Igreja Matriz e diante da Casa Museu Fernando Namora, escritor aqui nascido.

Rumo à natureza, se a norte do concelho podemos visitar o Paul da Arzila, desta vez seguimos para sul ao encontro da Serra de Janeanes. Povoado típico do Sicó, com edifícios em pedra, aqui fica um dos característicos moinhos de vento da região (mas há mais, como pelo menos os moinhos do Outeiro, em Santiago da Guarda, e o moinho do Monte da Ovelha, em Pousaflores, ambos concelho de Ansião, e os moinhos das Corujeiras, em Abiul, concelho de Pombal). Parte da identidade local, a maioria foram abandonados pelas mais recentes indústrias e deixados aos bons humores do clima. Mas a pouco e pouco têm vindo a ser restauradas e o moinho da Serra de Janeanes lá está altaneiro, recuperado e inaugurado em Julho de 2022. Se não é já usado para a moagem de milho e trigo para o fabrico do pão, este exemplo de moinho de vento mais arcaico, pequeno e frágil, originalmente instalado em 1948, é muito pitoresco, mesmo que as suas velas não estivessem abertas a girar – aliás, estes moinhos são conhecidos como “moinhos giratórios”. E o panorama do alto desta serra é deveras bonito.

Abaixo e pouco distante fica o Casmilo e o seu Vale das Buracas.

Lugar surpreendente, este canhão fluviocársico é um dos pontos altos de uma visita ao Maciço de Sicó, sobretudo a nível paisagístico, aqui se percebendo na plenitude os fenómenos cársicos e alterações que produziram no relevo. Uma série de grutas circulares apresentam-se escavadas nas paredes rochosas de ambos os lados do vale. A explicação para este processo natural não é unânime. Há quem defenda que neste vale existia um rio e um glaciar teria levado a um processo de gelifracção (fragmentação da rocha por acção do gelo), levando a que a água que se encontrava nos interstícios da rocha tenha congelado e descongelado repetidamente até se fragmentar. E há quem defenda que a água que por aqui corria foi corroendo a rocha e este processo de incasão resultou na erosão da rocha e levou ao seu abatimento, daí o surgimento destas grutas – as buracas.

São autênticos salões de visita que chegam a atingir 10 metros diâmetro e 5 metros profundidade. Não nos limitámos a espreitá-las de fora, não resistindo a nelas adentrar, talvez procurando imitar os pastores que as terão usado como refúgio para si e para os seus rebanhos, que ainda hoje deambulam pela região.

Não é apenas a paisagem que faz o lugar, mas também o modo como nele vivemos. Território de pedra, é no fundo dos vales secos e das depressões cársicas que estão os solos aptos à agricultura e foi aí que as aldeias e suas gentes se instalaram, tirando a maior parte do seu sustento destes campos, numa relação íntima com a paisagem. No Casmilo existem umas dolinas, depressões no solo formadas pela dissolução dos calcários, as quais resultam visualmente numa espécie de pequenos lagos capazes de conservar água durante parte do ano, servindo de bebedouro aos rebanhos.

Igualmente típico das regiões cársicas, podemos aqui admirar as Lapiás do Casmilo, um “deserto de pedras” com rochas de arestas afiadas e rudes motivadas pela acção química e erosiva da água.

E se há por aqui tanta pedra, não admira que outra das características do Sicó sejam, precisamente, os muros de pedra seca, os moroiços, usados para delimitar os campos de agricultura de sequeiro que aqui se praticou e pratica ainda hoje num escala muito menor.

Do outro lado do Casmilo e da Serra de Janeanes, na vertente este, fica o Rabaçal, já concelho de Penela. Esta é uma das localidades onde podemos encontrar uma das queijarias que produzem o queijo mais famoso do Sicó e que leva, precisamente, o nome Queijo Rabaçal DOP. A erva de Santa Maria, uma planta aromática aqui abundante que é uma espécie de tomilho espontâneo e que serve de alimento para os rebanhos de ovelhas e cabras, faz com que este queijo tome um sabor distinto. A origem do Queijo Rabaçal perde-se no tempo e Eça de Queiroz fez-lhe referência na sua obra “A Cidade e as Serras”.

O Rabaçal é ainda lugar de uma estação arqueológica e de um centro de interpretação de uma vila romana que aqui terá existido no século IV. Localizada na via romana que ligava Olisipo a Baraca Augusta, a apenas 12 km de Conímbriga, era parte integrante do território da antiga civitas. Os trabalhos arqueológicos nesta vila tiveram início em 1984 e mostraram que correspondia a uma quinta agrícola com residência senhorial de uma família nobre romana (que incluía residência senhorial, balneário e área rústica), semelhante à de Santiago da Guarda, esta última descoberta já no início deste século e que tivemos oportunidade de visitar mais tarde. Ambas revelaram uns bem conservados pavimentos em mosaico, embora os da vila do Rabaçal estejam cobertos in loco por areia, por forma a melhor conserva-los e, uma desilusão, o centro de interpretação não mostre sequer umas réplicas. A visita à estação vale, no entanto, pela bela implantação na paisagem da vila.

Do miradouro de Chanca, povoação com um alojamento turístico que tem tido saída em quase todas as reportagens que apresentam a região, e do Monte Germanelo, cada um do seu lado do vale, avista-se a depressão cársica do Rabaçal. Com 12 kms de comprimento e 1 a 2 kms de largura, neste vale passava a estrada imperial dos romanos e os peregrinos com destino a Santiago de Compostela. As Invasões Francesas também por aqui andaram, destruindo muito do que apanharam pela frente.

O Monte Germanelo é ainda hoje ocupado pelas ruínas do Castelo Germanelo, também conhecido por Castelo do Rabaçal. Foi mandado edificar por D. Afonso Henriques, em 1142, num castro a 367 metros de altitude que se crê ter sido romanizado. Era então parte da linha defensiva do Mondego (com Coimbra à cabeça), a linha de fronteira entre os mundos cristão e muçulmano, os tempos em que imperava o espírito da Ladeia, espécie de fronteira móvel entre aqueles povos num território que abrangia grande parte dos concelhos de Penela, Ansião e Soure. E onde estava a principal via que ligava Lisboa a Braga. A insegurança era muita e, por isso, o povoamento difícil. Daí a edificação deste Castelo Germanelo, tornado couto de homiziados (aos transgressores da lei que aqui conseguissem chegar era atribuída imunidade), como forma de aumentar a população neste território de fronteira e garantir maior protecção aos cristãos. Quando Santarém e Lisboa foram conquistadas aos mouros, essa fronteira desceu para o Tejo e o Germanelo perdeu a sua importância estratégica, sendo abandonado. Hoje resta uma muralha com ameias com cerca de 107 metros, uma reconstrução do século XX. Mas permanece a vista fantástica a toda a volta, com destaque não apenas para o já referido Vale do Rabacal, mas também para o formoso e cónico monte vizinho, acompanhados de vegetação rasteira.

E não falta uma lenda para florear a história e a paisagem locais. A lenda do Germanelo conta-nos que dois irmãos germanelos (gémeos) gigantes aqui viviam cada um no seu monte, um no Melo, a norte, e outro no Gerumelo, a sul. Ambos ferreiros, só tinham no entanto um martelo, que usavam à vez. Acontece que um dia Gerumelo, aborrecido, atirou o martelo com tal força que o seu cabo e cabeça de ferro se soltaram, indo esta cair no sopé do monte Melo, donde surgiu uma fonte de águas férreas, e o cabo, feito de zambujo, foi parar mais longe, originando um zambujal.

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