Terras de Sicó – Ansião e Alvaiázere

Na continuação deste passeio pelas Terras de Sicó, vamos agora para sul, Pinhal Interior adentro, rumo a matas e bosques de oliveiras e carvalhos centenários que rodeiam as vilas de Ansião e Alvaiázere. Não deixamos, porém, a cultura e a história de lado, indo ao encontro de um surpreendente património.

Em Santiago da Guarda, concelho de Ansião, está um dos mais curiosos complexos monumentais do nosso país. Possuidor de vestígios da presença romana em Portugal, consegue ainda justapor diversas épocas históricas num mesmo lugar. De três épocas distintas, cada uma delas reveladora da importância estratégica deste lugar, chegaram até nós uma vila romana dos séculos IV e V, uma torre medieval do século XV e uma residência senhorial do século XVI, testemunhos, em conjunto de mais de 1500 anos de história.

Em 2002 foi encontrada uma vila romana sob o edifício da Torre Medieval e da Residência Senhorial dos Condes de Castelo Melhor. A casa rural romana será provavelmente uma construção do período tardo-romano e o abastado proprietário que aqui residia estaria ligado ao poder político e económico e seria uma figura preponderante do território de Conímbriga. O crescimento económico romano possibilitou a existência de uma aristocracia e a construção de residências sumptuosas. O ambiente de conforto e beleza que se viveria então é ainda hoje evidente. Este domus estava decorado com elegantes pavimentos de mosaico e frescos nas paredes e hoje, após a musealização levada a cabo pela Câmara Municipal de Ansião, podemos admirar, precisamente no local onde foram encontrados, um conjunto de 21 mosaicos de pavimento usados para decorar os espaços da casa, o qual que constitui uma das maiores áreas deste tipo em Portugal. Datados de finais do século IV, estes elementos decorativos harmoniosos recorrem na sua maior parte a figuras geométricas e motivos vegetalistas. O mosaico exposto numa parede logo à entrada da casa, dos poucos retirados do seu lugar de origem, é o maior de Portugal.

Do alto da torre medieval, que terá sido parte das linhas de defesa do território de Coimbra durante a Reconquista Cristã, temos um miradouro para toda a envolvente, mostrando a tranquilidade do relevo do Sicó.

Quanto ao paço dos Condes de Castelo Melhor, este possuía uma capela manuelina, única no concelho de Ansião, e uma janela decorada nesse estilo dá-nos disso testemunho. Mais, mostra-nos que ao longo dos tempos o lugar foi sendo acrescentado com detalhes de cada época que lhe foi tocando viver. Por fim, e para reforçar esta ideia, não saímos do complexo monumental de Santiago da Guarda sem prestar atenção à vieira – concha – colocada por cima da porta de uma das salas. É um dos poucos edifícios civis em que tal acontece, e revela que o sítio e a casa faziam parte da rota do caminho de Santiago e recebiam os peregrinos. Aliás, sabe-se que Cosme de Médici, um dos famosos a empreender o caminho, parou em Ansião em 1669, quem sabe se nesta casa, disso deixando registo em aguarela.

A bela visita ao espaço museológico de Santiago da Guarda, para além do conhecimento acrescentado de uma realidade que desconhecíamos, trouxe-nos algo mais: a profunda diferença no modo de apresentação da vila romana de Conímbriga, algo parada no tempo, e da vila romana de Santiago da Guarda, mais rica e informativa. Bem sabemos a profunda diferença de escala, mas ainda assim o século XXI pede outra musealização da história.

Ansião, sede de concelho, é uma vila relativamente pequena com uma praça larga como centro. As letras em grande escala frente ao edifício da câmara municipal e à igreja da Misericórdia fazem-nos saber onde estamos. E uma casa devoluta ali mesmo ao lado mostra-nos uma série de fotografias instaladas nas suas janelas, uma espécie de visita guiada à região à boleia da exposição “Perspectivas”, de Rui Gaiola, da iniciativa do projecto Esporo – Disseminação Cultural e Artística.

A igreja paroquial de Nossa Senhora da Conceição fica também nesta praça, onde cabem ainda algumas lojas, cafés e serviços, fazendo deste lugar uma real centralidade.

Ainda que com referências anteriores, Ansião foi tornada vila em 1514 e o seu pelourinho, levantado no século seguinte, tem o facto pouco habitual de estar assente sobre oito bolas de pedra (embora originalmente estivesse sobre degraus), número das freguesias que então integravam o concelho. O Padrão Seiscentista é outro dos elementos históricos da vila, erigido em 1686 em louvor a D. Luís de Meneses, Conde da Ericeira e general da Guerra da Restauração, a quem foi doada a vila de Ansião, em 1673, pelos serviços prestados nas batalhas daquela época.

Mais adiante encontramos um painel de azulejo azul e branco com a representação da rainha Santa Isabel a dar esmola a um ancião: diz a lenda que a Rainha Santa se refrescou nas águas milagrosas do rio Nabão, que tem em Ansião a sua nascente.

As margens e envolvente do Nabão foram requalificadas e deram origem ao Parque Verde do Nabão, um espaço de lazer que para além dos Olhos d’ Água, a exsurgência natural e sazonal deste rio (sem água na altura da nossa visita, na Primavera), é lugar ainda da Ponte da Cal. Com dois arcos de volta perfeita e com dois tanques de banhos debaixo do seu tabuleiro – um para as mulheres e outro para os homens -, esta construção do século XVII já foi a via de ligação entre Lisboa e Coimbra e, diz a lenda, antes disso era aqui que a Rainha Santa gostava de se refrescar nas suas passagens pela vila. Daí a fama de milagrosas destas águas, sendo que até recentemente havia a tradição dos “banhos santos”. Ao lado foi erguida uma ermida em sua homenagem.

Região de serras, o alto da Serra da Portela, também conhecido como Serra do Anjo da Guarda ou Monte da Ovelha, é um lugar imperdível. A vista panorâmica é soberba, observando-se o vale onde Pousaflores e pequenas povoações vizinhas descansam enquadradas por diversos outros montes. A origem do nome Pousaflores é curiosa, tanto numa como noutra hipótese: segundo uma lenda, o rei terá expulsado a filha de casa e, quando a reencontrou passados anos, ter-lhe-á perguntado “onde pousaste vós, minha flor?”; segundo outra, virá do antigo nome Pousa-foles, uma alusão ao facto dos moleiros costumarem pousar os seus sacos de trigo – os foles – no seu caminho até aos moinhos de vento aqui existentes.

Para além do miradouro, aqui encontramos, precisamente, o moinho de vento da Ovelha. À semelhança do que havíamos visitado na Serra de Janeanes (post anterior), este é mais um exemplar de moinho pivot, típico do Sicó, único no mundo em termos de funcionamento. De madeira e mais pequenos do que os tradicionais, estão construídos sobre uma circunferência de pedra onde duas rodas permitem ir girando as velas conforme a direcção do vento.

Por aqui vemos ainda o (já) costumeiro baloiço, um relógio de sol, um parque de merendas, várias esculturas que utilizam a pedra da região como material e um curioso abrigo do burro. É também aqui que a câmara de Ansião leva a cabo o seu programa do Ciclo do Pão.

Também concelho de Ansião, a povoação de Outeiro preserva no alto mais três moinhos de vento característicos da região. E mais um miradouro de excelência, com uma vista privilegiada para a pequeníssima e compacta povoação da Granja, logo abaixo, rodeada de uma bela planície enquadrada pelo vários montes, incluindo o do Sicó. Na Granja fica a Casa-Museu de Fósseis do Sicó, num edifício do século XVII agora recuperado, e a ruína de um antigo Paço e Residência dos Jesuítas do século XVIII.

A Serra de Ariques, na fronteira entre os concelhos de Ansião e Alvaiázere, e a Serra de Alvaiázere são conhecidas por guardarem zonas de floresta autóctone muito bem conservadas de oliveiras em socalco, azinheiras e, sobretudo, carvalhos centenários. Em especial, o carvalho-português, também conhecido como carvalho-cerquinho, tem aqui uma expressão muito relevante, ele que já foi frequente no centro e sul o país. O seu nome virá do facto de ser também originário na Serra do Cercal, em Odemira. Dando-se bem em zonas de clima mediterrâneo, floresce desde os 0 aos 1200m de altitude em qualquer tipo de solos, sendo este do Sicó calcário. Estas árvores podem atingir os 20 metros e o seu tronco é rugoso e de casca acinzentada. A sua copa é indomável, com ramagens a crescer desordenadamente e de forma impressionante, deixando ver pouco do azul do céu por entre as suas folhas de cor verde suave. A época dos Descobrimentos fez com que a sua madeira fosse intensamente utilizada para a construção das embarcações, levando a uma diminuição desta espécie.

Com uma grande biodiversidade, onde a bonita orchis italica é comum (uma espécie de orquídea selvagem também conhecida por flor-dos-macaquinhos-dependurados), bem como fenómenos geológicos como algares e lapiás, a Serra de Alvaiázere é ainda dona do título de ponto mais alto do maciço de Sicó, com 618 metros de altitude. Curiosamente, o pico do Sicó (já concelho de Pombal), que dá nome à região, avista-se ao longe desde a Serra de Alvaiázere.

Assim como se avista a vila desde o alto.

O nome Alvaiázere vem do árabe Al-Bai-Zir ou Alva-Varze, não havendo certeza se de significado campo aromático ou falcoeiro. Certo é que ambos são reminiscências do passado mouro da região. Na vila, começámos por admirar o grande e rico brasão do Solar dos Pacheco, do século XVII, na rua da câmara municipal.

Ao lado desta fica a antiga escola primária, uma das várias do país promovidas pelo Conde Ferreira, o coreto (de 1929) e a igreja matriz de Santa Maria Madalena (século XVI), a que não resistimos a admirar o pormenor escultórico no alto junto à cruz, com Cristo ladeado por dois anjos.

Perto do centro histórico, a Mata do Carrascal, com mais um moinho recuperado e parque de merendas com bonitas vistas para a Serra de Alvaiázere, é um parque botânico que procura reunir e resumir o património natural da região do Sicó, ideal para uma curta caminhada.

Aliás, são muitos os percursos pedestres que se podem fazer no concelho. Um deles passa pela Nascente do Olho do Tordo, freguesia de Pelmá, mais uma exsurgência natural e sazonal – que à semelhança da nascente do Nabão também não tinha água aquando da nossa visita. Uma pena, pois o lugar é bonito, natureza carregada de vegetação e umas azenhas onde um poço profundo donde a água de ribeiras afluentes do rio Nabão há de brotar em épocas que não sejam de seca. A designação Olho do Tordo faz alusão aos pássaros que frequentemente por aqui andam. Mais haveria para conhecer nas redondezas, nomeadamente as megalápias e antas, pelo que há que, certamente, voltar a estas serranias.

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